Vem d’alto gozar, lirio!
Noite estrellada e tepida;
A vista ao céo intrepida
Lança, penetra o Empyreo.
Dilata os seios tumidos;
Larga este terreo albergue;
Nas azas d’alma te ergue;
Ergue os teus olhos humidos
Que vês?– Soes, de tal sorte
Que os crêra tochas pallidas,
Quando as guedelhas, madidas
De sangue, arrasta a morte.
– Transpõe-n’os; que, elevando-te,
Por cada um d’aquelles,
Milhões e milhões d’elles
Verás alumiando-te.
Ávante pois, acima
Dos soes d’uma luz tremula;
Alma dos anjos emula!
Deus o teu vôo anima.
Que vês?– Um vacuo eterno.
– E n’elle?– Em ermo tumulo,
Em ignea letra (cumulo
D’horror) Byron— o inferno.
– Foge.– O horror fascina-me.
São reprobos que exhalam
Horridos ais que abalam
O inferno: oh Deus! anima-me.
– Escuta-os.– Escutemol-os.
Como elles bramem, rugem,
E o espaço uivando estrugem…
Gelam-se os membros tremulos.
– Entra.– Não posso.– Arromba.
– Prohibem-m’o.– Subleva-te.
– Prohibe-o Deus.– Eleva-te.
Acima, ingenua pomba!
Que vês? A luz clareia-me.
Que céo, que azul ethereo!
Oh extasi, oh mysterio!
Sobeja a vida, anceia-me.
– Falla.– Deus! que harmonia!
Aqui a alma exalta-se;
A alma aqui dilata-se…
Camões!– É a poesia.
Coimbra.
Não sabe a flôr quem manda a luz do dia,
Nem quem lhe esparge o nectar que a deleita
Ao vir raiando a aurora,
E ella agradece as lagrimas que aceita,
E ella as converte em balsamos que envia
zAo mysterio, que adora.
Lamartine.
Coimbra.
Que bonita, meu amor!
Que perfeita, que formosa!
A ti pozeram-te Rosa,
Não te fizeram favor.
A rosa, quem ha que a veja
Bandeando, sem gostar?
Mas por mais linda que seja
A rosa, quando se embala,
Não te ganha nem iguala
A ti em indo a andar.
A rosa tem linda côr,
Não ha flôr de côr mais linda;
Mas a tua côr ainda
É mais fina e é melhor.
Murcha a rosa (que desgosto!)
Só de lhe a gente bulir;
E essas rosas do teu rosto
É em alguem te tocando
Que parece mesmo quando
Ellas acabam de abrir.
Cheiro, o da rosa, esse não,
Não é mais do meu agrado,
Que o teu bafo perfumado,
A tua respiração.
Depois a rosa em abrindo
Vai-se-lhe o cheiro tambem:
A tua bocca em te rindo
Só o bom cheiro que exhala…
E quando fallas, a falla,
Isso é que a rosa não tem.
Ella o que tem, meu amor?
O cheiro, a côr e mais nada.
Confessa, rosa animada!
Que és outra casta de flôr.
Os olhos só elles valem
Duas estrellas, bem vês;
Pois vozes que a tua igualem
Na doçura, na pureza,
Na terra, não, com certeza;
Agora no céo, talvez.
Não ha assim perfeição,
Não ha nada tão perfeito,
Mas é um grande defeito
O de não ter coração.
N’isso é que te leva a palma
A rosa, sendo uma flôr
– Sem voz, sem vida, sem alma,
Que abre logo á luz da aurora
E á noite esconde-se e chora
Pelo sol, o seu amor.
Ora e se a rosa, vê bem,
Tem amor, não tendo vida,
Será coisa permittida
Tu não amares ninguem?
Suppões que Deus te agradece
Essa isenção, minha flôr!
Deus a ninguem reconhece
Por filho senão quem ama:
A terra e o céo proclama
Que elle é todo puro amor.
Messines.
Amo-te a ti, e a Deus.
Teus sonhos são riquezas
Talvez e fasto. Os meus,
És tu, que me desprezas.
Deixal-o. Amor acaso
É racional? Não é.
O fogo em que me abrazo
É como a luz da fé;
Que além de cega, apaga
O facho da razão.
Ama-se e não se indaga
Se se é amado ou não.
Amo-te. O mais ignoro.
Mas os meus ternos ais
E as lagrimas que chóro
Podem dizer o mais.
Que chóro; se te admira.
Nunca tiveste amor.
Quem tem amor, suspira,
E o suspirar é dôr.
Ah! quando abraço e beijo
O travesseiro e, assim,
Acórdo e te não vejo,
Vejo-me só a mim;
Não sei, mulher! que anceio
Se me traduz n’um ai!
Confrange-se-me o seio,
Rebenta o pranto e cái.
Então, se por encanto
Fallando em ti, mas só,
Todo banhado em pranto
Me visses, tinhas dó.
Tinhas. A piedade
É filha da mulher,
Que sempre quiz metade
D’uma afflicção qualquer.
Havias ao teu rosto
De me apertar a mim,
D’encher, fartar de gosto,
Todo este abysmo; sim.
Vós desprezaes embora
Culto e adoração
De quem vos ama; agora
As dôres, essas não.
Messines.
Por occasião da morte de sua irmã Rachel e, poucos dias depois, de sua mãi
Despe o luto da tua soledade
E vem junto de mim, lirio esquecidox
Do orvalho do céo!
Tens nos meus olhos pranto de piedade,
E se és, mulher! irmã dos que hão soffrido,
Mulher! sou irmão teu.
Consolos não te dou, que não existe
Quem de lagrimas suas nunca enxuto
Possa as d’outro enxugar:
Não póde allivios dar quem vive triste,
Mas é-me dôce a mim chorar se escuto
Alguem tambem chorar.
Botão de rosa murcho á luz da aurora!
Que peccado equilibra o teu martyrio
Na balança de Deus?
Se é como justo e bom que elle se adora
Quem te ha mudado a ti, ó rosa! em lirio,
E em lirio os labios teus?
Não enche elle de balsamos o calix
Da flôr a mais humilde, e esses espaços
Não enche elle de luz?
Não veio o Filho seu, lirio dos valles!
Só por amor de nós tomar nos braços
Os braços d’uma cruz?
Mulher, mulher! quando eu n’um cemiterio
Levanto o pó dos tumulos sósinho:
Eis, digo, eis o que eu sou.
Mas quando penso bem n’esse mysterio
Da virtude infeliz: vai teu caminho;
Dois mundos Deus creou.
Deus não dispara a setta envenenada
Á pombinha que aos ares despedira
Com mão traidora e vil.
Imagem sua, Deus não volve ao nada,
Não aniquila a flôr que ao chão cahira
Lá d’esse eterno abril.
Has-de, cysne! expirando alçar teu canto,
Has-de lá quando a lua da montanha
Te acene o extremo adeus,
Voar, Candida! ao céo, e ebria de encanto,
No oceano d’amor que as almas banha,
Unir teu canto aos seus.
Seus, d’ellas, mãi e irmã, cinzas cobertas
D’um só jacto de terra… oh desventura!
Oh destino cruel!
Vejo-as ainda ir com as mãos incertas
Guiando-se uma á outra á sepultura,
E a mãi: Rachel! Rachel!
Coimbra.
Amo-te muito, muito.
Reluz-me o paraiso
N’um teu olhar fortuito,
N’um teu fugaz sorriso.
Quando em silencio finges
Que um beijo foi furtado
E o rosto desmaiado
De côr de rosa tinges;
Dir-se-ha que a rosa deve
Assim ficar com pejo,
Quando a furtar-lhe um beijo
O zephyro se atreve;
E ás vezes que te assalta
Não sei que idéa, joven!
Que o rosto se te esmalta
De lagrimas que chovem;
Que fogo é que em ti lavra
E as forças te aniquila,
Que choras, mas tranquilla,
E nem uma palavra?
Oh! se essa mudez tua
É como a que eu conservo,
Lá quando á noite observo
O que no céo fluctua;
Ou quando, á luz que adoro,
Ás horas do infinito,
Nas rochas de granito
Os braços cruzo e chóro;
Amamo-nos… Não cabe
Em nossa pobre lingua
O que a alma sente, á mingua
De voz, que só Deus sabe.
Coimbra.
Um dia, não sei que eu tinha…
Uma tristeza tamanha!
E lembra-me ir á montanha,
Que temos aqui vizinha,
Onde em tempo me entretinha
Horas e horas sósinha
Quando ainda se não estranha
Que n’uma teia de aranha
Se prenda uma innocentinha,
Ou atraz d’uma avesinha
Se cance a vêr se a apanha.
Depois é que o mundo falla
E se mette com a vida
De quem ás vezes se cala
Por ser mais bem procedida.
Que esta gente que faz gala
Em coisa, que vê, contal-a,
E sendo mal permittida
Inda em cima acrescental-a,
Teem a lingua comprida
E bem deviam cortal-a.
Vou pelo córrego acima,
Subo á ponta do penedo;
Que a vida só quem a estima
É que da morte tem medo.
A mesma tristeza anima
A encarar a pé quedo
A morte que se aproxima
A tirar-nos do degredo,
Que inda a gente se lastima
De não acabar mais cedo.
E alli sósinha chorando
Me lembrava, ora a ventura
Da minha infancia, inda quando
Levava os dias brincando;
Ora a desgraça futura,
Que me estava annunciando
Não sei se a minha amargura,
Se uma nuvem, grande e escura,
Que se ia no ar formando
E vinha já avançando,
Como que á minha procura.
E ainda o pranto corria
E o cabello me batia
No rosto, que me doía,
Tal era a força do vento;
Já tudo tão pardacento
A nevoa e chuva fazia
Que eu olhava, mas dizia:
É nuvem ou penedia
Aquelle vulto cinzento?
O mar brilhante algum dia
Como prata luzidia
Já ninguem o distinguia
Da terra e do firmamento:
Uivar só é que se ouvia,
Mas uivar sem sentimento;
E como em grande tormento
Se desvaira a phantasia:
– Fosse eu mar, disse; valia
Mais ser coisa bruta e fria,
Como a rocha onde me sento.
Faz um trovão no momento
Que soltava esta heresia;
E áquella rouca harmonia
Occorre-me um pensamento,
Que me dá uma pancada
O coração de tal modo,
Como se o rochedo todo
Desandasse na chapada.
Era a voz da consciencia
Que me accusava do crime
De negar á Providencia
A razão com que me opprime.
Peço perdão, commovi-me
E n’um extasi sublime
Lagrimas de penitencia,
Como um balsamo, uma essencia,
Purificam-me e senti-me
Com uma nova existencia.
Ólho; as nuvens esvaíam-se:
Os roncos do mar ouviam-se,
Mas já mais de espaço a espaço.
O sol ainda tão baço,
De luz tão pouco brilhante,
Que se media a compasso
Como a cara d’um gigante,
Descobre-se e resplandece!
Ao longe o mar apparece;
E tudo, mar, terra e céos
Tão formoso me parece,
Como se agora tivesse
Sahido das mãos de Deus!
No rochedo onde descança
Meu corpo desfallecido,
O verde musgo, vestido
Sempre da côr da esperança,
Agora reverdecido,
Me ensina a ter confiança
N’esse que do céo nos lança
Em dia tempestuoso,
Só para nosso repouso
O arco da alliança.
Pobre musgo, descuidado,
Sem olhos para chorar,
Sem poder alliviar
Com seu pranto um desgraçado,
Consolar-se e consolar!
Fallas mais a meu agrado
Que o livro mais afamado
D’esses livros, que em lugar
De nos dar consolação,
Nos fazem cahir no chão
Um pranto mal empregado,
E inda mais amargurado
Nos deixam o coração.
Colhi-o, pul-o no seio,
E é hoje o livro que leio.
Messines.
Prestes, se inda na rocha de granito
D’onde em tempo me vias te sentares,
Não olhes para a terra ou para os mares,
Olha sim para o céo, que é lá que habito.
Lá tão longe de ti, mas não do terno,
Bondoso pai que os dois nos ha gerado,
Só para mágoas não, que bem guardado
Nos tem tambem no céo prazer eterno.
Não se é só pó no fim de tanta mágoa.
Senão, diga-me alguem que allivio é este
Que sinto, quando á abobada celeste
Alevanto os meus olhos rasos d’agua.
Mentem os céos tambem? Os céos maldigo.
Feras, tigres, tambem o céo povôam?
Tambem os labios lá sorrindo côam
Veneno desleal em beijo amigo?
Mas na dôr é que os astros nos sorriem,
E os homens não sorriem na desdita.
Astros! fio-me em vós, e Deus permitta
Que os infelizes sempre em vós se fiem.
Intima voz do fundo, bem do fundo
D’alma me diz (e as lagrimas me saltam):
Vês os milhões de soes que o espaço esmaltam?
Pisa a terra a teus pés, inda ha mais mundo.
Ha depois d’esta vida inda outra vida.
Não se reduz a nada um grão d’arêa,
E havia de a nossa alma, a nossa idêa
Nas ruinas do pó ficar perdida?
– Isso que pensa e quer (até me admiro),
Isso que a luz nos traz, que a luz nos leva,
Isso que me abre o céo que ao céo me eleva
N’um teu cançado olhar, n’um teu suspiro!
Onde, não sei eu bem, mas sei que existe
Deus remunerador. Depois de mortos
Hemos de vêr-nos, e um no outro absortos
Fartar de glorias este amor tão triste.
– Tão triste, e o coração que me adivinha
N’este supplicio nosso este tormento!
Nunca dos labios teus minimo alento
N’um só beijo bebi em vida minha!
E morro sem te vêr! Cabeça doida,
Desasisado amor! Sonhar afflicto
Um sonho até morrer… Não: resuscito;
Morto tenho eu vivido a vida toda.
Trazeis-me rosas; d’onde as heis trazido,
Boa velhinha e minha boa amiga?
Rosas no inverno! permitti que o diga,
Sois feiticeira: d’onde as heis colhido?
Na primavera de meus annos, ólho,
Mas vejo abrolhos e não vejo flôres:
E vós colhêl-as, como as eu não colho…
Sois feiticeira— enfeitiçaes d’amores.
Enfeitiçaes que a formosura, crêde,
Não vem da face avelludada e bella;
A formosura vem só d’alma; é d’ella
Que brota a fonte que nos mata a sêde.
Vós sois velhinha, já não tendes côres
Que o rosto animem e que os olhos prendam,
Mas tendes prendas que o amor accendam,
Tendes ainda no inverno… flôres.
Evora.
A Rosa trouxe-me rosas
E nada mais natural,
Mas eu prendas tão mimosas
É que não tenho; inda mal.
Quando tinha, se me désse,
Não digo mais que uma flôr,
Talvez de flôres lhe enchesse
Esses cofrinhos d’amor.
Aguas passadas, Rosinha!
Deixal-o; veja se vê
N’este chão que já foi vinha
Coisa que ainda se dê.
Veja e escolha. Está na mesa
O que ha em casa; é tirar
– Tirar com toda a franqueza;
Inda hão-de espinhos sobrar.
Mas se espinhos, mas se abrolhos
Lhe não agradam, amor!
Mire-se bem nos meus olhos,
Que ha-de ahi vêr… uma flôr.
Evora.
«Conchega a mãi ao peito o filho caro;
Estende a pomba as azas no seu ninho
Pelos filhinhos seus.
Embala o arbusto agreste; o fructo amaro.
Guia a bussola o nauta em seu caminho,
Como um dedo de Deus.
«Bebe a nuvem no mar, no rio a fera;
Acha o tigre covil na antiga Hyrcania,
Hoje em dia, Ghilã;
Renasce a planta á luz da primavera,
E no calix da flôr gotta espontanea
Cahe á luz da manhã.
«Só eu no mundo um gosto em vão pretendo:
Guebro entre os persas, entre os indios pária,
Judeu entre christãos,
Só eu debalde ao céo as mãos estendo,
Como o naufrago á praia solitaria
Debalde estende as mãos.
«Tenho no livro azul onde Elle escreve
Esse nome, que nunca pronuncia
Quem bem o soletrou,
Mil vezes tenho lido que não deve
Queixar-se mais que a flôr que vive um dia
Um verme como eu sou.
«Porém, chorando, as mágoas diminuem.
Custa muito soffrer sem que um gemido
Ah! solte a nossa dôr.
E se aos olhos as lagrimas affluem,
É que este allivio nosso é permittido.
O céo orvalha a flor.»
Diz isto o orphão. De alma os ais lhe sahem,
Como os suspiros de harpa eolea em ermo.
Ninguem no mundo o ouviu.
Mas, se a teus pés as lagrimas lhe cahem,
Tocou a mão de Christo a mão do enfermo;
O Lazaro surgiu.
Por isso, Hermann! espantas-me. Não scismo
Nos prodigios da milagrosa vara
Que o Senhor Deus te deu.
Teu coração, Moysés do christianismo!
Tua alma é que eu admiro, e te invejára
Se o que é teu… fosse teu.
Coimbra.
Emilia! não vês a lua
Como vacilla e fluctua,
Ora avança, ora recúa,
E não ha passar d’alli?
Tu és a imagem d’ella;
És tão sympathica e bella,
Meiga e timida, que ao vêl-a
Me lembra sempre de ti!
Tu és o botão de rosa
Que abraçado á mãi formosa
Só folga, só vive e goza
N’aquella triste união;
Treme até de ouvir a aragem
Passar por entre a folhagem:
Emilia! tu és a imagem
Do mais timido botão.
Mas embora: o tempo gira.
Um dia o botão, que aspira
O ar da manhã… suspira
E levanta o collo ao céo:
Vê vir raiando a aurora,
Abre o seio á luz que adora,
Correm-lhe as lagrimas, chora…
Chora o tempo que perdeu!
Porque elle, Emilia! não teme
Que a luz da aurora o queime;
Elle suspira, elle geme
Por vêr a luz que o creou.
Nem tambem a lua pára:
Se algumas vezes repara
N’uma nuvem menos clara,
É um momento e… passou.
Não ha existencia alguma
Que não tenha amor; nenhuma;
Porque o amor é, em summa,
Essencia de todo o sêr.
Ha sempre quem nos attráia.
Mil vezes que a onda cáia,
Ha uma rocha, uma praia
Aonde a onda vai ter.
Tu andas já presentida
D’essa voz que te convida
A encetar n’esta vida
Ai! uma vida melhor…
E em breve desenganada
D’essa existencia isolada,
Darás n’alma franca entrada
A sentimentos de amor!
Silves.
Como esse olhar é dôce!
Dôce da mesma sorte
Como se nunca fosse
Toldado pela morte:
Como se alumiasse
O sol ainda em vida
As rosas d’essa face…
Agora carcomida.
Colhesse-as eu mais cedo
E logo que alvorece;
Já não tivesse medo
Que a terra m’as comesse.
Mas pura, como a neve
Que ás vezes cahe na serra,
É que a nossa alma deve
Tambem voar da terra.
Gelasse a morte fria
A mão profanadora
Que te ennublasse um dia
A luz que dás agora.
É n’essa côr tão linda,
Rosa da madrugada!
Que sinto a alma ainda
Andar-me enfeitiçada.
Se um dia nos meus braços
Te desbotasse as côres,
Passavam os abraços…
Passavam os amores!
Oh! não: mil vezes antes
No céo lá onde habitas,
E os rapidos instantes
Que vens e me visitas
N’este degredo nosso,
Que tanta gente estima,
E eu, só porque não posso,
Não largo e vou lá cima.
Vem tu cá baixo, abala,
Deixa em podendo o collo
Tão terno que te embala,
E vem-me dar consolo.
Como essa imagem pura
Ah! sobrevive ao nada
E escapa á sepultura,
Tão fresca e perfumada!
Nunca uma noite eu deixe
De estar a vêr que existes,
Em quanto me não feche
O somno os olhos tristes.
E n’esse largo espaço
Que te não vejo, espero
Lhe contes o que eu passo
N’este aspero desterro:
Que assim que te não veja
É noite fria e escura,
Noite que mette inveja
Á mesma sepultura!
Em acordando agora,
O meu contentamento
É vêr em cada aurora
Um dia de tormento!
Podesse eu dar-te a prova
Dos dias que me esperam,
Lançando-me na cova
Onde elles te pozeram!
Lançassem-me algum dia
Ao pé, que de repente
O coração te havia
De ainda pular quente…
A face cobrar logo
A fórma e côr perdida,
E a bocca toda fogo
Ah! inspirar-me a vida!
Supplíca, ó anjo! implora
Ao Pai universal
Que me deixe ir embora
D’este horroroso val
De lagrimas amargas,
E turvas de tal modo,
Como umas nuvens largas
Que tapam o céo todo!
Inferno e céo, conforme
A nossa fé, confesso
Que é um mysterio enorme,
É um mysterio immenso.
Mas um mysterio é tudo:
Folhinha d’herva, e estrella,
Não ha comprehendêl-a!
É contemplal-a mudo.
E a herva, como existe,
A mim quem m’o diria,
Se a luz que me alumia
Nem sabe em que consiste?
Mas uma coisa sabe
O que a cabeça ignora
– O coração… que mora
Em peito onde não cabe.
Ha uma luz mais clara
Que a luz do pensamento:
A d’essa imagem cara…
A d’este sentimento!
Ha uma hora ou mais,
Marina! que contemplo
A casa de teus paes
Que é para mim um templo.
Está a porta aberta,
E vejo alumiada
A parte descoberta
Da casa da entrada.
Lá andam a passar
Do quarto onde acabaste
Á casa de jantar
Os vultos, que deixaste.
Os vultos, que os vestidos
Tão negros que pozeram,
De luto, tão compridos,
Não sei que ar lhes deram!
A tua bella irmã,
A tua piedade,
A rosa da manhã,
A flôr da mocidade,
Quem lhe diria a ella,
Tão cheia de alegria,
Que haviamos de vêl-a
Assim já hoje em dia!
É esta vida um mar,
E bem se póde a gente,
Marina! comparar
A rapida corrente,
Que vai de lado a lado
Por esses valles fóra
Sem nunca lhe ser dado
Ter a menor demora.
Pára, quando a engole
Aquelle mar sem fundo;
Nem pára; é como o sol
E como todo o mundo…
Ahi não pára nada,
Tudo viaja e anda,
Que a ordem lhe foi dada,
E dada por quem manda.
Chega a corrente lá,
Engole-a logo a onda:
Depois, que é d’ella já?
A nuvem que responda.
Que a nuvem que nos passa
Pela manhã nos ares,
Era hontem a fumaça
Que andava n’esses mares;
E a nevoa, que tu vês
Nas ondas fluctuantes,
Corria-nos aos pés
Talvez um dia antes.
A agua é que no giro
Em que anda eternamente
Não deu nunca um suspiro
Em prova de que sente.
.....................
Não me admira a mim que o sol, monarcha
De indisputavel throno, e throno eterno
Em céo e terra e mar;
Que em seu imperio o mundo inteiro abarca
Abaixe á pobre flôr seu dôce e terno,
Mavioso olhar.
Não me admira a mim que a crystallina,
Tão pura, onda do mar, que espelha a face
Do astro creador,
Que essas asperas rochas cava e mina,
Á praia toda languida se abrace
E toda amor!
Mas sendo vós um sêr mais precioso
Do que onda e sol— um anjo de poesia
Inspirada e que inspira;
Que ás minhas mãos, das vossas, tão mimoso,
Delicado penhor descesse um dia
É que me admira.
Quizera nos meus cofres de poeta
Ter as riquezas todas do Oriente,
E com mãos liberaes
Expulsar esta duvida que inquieta
Um grato coração que apenas sente
E… nada mais!
De limpido diamante e fio de oiro,
Quizera-vos tecer collar que á aurora
Vencesse em brilho e côr;
Mas o poeta, o unico thesoiro
Que tem, ah! são as lagrimas que chora
E o seu amor.
Eu vol-o dou. E lá do espaço immenso
Se amada estrella olhar piedoso envia
A quem da terra a adora;
Se o sol aceita á flôr humilde incenso;
Ha no amor tambem muita poesia…
Minha senhora!
Evora.
Beijo na face
Pede-se e dá-se:
Dá?
Que custa um beijo?
Não tenha pejo:
Vá!
Um beijo é culpa
Que se desculpa:
Dá?
A borboleta
Beija a violeta:
Vá!
Um beijo é graça
Que a mais não passa:
Dá?
Teme que a tente?
É innocente…
Vá!
Guardo segredo,
Não tenha medo…
Vê?
Dê-me um beijinho,
Dê de mansinho,
Dê!
Como elle é dôce!
Como elle trouxe,
Flôr!
Paz a meu seio;
Saciar-me veio,
Amor!
Saciar-me? louco…
Um é tão pouco,
Flôr!
Deixa, concede
Que eu mate a sêde,
Amor!
Talvez te leve
O vento em breve,
Flôr!
A vida foge.
A vida é hoje,
Amor!
Guardo segredo;
Não tenhas medo
Pois!
Um mais na face
E a mais não passe!
Dois…
Oh! dois? piedade!
Coisas tão boas…
Vês?
Quantas pessoas
Tem a Trindade?
Tres!
Tres é a conta
Certinha e justa…
Vês?
E o que te custa?
Não sejas tonta!
Tres!
Tres, sim. Não cuides
Que te desgraças:
Vês?
Tres são as Graças,
Tres as Virtudes,
Tres.
As folhas santas
Que o lirio fecham,
Vês?
E que o não deixam
Manchar, são… quantas?
Tres!..
Thuribulo suspenso inda fluctuo,
Em quanto a alma em incenso restituo;
Mas, quando como fumo que se esvai,
Minha alma! vás teu rumo… sobe e vai.
Vai d’estas densas trevas, d’esta cruz,
Levar-lhe… quanto levas, pobre luz!
Amor, que em mim não cabe, vai depôr
Em Deus, e Deus bem sabe se era amor;
Se d’outra flôr o calix mais libei
Por esses quantos valles divaguei;
Se um nome em igneo traço li no céo,
Nas ondas e no espaço, mais que o seu…
Deus sabe se eu dos montes vi tambem
Nos vastos horisontes mais alguem;
Nos tristes e risonhos dias meus,
Se alguem vi mais em sonhos, que ella e Deus.
Porém quem é que apanha o aereo véo
Da nuvem da montanha, se é do céo?
Se á terra a nuvem desce, quando vai
Tocar-se-lhe, desfez-se como um ai.
Coimbra.
Luz d’intima influencia,
Oh fugitiva luz!
Luz cuja eterna ausencia
É minha eterna cruz.
Podessem-te, ainda antes
Do meu extremo adeus,
Meus olhos fluctuantes
Vêr lampejar nos céos.
Se ainda n’esse espaço,
Tão longe onde tu vás,
Visse um reflexo baço
Da pura luz que dás;
Tornaram-se-me estrellas
As lagrimas de dôr;
E lagrimas são ellas…
Sim, lagrimas d’amor!
Vê n’esse espaço immenso
Os astros como estão
Bem como eu estou, suspenso
Por intima attracção.
Porque ha quem os attráia;
É essa eterna paz
Que a mim de praia em praia
A suspirar me traz.
Converte-me este inferno
Em azulado céo,
Ou quebra o laço eterno
Que a tua luz me deu;
Ou antes muda em espuma
De nunca estavel mar
Esta alma que alma alguma
Póde exceder em amar.
Em cinza, em terra, em nada,
Meu sêr converte, ó luz,
Mas sempre, sempre amada,
Deliciosa cruz!
Portimão.
Em fumo se vai tudo, amigo! Olhando
Para as nuvens do céo, nuvens d’aquellas,
E parece-me ainda que mais bellas,
Anda a gente fazendo e desmanchando.
Dá-me uma saudade em me lembrando
O bello tempo que passei com ellas,
Por essa immensa abobada de estrellas,
Por esse mar de fogo viajando…
Andasse ainda eu lá, que não me havia
De vêr por estes charcos atolado,
Onde nem sol nem lua me alumia.
Andasse ainda eu lá, desenganado
Mesmo já como estou de achar um dia
A patria d’aonde ando desterrado.
Pois se o homem, se anjo e nume,
Planta e flôr,
Dá seu canto, luz, perfume,
Crença e amor;
Pois se tudo sobre a terra
Que ame alguem,
Rosa ou espinho, quanto encerra
Dá, se o tem;
Se os carvalhos, nus, medonhos,
Veste abril;
Se inda a noite presta aos sonhos
Graças mil;
Se onde ha ramo, voz uma ave
Desprendeu;
Se onde ha folha, gotta suave
Cahe do céo;
Se na praia, quando a onda
Vem de lá,
Beijos, antes que se esconda,
Mil lhe dá;
Tambem, anjo meu saudoso!
Te hei de emfim
Ah! dar quanto de precioso
Sinto em mim!
Dou-te o nectar, que me acalma;
Toma-o tu!
Sim, meu pranto; mais uma alma
Que eu possuo!
Dou-te os sonhos meus ardentes,
Mas leaes;
Dou-te as notas mais cadentes
Dos meus ais!
Do que ha lindo, tudo quanto
Me seduz;
D’esta vida, riso e pranto,
Noite e luz!
Dou-te o genio meu, que á sorte
Vês fluctuar
Sem mais véla, sem mais norte
Que esse olhar!
Dou-te a lyra, que me inspiras,
Sonho meu!
Que suspira, se suspira,
Flôr do céo!
Dou-te; aceita: tudo é santo,
Tudo, flôr!
Dou-te uma alma toda encanto,
Toda amor!
V. Hugo.
Coimbra.
Tu vôas, borboleta! e que eu não possa
Voar, amor!
Diversa como é n’isto sorte nossa!
Dizia a flôr.
No valle, ambas irmãs, nascidas fomos;
És como eu sou;
E amamo-nos, e flôres ambas somos,
Mas eu não vôo.
A ti leva-te o ar; prende-me a terra
A mim; e eu
Como hei-de perfumar-te em valle e serra,
E lá no céo!…
Mais longe inda tu vás, por outras flôres…
Girar, talvez,
Em quanto a minha sombra, meus amores!
Gira a meus pés!
E vens-me vêr depois, mas vaes-te embora,
Sabendo, assim,
Que em lagrimas me encontra sempre a aurora!
Pobre de mim!
Acabem-se estas mágoas, meu thesoiro
E meu amor!
Cria raiz ou dá-me as azas de oiro,
Celeste flôr!
V. Hugo.
Coimbra.
Olha como embrulhado
Que está ainda o céo
E o chão, como ensopado
Da agua que choveu…
Foi um diluvio d’agua;
E o furacão, que fez,
Emilia! até dá mágoa
Tantos estragos: vês?
Esta infeliz víuva,
Foi-lhe o telhado ao ar;
Depois, já nem da chuva
Tinha onde se abrigar.
De mais a mais sósinha,
Sem ter nenhum dos seus
Aqui ao pé; ceguinha…
Bemdito seja Deus!
Além n’aquelle serro
Parece que raspou
Com uma pá de ferro
A terra que encontrou.
Nem um só pé de trigo
És lá capaz de vêr.
Já eu disse commigo:
Como póde isto ser?
As arvores arranca
O vento muito bem;
Serve-lhe de alavanca
A rama que ellas tem.
Vem de lá elle e, topa
N’uma arvore, o que faz?
Enrola-se na copa
E, tronco e tudo, zás!
Que as folhas não são nada,
Uma por uma, não;
Mas já uma pernada…
Tão poucas ellas são?
Vê lá se o teu cabello
É para comparar;
Mas, possa alguem sustel-o,
Levanta-te no ar.
Aqui um loureirinho,
Que era o que havia só,
Encontra-o no caminho,
Ia-o fazendo em pó.
D’aqui passa, á maneira
Assim d’um caracol,
Áquella farrobeira
Põe-lhe a raiz ao sol.
Aquelle enorme tronco
Quiz resistir, depois,
Ouviu-se um grande ronco,
Quando o eu vejo em dois.
Andava a rama toda,
Emilia! assim, vês tu?
Á roda, á roda, á roda,
Eis senão quando, rhuh!
Foi quando veio o outro
Urrando como um boi,
Oh que horroroso encontro!
Então é que ella foi.
Vês uma cobra enorme
Á calma, quando está
Grande calor, conforme
As tenho visto já?
Que não tem ar avonde,
Falta-lhe já o ar,
Quer sangue ou agua onde
Se possa refrescar;
Anceia-se, sacode
O corpo todo a vêr
Se vôa, mas não póde;
Voar não póde ser;
E como não supporta
Já o calor do chão,
Ao vêr-se quasi morta
De raiva e afflicção,
Apenas finca a ponta
Do rabo em terra, e sái;
E faça-se de conta
Que é a voar que vai
N’aquellas roscas todas
Que, olhando-se-lhes bem,
São outras tantas rodas
Em cima d’onde vem;
N’aquelle parafuso
– Aquelle rodopio,
Á roda como um fuso
Suspenso pelo fio;
Com a cabeça chata,
Aquelle olhar feroz,
Aquelle olhar que mata
Sempre de fito em nós?
Assim d’essa maneira
É que elle vinha, o tal;
Salta-lhe á dianteira
Este de força igual;
E assim que se avistaram,
Não sei o que lhes dá;
Ficam suspensos, param,
Como com medo já;
Aquelles sorvedouros,
Em vez de remoinhar,
Parecem-se dois touros
Jogando a terra ao ar;
Ouvia-se a oliveira
Zunir no ar, então,
D’um para o outro inteira,
Nem bala de canhão;
E assim se vão chegando
Cada vez mais, até
Que eu ólho, eis senão quando
Vejo… mas vejo o que?
. . . . . . . . . . . . . . .
Messines.
Não sou eu tão tola
Que cáia em casar;
Mulher não é rola,
Que tenha um só par:
Eu tenho um moreno,
Tenho um de outra côr,
Tenho um mais pequeno,
Tenho outro maior.
Que mal faz um beijo,
Se apenas o dou
Desfaz-se-me o pejo,
E o gosto ficou?
Um d’elles por graça
Deu-me um, e depois,
Gostei da chalaça,
Paguei-lhe com dois.
Abraços, abraços
Que mal nos farão?
Se Deus me deu braços,
Foi essa a razão.
Um dia que o alto
Me vinha abraçar,
Fiquei-lhe d’um salto
Suspensa no ar.
Amores, amores.
Deixál-os dizer;
Se Deus me deu flôres,
Foi para as colher.
Eu tenho um moreno,
Tenho um de outra côr,
Tenho um mais pequeno,
Tenho outro maior.
Um dia os deuses, cada qual uma arvore,
Á sua guarda consagraram: Jupiter
Esse o carvalho, a murta Venus, Hercules
Lá esse o alemo, e o loureiro Apollo.
Vendo-as Minerva todas infructiferas:
Que é isto? exclama. Jupiter acode-lhe:
Senão, diriam, filha! que as guardavamos
Só pelo fructo.– Que me importa digam-no;
É pelo fructo que a oliveira escolho.
Minerva! brada o pai d’homens e deuses,
És quem, de todos, sabes mais sem duvida;
No que não luza… mal fundada gloria.
Honra sem proveito
Faz mal ao peito.
Phedro.
Coimbra.
Estava uma lavadeira
A lavar n’uma ribeira,
Quando chega um caçador.
– Boas tardes, lavadeira!
– Boas tardes, caçador!
– Sumiu-se-me a perdigueira
Alli n’aquella ladeira,
Não me fazeis o favor
De me dizer se a bréjeira
Passou aqui a ribeira?
– Olhai que d’essa maneira
Até um dia, senhor,
Perdereis a caçadeira,
Que ainda é perda maior.
– Que me importa, lavadeira!
Aqui na minha algibeira
Trago dobrado valor.
Assim eu fôra senhor
De levar a vida inteira
Só a vêr o meu amor
Lavar roupa na ribeira…
– Talvez que fosse melhor,
Vêr… coser a costureira!
Vir, de ladeira em ladeira,
Apanhar esta canceira
E tudo só por amor
De vêr uma lavadeira
Lavar roupa na ribeira…
É escusado, senhor!
– Boas noites… lavadeira!
– Boas noites, caçador!..
Messines.
Ora se não sei eu quem foi teu pai!
Fidalgo: sei perfeitamente bem.
O que eu não sei, Gaspar! é o que vem
N’esta vida fazer quem já lá vai.
Já se vê que é aos paes que a gente sái.
Tal pai, tal filho; sim, duvída alguem
Que um pai se é como o teu, homem de bem,
Tu és homem de bem como teu pai?
D’isto não ha quem possa duvidar.
Mas queres um conselho que eu te dou?
Não mexas n’isso… cala-te, Gaspar!
Que eu, cá por mim, bem sabes como eu sou,
Mas é que outro talvez mande tirar
Certidão de baptismo a teu avô.
Coimbra.
Deixa que ao romper d’alva o cravo abrindo,
Á rosa envie o aroma;
E lá quando alta noite a lua assoma,
O rouxinol carpindo!
Que pela face a lagrima resvale
De quem no exilio geme;
E quando a propria sombra o homem teme,
Que a mãi seu filho embale.
Deixa que ao espaço immenso os olhos lance
O sol antes que expire;
Que pelo norte a bussola suspire
E nelle só descance.
Amam leões e tigres. Não ha nada,
Anjo! que a amor se esconda.
Beija a pomba o seu par; e abraça a onda
A rocha inanimada.
Deixa que a nuvem negra tolde a lua
Se a leva a tempestade;
Deixa que eu te ame a ti, cara metade,
D’esta alma toda tua!
Coimbra.
Maria! vêr-te á porta a fazer meia,
Olhando para mim de vez em quando,
É o que n’esta vida me recreia.
Acordo até de noite suspirando
Por que rompa a manhã e tenha o gosto
De te vêr já tão cedo trabalhando.
Desde pela manhã até sol-posto
Que não tens de descanço um só momento;
Por isso tens tão bella côr de rosto.
E eu pallido, Maria! O pensamento
Não é trabalho que nos dê saude,
Esta imaginação é um tormento.
Que bello tempo aquelle em quanto pude
Levar, como tu levas, todo o dia
N’essa vida chamada ingrata e rude!
Nunca soube o que foi melancolia,
Nunca provei as lagrimas salgadas
Com que a nossa alma as penas allivia;
Andava sim por essas cumiadas
Ao sol, á chuva, muita vez, sósinho,
Vendo os valles, das rochas escarpadas;
Descendo pelo córrego estreitinho,
De pontal em pontal, cortando o matto,
Pelas chapadas, fóra de caminho;
Mas não era que já o teu retrato
Me andasse a mim no coração impresso,
Onde hoje o trago no maior recato,
E um desengano teu que não mereço
Me tivesse tirado a fé tão dôce
D’alcançar algum dia o que appeteço.
Não foi, não, a paixão que assim me trouxe
Tão erradio a mim, digo a verdade
E nem eu te negava se assim fosse.
É que a gente na sua mocidade
Não cabe em si, não pára de contente,
E assim fui eu na flôr da minha idade.
Tu eras n’esse tempo simplesmente
A flôr que vai nascendo e mais valia
Seres tão tenra ainda e innocente.
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