Memorias sobre a influencia dos descobrimentos portuguezes no conhecimento das plantas
Francisco Ficalho




Conde de Francisco Manuel de Melo Ficalho

Memorias sobre a influencia dos descobrimentos portuguezes no conhecimento das plantas / I. – Memoria sobre a Malagueta





INTRODUCÇÃO


Os descobrimentos dos portuguezes nos seculos XV e XVI constituem uma das feições mais salientes da época, porventura a mais notavel da historia. N'aquelle periodo em que o espirito humano, quebrando as peias das severas e estreitas tradicções da edade média, e parecendo ter a intuição de tudo quanto é elevado e bello, abre novos horisontes nas sciencias, nas lettras e nas artes; os limites do mundo physico tornam-se, como os do mundo moral, apertados para as aspirações de uma grande e forte geração, e rasgam-se com elles, perante o seu singular poder expansivo. Um povo pequeno, situado no extremo occidental do mundo até então explorado, lançando-se em perigosas e heroicas aventuras nos mares incognitos e tenebrosos, dá o primeiro impulso a uma serie de descobrimentos, que, em menos de um seculo, dobram perante as nações maravilhadas a extenção das terras conhecidas. Mares e climas novos, raças humanas ignoradas, animaes e vegetaes estranhos e variados se patenteiam, em rapida successão, a uma geração curiosa e avida de informações. Mais de uma vez se tem apontado, o quanto estes novos aspectos do mundo physico deviam influir nos animos, alargando as idéas e destruindo antigos preconceitos; mas não cabe n'este trabalho o quadro, nem mesmo o esboço, de taes transformações.

Limitando-nos rigorosamente ao nosso assumpto, é licito affirmar, que em época alguma se accrescentaram tantas e tão variadas fórmas vegetaes ao peculio das já conhecidas. A vegetação inteiramente nova das terras de[4] Santa Cruz, ou da Africa meridional, e as ricas floras da India, do archipelago malayo e da China, antes apenas entrevistas e agora observadas de perto, enriqueceram, por modo sem egual em tão curto periodo, o conhecimento do mundo vegetal.

É certo, que as plantas se não estudaram então systematicamente, e muitos annos decorreram, antes que as fórmas vegetaes se grupassem com methodo, e se descrevessem com rigor. Todavia, grande numero de ricos e uteis productos vegetaes attrairam desde logo as attenções, e encontramos dispersas nas obras dos navegadores e escriptores portuguezes e hespanhoes, muitas noticias curiosas, e muitas informações exactas, sobre a sua naturesa e a sua origem. Basta citar, entre muitos outros, Duarte Barbosa, Thomé Pires, Garcia da Orta, Christovão da Costa, Oviedo, e Nicolau Monardes para provar com quanto interesse, e em muitos casos, com que espirito do rigor scientifico se observam as plantas então descobertas.

Estudar sob este ponto de vista a historia dos nossos descobrimentos, e do nosso dominio nas terras da Africa, da Asia e da America, buscando nos documentos contemporaneos as provas do conhecimento que os portuguezes tiveram dos vegetaes, e esclarecendo á luz da moderna sciencia alguns pontos duvidosos ou obscuros das suas narrações, seria sem duvida muito interessante e util. Ao interesse, que se liga á elucidação de mais uma consequencia d'aquelle grande facto historico reune-se uma verdadeira utilidade scientifica, porque as sciencias naturaes não vivem só do presente, não se desenvolvem unicamente pelas recentes observações, e pelas descripções de novas especies, mas vivem tambem do passado, e adquirem vigor e auctoridade, quando os periodos do seu aperfeiçoamento se prendem ás successivas phases da evolução do espirito humano.

Considerado este estudo de um modo geral, daria logar a um trabalho em extremo difficil e longo, pois só teria valor quando apoiado em provas, que demandam investigações. É, porém, possivel reunir pouco a pouco materiaes para esse trabalho de maior vulto, em noticias especiaes sobre plantas, regiões, ou épocas particulares. Eis o que tentei n'esta memoria em relação a uma planta, que teve uma época de celebridade.

Refiro-me ao Amomum Granum paradisi, cujas sementes foram conhecidas dos nossos navegadores sob o nome da malagueta. Esta substancia tem hoje[5] pouca importancia, e quasi anda esquecido o seu nome e applicado vulgarmente aos fructos de outra planta, que, com a malagueta da Africa, não tem relações nem semelhança. Não succedeu porém sempre assim, e, como ao diante veremos, foi droga muito procurada e apreciada. Das especiarias, que na edade média gozavam de nomeada, foi a malagueta a primeira que os navegadores portugueses encontraram logo no começo dos seus descobrimentos, e a primeira de cujo trafico se senhorearam desviando-o dos caminhos até então seguidos, e tanta importancia adquiriu nas suas mãos, que uma parte do litoral africano veiu a receber o nome de Costa da Malagueta. Primeira, na data do descobrimento, entre as especiarias que enriqueceram o nosso commercio, pareceu-me que a malagueta devia ser o assumpto d'esta primeira memoria.[6]

[7]




I

Do conhecimento que houve da malagueta antes e durante as viagens dos portuguezes


É muitas vezes difficil, e não poucas impossivel, averiguar a que plantas se referem os auctores antigos, encontrando-se em suas descripções, quasi sempre vagas, muitas causas de duvida, mórmente quando tratam de drogas vindas de regiões afastadas, e de que tinham imperfeito conhecimento. Theophrasto, e mais tarde Dioscorides e Plinio, nomeiam diversas drogas aromaticas e pungentes, e tiveram noticia, entre outras, da pimenta e do cardamomo. É certo, que algumas inexactidões na relação dada d'estas plantas, particularmente por Plinio, nos levam a crer que confundissem sob a mesma designação productos de diversas origens vegetaes; não ha porém motivo para suppor que entre esses productos figurasse a malagueta, attendendo sobretudo á obscuridade, que ainda no tempo de Plinio envolvia as terras d'onde é natural[1 - Theophrasto menciona o χαρδαμωμον como procedente da India (Hist. pl. IX, 7, p. 147. ed. Wimmer) e egualmente o πεπερι (H. pl. IX, 20, p. 162). Dioscorides falla das mesmas substancias (lib. I, cap. V, p. 15 e cap. CLXXXVIII, p. 298 ed. Sprengel). Veja-se tambem Plinio (Hist. nat. L. XII, cap. VII et XIII). Laguna, nos seus commentarios a Dioscorides, pretendeu identificar um dos cardamomos do auctor grego com a malagueta. É porém erro manifesto, e que não passou inadvertido pelo nosso Garcia da Orta (Colloq. dos simples etc., p. 50 ed. 1872). Em quanto ao χμωμον dos antigos, é planta muito duvidosa, mas parece ser o Cissus vitiginea L. e em todo o caso é muito afastada d'aquellas especies que depois, por errada applicação do nome, se gruparam no genero Amomum. Veja-se o erudito commentario de Sprengel no seu Dioscorides (tom. II, p. 345, 352 e 475). Veja-se tambem a (Synopes pl. fl. classicae. de C. Fraas, p. 198 e 278).].[8]

Encontramos nos livros de medicina e materia medica de alguns escriptores arabes, como por exemplo nos de Serapio e de Avicenna, mencionadas diversas drogas africanas. Na época, em que estes celebrados medicos composeram as suas obras, isto é do IX e X seculo em diante, já os productos do Sudan começavam a ser conhecidos no Egypto, e na Africa septentrional pelas viagens, que faziam as kafilas de mercadores através do Sahará, e parece provavel, que a malagueta fosse um d'esses productos. As referencias muito succintas, que se encontra em seus livros, deixam-nos porém, na maior parte dos casos, em muita incerteza e não temos fundamento para affirmar que a conhecessem e descrevessem, antes temos razão para suppor, ou pela descripção das drogas, ou pela indicação da sua procedencia, que se referiam a outras substancias vegetaes[2 - Serapio (De simpl. med. opus etc. pars II. 327. ed. Othonis Brunfelsii 1531.) falla de uma droga, a que dá o nome de hab el zelim e tambem segundo a Cyclopaedia de Rees e o dr. Hooker (Fl. nigr. p. 206) o de fulful alsuadem, (deve antes ler-se felfel el sudan pimenta da terra dos negros). Esta substancia tem sido geralmente identificada com o Piper AEthiopicum de Matthioli, e o Piper nigrorum Serapioni de Bauhinio, que é uma Anonacea, a Xylopia AEthiopica (Veja-se o que disse nas Noticias sobre alguns pr. veg. da Afr. Portugueza no Jornal de Sc. math. etc. num. XXII 1877. p. 105). A verdade é, que Serapio na citada passagem se refere a tres substancias diversas: uma o hab el zelim tambem chamado Piper nigrorum (felfel el sudan): outra o verdadeiro Piper nigrorum a que na Barbaria chamam croni: e uma terceira das terras de Chedensor chamada habese. Se uma d'estas subtancias é a Xylopia Æthiopica, as outras são de mui difficil identificação pela deficiencia das indicações.No celebre Canon de Ibn Sina (Avicenna) vem mencionado o hab al zelem ou hab al zelim, que alguns referiram á droga mencionada com o mesmo nome por Serapio, e outros ao hab al zizi, a que os venezianos chamavam dolceghini e que parece ser um Cyperus. (Vid. a edição de Avicenna de Benedicto Rinio, Basileæ 1556, nos indices dos nomes arabes, tanto da antiga exposição, como da interpretação do Bellunense, e tambem a edição de Plempio de 1658).Garcia da Orta falla de uma substancia, que (Avicenna) chama Combubague e diz que essa substancia é a malagueta (Collq. dos simpl. p. 51). Parece-me que o nosso auctor laborou em erro n'esta asserção. A substancia que Avicenna chama, não Combusbague, mas chair bawe como diz Clusio (Exotiorum libri etc., p. 249, ed. 1605) ou chir hawa (Ed. de Plempio 1658), vinha de Sofala e era semelhante ao Cacolla, ou antes Khakhalá, isto é a um dos Cardamomos da India. Julgo que Avicenna se referia ou ao Amomum angustifolium de Sonnerat, de Madagascar e da costa oriental da Africa, ou ao Amomum Korarima de Pereira, da Abyssinia e do paiz dos Gallas, mas não ao Amomum Granum paradisi, que produz a verdadeira malagueta e habita a Africa occidental.].

A primeira menção da droga pelo nome ainda hoje usado, de que tenho noticia, é do começo do XIII seculo, e encontra-se casualmente na descripção[9] de uma festa celebrada em Treviso no anno de 1214. Figurou n'esta especie de justa, ou torneio uma fortaleza ricamente ornada, cuja defeza estava entregue a doze das mais illustres e mais formosas senhoras, accompanhadas de suas donzellas, e que devia ser assaltada pelos moços cavalleiros, armados de flores, aguas aromaticas e custosas especiarias; infelizmente o fingido assalto transformou-se em seria peleja, porque os cavalleiros paduanos e venezianos, pressurosos, como é bem de crer, de correrem ao combate, se desavieram entre si, ficando alguns mal feridos na contenda, e rotos os estandartes de suas cidades. Entre as especiarias enumeradas na relação d'esta festa figura a melegeta[3 - Transcrevo, por curiosa, a lista das substancias usadas no assalto: «rosis, liliis et violis, similiter ampullis balsami, amphii et aquæ rosæ, ambra, camphora, cardamo, cymino, garyofolis, melegetis, cunctis immo florum vel speciérum genéribus, quæumque redolent vel splendescunt.» Rolandinus Patavinus. (De factis in marchia Tarvisana. Lib I, cap. XIII. ap. Muratori Rer. It. scrip. t. VIII, p. 180).]. Depois d'esta primeira menção encontramos numerosas indicações de quanto aquella substancia foi conhecida e usada durante a edade média.

No mesmo seculo XIII, Nicolau Myrepso, medico do imperador João III, na côrte de Nicaea, receitava a μευεγεται[4 - Nicolai Mirepsi Alex. medic. opus etc. a L. Fuchsio etc. De antidotis p. 19. Lugduni 1550. É de notar que Mirepso distingue a malagueta do cardamomo e outras drogas que entram na composição do seu medicamento.], e o seu comtemporaneo Simão de Genova, estabelecido em Roma, falla da melegete ou melegette[5 - Clavis sanationis, Venet. 1510 citado por Flück. e Hanbury (Pharmac.)]. Com o nome de grana paradisi, pelo qual tambem era conhecida, vem mencionada entre as especiarias vendidas em Lyão no anno de 1245; egualmente em uma pauta ou tarifa de direitos cobrados em Dordrecht na Hollanda, em 1358; e ainda entre os condimentos usados por João II rei de França, durante o seu captiveiro em Inglaterra[6 - Documentos citados por Flück. e Hanbury (Pharmac. p. 590).]. Sabemos tambem pelo curioso livro de Francesco Balducci Pegolotti, escripto pelo anno de 1340, que era importada em algumas cidades do sul da França, como Nimes e Montpellier[7 - Balducci Pegolotti era feitor da casa ou companhia commercial dos Bardi de Florença, e como tal muito versado no tracto de mercadorias do mediterraneo. O manuscripto do seu livro existe na Bibliotheca Riccardiana de Florença, e foi publicado em um tratado intitulado Della decima e di varie altre gravezze imposte dal commune di Firenze, cujo auctor parece ser Pagnini. No mesmo tractado vem inserido outro livro commercial, escripto pelo anno de 1440 por G. da Uzzano, aonde tambem se mencionam as malaguetas. Veja-se uma noticia do auctor e extractos do livro na obra do coronel H. Yule (Cathay and the way thither, p. 280 e Appendix III).].

Era esta droga apreciada como medicamento e como condimento, e junta[10] ao gengivre e á canella empregada na preparação do vinho adubado, chamado hippocras, muito em uso na edade média[8 - Na Form of cury., manuscripto do chefe das cozinhas de Ricardo II de Inglaterra, do anno de 1390 vem a receita do hippocras. Veja-se Flük. et Hanbury (Pharmac. p. 479).].

As caravanas arabes, ou berbéres traziam estas e outras mercadorias do Sudan, através do grande deserto do Sahará até aos portos do mediterraneo. D'este commercio e do nome de Grana paradisi, o qual proveiu de ser preciosa a especiaria, e misteriosa a sua origem, nos dá noticia uma importante passagem de João de Barros[9 - Diz o chronista (Asia. dec. I, liv. II, cap. III), «sempre houve descobrimentos, assi como da costa donde veo a primeira malagueta, que se fez per o infante don Henrique. Da qual alguma que em Italia se havia, ante deste descobrimento, era per mão dos mouros d'estas partes de Guiné, que atravessavão a grande região de Mandinga e os desertos da Libya, a que elles chamão Çahará té aportarem em o mar mediterraneo, em hum porto por elles chamado Mundi Barca, e corruptamente Monte da Barca. E de lhe os Italianos não saberem o lugar de seo nascimento por ser especearia tam preciosa lhe chamarão Grana paradisi, que é nome que tem entrelles.» Sobre o conhecimento, que os portuguezes tiveram do commercio feito pelo interior da Africa com a terra dos negros, veja-se o que diz Azurara (Chr. do desc. de Guiné, p. 364 e seguintes). Veja-se tambem o que diz Leão Africano do commercio feito em Mesrata, e outros portos ao oriente de Tripoli, isto é não longe da região de Mundi barca, pelas galeras venezianas, que ahi carregavam mercadorias da Ethiopia (Ramusio. Delle nav. etc., I. p. 72. Venetia 1563). Das especiarias da terra dos negros falla o celebre viajante arabe, enumerando os objectos que compunham um explendido presente enviado ao rei de Fez por um grande senhor de Tensita, entre os quaes se incluia certo pepe di Ethiopia (ibid. p. 24 v.º), e tambem na relação de um singular banquete, que lhe deu um chefe berbér, no qual, além de carne de camello, e de abestruz assado, figurava buona quantitad di spetie della Terranegra (ibid. p. 6). O dr. Daniell em um excellente artigo sobre os Amoma d'Africa, publicado no Pharmaceutical joumal, diz, que Marmol deu a primeira indicação definida sobre o caminho por que antigamente se transportava a malagueta até á Europa, o que não é exacto, pois a primeira edição da Africa de Marmol é de 1573, e a primeira década da Asia de Barros, aonde vem a passsagem, tão explicita, acima citada, publicou-se em Lisboa no anno de 1552.]. Vê-se pois, que o nome de malagueta foi bem conhecido e usado na Europa desde o começo do seculo XIII, e que n'este e seguintes, até ao meiado do XV, o transporte d'esta substancia era exclusivamente feito pelas kafilas ou caravanas dos mercadores africanos.

As eruditas e clarissimas demonstrações do visconde de Santarem[10 - Memoria sobre a prioridade dos desc. dos port. na costa d'Africa occidental. Paris, 1841.] e do sr. H. Major[11 - Life of Prince Henry, etc. preface XXV e p. 117.] pozeram tão fóra de duvida, o caracter fabuloso das viagens[11] normandas do XIV seculo, e do supposto commercio ou trato de mercadorias, feito entre Dieppe e Roão, e a costa de Africa, que bem podemos passar em silencio o que Villaud e o sr. Margry nos dizem a tal respeito.

Os nossos navegadores tiveram conhecimento da malagueta ainda em tempo do infante D. Henrique, como se deduz da já citada passagem de João de Barros. Quando falleceu o infante, ainda não tinhamos chegado á parte da costa, que mais especialmente recebeu depois o nome d'aquella especiaria, e corre do cabo Mesurado ao cabo das Palmas; mas tinhamos conhecimento dos terrenos banhados pelo rio Gambia, rio Grande e rio de Geba, aonde egualmente se encontra. Das relações de viagem, que deixou o veneziano Alvise Cadamosto, tanto das duas a que elle proprio foi, por mandado do infante, como da que emprehendeu Pedro de Cintra, o qual chegou ao arvoredo de Santa Maria, além do cabo Mesurado e já na costa da Malagueta, não consta que se encontrasse a droga nas terras d'onde é natural. Falla é verdade da malagueta, mas como de mercadoria, que as caravanas de passagem em Hoden, ou Guaden traziam de Tombuto e outras regiões habitadas pelos negros[12 - Collecção de not. para a hist. e geogr. das nações ultram etc. II p. 17. As viagens de Cadamosto, publicadas primeiro em italiano, e inseridas mais tarde na collecção de Ramusio, foram depois vertidas em portuguez pelo academico Sebastião Francisco de Mendo Trigoso, para fazer parte das citadas noticias dadas á estampa por ordem da Academia Real das Sciencias de Lisboa.]. Conhecia pois Cadamosto aquella especiaria, e é singular que a não encontrasse ou não mencionasse nas noticias detalhadas que dá das terras do Gambia, e do Casamança, tanto mais que o genovez Antonio da Nolle, ou Antonio Uso di Mare, seu companheiro de viagem, fallando do rio Gamba, diz que ahi entrou porque in ipsa regione aurum et meregeta colligitur[13 - Em uma carta encontrada por Gräberg nos archivos de Genova, publicada em 1802 (Ann. di geogr. e statist. tomo II, p. 385), e que vem transcripta na integra nas notas de Major (Life of Pr. Henry, p. 102). Veja-se tambem o que diz o visconde de Santarem (Chr. da conquista de Guiné por Azurara, p. 449 nas notas). O sr. Major põe em duvida a authenticidade d'esta carta, e de feito não só é de uma grande incoherencia de linguagem, como contém affirmações de todo o ponto inexactas.]. Na narração da viagem de Diogo Gomes, levada a cabo ainda em tempo do infante pelos annos de 1456 ou 1457, encontramos uma interessante menção. Estando detidas as tres caravellas de seu commando pouco além da foz do rio Grande (o actual rio de Geba), pelas correntes fortissimas, que lhes embargavam o passo, vieram de terra os naturaes, trazendo pannos de algodão, marfim e malagueta em grão e tambem nos fructos em que nasce, de que elle (Diogo Gomes) teve grande contentamento[14 - … et venerunt Mauri de terra in suis almadiis, et portaverunt nobis de suis mercimoniis sc.pannos bombicinos seu cotonis, dentes elephantum et unam quartam mensuram de malagueta in grano et in corticibus suis sicut crescit, cum quo multum gavisus fui. Veja-se a relação de Diogo Gomes intitulada De prima inventione Guineae, na memoria do dr. Schmeller (Ueber Valenti Fernandes Alemã und seine Sammlung etc. p. 26). Sobre a collecção de manuscriptos, formada em Lisboa pelo celebre typographo Valentim Fernandes, veja-se, além da citada memoria, o que diz o sr. H. Major (Life of prince Henry etc. preface XVI e p. 228).].[12]

É para notar, que os nossos escriptores não fallam da malagueta, como de coisa nova e então descoberta, mas sim como de especiaria bem conhecida, e de feito sabemos o era, a qual, por ser preciosa, os navegadores folgavam de encontrar. É um sentimento analogo, ao que, alguns annos depois, deviam experimentar chegando ás terras da pimenta e do cravo.

Encontramos a prova da importancia, que desde logo teve a malagueta em um valioso documento do XV seculo, o celebre globo de Martinho Behaim. É bem sabido, que este notavel cosmographo, discipulo do mais afamado astronomo dos seus tempos, Regiomontanus, se estabeleceu em Portugal, para onde fôra attraido, como outros distinctos sabios, pela fama, que ao longe corria da revolução feita nos conhecimentos geographicos, e na arte de navegar pelos descobrimentos dos portuguezes. Assistiu muitos annos em Lisboa, e na ilha do Fayal, d'onde era natural sua mulher, fazendo apenas algumas curtas viagens á Allemanha, sua patria, e vindo a fallecer em Lisboa no anno de 1506. N'esta cidade se encontrou de 1480 a 1484 com Cristovão Colombo, o qual já andava empenhado nos seus projectos de viagem ao occidente, e alguns auctores pretenderam, ainda que com pouco fundamento, attribuir-lhe a gloria dos descobrimentos de Colombo, e tambem dos de Magalhães, dizendo que se haviam guiado por seus avisos e conselhos, ou por alguns mappas seus, em que se achava indicada a existencia do continente americano e mesmo a sua terminação austral. No anno de 1484 acompanhou Martinho Behaim a Diogo Cam, em uma viagem ao Congo, e de volta á Europa, ajudado pelo que elle proprio observara, e pelas informações colhidas entre os portuguezes, construiu o globo que ainda se conserva em Nuremberg[15 - Sobre Martinho Behaim: veja-se de Murr (Note sur le chevalier portugais Martin Behaim, trad. de H. Jansen); veja-se tambem a erudita noticia de Humboldt (Hist. de la géogr. du nouveau Continent, I, p. 258-283), e uma excellente memoria de Sebastião Francisco de Mendo Trigoso (Memorias de Litteratura Portuguesa, t. VIII, p. 365 e seguintes, ed. 1856). A data da sua viagem com Diogo Cam, foi fixada com muito rigor por A. M. de Castilho (Etudes historico-géographiques, 2.e etude, etc., p. 33 e seguintes). Encontra-se no Atlas do visconde de Santarem, I, X, a reproducção de uma parte do globo.]. Nos rotulos ahi gravados, além de outras indicações, que não vem para o nosso assumpto, lê-se o seguinte: «Chegámos ao pays que chamão reino de Gambia aonde cresce a malagueta,[13] afastado de Portugal oitocentas léguas, passámos depois ao pays do rei de Furfur que está a mil e duzentas léguas, aonde cresce a pimenta chamada de «Portugal[16 - O merito de ter chegado ás regiões da Africa aonde cresce a malagueta, foi attribuido a Martinho Behaim, e foi-lhe depois negado e attribuido a Affonso de Aveiro por Sprengel (Gesch. der geogr. Entd., p. 376, citado por Humboldt, Hist. de la géogr. du nouveau Continent, I, p. 259). Ha aqui um erro, pois que João Affonso de Aveiro trouxe do reino de Benim não a malagueta, mas a baga do Piper Clusii, a pimenta de rabo, chamada por Martinho Behaim pimenta de Portugal. Demais, muito antes de João Affonso de Aveiro ter ido á costa de Benim, e Diogo Cam além da foz do Zaire, tinham os portuguezes encontrado a malagueta, como se vê da historia de João de Barros, da carta de Antonio da Nolle, e da narração de Diogo Gomes.].» Por aqui se vê que estas drogas não só eram bem conhecidas, como tidas pelos mais valiosos productos vegetaes d'aquellas regiões, e por isso mencionadas nos curtos rotulos aonde se descreviam as principaes feições das terras figuradas no globo.

Dos fins do XV seculo, ou principios do seguinte temos uma curiosa e detalhada noticia da malagueta e do seu commercio, em um livro que ainda se conserva inedito, intitulado Esmeraldo de situ orbis, escripto por Duarte Pacheco, um dos capitães portuguezes mais conhecidos por seu denodo e extremado valor. Dos seus heroicos feitos na India fazem menção João de Barros, Castanheda e Camões. Voltando da India governou o castello da Mina, e caíndo depois, por intrigas que lhe moveram, no desagrado d'el-rei, foi preso e terminou a vida pobre e abandonado. Da ingratidão d'el-rei D. Manuel o vingaram bem algumas admiraveis oitavas de Camões[17 - Veja-se sobre Duarte Pacheco o que diz João de Barros (Asia, dec. I, livro VII, cap. II e seguintes), assim como Damião de Goes na (Chr. d'el-rei D. Manuel, I parte) e Camões nas oitavas 12 a 25 do canto X.]. O Esmeraldo foi terminado, ao que parece, no anno de 1503, isto é logo que Duarte Pacheco voltou da India, para onde fôra em 1503 na armada de Affonso de Albuquerque, e aonde ainda permanecia em 1504. Attendendo ao curto periodo decorrido entre o regresso do oriente e o offerecimento do livro a el-rei D. Manuel, é natural suppor que estivesse já composto antes da sua partida, e que as informações minuciosas sobre a costa de Africa, que ali se encontram, fossem colligidas nas viagens de que Duarte Pacheco falla, feitas nos fins do seculo XV, ainda em tempo de D. João II, de cuja casa era cavalleiro[18 - O titulo do manuscripto é o seguinte: Esmeraldo de Situ orbis feito e composto por Duarte Pacheco cavalleiro da casa del Rey D. João o II de Portugal, que Deus tem, dirigido ao muyto alto e poderoso principe e serenissimo senhor, o senhor Rey D. Manuel nosso senhor, o primeiro d'este nome que reynou em Portugal. D'este livro existem duas copias, as mais completas e authenticas na Bibliotheca de Evora, das quaes deu noticia o distincto escriptor o sr. Rivara no vol. V do Panorama. Consultei a copia que possue a Bibliotheca Nacional de Lisboa, extraída de outra, que parece ter pertencido a D. Rodrigo da Cunha, bispo do Porto, e mais tarde arcebispo de Lisboa. Era para sentir, que esta importante obra se conservasse ainda inedita, mas julgo que em breve será publicada, por iniciativa e sob a direcção do sr. João de Andrade Corvo.].

Terei de examinar mais detidamente este livro nas paginas seguintes, basta[14] dizer por agora, que o auctor conhecia mui bem a malagueta e as suas diversas designações, pois na descripção da costa de Africa, diz fallando da matta de Santa Maria: «e d'aqui se comessa o resguate da malagueta que em latim se chama grany paradisy (sic)».

Ainda devemos citar uma passagem da historia ou relação da viagem de um piloto portuguez á ilha de S. Thomé. Não era homem vulgar este piloto, antes parece ter sido muito lido e erudito. Estando em Veneza travou amisade com o bem conhecido Jeronymo Fracastor, e com o conde Romualdo de la Torre, e occupou-se em estudar e interpretar o periplo de Hannon. O conhecimento, que já então tinha da costa da Africa occidental aonde fôra varias vezes, habilitava-o a lançar alguma luz na obscura relação, que nos ficou, da tão discutida e celebrada viagem dos carthaginezes. E certo que Ramusio se serviu muito, na sua interpretação do periplo, das observações e esclarecimentos fornecidos pelo portuguez[19 - Veja-se a curiosa relação de Ramusio, sobre as informações que lhe deu o piloto a quem chama «persona périta, non solamente del'arte dell mare, ma anchora per le lettere e per il molto legger di diverti auttori pieno di molta cognitione.» (Ramusio, Delle navig. etc. I. p. 112 V.º Venetia, 1563.)]. De volta a Villa do Conde, d'onde era natural, escreveu o anonymo piloto a relação de uma das suas viagens á ilha de S. Thomé, relação que enviou ao Conde de la Torre, e que, vertida em italiano, foi publicada por J. B. Ramusio. Deprehende-se das datas citadas ter a viagem tido logar pelos annos de 1551 ou 1552.

No capitulo VI[20 - Cito a traducção publicada por ordem da Academia das Sciencias e feita pelo socio Sebastião Francisco de Mendo Trigoso. (Collec. de not. para a Hist. etc., II, p. 87.)] tratando da Costa de Guiné e Benim diz o seguinte: «Nasce n'esta costa a especiaria chamada malagueta, muito semelhante ao milho da Italia, porém de um gosto forte como a pimenta; produz-se alli tambem uma pimenta fortissima, mais do dobro do que he a de Calicut a qual nós os Portuguezes, porque ella tem um pezinho que conserva depois de secca chamamos pimenta de cauda[21 - No texto italiano vem em portuguez o nome de pimenta de rabo, que era effectivamente a expressão vulgar; mas foi convertida em fórma mais academica na versão portugueza.]; he muito semelhante ás cubebas em a sua figura, porém para o paladar é tão forte, que uma onça d'ella faz o mesmo effeito[15] que faria meia libra da ordinaria; e ainda que seja prohibido debaixo de gravissimas penas exportal-a da dita costa, tirão-na comtudo ás escondidas vendendo-a em Inglaterra por um preço dobrado d'aquelle porque venderião a pimenta vulgar. Procede esta prohibição, de que desconfiando ElRei N. S.r que esta planta não fizesse empatar e abaratar a grande quantidade de pimenta que vem cada anno do Calicut determinou que de modo algum se podesse conduzir para fóra[22 - A mesma noticia se encontra nas notas com que Carlos de l'Escluze, mais conhecido pelo nome de Clusio, enriqueceu a sua traducção latina do livro de Garcia da Orta (Exoticorum libri decem etc., p. 184). João de Barros pelo contrario diz que el-rei mandou esta pimenta a Flandres, mas ahi não agradou tanto como a da India. Conciliam-se perfeitamente estas informações em apparencia encontradas. A noticia de João de Barros, confirmada pelo que diz Garcia de Resende, refere-se ao tempo de D. João II, época em que ainda não tinhamos attingido o termo tão desejado de nossas explorações, e em que o commercio das especiarias estava em mão dos venezianos, sendo natural que procurassemos attrair a attenção para os productos das terras africanas, de cujo commercio nos haviamos senhoreado. Pelo contrario, em tempos de D. Manuel e posteriores, já estava nas mãos dos portuguezes o monopolio das especiarias asiaticas, e, dadas as doutrinas commerciaes de então, bem se comprehendem as prohibições rigorosas de que falla a viagem a S. Thomé.]. Ha tambem uns arbustos que produzem vagens longas como saõ as dos feijões, com algumas sementes dentro, as quaes não tem sabor algum, mas as vagens mastigadas tem um gosto delicado de gengibre, e os negros lhe chamaõ Unias e lhes serve de tempero, junto com a dita pimenta, quando comem peixe de que saõ sobremaneira avidos.»

Citei integralmente este importante trexo porque nos dá clara e completa a distincção entre tres substancias vegetaes por vezes confundidas. De feito a descripção corresponde bem ao Amomum Granum paradisi Afzelius, ao Piper Clusii Cas. DC. e á Xylopia Æthiopica Richard, plantas de todo o ponto diversas e de afastadas familias, porém semelhantes nas qualidades aromaticas e ardentes de seus fructos ou sementes, e que por isso se substituiram mutuamente ou confundiram no commercio.

Por estas citações se vê, que os nossos navegadores e escriptores conheceram bem a droga produzida pelos Amoma da Africa occidental, e que a designaram geralmente com o nome de malagueta, não lhes sendo tambem estranho o nome de grãos do parayso.[16]




II

Da origem da palavra malagueta


Esta designação foi, como vimos, muito usada nos XIII, XIV e XV seculos, e, quanto hoje podemos julgar, applicada sempre, ou quasi sempre, ás sementes dos Amoma da Africa occidental. Rarissimas vezes encontramos este nome designando drogas da Asia, como por exemplo algum dos cardamomos da India, e n'estes casos por evidente equivocação. Assim Lagana, nos seus commentarios a Dioscorides, pertende identificar um dos cardamomos do auctor grego com a malagueta, quando é quasi certo que tal droga não conhecia[23 - Veja-se a nota 1, a pag. 7.]. Assim tambem Fr. Odorico de Pordenone, que visitou o oriente pelos annos de 1320 a 1328, diz, que na ilha de Java crescem diversas especiarias e entre estas as melegetae. A substancia designada assim pelo missionario Franciscano era sem duvida um cardamomo[24 - O texto de Pordenone é o seguinte: «In ipsa (insula Jauá) nascuntur cubebae, melegetae, nuces que muscatae, multae que aliae species pretiosae». Veja-se H. Yule (Cathay and the way thither, etc., II. Appendix, I, XVII.)]. Estas applicações erradas do nome explicam-se facilmente pela semelhança das drogas, e por modo algum significam, que estas se confundissem geralmente, antes temos provas de que bem se distinguiam[25 - Sabemos que pelos tempos de Frey Odorico se differençavam perfeitamente as duas drogas. Pegolotti no seu (Libro di divisameuti di paesi, etc.) inserido no tratado (Della decima, etc. III) falla das meleghette e do cardamomo como de mercadorias diversas; a mesma distincção faz um seculo mais tarde G. da Uzzano no (Libro di gabelli, etc.) egualmente inserido no (Della decima, etc. IV). Veja-se H. Yule (Cathay and the way thither, etc., I, pag. 88). A passagem de Rolandino Patavino, assim como a de Nicolau Myrepso antes citadas, dão tambem a malagueta e o cardamomo como coisas diversas. Veja-se a nota a pag. 9.]. Foi só muito mais tarde, que este nome começou a ser vagamente dado a outras drogas e mui particularmente, como adiante veremos, aos fructos de uma Solanacea.

Examinemos agora qual a origem provavel da palavra malagueta, ou talvez melhor melegeta primeira fórma com que a encontramos escripta. Um dos mais eruditos homens de sciencia dos nossos tempos, Alexandre de Humboldt, quiz filiar esta palavra nos vocabulos asiaticos, que designam a pimenta. De[17] feito tem esta ultima especiaria em Sumatra o nome de molaga, e na India o de mellaghoo, e pela tendencia natural a applicar o mesmo nome a substancias analogas, e que o commercio confunde, suppoz Humboldt que o nome da pimenta, um pouco alterado, e tomando a fórma malagueta, se viesse a dar á droga de Africa[26 - Eis a passagem em que Humboldt (Hist. de la géogr. du nouveau Continent, I, pag. 258), expõe esta theoria. «Como as producções vegetaes, analogas, e que se substituem mutuamente no commercio, tomam sempre o mesmo nome, o de malagueta, tão celebre no XV seculo, e que os pharmaceuticos transformaram em melegueta, maniguette e cardamomum piperatum parece-me derivar-se do nome indico do pimento, tal qual é usado na lingua de Sumatra. Acho na Cosmographia de Sebastião Munster (ed. de 1850 p. 1093), lingua patria sumatrensis piper molaga dicunt. O sabio auctor da Materia medica of Hindoostan, o sr. Ainslie dá tambem (ed. de Madrasta, 1813, p. 34) ao Piper nigrum o nome tamul de mellaghoo. Em sanskrito mallaja e maricha são synonymos de pippali. O primeiro designa mais particularmente, segundo Wilson, o Piper nigrum e o segundo o Piper longum.» A estes nomes apontados por Humboldt podemos accrescentar os que encontramos citados por Garcia da Orta (Colloquios dos simples, etc., p. 172, ed. 1872), pertencentes ás mesmas fórmas, como são molanga, meriche e merois. A semelhança de alguns d'estes nomes com a palavra melegueta é singular; julgo porém ser uma simples aproximação fortuita.]. Não julgo por modo algum acceitavel esta etymologia. Para que na Europa se désse á semente do Amomum um nome derivado, por analogia, do da pimenta, era necessario que esse nome se tivesse primeiro dado aos fructos do verdadeiro Piper. Ora não temos noticia de que a pimenta fosse conhecida nas linguas da Europa por palavra semelhante a molaga ou mellaghoo, ou que de algum modo se possa filiar nas fórmas sanskritas mallaja ou maricha. O vocabulo grego πεπερι, assim como o latino piper, d'onde vem quasi todas as designações usadas na Europa[27 - A palavra portuguesa pimenta não vem da mesma origem, como quer o padre Raphael Bluteau no Vocabulario, fazendo-a derivar de pimpilim, nome usado no Malabar. Deriva-se de pigmentum, que na baixa latinidade significava especiaria em geral: species aromatis. Ducange. (Gloss. ad script. med. et infim. lat. voc. pigmentum.)], prendem-se sem a menor duvida ao sanskrito pippali pela mudança do l em r, frequente nas linguas do ramo iraniano, pelas quaes nos foi transmittido. Não é pois facil admittir que se désse a uma droga, por ser semelhante á pimenta, um nome que a pimenta nunca teve, nem se comprehende que na Europa se applicasse a uma substancia da Africa um nome asiatico pouco ou nada conhecido.

O sabio academico visconde de Santarem propõe em uma das suas obras[28 - Recherches sur la déc. des pays situés sur la cote occ. d'Afrique, etc. p. 266.] outra etymologia. Recordando que Cosmas Indicopleustes falla, na sua Topographia christiana, do paiz de Mala na Asia, e accrescenta ubi piper gignitur,[18] suppõe que malagueta seja malagignitur corrompido, por isso que os primeiros navegadores, chegando á costa da Malagueta, e vendo tanta abundancia de especiaria se podiam julgar no paiz de Mala. Na verdade, parece-me demasiado forçada e difficil de admittir esta derivação.

Sustentaram alguns auctores a origem européa; entre outros Villaud de Bellefond, seguido depois com pouco criterio por Corneille no seu Diccionario Geographico, disse que a palavra era franceza, e quiz d'ahi tirar, não sei bem porque raciocinio, uma prova de que os francezes haviam descoberto as terras aonde a planta cresce. A origem franceza é insustentavel, e não tem um unico argumento em seu favor. Devemos todavia notar, que o visconde de Santarem, refutando esta opinião de Villaud, incorreu por sua parte em alguns erros e seguiu um systema contrario á verdade dos factos. No texto da sua memoria a pag. 39 e nota 7.ª[29 - Mem. sobre a prioridade, etc., p. 39, e nota 7.ª, p. 196.], aquelle erudito escriptor pretende provar, que a palavra malagueta era usada pelos naturaes da costa d'Africa, datando dos nossos descobrimentos a sua adopção para designar a droga, antes mais conhecida pelo nome de sementes, ou grãos do paraizo. Os factos apontados nas citadas passagens pouco ou nada provam. Se Antonio da Nolle diz que na região aonde foi havia ouro e malagueta, não se segue que o nome fosse usado pelos negros, mas sim que elle o conhecia, o que era natural pois havia traficado no Mediterraneo. Se Brown, na relação da sua viagem, affirma que os negros chamavam malagueta a uma especie de pimenta, isto só significa que os negros da costa já n'aquelle tempo (1617) haviam adoptado o nome empregado pelos portuguezes, com os quaes estavam em contacto quasi diario. Demais todos estes argumentos caem perante os documentos citados nas paginas precedentes, que escaparam ás investigações do douto academico[30 - Na edição franceza da sua memoria (Recherches sur la déc. etc. Paris 1842), o visconde de Santarem cita Balducci Pegolotti, e a passagem onde falla da malagueta (p. LXV), mas não modifica a sua argumentação (p. 14 e 15).], e provam ser conhecido o nome de melegeta desde o começo do seculo XIII, isto é, mais de dois seculos antes das nossas viagens, e muitos annos antes das datas marcadas aos suppostos descobrimentos dos genovezes, dos catalães e dos normandos. Se pois a adopção da palavra malagueta se não póde ligar a viagem dos francezes á Africa, não é por só ter sido conhecida depois, mas exactamente pela razão opposta por ser vulgarissima muito antes.

Deparam-nos as obras de Matthioli, uma etymologia que, com quanto apresentada de passagem e como opinião pessoal, é muito digna de attenção e exame. Vem a ser a que deriva a palavra malagueta da semelhança da semente com os grãos de milho da India, aos quaes em algumas partes da Italia[19] se dava o nome de meléga[31 - Eis o que diz Matthioli: i grani, i quali chiamano alcuni meleghette per rasomigliarsi eglino (come credo io) al miglio indiano, il quale in alcuni luoghi d'Italia si chiama melega (I discorsi di M. P. Matthioli etc., nei sei libri di Dioscoride, p. 24. Venezia, 1712).]. Effectivamente, o milho da India, o Holcus sorghum de Linneo, foi denominado meléga, meliga ou mélica, e encontra-se designado com este nome em uma data anterior á primeira menção, que conheço, do nome de malagueta. Em um instrumento publico do XIII seculo, passado na villa d'Incisa, se diz, que dois cavalleiros cruzados, companheiros de armas de Bonifacio, marquez de Monteferrato, de volta do cerco de Constantinopla, deram á dita villa, além de uma cruz de prata encerrando um fragmento do Santo Lenho, uma porção de sementes provenientes da provincia de Natolia na Asia e chamadas meliga, offerta que foi tida em grande estima e consideração[32 - Foi publicado na (Storia d'Incisa, etc. Asti, 1810) e vem transcripta por Michaud (Hist. des Croisades, II, p. 494).]. Quizeram alguns, que estas sementes fossem o milho, é porém mais provavel fosse uma especie de sorgo então nova, ou pouco vulgar[33 - Sobre a verdadeira natureza da meliga e a introducção da cultura do milho na Europa pode-se consultar Bonafous (Hist. nat. agric. et éc. du maïs); e tambem A. de Candolle (Géogr. bot. rais., p. 943).]. Do theor da carta passada em Incisa no anno de 1204 parece resultar que o nome de meliga era até então desconhecido. É possivel, com quanto pouco provavel, que dez annos depois no de 1214 se tivesse já, por analogia e semelhança de fórma, derivado d'aquelle nome o de melégueta.

Resta examinar a origem africana, a qual se póde encontrar nos numerosos e variados dialectos usados pelas populações negras da região aonde a planta se cria, ou ainda nas linguas dos povos que com ellas negoceiavam. Dois povos de raça diversa se empregaram no activo commercio feito por um lado com os europeus, e por outro com as populações de raça negra; commercio de que os nossos escriptores tiveram, como vimos, noticia, e de que Leão Africano dá relação com a clareza e intimo conhecimento de quem n'elle tomou parte. Foram esses povos os arabes e os berberes: estes, os numidas ou libyanos dos antigos, fallam uma lingua bem distincta do arabe, e que nem mesmo se póde filiar no grupo semitico, mas sim em um grupo um pouco vago, de que o coptico parece ser o typo, para o qual se propoz o nome de «chamitico[34 - É esta a opinião apresentada pelo sr. Ernesto Renan (Hist. des langues sémitiques, p. 201-202, 4ème éd.), da qual, porém, se afastam alguns philologos, e entre outros o sr. Newman, que considera o berbér como um idioma semitico.].» Dominados pelos semitas e em contacto por duas vezes com linguas semiticas, isto é, com a lingua punica dos colonos carthaginezes, e seculos[20] depois com a arabica, aceitando o dominio dos arabes e recebendo mesmo d'estes a religião mahometana, alguns berberes conservaram no entanto lingua e costumes proprios. Ainda mais; os povos berberes de raça pura, como os Tuareg, mais entranhados no deserto, e mais afastados do elemento arabe, que tão profundamente tem penetrado todo o norte da Africa, não só fallam uma lingua distincta, mas conservam o uso de um alphabeto especial, semelhante ao das inscripções libycas[35 - Veja-se sobre o alphabeto tifinar ou tifinag uma noticia do sr. A. Judas: (Journal Asiatique. Mai 1847) assim como o (Essai de grammaire tamackek.) do sr. Hanoteau.]. O mais antigo historiador dos descobrimentos portuguezes, Gomes Eannes de Azurara, teve conhecimento dos berberes, que chamou azanegues e barbaros, e da distincção entre a linguagem mourisca e «a azaneguya do Zaara»; e ainda mais, relatando a viagem do heroico escudeiro João Fernandes, dá conta de usarem de uma lettra com que escrevem «de outra guisa» que a dos mouros[36 - Chron. da Conq. de Guiné. p. 83 e 365.], facto curioso, ignorado ou posto em duvida durante muito tempo, e demonstrado pelas modernas investigações scientificas.

É pois no arabe, no berbér, ou nas linguas do Sudan e da costa occidental que se deve procurar a origem da palavra, se porventura é africana.

Devemos no entanto notar que os nomes arabes, hoje mais usados, não tem relação ou semelhança com a palavra malagueta. São estes nomes teen el felfel e tamar el felfel, o que vale o mesmo que pimenta figo e pimenta tamara, derivados por um lado da ardencia das sementes, e por outro de uma vaga semelhança na fórma dos fructos, quando mais desenvolvidos, com os figos, quando menores, com as tamaras.

Vem expressa em varias obras, sobretudo francezas, a opinião de que o nome da droga se deriva do nome de uma villa ou logar de Africa, chamado Melega, d'onde era trazida para a Europa. Da existencia de tal villa não pôde achar noticia, e creio, que alguns desses auctores se equivocaram com a costa da Malagueta, e que os outros, como tantas vezes succede, repetiram a asserção sem se darem ao trabalho de procurar os seus fundamentos[37 - Diz Pomet «nous l'appellons aussi maniquette ou melaquette a cause d'une ville d'Afrique appelée Melega d'ou elle était autrefois apportée» (Hist. gén. des drogues, I, 42, 2.me éd.) Nicolau Lémery repete a mesma asserção quasi pelas mesmas palavras (Traité univ. des drogues simples, p. 152. Paris, 1698); e não obstante La Martinière, no seu diccionario ter mostrado ser falsa, ainda se encontra no diccionario do sr. Littré.Uma derivação inversa, e que vem apontada na Africa de Ogilby, tambem envolve um erro. Diz-se ahi: grain coast is named melliguette or melli, from the abundance of grain of paradise there growing, wich the natives call mellegette. Confunde-se n'esta passagem a costa da Malagueta, a qual de feito recebeu o nome da droga com a região de Melli, situada já no centro de Africa ao meio dia de Timbuktu, e bem conhecida desde tempos remotos. Foi visitada em 1352 por Ibn Batuta, que a designa com o nome de Melle ou Mali (segundo a traducção do padre Moura) e figura na carta Catalan de 1375. Cadamosto tambem a conhecia, e indica com bastante rigor o itinerario das caravanas, que transportavam o sal de Tagazza a Timbuktu e a Melli. Só muito depois se começou a usar o nome de costa da Malagueta e nenhuma relação tem com o de Melli.].[21]

Nos dialectos dos negros os nomes da droga são variadissimos o pela maior parte absolutamente diversos e afastados no som e na fórma da palavra malagueta[38 - Eis alguns dos nomes citados pelo sr. Daniell: Attahre usado em Yorruba: Ussorgé em Ebo: Anniewhé em Accara: Weeza entre os Ashantis: Guetta e Emaneguetta entre os Krus: uma variedade de fructos mais pequenos é chamada Tosshan te timmané em Serra Leôa: Niammakyu entre os negros Susus: Bellankufo entre os Mandingas do interior; uma terceira variedade de fructos ainda menores recebe o nome de Tokoto m'pomah em Fernão do Pó, e de Dungo zargo e Dungo zenzambah no Congo. Conservei escrupulosamente a orthographia usada pelo sr. Daniell, que não é talvez a mais propria, e corresponde á impressão produzida em um ouvido inglez pelos sons dos dialectos africanos. Barbot, citado por Daniell, diz que nas proximidades do cabo Lopes, se dá á droga o nome de Calicute. Deve ser uma antiga designação portugueza, derivada da semelhança com a pimenta que vinha de Calecut.]. Diz-nos porém o sr. Daniell, que entre os negros Krus habitantes da costa que vae do cabo Mesurado ao das Palmas, o nome vulgar é Guetta, ao qual frequentes vezes se juntam as prefixas mane ou malé, e tem por certo ser esta a origem da palavra. É possivel, mas não tão seguro, nem tão fóra de discussão como parece ao dr. Daniell, pois se póde bem admittir que o nome usado pelos Krus seja a corrupção do vocabulo empregado pelos portuguezes e outros europeus, o que é tanto mais provavel quanto os Krus não são uma população do interior, mas sim um povo da costa, muito dado á navegação, e como tal um dos que tem sempre tido mais contacto com os estrangeiros.

Em todo o caso, se a palavra pertence ao dialecto dos negros foi-nos transmitida pelos povos do norte da Africa, unicos que até ás viagens portuguezas tiveram contacto com aquellas regiões. Devemos pois admittir que espalhando-se o seu uso pelo interior da região de Mandinga, se tornasse vulgar em Timbuktu e outros grandes mercados do Sudan. Os arabes e os berberes, que a esses mercados concorriam trouxeram a droga, e com a droga o nome, pelo caminho do Dar-Fur ao alto Nilo, e d'ahi aos portos do Egypto, ou pela via mais seguida do Fezzan aos portos de Tripoli. Mercadores de varias nações, e na época a que nos referimos, principalmente os venezianos, navegavam para esses portos, e desde o começo do XIII seculo, se não antes, introduziram a droga na Europa e usaram o nome malagueta ou melegeta.

Em resumo a origem da palavra permanece obscura, e unicamente temos[22] como certo, que os italianos foram os primeiros, entre os povos da Europa, a empregal-a, quer a derivassem da semelhança da droga com o sorgo, chamado melega, quer usassem, o que é mais provavel, de uma denominação vulgar eutre os africanos.




III

Das plantas que produzem a malagueta, e da sua distribuição geographica


Como mais de uma vez tenho observado, existe uma tendencia geral a applicar o mesmo nome a productos distinctos, mas semelhantes ou de propriedades analogas, e que se confundem ou substituem mutuamente no commercio. Por outro lado nas diversas regiões e épocas se tem dado nomes differentes á mesma substancia. D'aqui resulta uma certa confusão de nomes vulgares, da qual póde provir obscuridade, e que exige algumas palavras de explicação.




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notes



1


Theophrasto menciona o χαρδαμωμον como procedente da India (Hist. pl. IX, 7, p. 147. ed. Wimmer) e egualmente o πεπερι (H. pl. IX, 20, p. 162). Dioscorides falla das mesmas substancias (lib. I, cap. V, p. 15 e cap. CLXXXVIII, p. 298 ed. Sprengel). Veja-se tambem Plinio (Hist. nat. L. XII, cap. VII et XIII). Laguna, nos seus commentarios a Dioscorides, pretendeu identificar um dos cardamomos do auctor grego com a malagueta. É porém erro manifesto, e que não passou inadvertido pelo nosso Garcia da Orta (Colloq. dos simples etc., p. 50 ed. 1872). Em quanto ao χμωμον dos antigos, é planta muito duvidosa, mas parece ser o Cissus vitiginea L. e em todo o caso é muito afastada d'aquellas especies que depois, por errada applicação do nome, se gruparam no genero Amomum. Veja-se o erudito commentario de Sprengel no seu Dioscorides (tom. II, p. 345, 352 e 475). Veja-se tambem a (Synopes pl. fl. classicae. de C. Fraas, p. 198 e 278).




2


Serapio (De simpl. med. opus etc. pars II. 327. ed. Othonis Brunfelsii 1531.) falla de uma droga, a que dá o nome de hab el zelim e tambem segundo a Cyclopaedia de Rees e o dr. Hooker (Fl. nigr. p. 206) o de fulful alsuadem, (deve antes ler-se felfel el sudan pimenta da terra dos negros). Esta substancia tem sido geralmente identificada com o Piper AEthiopicum de Matthioli, e o Piper nigrorum Serapioni de Bauhinio, que é uma Anonacea, a Xylopia AEthiopica (Veja-se o que disse nas Noticias sobre alguns pr. veg. da Afr. Portugueza no Jornal de Sc. math. etc. num. XXII 1877. p. 105). A verdade é, que Serapio na citada passagem se refere a tres substancias diversas: uma o hab el zelim tambem chamado Piper nigrorum (felfel el sudan): outra o verdadeiro Piper nigrorum a que na Barbaria chamam croni: e uma terceira das terras de Chedensor chamada habese. Se uma d'estas subtancias é a Xylopia Æthiopica, as outras são de mui difficil identificação pela deficiencia das indicações.

No celebre Canon de Ibn Sina (Avicenna) vem mencionado o hab al zelem ou hab al zelim, que alguns referiram á droga mencionada com o mesmo nome por Serapio, e outros ao hab al zizi, a que os venezianos chamavam dolceghini e que parece ser um Cyperus. (Vid. a edição de Avicenna de Benedicto Rinio, Basileæ 1556, nos indices dos nomes arabes, tanto da antiga exposição, como da interpretação do Bellunense, e tambem a edição de Plempio de 1658).

Garcia da Orta falla de uma substancia, que (Avicenna) chama Combubague e diz que essa substancia é a malagueta (Collq. dos simpl. p. 51). Parece-me que o nosso auctor laborou em erro n'esta asserção. A substancia que Avicenna chama, não Combusbague, mas chair bawe como diz Clusio (Exotiorum libri etc., p. 249, ed. 1605) ou chir hawa (Ed. de Plempio 1658), vinha de Sofala e era semelhante ao Cacolla, ou antes Khakhalá, isto é a um dos Cardamomos da India. Julgo que Avicenna se referia ou ao Amomum angustifolium de Sonnerat, de Madagascar e da costa oriental da Africa, ou ao Amomum Korarima de Pereira, da Abyssinia e do paiz dos Gallas, mas não ao Amomum Granum paradisi, que produz a verdadeira malagueta e habita a Africa occidental.




3


Transcrevo, por curiosa, a lista das substancias usadas no assalto: «rosis, liliis et violis, similiter ampullis balsami, amphii et aquæ rosæ, ambra, camphora, cardamo, cymino, garyofolis, melegetis, cunctis immo florum vel speciérum genéribus, quæumque redolent vel splendescunt.» Rolandinus Patavinus. (De factis in marchia Tarvisana. Lib I, cap. XIII. ap. Muratori Rer. It. scrip. t. VIII, p. 180).




4


Nicolai Mirepsi Alex. medic. opus etc. a L. Fuchsio etc. De antidotis p. 19. Lugduni 1550. É de notar que Mirepso distingue a malagueta do cardamomo e outras drogas que entram na composição do seu medicamento.




5


Clavis sanationis, Venet. 1510 citado por Flück. e Hanbury (Pharmac.)




6


Documentos citados por Flück. e Hanbury (Pharmac. p. 590).




7


Balducci Pegolotti era feitor da casa ou companhia commercial dos Bardi de Florença, e como tal muito versado no tracto de mercadorias do mediterraneo. O manuscripto do seu livro existe na Bibliotheca Riccardiana de Florença, e foi publicado em um tratado intitulado Della decima e di varie altre gravezze imposte dal commune di Firenze, cujo auctor parece ser Pagnini. No mesmo tractado vem inserido outro livro commercial, escripto pelo anno de 1440 por G. da Uzzano, aonde tambem se mencionam as malaguetas. Veja-se uma noticia do auctor e extractos do livro na obra do coronel H. Yule (Cathay and the way thither, p. 280 e Appendix III).




8


Na Form of cury., manuscripto do chefe das cozinhas de Ricardo II de Inglaterra, do anno de 1390 vem a receita do hippocras. Veja-se Flük. et Hanbury (Pharmac. p. 479).




9


Diz o chronista (Asia. dec. I, liv. II, cap. III), «sempre houve descobrimentos, assi como da costa donde veo a primeira malagueta, que se fez per o infante don Henrique. Da qual alguma que em Italia se havia, ante deste descobrimento, era per mão dos mouros d'estas partes de Guiné, que atravessavão a grande região de Mandinga e os desertos da Libya, a que elles chamão Çahará té aportarem em o mar mediterraneo, em hum porto por elles chamado Mundi Barca, e corruptamente Monte da Barca. E de lhe os Italianos não saberem o lugar de seo nascimento por ser especearia tam preciosa lhe chamarão Grana paradisi, que é nome que tem entrelles.» Sobre o conhecimento, que os portuguezes tiveram do commercio feito pelo interior da Africa com a terra dos negros, veja-se o que diz Azurara (Chr. do desc. de Guiné, p. 364 e seguintes). Veja-se tambem o que diz Leão Africano do commercio feito em Mesrata, e outros portos ao oriente de Tripoli, isto é não longe da região de Mundi barca, pelas galeras venezianas, que ahi carregavam mercadorias da Ethiopia (Ramusio. Delle nav. etc., I. p. 72. Venetia 1563). Das especiarias da terra dos negros falla o celebre viajante arabe, enumerando os objectos que compunham um explendido presente enviado ao rei de Fez por um grande senhor de Tensita, entre os quaes se incluia certo pepe di Ethiopia (ibid. p. 24 v.º), e tambem na relação de um singular banquete, que lhe deu um chefe berbér, no qual, além de carne de camello, e de abestruz assado, figurava buona quantitad di spetie della Terranegra (ibid. p. 6). O dr. Daniell em um excellente artigo sobre os Amoma d'Africa, publicado no Pharmaceutical joumal, diz, que Marmol deu a primeira indicação definida sobre o caminho por que antigamente se transportava a malagueta até á Europa, o que não é exacto, pois a primeira edição da Africa de Marmol é de 1573, e a primeira década da Asia de Barros, aonde vem a passsagem, tão explicita, acima citada, publicou-se em Lisboa no anno de 1552.




10


Memoria sobre a prioridade dos desc. dos port. na costa d'Africa occidental. Paris, 1841.




11


Life of Prince Henry, etc. preface XXV e p. 117.




12


Collecção de not. para a hist. e geogr. das nações ultram etc. II p. 17. As viagens de Cadamosto, publicadas primeiro em italiano, e inseridas mais tarde na collecção de Ramusio, foram depois vertidas em portuguez pelo academico Sebastião Francisco de Mendo Trigoso, para fazer parte das citadas noticias dadas á estampa por ordem da Academia Real das Sciencias de Lisboa.




13


Em uma carta encontrada por Gräberg nos archivos de Genova, publicada em 1802 (Ann. di geogr. e statist. tomo II, p. 385), e que vem transcripta na integra nas notas de Major (Life of Pr. Henry, p. 102). Veja-se tambem o que diz o visconde de Santarem (Chr. da conquista de Guiné por Azurara, p. 449 nas notas). O sr. Major põe em duvida a authenticidade d'esta carta, e de feito não só é de uma grande incoherencia de linguagem, como contém affirmações de todo o ponto inexactas.




14


… et venerunt Mauri de terra in suis almadiis, et portaverunt nobis de suis mercimoniis sc.pannos bombicinos seu cotonis, dentes elephantum et unam quartam mensuram de malagueta in grano et in corticibus suis sicut crescit, cum quo multum gavisus fui. Veja-se a relação de Diogo Gomes intitulada De prima inventione Guineae, na memoria do dr. Schmeller (Ueber Valenti Fernandes Alemã und seine Sammlung etc. p. 26). Sobre a collecção de manuscriptos, formada em Lisboa pelo celebre typographo Valentim Fernandes, veja-se, além da citada memoria, o que diz o sr. H. Major (Life of prince Henry etc. preface XVI e p. 228).




15


Sobre Martinho Behaim: veja-se de Murr (Note sur le chevalier portugais Martin Behaim, trad. de H. Jansen); veja-se tambem a erudita noticia de Humboldt (Hist. de la géogr. du nouveau Continent, I, p. 258-283), e uma excellente memoria de Sebastião Francisco de Mendo Trigoso (Memorias de Litteratura Portuguesa, t. VIII, p. 365 e seguintes, ed. 1856). A data da sua viagem com Diogo Cam, foi fixada com muito rigor por A. M. de Castilho (Etudes historico-géographiques, 2.e etude, etc., p. 33 e seguintes). Encontra-se no Atlas do visconde de Santarem, I, X, a reproducção de uma parte do globo.




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O merito de ter chegado ás regiões da Africa aonde cresce a malagueta, foi attribuido a Martinho Behaim, e foi-lhe depois negado e attribuido a Affonso de Aveiro por Sprengel (Gesch. der geogr. Entd., p. 376, citado por Humboldt, Hist. de la géogr. du nouveau Continent, I, p. 259). Ha aqui um erro, pois que João Affonso de Aveiro trouxe do reino de Benim não a malagueta, mas a baga do Piper Clusii, a pimenta de rabo, chamada por Martinho Behaim pimenta de Portugal. Demais, muito antes de João Affonso de Aveiro ter ido á costa de Benim, e Diogo Cam além da foz do Zaire, tinham os portuguezes encontrado a malagueta, como se vê da historia de João de Barros, da carta de Antonio da Nolle, e da narração de Diogo Gomes.




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Veja-se sobre Duarte Pacheco o que diz João de Barros (Asia, dec. I, livro VII, cap. II e seguintes), assim como Damião de Goes na (Chr. d'el-rei D. Manuel, I parte) e Camões nas oitavas 12 a 25 do canto X.




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O titulo do manuscripto é o seguinte: Esmeraldo de Situ orbis feito e composto por Duarte Pacheco cavalleiro da casa del Rey D. João o II de Portugal, que Deus tem, dirigido ao muyto alto e poderoso principe e serenissimo senhor, o senhor Rey D. Manuel nosso senhor, o primeiro d'este nome que reynou em Portugal. D'este livro existem duas copias, as mais completas e authenticas na Bibliotheca de Evora, das quaes deu noticia o distincto escriptor o sr. Rivara no vol. V do Panorama. Consultei a copia que possue a Bibliotheca Nacional de Lisboa, extraída de outra, que parece ter pertencido a D. Rodrigo da Cunha, bispo do Porto, e mais tarde arcebispo de Lisboa. Era para sentir, que esta importante obra se conservasse ainda inedita, mas julgo que em breve será publicada, por iniciativa e sob a direcção do sr. João de Andrade Corvo.




19


Veja-se a curiosa relação de Ramusio, sobre as informações que lhe deu o piloto a quem chama «persona périta, non solamente del'arte dell mare, ma anchora per le lettere e per il molto legger di diverti auttori pieno di molta cognitione.» (Ramusio, Delle navig. etc. I. p. 112 V.º Venetia, 1563.)




20


Cito a traducção publicada por ordem da Academia das Sciencias e feita pelo socio Sebastião Francisco de Mendo Trigoso. (Collec. de not. para a Hist. etc., II, p. 87.)




21


No texto italiano vem em portuguez o nome de pimenta de rabo, que era effectivamente a expressão vulgar; mas foi convertida em fórma mais academica na versão portugueza.




22


A mesma noticia se encontra nas notas com que Carlos de l'Escluze, mais conhecido pelo nome de Clusio, enriqueceu a sua traducção latina do livro de Garcia da Orta (Exoticorum libri decem etc., p. 184). João de Barros pelo contrario diz que el-rei mandou esta pimenta a Flandres, mas ahi não agradou tanto como a da India. Conciliam-se perfeitamente estas informações em apparencia encontradas. A noticia de João de Barros, confirmada pelo que diz Garcia de Resende, refere-se ao tempo de D. João II, época em que ainda não tinhamos attingido o termo tão desejado de nossas explorações, e em que o commercio das especiarias estava em mão dos venezianos, sendo natural que procurassemos attrair a attenção para os productos das terras africanas, de cujo commercio nos haviamos senhoreado. Pelo contrario, em tempos de D. Manuel e posteriores, já estava nas mãos dos portuguezes o monopolio das especiarias asiaticas, e, dadas as doutrinas commerciaes de então, bem se comprehendem as prohibições rigorosas de que falla a viagem a S. Thomé.




23


Veja-se a nota 1, a pag. 7.




24


O texto de Pordenone é o seguinte: «In ipsa (insula Jauá) nascuntur cubebae, melegetae, nuces que muscatae, multae que aliae species pretiosae». Veja-se H. Yule (Cathay and the way thither, etc., II. Appendix, I, XVII.)




25


Sabemos que pelos tempos de Frey Odorico se differençavam perfeitamente as duas drogas. Pegolotti no seu (Libro di divisameuti di paesi, etc.) inserido no tratado (Della decima, etc. III) falla das meleghette e do cardamomo como de mercadorias diversas; a mesma distincção faz um seculo mais tarde G. da Uzzano no (Libro di gabelli, etc.) egualmente inserido no (Della decima, etc. IV). Veja-se H. Yule (Cathay and the way thither, etc., I, pag. 88). A passagem de Rolandino Patavino, assim como a de Nicolau Myrepso antes citadas, dão tambem a malagueta e o cardamomo como coisas diversas. Veja-se a nota a pag. 9.




26


Eis a passagem em que Humboldt (Hist. de la géogr. du nouveau Continent, I, pag. 258), expõe esta theoria. «Como as producções vegetaes, analogas, e que se substituem mutuamente no commercio, tomam sempre o mesmo nome, o de malagueta, tão celebre no XV seculo, e que os pharmaceuticos transformaram em melegueta, maniguette e cardamomum piperatum parece-me derivar-se do nome indico do pimento, tal qual é usado na lingua de Sumatra. Acho na Cosmographia de Sebastião Munster (ed. de 1850 p. 1093), lingua patria sumatrensis piper molaga dicunt. O sabio auctor da Materia medica of Hindoostan, o sr. Ainslie dá tambem (ed. de Madrasta, 1813, p. 34) ao Piper nigrum o nome tamul de mellaghoo. Em sanskrito mallaja e maricha são synonymos de pippali. O primeiro designa mais particularmente, segundo Wilson, o Piper nigrum e o segundo o Piper longum.» A estes nomes apontados por Humboldt podemos accrescentar os que encontramos citados por Garcia da Orta (Colloquios dos simples, etc., p. 172, ed. 1872), pertencentes ás mesmas fórmas, como são molanga, meriche e merois. A semelhança de alguns d'estes nomes com a palavra melegueta é singular; julgo porém ser uma simples aproximação fortuita.




27


A palavra portuguesa pimenta não vem da mesma origem, como quer o padre Raphael Bluteau no Vocabulario, fazendo-a derivar de pimpilim, nome usado no Malabar. Deriva-se de pigmentum, que na baixa latinidade significava especiaria em geral: species aromatis. Ducange. (Gloss. ad script. med. et infim. lat. voc. pigmentum.)




28


Recherches sur la déc. des pays situés sur la cote occ. d'Afrique, etc. p. 266.




29


Mem. sobre a prioridade, etc., p. 39, e nota 7.ª, p. 196.




30


Na edição franceza da sua memoria (Recherches sur la déc. etc. Paris 1842), o visconde de Santarem cita Balducci Pegolotti, e a passagem onde falla da malagueta (p. LXV), mas não modifica a sua argumentação (p. 14 e 15).




31


Eis o que diz Matthioli: i grani, i quali chiamano alcuni meleghette per rasomigliarsi eglino (come credo io) al miglio indiano, il quale in alcuni luoghi d'Italia si chiama melega (I discorsi di M. P. Matthioli etc., nei sei libri di Dioscoride, p. 24. Venezia, 1712).




32


Foi publicado na (Storia d'Incisa, etc. Asti, 1810) e vem transcripta por Michaud (Hist. des Croisades, II, p. 494).




33


Sobre a verdadeira natureza da meliga e a introducção da cultura do milho na Europa pode-se consultar Bonafous (Hist. nat. agric. et éc. du maïs); e tambem A. de Candolle (Géogr. bot. rais., p. 943).




34


É esta a opinião apresentada pelo sr. Ernesto Renan (Hist. des langues sémitiques, p. 201-202, 4ème éd.), da qual, porém, se afastam alguns philologos, e entre outros o sr. Newman, que considera o berbér como um idioma semitico.




35


Veja-se sobre o alphabeto tifinar ou tifinag uma noticia do sr. A. Judas: (Journal Asiatique. Mai 1847) assim como o (Essai de grammaire tamackek.) do sr. Hanoteau.




36


Chron. da Conq. de Guiné. p. 83 e 365.




37


Diz Pomet «nous l'appellons aussi maniquette ou melaquette a cause d'une ville d'Afrique appelée Melega d'ou elle était autrefois apportée» (Hist. gén. des drogues, I, 42, 2.me éd.) Nicolau Lémery repete a mesma asserção quasi pelas mesmas palavras (Traité univ. des drogues simples, p. 152. Paris, 1698); e não obstante La Martinière, no seu diccionario ter mostrado ser falsa, ainda se encontra no diccionario do sr. Littré.

Uma derivação inversa, e que vem apontada na Africa de Ogilby, tambem envolve um erro. Diz-se ahi: grain coast is named melliguette or melli, from the abundance of grain of paradise there growing, wich the natives call mellegette. Confunde-se n'esta passagem a costa da Malagueta, a qual de feito recebeu o nome da droga com a região de Melli, situada já no centro de Africa ao meio dia de Timbuktu, e bem conhecida desde tempos remotos. Foi visitada em 1352 por Ibn Batuta, que a designa com o nome de Melle ou Mali (segundo a traducção do padre Moura) e figura na carta Catalan de 1375. Cadamosto tambem a conhecia, e indica com bastante rigor o itinerario das caravanas, que transportavam o sal de Tagazza a Timbuktu e a Melli. Só muito depois se começou a usar o nome de costa da Malagueta e nenhuma relação tem com o de Melli.




38


Eis alguns dos nomes citados pelo sr. Daniell: Attahre usado em Yorruba: Ussorgé em Ebo: Anniewhé em Accara: Weeza entre os Ashantis: Guetta e Emaneguetta entre os Krus: uma variedade de fructos mais pequenos é chamada Tosshan te timmané em Serra Leôa: Niammakyu entre os negros Susus: Bellankufo entre os Mandingas do interior; uma terceira variedade de fructos ainda menores recebe o nome de Tokoto m'pomah em Fernão do Pó, e de Dungo zargo e Dungo zenzambah no Congo. Conservei escrupulosamente a orthographia usada pelo sr. Daniell, que não é talvez a mais propria, e corresponde á impressão produzida em um ouvido inglez pelos sons dos dialectos africanos. Barbot, citado por Daniell, diz que nas proximidades do cabo Lopes, se dá á droga o nome de Calicute. Deve ser uma antiga designação portugueza, derivada da semelhança com a pimenta que vinha de Calecut.


