Tess
Andres Mann






TESS

O juÃ­zo final

ANDRES MANN



Tektime


Copyright Â© 2018 Andrew Manzini

Todos os direitos reservados.

Todos os direitos reservados. Salvo conforme permitido pela Lei de Copyright de 1976 dos Estados Unidos da AmÃ©rica, nenhuma parte desta publicaÃ§Ã£o poderÃ¡ ser reproduzida ou transmitida de nenhuma forma nem por quaisquer meios, nem armazenada num banco de dados ou sistema de recuperaÃ§Ã£o, sem autorizaÃ§Ã£o prÃ©via por escrito da editora. Esta Ã© uma obra de ficÃ§Ã£o. Os nomes, personagens, lugares e eventos sÃ£o criaÃ§Ãµes da imaginaÃ§Ã£o do autor ou usados de maneira fictÃ­cia. Qualquer semelhanÃ§a com locais, acontecimentos ou pessoas reais, vivas ou mortas, serÃ¡ pura coincidÃªncia.

Novel Green Publishing

V 1

TraduÃ§Ã£o:

JosÃ© Henrique Lamensdorf


Ã verdadeira Tess, a inspiraÃ§Ã£o desta histÃ³ria.




SUMÃRIO


SUMÃRIO (#ulink_b611ba0a-6861-5c43-ae2a-5c81e697cf17)

PERSONAGENS PRINCIPAIS (#ulink_9f9601d1-6168-57a8-a685-9b25568492d0)

PREFÃCIO (#ulink_99735c55-4782-5bd9-9903-ca52e4e25674)

1. MANTENDO A FORMA (#ulink_503cd31c-8366-54ec-966e-19a99383be73)

2. PLANEJANDO A TRAMOIA (#ulink_04a77747-a3cb-5919-a3a7-9ff663b9b7a1)

3. UMA NOITE TRANQUILA (#ulink_dc0b50de-b102-589f-a1ea-5a94f4c4f81a)

4. FAZENDO MÃSICA (#ulink_c42d28cd-bfec-5d09-9ef4-f5d773b42d31)

5. O SACRIFÃCIO DOS INOCENTES (#ulink_6340d39d-9ec1-5367-8a45-b0c02e648919)

6. ARMAS PERDIDAS (#ulink_1cbb4b2a-37aa-5a82-a082-801a91e46036)

7. UM RIO DE IMIGRANTES (#ulink_d7e37b11-a9b8-562f-bb0f-e3f33071aa87)

8. UMA CHAMADA AO DEVER (#ulink_594263b9-14b5-5e9f-a921-365b322cdbf3)

9. SALVANDO O MUNDO (#ulink_0f470286-72de-58a9-a39d-217d615eda22)

10. cinq-Ã -sept (#litres_trial_promo)

11. INTERVALO BÃLGARO (#litres_trial_promo)

12. NA BOCA DO LOBO (#litres_trial_promo)

13. A MISSÃO DE YASMIN (#litres_trial_promo)

14. O MAR DO SUL DA CHINA (#litres_trial_promo)

15. UMA CHANCE PARA BRILHAR (#litres_trial_promo)

16. MÃSICA EM MOSCOU (#litres_trial_promo)

17. O ENCANTO DE MENTES IGUAIS (#litres_trial_promo)

18. UM JANTAR NO KREMLIN (#litres_trial_promo)

19. TROPAS NA FRONTEIRA (#litres_trial_promo)

20. O PODERIO Ã MENOR (#litres_trial_promo)

21. O ÃXODO MODERNO (#litres_trial_promo)

22. A VINGANÃA (#litres_trial_promo)

23. NA TOCA DO MONSTRO (#litres_trial_promo)

24. DESTRUIÃÃO INIMAGINÃVEL (#litres_trial_promo)

25. OFENSIVA RUSSA (#litres_trial_promo)

26. ALICIANDO VALQUÃRIAS (#litres_trial_promo)

27. PLANEJANDO A GUERRA (#litres_trial_promo)

28. MÃS NOTÃCIAS (#litres_trial_promo)

29. OS WARTHOGS (#litres_trial_promo)

30. A BOMBA DESAPARECIDA (#litres_trial_promo)

31. PERSUASÃO AMIGÃVEL (#litres_trial_promo)

32. PREPARANDO-SE PARA O PIOR (#litres_trial_promo)

33. UM DIA EM TEERÃ (#litres_trial_promo)

34. O JUÃZO FINAL (#litres_trial_promo)

35. CONSELHO DE AMIGO (#litres_trial_promo)

36. REMORSO (#litres_trial_promo)

37. AS DÃVIDAS DE AARA (#litres_trial_promo)

38. O CONFRONTO (#litres_trial_promo)

39. ANGÃSTIA (#litres_trial_promo)

40. CONSOLO COM CLAUDINE (#litres_trial_promo)

41. AS PERGUNTAS DE AARA (#litres_trial_promo)

42. MÃLTIPLOS TALENTOS (#litres_trial_promo)

43. DE VOLTA A MOSCOU (#litres_trial_promo)

44. DIÃLOGO NO KREMLIN (#litres_trial_promo)

45. POR BAIXO DA PELE (#litres_trial_promo)

46. CONTENÃÃO DE DANOS (#litres_trial_promo)

47. PESADELOS (#litres_trial_promo)

48. QUERO VOCÃ DE VOLTA (#litres_trial_promo)

49. ADIEU (#litres_trial_promo)

50. FÃRIA NOTURNA (#litres_trial_promo)

51. PROCURANDO AJUDA (#litres_trial_promo)

52. O RETORNO (#litres_trial_promo)

53. A NOVA AVENTURA DE CLAUDINE (#litres_trial_promo)

54. COMEMORAÃÃES (#litres_trial_promo)

55. LUGARES ABANDONADOS (#litres_trial_promo)

56. O FIM DE UMA ERA (#litres_trial_promo)

57. NOVAS REGRAS (#litres_trial_promo)

O AUTOR (#litres_trial_promo)

REFERÃNCIAS (#litres_trial_promo)




PERSONAGENS PRINCIPAIS


A Equipe da Strategic Resources Development (SRD)

As ValquÃ­rias

Morgan Theresa Turner, que parentes e amigos chamam de Tess, pilota de aviÃµes militares, e vice-presidente da empresa de serviÃ§os militares SRD.

Carmen Cabrera, pilota de helicÃ³ptero, grande amiga de Tess, e diretora na SRD.

Claudine Bisson, francesa, pilota de aviÃ£o de caÃ§a, e a chefe da SRD em Paris.

Galina Kutuzova, pilota russa e especialista em bancos de dados.

Yasmin Badawi, arqueÃ³loga sÃ­ria, ex-prisioneira do Estado IslÃ¢mico, e posteriormente integrante da SRD.

Ifeyinwa Idigbe Ukume, conhecida como Alice, uma detetive nigeriana.

Os homens

Jake Vickers, marido de Tess. Ex-agente da CIA e presidente da SRD.

General Morgan Turner, reformado. Pai de Tess e agora CEO da NTC, uma empresa fabricante de sistemas de armamento.

Nicola Orsini, marido de Carmen, piloto italiano, perito em sistemas de armamento europeus e tambÃ©m poliglota de sucesso.

Alexander Ivanovich Tukhachevsky, conhecido como Alex Tuck para simplificar, amante de Galina e especialista em armamentos russos.

George Kimmel, profissional da inteligÃªncia militar.

Ken Ross, atirador de elite e diretor na SRD.

Joe Slezak, gerente de informÃ¡tica.

John Powers, especialista em armas.

Outros personagens

Vaughn Wentworth, famoso maestro da mÃºsica clÃ¡ssica e agente do MI5 britÃ¢nico.

Laurent Belcour, ex-chefe da IDO â International Development Organization (OrganizaÃ§Ã£o Internacional de Desenvolvimento).

Paul Saunders, diretor adjunto da CIA.

Eva Bar-Lev, agente do Mossad israelense.

Vladimir Putin, presidente da RÃºssia.

Kim Jung-un, lÃ­der da Coreia do Norte.

Major-General Kevin Brooks, CENTCOM (Comando Central dos Estados Unidos).

Coronel Howard Anders, CENTCOM.

Brigadeiro-General Somi Okafor, comandante nigeriano.

Park Tan-Gyong, famoso violoncelista norte-coreano.




PREFÃCIO


Nossa histÃ³ria continua com Tess, Jake e sua equipe batalhando para impedir que terroristas utilizem armas nucleares. TambÃ©m procuram lidar com outros grandes desafios enfrentados pelo mundo atual: o esforÃ§o dos lÃ­deres russos para reconquistar a influÃªncia do seu paÃ­s apÃ³s a queda da UniÃ£o SoviÃ©tica; a intransigÃªncia e o perigo da Coreia do Norte; a disfunÃ§Ã£o e a corrupÃ§Ã£o no continente africano; as terrÃ­veis guerras no Oriente MÃ©dio; a abominaÃ§Ã£o do Estado IslÃ¢mico, ou EI; e a tragÃ©dia de 16 milhÃµes de refugiados clamando por asilo na Europa.

Este livro Ã© uma obra de ficÃ§Ã£o, embora mencione o nome de pessoas reais que frequentam o noticiÃ¡rio atual. Procurei manter a aÃ§Ã£o coerente com os fatos reais. Boa parte desta histÃ³ria Ã© baseada em acontecimentos contemporÃ¢neos noticiados pela mÃ­dia internacional. Contudo qualquer semelhanÃ§a dos personagens com pessoas reais serÃ¡ mera coincidÃªncia.

As opiniÃµes e os comentÃ¡rios polÃ­ticos expressados nesta obra sÃ£o exclusivamente do autor.




1. MANTENDO A FORMA


A

ara estava preenchendo seu requerimento de matrÃ­cula para a Escola de MÃºsica Juilliard. Sentada ao lado da adolescente, Tess - sua mÃ£e adotiva â ajudava-a na verificaÃ§Ã£o dos requisitos.

- Vamos ver... O histÃ³rico escolar estÃ¡ aqui. Equipamento audiovisual... confere. DeverÃ¡ tocar todas as mÃºsicas de cor, nenhum problema. DeverÃ¡ passar por um exame escrito de habilidades bÃ¡sicas como instrumentista, e uma avaliaÃ§Ã£o pessoal da habilidade musical, tudo bem. O candidato deverÃ¡ tocar um prelÃºdio e fuga do Cravo bem temperado de Bach, ou uma obra que contenha uma fuga; nisso aqui vocÃª vai se sair bem. Deram uma lista de sonatas, para vocÃª escolher uma. Fique com Beethoven. Querem que toque uma composiÃ§Ã£o importante de Chopin, Schumann, blÃ¡-blÃ¡-blÃ¡. Escolha Chopin. Nisso vai ter de trabalhar um pouco, porque querem dois estudos com desempenho virtuoso. Vamos ver quais vocÃª prefere tocar. Pedem mais algumas mÃºsicas, porÃ©m nenhuma delas serÃ¡ um desafio para vocÃª. Com um pouco de prÃ¡tica, vocÃª estÃ¡ pronta para isso. O Jake jÃ¡ providenciou uma cÃ¢mera e uma equipe de som para gravar o vÃ­deo.

Aara pareceu um pouco receosa.

- Talvez eu ainda nÃ£o esteja pronta para isso, mamÃ£e.

- Bobagem! â Tess tranquilizou-a, remexendo a papelada. - VocÃª estÃ¡ terminando a escola com nota mÃ¡xima, e jÃ¡ toca piano hÃ¡ cinco anos. Sua professora garantiu que vocÃª vai arrasar.

- Mas eu ainda nÃ£o tenho certeza de que sou boa o bastante.

Tess pegou a mÃ£o da menina entre as suas.

- Querida, vocÃª tem um talento enorme. NinguÃ©m toca Chopin melhor do que vocÃª. As pessoas chegam a chorar de emoÃ§Ã£o.

- Talvez eu devesse entrar para as ValquÃ­rias. O que elas fazem Ã© legal.

- Aara, as ValquÃ­rias tocam mÃºsica como hobby. Nosso trabalho diÃ¡rio Ã© pilotar aviÃµes e lidar com equipamento militar. O que fazemos nÃ£o Ã© fÃ¡cil. Ã preciso um bocado de treinamento, e Ã s vezes corremos perigo. Acredite, nÃ£o vai gostar disso. De qualquer modo, ainda Ã© muito novinha.

- Mas parece divertido. Ã melhor do que passar os prÃ³ximos anos tocando piano.

- Aara, garanto que boa parte do que nÃ³s fazemos nÃ£o Ã© nada divertido. VocÃª tem mais talento do que eu. Pode ter uma carreira magnÃ­fica como pianista.

- Eu tenho medo, Tess.

- Ã claro que tem medo, querida. Juilliard Ã© uma das melhores escolas de mÃºsica do mundo, mas pouca gente tem talento suficiente para entrar lÃ¡, sem falar em ter sucesso depois. De qualquer modo, vamos ajudar vocÃª.

- Se vocÃª diz isso... â resmungou Aara, com um tom de ceticismo.

- Hoje Ã© a minha vez de comandar a sessÃ£o de exercÃ­cios do pessoal na academia. Quer vir junto?

- Legal!

- Ãtimo! Vista suas roupas de ginÃ¡stica e vamos embora.

â¦â¦â¦

Morgan Theresa Turner, que os amigos chamavam de Tess, era filha de um militar. Ela se tornara pilota de helicÃ³ptero militar, chegando Ã  patente de major. Seu marido, Jake Vickers, tambÃ©m era piloto e ex-agente da CIA. Juntos, eram donos de uma empresa de serviÃ§os militares chamada Strategic Resource Development (SRD) que prestava serviÃ§os de consultoria militar, avaliaÃ§Ã£o de armamentos e treinamento em aeronÃ¡utica para paÃ­ses em desenvolvimento. Tess e Jake desfrutavam de uma reputaÃ§Ã£o impecÃ¡vel, por trabalharem sempre no melhor interesse de seus clientes. O pessoal da SRD incluÃ­a pessoas de diversos paÃ­ses, cada um com um histÃ³rico profissional impressionante e uma notÃ¡vel experiÃªncia militar. Seus talentos nÃ£o os isentavam de participar de sessÃµes intensivas de exercÃ­cios fÃ­sicos na academia de ginÃ¡stica da empresa, situada na Rua 57, em baixo do seu escritÃ³rio em Nova York.

Naquela manhÃ£, vÃ¡rios integrantes do grupo estavam se aquecendo.

Carmen Cabrera, que pilotara helicÃ³pteros de combate junto com Tess durante a Guerra do Iraque, era e melhor amiga de Tess, e diretora na empresa. Era miudinha, porÃ©m feroz como sÃ³ alguÃ©m que cresceu nos guetos de Los Angeles poderia se tornar. Nicola Orsini, o marido de Carmen era loiro, alto e bonitÃ£o, vindo do norte da ItÃ¡lia. TambÃ©m era piloto, perito em sistemas de armamento europeus, e o melhor amigo de Jake. AlÃ©m disso, era fluente em vÃ¡rios idiomas, uma habilidade muito Ãºtil para a empresa, que atuava em vÃ¡rios paÃ­ses pelo mundo afora. Naquela manhÃ£, teve um pouco de dificuldade para convencer sua amada a sair da cama e ir para a ginÃ¡stica. Finalmente Carmen conseguiu se arrastar atÃ© a cozinha. Um pouco nauseada, ela abriu mÃ£o do cafÃ© da manhÃ£, contentando-se com um copo de leite.

Claudine Bisson, a chefe da SRD em Paris, era uma pilota francesa de aviÃµes de caÃ§a. Vinha regularmente a Nova York para participar de reuniÃµes. Assim como Tess, ela era linda, selvagem e agitada, contudo o que a diferenciava era um senso de humor sarcÃ¡stico que imediatamente encantava a todos. Numa busca perpÃ©tua pelo homem perfeito, ela ainda nÃ£o o encontrara. Conquistava multidÃµes de homens, mas todos os que chegava a conhecer acabavam se mostrando egocÃªntricos, preguiÃ§osos e covardes.

Galina Kutuzova, russa, pilota de helicÃ³pteros e especialista em bancos de dados, vivia junto com Alexander Ivanovich Tukhachevsky, conhecido como Alex Tuck para simplificar, que tambÃ©m era russo, especialista em armas. Ambos haviam sido atletas olÃ­mpicos, e sua aparÃªncia nÃ£o deixava dÃºvidas. Foram apelidados de Thor e Brunilda pelo pessoal, por serem dois espÃ©cimes divinos da raÃ§a humana. Altos, loiros, musculosos e com feiÃ§Ãµes esportivas, eles realmente pareciam deuses nÃ³rdicos. Haviam dormido pouco na noite anterior, tendo ficado atÃ© a alta madrugada conversando com amigos vindos da RÃºssia a turismo, relembrando histÃ³rias da terra natal. O resultado previsÃ­vel da festa foi uma tremenda ressaca de vodca. Resmungando, os dois se arrastaram atÃ© a academia.

Ifeyinwa Idigbe Ukume, que a Equipe chamava de Alice era uma detetive da NigÃ©ria que jÃ¡ havia trabalhado com a equipe da SRD no combate Ã  prostituiÃ§Ã£o de nigerianas na Europa. Quando vinha a Nova York, participava das atividades do grupo.

George Kimmel era um profissional da inteligÃªncia militar, trabalhando diretamente com Jake. Vivia com Yasmin Badawi, uma arqueÃ³loga sÃ­ria que ele e Nicola haviam resgatado do Estado IslÃ¢mico, o grupo terrorista. Yasmin sofrera abuso e ficara traumatizada, porÃ©m conseguira se recuperar graÃ§as Ã  ajuda dos amigos na SRD e, no Ãºltimo ano, se tornara uma valiosa integrante da empresa. Estava decidida a se vingar de seus captores, e muito motivada a aprender habilidades militares. Ela e George eram participantes entusiÃ¡sticos das atividades atlÃ©ticas da empresa. Para se aquecer antes dos exercÃ­cios, iam correndo desde o seu apartamento na Rua 14.

Ken Ross era um atirador de elite e diretor da empresa. Veterano do exÃ©rcito, tendo servido no Iraque e no AfeganistÃ£o, era um solitÃ¡rio imbuÃ­do de uma lealdade ilimitada a Jake e Tess. Mantinha-se em muito boa forma, e as sessÃµes de ginÃ¡stica, trÃªs vezes por semana, nÃ£o eram nenhum desafio para ele.

Joe Slezak era o gerente de TI da SRD, que trabalhava junto com Galina. Magrelo, de bigode e cavanhaque, era um gÃªnio com computadores. Tentava manter um relacionamento de longa data com sua noiva Trudi, uma cantora de Ã³pera argentina que viajava pelo mundo inteiro. Quando ela nÃ£o estava por perto, era normal Joe ficar de mau humor.

E finalmente John Powers, um especialista em armas. Sabia usar todas as mÃ¡quinas mortÃ­feras do arsenal, e ficava incumbido de treinar o pessoal.

As cinco mulheres principais, que foram apelidadas de âValquÃ­riasâ pelo resto da empresa, formavam o nÃºcleo de operadoras, agentes e pilotas envolvidas em serviÃ§os de treinamento em aeronaves e armas para paÃ­ses do Terceiro Mundo que precisassem aprimorar a capacitaÃ§Ã£o de suas forÃ§as armadas. De vez em quando a empresa entrava em combate de verdade, o mais recente tendo sido contra o Boko Haram, na NigÃ©ria. TambÃ©m lutaram no MÃ©xico, onde as ValquÃ­rias e os homens da SRD dizimaram um comboio de traficantes mexicanos, libertando centenas de mulheres destinadas Ã  prostituiÃ§Ã£o nos Estados Unidos.

Como hobby, as mulheres tocavam mÃºsica de cÃ¢mara como âAs ValquÃ­riasâ, um conjunto criado por Jake para bancar um projeto contra o trÃ¡fico de pessoas, que lhes consumiu um ano inteiro. As mulheres davam concertos vÃ¡rias vezes por ano, e a renda era destinada a diversas ONGs que lutavam contra a exploraÃ§Ã£o de mulheres.

Os principais executivos da SRD se revezavam na conduÃ§Ã£o de sessÃµes puxadas de exercÃ­cios fÃ­sicos para todo o pessoal. Quando todos se reuniram na academia e descobriram que seria a vez de Tess comandar os exercÃ­cios, logo comeÃ§aram a se lamentar. Galina, que tomara quatro aspirinas para dominar sua ressaca, apoiou-se em Alex, acometido do mesmo mal, e disse que preferia ter de pular da ponte do Brooklin do que aguentar a crueldade impiedosa de Tess. Alex concordou que era uma boa alternativa, e que ele a acompanharia naquele salto.

Carmen, habitualmente uma participante empolgada, havia conseguido controlar seu estÃ´mago, e secretamente ansiava por escapar daquela tortura, mas tinha certeza de que sua ausÃªncia seria notada. ComeÃ§ou a fazer o aquecimento ao lado de Nicola, que nÃ£o parecia preocupado com o desafio iminente.

Nenhuma das lamÃºrias do pessoal conseguiu abalar a determinaÃ§Ã£o de Tess em fazer uma sessÃ£o de ginÃ¡stica puxadÃ­ssima, seguida de levantamento de pesos e artes marciais. Os participantes haviam batizado a sequÃªncia de exercÃ­cios de Tess como a âSanta InquisiÃ§Ã£oâ, e durante o exercÃ­cio soltavam alguns âodeio vocÃªâ e âacho que vou vomitarâ. Intransigente quanto Ã  boa forma, Tess ignorava as sÃºplicas e persistia em exigir que o pessoal desse o mÃ¡ximo de si.

Depois de duas horas de tortura do corpo, a sessÃ£o terminava com uma corrida pela cidade. O percurso favorito de Tess cortava o Central Park paralelamente Ã  5Âª Avenida. Os homens preferiam correr atÃ© o Battery Park.

As ValquÃ­rias eram todas deslumbrantes e em perfeita forma, muitas vezes atraindo os olhares de sujeitos safados que lhes dirigiam olhares, gestos e gracinhas, tentando interferir no exercÃ­cio. Ã medida que o grupo se aproximou da Rua 97, na parte norte do Central Park, cinco homens desgrenhados sem nada melhor para fazer estavam em busca de novas vÃ­timas. Aparentemente lhes faltava discernimento, porque resolveram ir atrÃ¡s das mulheres bonitas. Depois de seguirem o grupo correndo por algum tempo, deram uma acelerada ao perceberem que Carmen estava ficando para trÃ¡s, e tentaram puxÃ¡-la para fora da corrida. As outras mulheres, ocupadas em acompanhar o ritmo de Tess, nÃ£o viram o que acontecia ali atrÃ¡s. Um dos homens agarrou Carmen pelo braÃ§o e tentou atirÃ¡-la ao chÃ£o. Carmen saltou como um gato, deu uma cambalhota, e caiu em pÃ© diante dele.

Um sujeito grandalhÃ£o e muito peludo, com um sorriso idiota no rosto, encarava a bela, porÃ©m pequena mulher.

- O que temos aqui? Parece um lanchinho bem gostoso.

Carmen lanÃ§ou-lhe um olhar de ceticismo.

- E vocÃª acha que vai dar uma mordida?

O homem se aproximou.

- Posso querer um pouco mais. Que tal o sanduÃ­che inteiro?

Quando ele estendeu o braÃ§o para pegÃ¡-la, Carmen subitamente deu um salto para cima, acertou ambos os pÃ©s no peito dele, e fez o troglodita insolente bater com as costas no chÃ£o. O animal atingido ficou deitado um pouco, tentando voltar a respirar novamente. Enquanto isso, seus capangas, sentindo-se insultados pela ousadia daquela baixinha que se recusava a ser sua vÃ­tima, partiram para atacÃ¡-la. Mas deram de cara com Tess, que voltara par ver o que estava acontecendo.

Tess percebeu que seria uma rara oportunidade para exibir suas tÃ©cnicas pessoais de luta. Deu um salto no ar, e acertou simultaneamente um pontapÃ© no queixo de cada um dos dois agressores mais prÃ³ximos, fazendo-os tombarem como sacos de batatas. NÃ£o demorou para o resto das garotas entrar na danÃ§a e colocar em prÃ¡tica suas artes marciais nos rufiÃµes restantes, que acabaram criando juÃ­zo e saÃ­ram mancando dali o mais rÃ¡pido que puderam.

Tess foi falar com Carmen, preocupada.

- Tudo bem com vocÃª, amiga?

- Claro, sÃ³ estava me divertindo um pouco. SÃ£o apenas ratos da cidade.

- Assim vocÃª ofende os nobres roedores.

- Tem razÃ£o, Tess. Na verdade, eles sÃ£o vermes.

O grupo retomou a corrida, rindo da saÃ­da humilhante dos aspirantes a bandidos. Perto do final, Carmen alcanÃ§ou Tess, que ainda nÃ£o demonstrava o mais leve sinal de fadiga.

- Tess, eu devo estar ficando velha. Estou sem fÃ´lego. VÃ¡ um pouco mais devagar.

- Carmen, vocÃª nunca foi de amarelar. FaÃ§a uma forÃ§a.

Tess saiu novamente em disparada.

- Vamos ver quem chega primeiro no escritÃ³rio!

Carmen parou e se encolheu, pois seu estÃ´mago estava enviando mensagens. O enjoo voltara. As outras ValquÃ­rias passaram por ela, exortando-a a fazer forÃ§a. Carmen retomou a corrida, mas logo teve de parar e sentou-se na entrada de uma casa, tentando recobrar o fÃ´lego. Tess olhou para trÃ¡s e viu. Correu para Carmen e sentou-se ao seu lado, preocupada.

- O que houve, garota? Nunca vi vocÃª desistir. Aqueles homens deixaram vocÃª mal?

Carmen respirava com dificuldade, tentando nÃ£o sucumbir Ã  nÃ¡usea.

- Tess, acho que estou grÃ¡vida. Isso Ã© tÃ£o inconveniente.

Tess sorriu.

- Carmen, isso Ã© uma Ã³tima notÃ­cia! Nicola vai pirar de alegria.

- Sim, mas como Ã© que eu fico? Isso era para acontecer sÃ³ daqui a um ano.

- As coisas acontecem quando menos se espera. Um bebÃª Ã© uma coisa maravilhosa. A famÃ­lia do Nicola vai endoidar.

- Sim, eles e a cidade inteira de Chiavari. VÃ£o fazer questÃ£o de me arrastar de volta para a ItÃ¡lia, para poderem me trancar num quarto, onde a Mamma e as irmÃ£s do Nicola vÃ£o se revezar para cuidar de mim 24 horas por dia, me entupir de comida, como se eu fosse um ganso de Estrasburgo. NÃ£o vou poder me mexer, e vou virar uma baleia.

- Sem essa, Carmen. EstÃ¡ exagerando. Conheci a famÃ­lia do Nicola, e sÃ£o pessoas adorÃ¡veis.

- Eu adoro todos eles, Tess, mas nÃ£o quero ir para lÃ¡. AlÃ©m disso, eles tÃªm uns hÃ¡bitos bem estranhos. Ainda nÃ£o acreditam em ar condicionado, lavadoras de louÃ§a, nem secadoras de roupa. Ãs vezes me deixam maluca.

Tess deu risada.

- Isso faz parte do encanto deles. JÃ¡ contou para o Nicola?

- NÃ£o. Tenho medo de que ele me despache para a ItÃ¡lia na mesma hora em que souber.

- Poderia ser pior, mas tenho certeza de que podemos dar um jeito. Vamos nos adaptar para as suas limitaÃ§Ãµes. VocÃª nÃ£o terÃ¡ de ir para a NigÃ©ria com a equipe. Daremos um jeito.

Tess estava mentindo. Carmen era o centro das operaÃ§Ãµes, e a guru da logÃ­stica da empresa.

- Eu vou para a NigÃ©ria, Tess.

- NÃ£o se preocupe, Carmen. Daremos um jeito. Ter um filho Ã© uma ocasiÃ£o muito especial. VocÃª deveria poder curtir a gravidez. Acredite, hÃ¡ poucas coisas mais lindas na vida.

- Eu sei, Tess, mas nÃ£o quero ficar de fora. Temos muito trabalho a fazer, e nÃ£o vou dar mancada com vocÃª nem com a equipe.

- VocÃª nunca deu mancada conosco, Carmen, e agora nÃ£o Ã© hora de comeÃ§ar. Anime-se, curta essa fase incrÃ­vel, e nÃ³s vamos dar um jeito nisso.

- Obrigada, Tess. VocÃª Ã© um amor. SÃ³ precisamos planejar para o bebÃª nÃ£o atrapalhar.

- NÃ£o se preocupe. DÃª a boa notÃ­cia ao Nicola, e vÃ£o comemorar num bom restaurante.

Carmen abraÃ§ou Tess. Foram andando atÃ© o escritÃ³rio, fazendo planos para as aventuras que teriam pela frente.




2. PLANEJANDO A TRAMOIA


E

m Pyongyang, Coreia do Norte, Laurent Belcour relaxava dentro de uma enorme banheira. Duas mulheres asiÃ¡ticas, uma de cada lado, murmuravam enquanto acariciavam seu tÃ³rax peludo de maneira sedutora. No outro lado da banheira, Kim Jong-un, o LÃ­der Supremo da Coreia do Norte, recebia o mesmo tratamento de duas mulheres loiras muito altas. Kim estava em tratamento para gota. GlutÃ£o, havia engordado a ponto de pesar quase 150 kg, e sofria de vÃ¡rios males causados pelo seu estilo de vida desregrado. Ao redor deles havia muitas belas mulheres, todas jovens, que compunham a âtrupe dos prazeresâ de Kim. Elas apenas ficavam paradas ali, em prontidÃ£o para atender a qualquer desejo do ditador.

Quando chegou ao poder, o LÃ­der Supremo desmanchou um grupo de mulheres escolhidas a dedo por seu pai e antecessor, Kim Jong-il. Ao final do perÃ­odo de trÃªs anos de luto oficial pela morte de seu pai, o novo ditador norte-coreano ficou livre para escolher uma nova geraÃ§Ã£o de companheiras femininas. Enviou agentes em busca das mulheres mais atraentes do paÃ­s, que as distribuÃ­ram pelas muitas mansÃµes do ditador, onde se esperava que ficassem Ã  disposiÃ§Ã£o dele.

Embora a maioria das mulheres tivesse habilidades, como cantoras, danÃ§arinas ou serviÃ§ais, a elite norte-coreana transformava as consideradas mais bonitas em concubinas. Segundo a imprensa estrangeira, muitas das mulheres que âse aposentaramâ desse serviÃ§o aos vinte e poucos anos de idade, foram parar nos braÃ§os de oficiais militares que queriam alguÃ©m com quem se casar.

AtÃ© o ano anterior, Laurent Belcour era o chefe da International Development Organization (IDO). Teve de renunciar ao cargo em decorrÃªncia de um episÃ³dio desagradÃ¡vel nos tribunais da FranÃ§a, quando teve de se defender de acusaÃ§Ãµes de usar prostitutas em orgias que ele organizava. Esta era a mais leve das suas contravenÃ§Ãµes que, na vida real, incluÃ­am o trÃ¡fico de menores para prostituiÃ§Ã£o. Ele e seus comparsas conseguiram escapar da condenaÃ§Ã£o, porÃ©m o dano estava feito. Ele nÃ£o sÃ³ perdera aquele cargo de grande prestÃ­gio, mas sua reputaÃ§Ã£o ficara arruinada. Contudo esse infortÃºnio nÃ£o o impediu de prosseguir em suas aventuras sexuais, nem com o trÃ¡fico de pessoas.

O passado desairoso de Belcour nÃ£o afetou seu valor como um arguto estrategista financeiro. Rapidamente montou um escritÃ³rio de consultoria focado nos desafios econÃ´micos dos paÃ­ses em desenvolvimento. Era habilidoso em criar estratÃ©gias que, na maioria dos casos, geravam bons resultados. A notÃ­cia se espalhou, e ele se encontrava bem atarefado, dando assessoria a muitos chefes de estado.

Seu projeto mais recente envolvia a Coreia do Norte, ajudar a achar soluÃ§Ãµes para as condiÃ§Ãµes econÃ´micas miserÃ¡veis que afligiam esse paÃ­s. Acabara de concluir sua anÃ¡lise dos principais aspectos financeiros, e o que constatou nÃ£o era nada promissor.

O LÃ­der Supremo continuava apreciando os prÃ©stimos das duas esplÃªndidas beldades ucranianas.

- EstÃ¡ gostando das mulheres que eu lhe trouxe, Grande LÃ­der? â perguntou Belcour.

- Muito mesmo. - respondeu o tirano gorducho. - Ã bom experimentar mulheres altas e lindas de vez em quando. EstÃ¡ satisfeito com as nossas mulheres locais?

- SÃ£o agradÃ¡veis e obedientes, Grande LÃ­der. NÃ£o deixam nada a desejar.

Os dois conversavam em francÃªs, que Kim aprendera na SuÃ­Ã§a, onde estudou quando jovem.

- Monsieur Belcour, tenho a impressÃ£o de que jÃ¡ analisou nossos dados financeiros e as estatÃ­sticas econÃ´micas. Chegou a alguma conclusÃ£o?

- Cheguei, sim, Grande LÃ­der, mas receio que a situaÃ§Ã£o nÃ£o seja promissora. NÃ£o sei se devo estragar esta tarde agradÃ¡vel com a chatice de um monte de nÃºmeros.

- Foi por isso que eu o convidei para me visitar, Belcour. Meus oficiais sÃ£o medrosos, nÃ£o tÃªm coragem de conversar sobre coisas desagradÃ¡veis.

Uma verdade, visto que Kim tinha propensÃ£o a mandar executar sumariamente quem lhe dissesse qualquer coisa que nÃ£o fosse do seu agrado.

- Bem, vocÃª disse que queria uma opiniÃ£o sem censura da situaÃ§Ã£o atual, e que eu lhe sugerisse possÃ­veis soluÃ§Ãµes. Vou fazer um resumo de onde estamos. HÃ¡ as sanÃ§Ãµes impostas pelos Estados Unidos e outros paÃ­ses do Ocidente, porque o seu programa nuclear e de mÃ­sseis impediram seu paÃ­s de participar da comunidade financeira internacional. Para compensar, a China tem apoiado a Coreia do Norte, permitindo que o seu povo trabalhe nas fÃ¡bricas deles, localizadas fora das suas fronteiras. Os chineses pagam o salÃ¡rio deles para o seu governo, e vocÃª paga aos trabalhadores o quanto quer. VocÃª tinha um acordo semelhante com a Coreia do Sul para as fÃ¡bricas dentro do seu paÃ­s, mas os sul-coreanos se retiraram depois que comeÃ§ou a lanÃ§ar mÃ­sseis para a estratosfera. Isso nÃ£o ajudou. VocÃª precisa muito dos dÃ³lares gerados pela cooperaÃ§Ã£o com a Coreia do Sul.

- Eu nÃ£o me preocuparia muito com as minhas discussÃµes com meus camaradas do sul; eles sÃ£o fracos e medrosos. Sabem que sou capaz de apagar Seul do mapa em um ou dois dias, porque a cidade fica muito perto da nossa fronteira. Dependo da China, e me divirto aborrecendo os chineses. Eles sabem muito bem que nÃ£o tÃªm outra opÃ§Ã£o a nÃ£o ser apoiar o meu regime, porque a Ãºltima coisa que podem querer Ã© uma Coreia reunificada, apoiada e armada pelos Estados Unidos logo atrÃ¡s da fronteira. De qualquer modo, vocÃª sabe que boa parte do nosso comÃ©rcio Ã© com a China, que fornece os artigos de luxo de que eu preciso para manter o meu alto escalÃ£o contente.

- Com o devido respeito, Grande LÃ­der, a situaÃ§Ã£o nÃ£o Ã© sustentÃ¡vel no longo prazo. Quanto mais ameaÃ§ar uma guerra com suas armas nucleares, mais os aliados irÃ£o apertar o nÃ³. Em algum momento vocÃª serÃ¡ forÃ§ado a capitular, a menos que encontremos soluÃ§Ãµes criativas.

- Gosto da sua linha de raciocÃ­nio, Belcour. SoluÃ§Ãµes criativas Ã© um ingrediente em falta nos meus cÃ­rculos. Conte-me as suas ideias.

- SerÃ¡ um prazer lhe dar as minhas ideias, mas primeiro tenho de sair desta banheira, antes que seja cozido vivo.

O LÃ­der Supremo fez um aceno com a mÃ£o, e vÃ¡rias mulheres lhes trouxeram grandes toalhas. Kim e Belcour passaram para uma mesa de canto, enfeitada com um belo arranjo de flores. Outras mulheres trouxeram duas taÃ§as e serviram de uma garrafa de Dom Perignon.

Belcour deu um gole e se preparou para mostrar o seu plano.

- Grande LÃ­der, precisamos pensar de maneira pouco convencional, se quisermos avanÃ§ar e superar os obstÃ¡culos Ã  nossa frente. Os Estados Unidos e seus aliados vÃ£o continuar impondo sanÃ§Ãµes, e nÃ£o irÃ£o afrouxar atÃ© vocÃª abandonar seu programa de armas nucleares. Eles conseguiram forÃ§ar o IrÃ£ a abandonar o programa deles, e agora acham que podem usar a mesma estratÃ©gia com seu paÃ­s.

- Os iranianos nÃ£o tinham as bombas, mas eu tenho. Meus militares estÃ£o trabalhando na miniaturizaÃ§Ã£o de armas nucleares neste exato momento. Em breve, terei condiÃ§Ãµes de lanÃ§ar mÃ­sseis capazes de atingir o oeste dos Estados Unidos. Isso conseguirÃ¡ chamar a atenÃ§Ã£o deles.

- Grande LÃ­der, jÃ¡ estÃ¡ atraindo mais atenÃ§Ã£o do que deveria. A Frota do PacÃ­fico dos Estados Unidos estÃ¡ no mar do sul da China. Seu objetivo principal Ã© enviar uma mensagem aos chineses depois de eles terem ocupado ilegalmente algumas ilhas desertas, mas tambÃ©m estÃ£o lÃ¡ para deixÃ¡-lo cercado. Voaram impunemente dentro do seu espaÃ§o aÃ©reo com caÃ§as invisÃ­veis F-22, e estÃ£o trazendo bombardeiros B-52, capazes de transportar armas nucleares. Se lanÃ§ar um mÃ­ssil rumo a qualquer lugar prÃ³ximo Ã  zona de interesse deles, os americanos irÃ£o atacÃ¡-lo com tudo para se vingar. Se lanÃ§ar suas armas nucleares para onde elas nÃ£o deveriam ir, os americanos irÃ£o transformar o seu paÃ­s num enorme pÃ¡tio de estacionamento.

- NÃ£o antes de eu ter apagado Seul do mapa.

Belcour comeÃ§ava a perder a paciÃªncia com a obstinaÃ§Ã£o daquele CalÃ­gula asiÃ¡tico. Sabia que precisava encontrar alguma soluÃ§Ã£o para demovÃª-lo daquela irracionalidade.

- Grande LÃ­der, nÃ£o pode esperar que a China continue a apoiÃ¡-lo se soltar bombas atÃ´micas nos seus vizinhos, nem precisa ser nos Estados Unidos. A China agora tem laÃ§os econÃ´micos muito fortes com os Estados Unidos e a Europa. NÃ£o teriam nada a ganhar entrando em guerra com seus maiores clientes.

- Os chineses continuarÃ£o me apoiando, porque nÃ£o tÃªm outra opÃ§Ã£o.

- Novamente, eu nÃ£o contaria mais com isso. De qualquer modo, se comeÃ§ar uma guerra, vocÃª nÃ£o tem recursos para resistir por mais do que umas poucas semanas. Pode se vangloriar de suas armas nucleares mas, se chegar a usÃ¡-las, isso causarÃ¡ o fim do seu regime e do seu povo. PeÃ§o desculpas se estiver sendo demasiadamente direto e objetivo.

- Vamos supor que vocÃª tenha razÃ£o, Belcour. Qual Ã© o seu plano?

Belcour sorveu mais um gole de champanhe e falou como se estivesse dando uma aula.

- Grande LÃ­der, precisamos desviar a atenÃ§Ã£o dos poderes ocidentais de sua pessoa, para permitir a execuÃ§Ã£o de certas aÃ§Ãµes destinadas a melhorar a situaÃ§Ã£o estratÃ©gica do seu paÃ­s. Esta Ã© a minha sugestÃ£o: use um dos seus valiosos ativos para criar um tumulto capaz de forÃ§ar os aliados a posicionarem seu aparato bÃ©lico em outro lugar e prestarem menos atenÃ§Ã£o no que vocÃª pretende fazer.

- De que ativos estÃ¡ falando, Belcour?

- Das suas bombas nucleares, Ã© claro. Tudo o que precisamos Ã© âperderâ uma delas, ganhar uns trocados vendendo-as aos terroristas do Oriente MÃ©dio, e deixar as coisas acontecerem.

Kim parou para pensar.

- Sem dÃºvida, os terroristas irÃ£o usar essas armas, e pouco me importa se o fizerem. O problema Ã© que os americanos serÃ£o capazes de rastrear o material nuclear atÃ© sua origem. EntÃ£o eles virÃ£o atrÃ¡s do meu paÃ­s.

- Ã verdade, Grande LÃ­der, a menos que sejamos suficientemente espertos com a maneira de fazer isso.

- Sou todo ouvidos. â respondeu Kim.




3. UMA NOITE TRANQUILA


C

omo Aara e sua amiga Marietta haviam viajado numa excursÃ£o musical para o norte do estado de Nova York, Tess e Jake resolveram desfrutar de um jantar sossegado em casa, um apartamento situado num arranha-cÃ©u em Manhattan. Jake telefonou para alguns restaurantes, pedindo para entregarem alguns de seus pratos favoritos. MissÃ£o cumprida, acomodaram-se em sua rotina habitual: Tess assistia ao noticiÃ¡rio na TV enquanto acariciava Maggie, uma bonita cadela da raÃ§a Cavalier King Charles Spaniel. Jake foi para seu estÃºdio e sentou-se diante do computador. Assim que se sentou, Sebastian, seu buldogue inglÃªs, tambÃ©m conhecido como Tubby, Miolo-Mole e outros nomes, todos eles sugestivos de uma mente inepta, achegou-se a ele e deitou sua cabeÃ§a pelancuda sobre seus sapatos.

Dez anos se passaram atÃ© Tess e Jake resolverem ter animais de estimaÃ§Ã£o. Tess gostava de Cavs desde jovem e, quando saiu Ã  procura de um cÃ£o, apaixonou-se por um filhote do tipo Blenheim, uma fÃªmea castanha e branca. Ela queria um companheiro para Maggie, porÃ©m Jake insistiu em direitos iguais. Ele sempre desejara ter um buldogue inglÃªs e, quando viu um filhote castanho-avermelhado e branco, que parecia uma bola de bilhar com o dobro do peso, escolheu, e decidiu que aquele seria o seu cÃ£o. Na verdade, quem fez a escolha foi o filhote, dando uma lambida bem babada no rosto de Jake, tornando a aquisiÃ§Ã£o inevitÃ¡vel. Assim o casal passeava com os cÃ£es que os vizinhos e amigos chamavam de âa Bela e a Feraâ. Como Jake e Tess viajavam muito, contrataram uma cuidadora de cÃ£es chamada Marietta, estudante de intercÃ¢mbio que viera de Viena para estudar mÃºsica e medicina veterinÃ¡ria. Ela morava com eles no seu espaÃ§oso apartamento em Nova York, e logo se tornou amiga e confidente de Aara.

Jake verificou seus investimentos e leu diversos noticiÃ¡rios no computador, equipado com dois monitores de tela plana. Os investimentos nÃ£o lhe tomaram muito tempo. Jake fora um brilhante corretor em Wall Street, e conseguia aumentar sua fortuna analisando as tendÃªncias e padrÃµes do mercado financeiro com argÃºcia e conhecimento. Fazia transaÃ§Ãµes quase que diariamente, e saÃ­a delas com bons rendimentos, agregando-os ao seu jÃ¡ considerÃ¡vel patrimÃ´nio.

Jake nÃ£o confiava em nenhuma fonte noticiosa especÃ­fica, e punha George Kimmel, o especialista em inteligÃªncia da empresa, a lhe compilar rotineiramente diversas notÃ­cias e outras informaÃ§Ãµes relevantes. Jake contava com uma memÃ³ria fantÃ¡stica e lia com extrema rapidez, o que lhe permitia digerir rapidamente e reter quantidades formidÃ¡veis de informaÃ§Ã£o. A leitura do material nÃ£o lhe consumia mais de meia hora.

Jack balanÃ§ou a cabeÃ§a em desÃ¢nimo. A situaÃ§Ã£o mundial, que jÃ¡ era ruim, estava piorando. Parecia haver uma corrida armamentista em disparada. Depois de ter tomado a penÃ­nsula da Crimeia da UcrÃ¢nia, a RÃºssia passou a reforÃ§ar seu armamento e exibir novos tanques e aviÃµes de combate nas exposiÃ§Ãµes internacionais. A OTAN reagiu, fazendo exercÃ­cios militares com equipamentos adicionais fornecidos pelos Estados Unidos.

A Coreia do Norte, ainda furiosa com a recusa americana Ã  negociaÃ§Ã£o, agitava seu sabre e fazia testes com mÃ­sseis balÃ­sticos. A China construÃ­a freneticamente novos aviÃµes e barcos de guerra, e se apoderava de vÃ¡rias ilhas desabitadas no mar do sul da China. Defendendo seus direitos de usucapiÃ£o, comeÃ§ou a construir pistas de pouso e instalaÃ§Ãµes aeronÃ¡uticas nesses pequenos pontos de terra no meio do oceano.

NÃ£o obstante a constituiÃ§Ã£o japonesa pÃ³s-guerra proibir o paÃ­s de criar forÃ§as militares de ataque, o JapÃ£o estava montando embarcaÃ§Ãµes militares bem sofisticadas e equipando sua forÃ§a aÃ©rea com aviÃµes de combate projetados pelos americanos.

No Oriente MÃ©dio, a confusÃ£o desestabilizadora causada pela invasÃ£o americana e a Primavera Ãrabe haviam se metabolizado no Estado IslÃ¢mico, um califado horrendo. Para piorar a situaÃ§Ã£o, milhares de desabrigados da SÃ­ria, AfeganistÃ£o e paÃ­ses africanos estavam indo procurar refÃºgio na Europa, cruzando o MediterrÃ¢neo, ou por rotas terrestres pela Turquia e GrÃ©cia, atravessando os BÃ¡lcÃ£s.

No MediterrÃ¢neo, entre a LÃ­bia e a ItÃ¡lia, traficantes de pessoas operando um navio de refugiados que estava fazendo Ã¡gua tentaram passar as pessoas para uma embarcaÃ§Ã£o maior, superlotada. Durante a transferÃªncia, o navio maior adernou e afundou. Os refugiados ficaram Ã  deriva por trÃªs dias atÃ© serem localizados e resgatados pela marinha italiana. Cerca de 500 pessoas pereceram.

Os europeus clamavam para que seus governos fizessem algo para sustar o influxo de refugiados para seus paÃ­ses. Todavia um aumento no rigor, por si sÃ³, nÃ£o conseguiu impedir as pessoas que tentavam migrar para a Europa. Havia uma necessidade premente de combater os traficantes que, ao perceberem qualquer problema, despejavam os refugiados em alto mar e voltavam correndo para a LÃ­bia.

Como estudioso da HistÃ³ria, Jake estava apreensivo. Havia tantas coisas que poderiam sair erradas, que essa situaÃ§Ã£o poderia se transformar numa calamidade mundial. A I Guerra Mundial comeÃ§ara com muito menos desafios. Ele desligou o computador e voltou para a sala de estar.

A hora de jantar se aproximava, entÃ£o ele chegou por trÃ¡s de Tess, que ainda assistia ao noticiÃ¡rio. Envolveu-a em seus braÃ§os e deu-lhe uma mordiscada na nuca.

- Se vocÃª acha que com isso irÃ¡ conseguir alguma coisa, estÃ¡ certo. - comentou Tess.

- Espero que sim.

- EntÃ£o seja um bom menino e sente-se ao meu lado.

Jake serviu dois uÃ­sques de puro malte e atendeu ao pedido.

- Quando vocÃª quer sentar para conversar, geralmente Ã© sinal de problemas.

- NÃ£o seja tÃ£o pessimista, Jake. Acabei de ver a situaÃ§Ã£o dos refugiados na Europa. Quase um milhÃ£o de pessoas do Oriente MÃ©dio entraram na Alemanha. A ItÃ¡lia estÃ¡ repleta, a FranÃ§a nÃ£o quer nenhum deles, e a Europa Oriental fechou as fronteiras. Os britÃ¢nicos estÃ£o se escondendo atrÃ¡s do canal. Nunca vi tamanha confusÃ£o.

- Ã uma bagunÃ§a, concordo. NinguÃ©m tem ideia de como conter o Ãªxodo de tanta gente desses paÃ­ses falidos. Para piorar, uma multidÃ£o de sÃ­rios estÃ¡ fugindo das Ã¡reas controladas pelo Estado IslÃ¢mico. Como nÃ£o tÃªm para onde ir, escapam para a Turquia, e de lÃ¡ tentam chegar Ã  Europa.

- E tem mais. â Tess acrescentou - Centenas de africanos morreram afogados tentando cruzar o MediterrÃ¢neo. Isso Ã© horrÃ­vel. DevÃ­amos tentar fazer alguma coisa.

Um alarme disparou dentro da cabeÃ§a de Jake.

- Tess, sempre que vocÃª diz que deverÃ­amos fazer alguma coisa, isso acaba virando um grande transtorno. Preciso lembrÃ¡-la daquele ano que passamos trabalhando no trÃ¡fico de pessoas? Ocupou a nossa equipe inteira, e quase quebrou a empresa.

- NÃ£o exagere. VocÃª teve a brilhante ideia de reunir as garotas para fazer concertos beneficentes, e deu tudo certo. Ainda fazemos isso, e a maior parte do dinheiro vai para obras assistenciais.

- Beleza! EntÃ£o vamos procurar mais situaÃ§Ãµes fora do nosso controle.

- Por que nÃ£o podemos tentar ajudar a resolver o problema dos refugiados? Tenho certeza de que o pessoal nÃ£o vai se incomodar em participar.

- NÃ£o acho, Tess. Nosso pessoal ficou decepcionado ao ter tÃ£o pouco resultado para mostrar, depois de um ano inteiro se arriscando para combater traficantes de pessoas. Tenho certeza de que seria uma luta morro acima tentar convencÃª-los a embarcarem numa aventura fÃºtil.

- Jake, por que vocÃª Ã© sempre tÃ£o negativo quando eu proponho alguma coisa para fazer? Ãs vezes acho que vocÃª nÃ£o quer me apoiar.

- Tess, eu sempre ajudei vocÃª, mesmo quando foi atrÃ¡s de ideias malucas, mas agora precisamos ser seletivos quanto aos projetos que formos assumir. Essa crise de refugiados Ã© uma ameaÃ§a Ã  estabilidade da Europa. Com certeza, nÃ£o temos condiÃ§Ãµes de ajudar. NÃ£o Ã© da nossa conta, e na Ãºltima vez em que tentamos ser bons samaritanos, nos queimamos. Sei que vocÃª se importa com as coisas mas, desta vez, por favor, deixe as autoridades resolverem o problema sozinhas. EsqueÃ§a isso.

- Certo, Jake. Vamos adiar esta discussÃ£o. Mas ainda quero pensar um pouco mais sobre isso.

- Ã disso que eu tenho medo, querida. Quando vocÃª tem uma ideia maluca, nÃ£o a deixa morrer.

Tess lanÃ§ou-lhe um olhar enfezado.

O porteiro tocou o interfone, e Jake fez o entregador de comida entrar no apartamento. Receoso de que suas papilas gustativas fossem maltratadas, Jake, o gourmand, havia encomendado delivery dos melhores restaurantes de Nova York. Tess nÃ£o ligava a mÃ­nima, preferindo um belo e suculento bife ou hambÃºrguer. Depois de tantos anos de convÃ­vio, o casal ainda nÃ£o havia reconciliado suas preferÃªncias gastronÃ´micas. Tess raramente se rendia aos caprichos culinÃ¡rios de Jake, e ele nÃ£o conseguia entender como alguÃ©m poderia ser feliz comendo apenas um bife com batatas.

Jake ansiosamente abriu todas as embalagens e espalhou as iguarias sobre a mesa de jantar. Abriu o primeiro pacote e o colocou diante de Tess.

- Aqui estÃ¡ o seu steak burger com batatas fritas.

EntÃ£o dobrou uma toalha sobre o antebraÃ§o e comeÃ§ou a sua protagonizaÃ§Ã£o de um maÃ®tre dâhÃ´tel, cheio de empÃ¡fia.

- Madame, para deleite do seu paladar, tambÃ©m oferecemos uma seleÃ§Ã£o esmerada de pratos deliciosos: polvo do Blue Duck Tavern, com milho, menta e farro; camarÃµes na brasa com manteiga de castanha e molho tamari, coraÃ§Ã£o de aipo, e radicchio de Treviso. TambÃ©m pode apreciar costeletas de porco ao limÃ£o, e nhoque com molho picante e ervas aromÃ¡ticas. E aqui temos a felicidade de poder experimentar maltagliati com kimchi e guanciale, uma carne italiana curada das bochechas do porco e, para a sobremesa, podemos fechar com torta de pÃªssego assada em panela de ferro com sorvete de leitelho. Tudo isso nÃ£o Ã© delicioso?

O discurso inteiro soou como grego para Tess. Ela comeÃ§ou o seu hambÃºrguer e lanÃ§ou um olhar de dÃºvida a ele.

- Se vocÃª acha, Jake...

- Tess, seu entusiasmo Ã© como uma ducha gelada para mim. Com o tempo, eu esperava conseguir ampliar o seu repertÃ³rio gastronÃ´mico.

- JÃ¡ tentamos isso, Jake; eu nÃ£o ligo para comida chique.

- Ãs vezes fico pensando que vocÃª gostaria de comer bife todos os dias, mesmo sabendo que ele entope as suas artÃ©rias.

- Como verduras e salada na maioria das vezes.

Jake fez um gesto teatral, pondo as mÃ£os na cabeÃ§a.

- E eu continuo tentando seduzir minha amada com esplÃªndidos repastos, todavia sem o mais tÃªnue sinal de sucesso.

Tess sorriu.

- VocÃª me seduziu hÃ¡ muito tempo, mas sou capaz de mudar de ideia se continuar tentando me alimentar com coisas estranhas.

- Isso me leva ao pinÃ¡culo do desespero! â exclamou Jake, imitando um ator dramÃ¡tico. - Eu atÃ© poderia me consolar impedindo que todo este delicioso repasto fosse parar no lixo.

- VÃ¡ com tudo, meu bem. Receio que a comida seja a fonte da incompatibilidade entre nÃ³s. Eu lhe daria um fora se vocÃª nÃ£o fosse tÃ£o gostoso.

- Acolho qualquer elogio que venha de vocÃª, mesmo que seja indireto.

Jake, embevecido, saboreava seus acepipes.

Depois de algum tempo, Tess levantou-se, empurrou a cadeira de Jake sobre os rodÃ­zios e sentou-se no seu colo, abraÃ§ando-o pelo pescoÃ§o. Quando ela fazia isso, sÃ³ poderia significar uma coisa, para deleite de Jake.

Tess o beijou.

- Hum, seu gosto nÃ£o Ã© nada mau, levando em conta o que andou comendo. Agora, serÃ¡ que posso tirÃ¡-lo do banquete de coisas nojentas para vir brincar comigo?

- Nem preciso pensar.

Jake rapidamente desabotoou a blusa dela e tirou-lhe o sutiÃ£.

- Gosto muito deles. PÃ´s a boca sobre seu mamilo direito.

Tess suspirou. Entre lambidas, Jake nÃ£o resistiu e disse:

- HÃ¡ um Ãºnico pecado que Deus nÃ£o perdoa, que Ã© negar o prazer a uma mulher que tem desejo.

Tess reclinou-se para trÃ¡s, apreciando intensamente a brincadeira de Jake em seu peito.

- Zorba, o grego?

- Um sÃ¡bio filÃ³sofo. - disse Jake em meio Ã s carÃ­cias com a lÃ­ngua. - Ele sabia descrever exatamente como Ã© o paraÃ­so.

- Vamos para a cama, Jake.

- Por que nÃ£o ficamos aqui? Ouse sair da rotina, meu bem.

- Vamos para a cama.

Tess tomou Jake pela mÃ£o e tomou o rumo do quarto. No caminho, foram deixando cair suas roupas, iniciando o ato de amor.

Jake deitou-se de costas na cama. Tess se esgueirou entre as pernas dele, e comeÃ§ou a lamber seu obelisco intumescido. Ela adorava segurÃ¡-lo nas mÃ£os, acariciÃ¡-lo lentamente e admirar a macheza incircuncisa de Jake. Ela sempre apreciara o belo instrumento de Jake, e lentamente o acolheu dentro da sua boca, suas carÃ­cias sedosas arrancando suspiros de prazer do parceiro. Ela entÃ£o se afastou e lambeu o comprimento inteiro do membro, atÃ© ficar excitada tambÃ©m. Passou para cima dele e abraÃ§ou-o entre suas pernas. Descendo sobre ele, recebeu-o dentro de si, atÃ© que ele desapareceu dentro dela. Ficou parada um pouco, sentido frÃªmitos de prazer. EntÃ£o ela se moveu para cima e para baixo, de olhos cerrados, sentido o prazer tomando conta de si. Repentinamente um orgasmo sacudiu seu corpo inteiro, e ela gemeu de prazer.

Jake permaneceu imÃ³vel, contemplando a mulher a quem dera prazer. Ele adorava fitÃ¡-la, seu corpo Ã¡gil e atlÃ©tico se mexendo em cima dele, sabendo que ele era o instrumento daquela felicidade.

Tess caiu dobre o peito dele e o beijou.

- Possua-me, Jake. Agora.

- NÃ£o precisa se afobar. Vamos brincar um pouco.

- Goze dentro de mim, eu quero!

Jake a ajudou a deitar-se de costas, passou para cima dela, e voltou a penetrÃ¡-la. Tess estava pronta para lhe dar o que ele queria, mas Jake ainda estava longe de chegar ao clÃ­max, que nem era tanto o que ele queria. Seu desejo era quase voyeurÃ­stico. Ele adorava ser o instrumento do deleite de Tess. Gostava da tensÃ£o no corpo dela, de senti-la por dentro com a sua masculinidade, a ascensÃ£o gradual da sua paixÃ£o culminar em espasmos de prazer. SÃ³ entÃ£o ele faria a sua parte, depois de poucos lances.

Depois, Tess manifestou sua queixa habitual.

- Por que nÃ£o goza junto comigo, Jake? Por que precisa tanto esperar eu terminar?

Jake a beijou.

- Porque para mim Ã© mais importante dar prazer a vocÃª primeiro, sentir o seu corpo tremer, saber que estou lhe dando esse prazer.

- VocÃª nÃ£o emite um Ãºnico som quando goza. Ãs vezes chego a pensar que me amar Ã© sÃ³ mais uma tarefa para vocÃª.

- Queria que vocÃª parasse de dizer bobagens e me deixasse lhe dar prazer.

Pouco depois adormeceram, abraÃ§ados.

Jake acordou no meio da noite, e resolveu tomar um copo de leite. Sentado na escuridÃ£o da sala, ele se achou um homem de sorte por ter uma mulher como Tess, embora Ã s vezes desejasse que ela o deixasse tomar a iniciativa em muitas coisas. Tess tinha uma personalidade controladora e, de muitas formas, dominava o relacionamento. Era sempre ela quem iniciava as atividades amorosas, e fazia questÃ£o de que fosse do jeito que ela queria. No inÃ­cio do relacionamento, Jake tentou iniciar o ato sexual, mas Tess logo o fazia desistir, se ela nÃ£o estivesse com vontade.

Para uma mulher tÃ£o bonita e em boa forma, Tess era muito inibida. Certa vez Jake a erguera na bancada de granito da cozinha, e fizera amor com ela, em pÃ©. Ele queria ver o corpo dela diante de si enquanto lhe dava prazer. Seu momento supremo era vÃª-la deitada de costas enquanto ele a levava ao clÃ­max. Mas o seu prÃ³prio prazer nÃ£o era importante; ele apreciava mais o processo do que uma satisfaÃ§Ã£o rÃ¡pida, porque sabia como tudo iria terminar. Todavia Tess nÃ£o gostava de se expor. Cobriu os seios com as mÃ£os, para sinalizar que estava se sentindo vulnerÃ¡vel. Ela nunca mais o deixou fazer amor daquele jeito.

Embora o casal tivesse se habituado a uma rotina, Jake nÃ£o se importava muito com isso. Tess se sentia suficientemente sensual, e jamais deixara de lhe dar montes de prazer. Ele nÃ£o tinha muito do que se queixar, ponderou. NÃ£o tinha o menor apreÃ§o por perversÃµes sexuais, coisas bizarras. Queria apenas se deleitar com Tess, seu verdadeiro amor. AgradÃ¡-la era a coisa mais importante do mundo, embora Ã s vezes desejasse vÃª-la disposta a dialogar sobre fazer as coisas de um modo diferente.

Afugentou esse pensamento da mente, voltou para a cama, e se encaixou perto dela, para sentir aquele maravilhoso perfume e tocar sua pele macia. Depois de ter feito amor, uma boa noite de sono deixava tudo melhor.




4. FAZENDO MÃSICA


A

s ValquÃ­rias se reuniam no apartamento de Tess em Nova York. Tess dedilhava o piano, experimentando alguns trechos de uma mÃºsica que ela e as garotas iriam tocar no prÃ³ximo mÃªs. O perfeccionismo era uma das qualidades menos atraentes de Tess, visto que, na sua visÃ£o do mundo, coisas suficientemente bem feitas ainda estariam muito longe do minimamente aceitÃ¡vel. Ela ficava remoendo insistentemente os detalhes de cada nota de uma partitura e como deveria ser tocada. Ela orientara o grupo no desenvolvimento de suas habilidades a ponto de conseguirem tocar em pÃ© de igualdade com mÃºsicos profissionais. Isso foi possÃ­vel com a contrataÃ§Ã£o de professores de mÃºsica, trabalho duro, ensaios interminÃ¡veis, o progresso do grupo sendo impelido apenas pela determinaÃ§Ã£o dela.

Carmen era a soprano do grupo, e estava estudando a partitura de Vocalise, uma breve porÃ©m sublime composiÃ§Ã£o de Rachmaninoff. Claudine acabara de chegar de aviÃ£o, vinda de Paris, e estava afinando seu violino junto com Yasmin, que tocava viola. Alice chegara da NigÃ©ria, trazendo seu violoncelo. Galina Kutuzova, que tocava o segundo violino, estava atrasada. Finalmente, ela tocou a campainha, e Aara, a filha de Tess foi Ã  porta recebÃª-la.

Galina era pau para toda obra, nÃ£o haveria descriÃ§Ã£o melhor. Uma competente pilota vinda da RÃºssia, ela se envolvera com as atividades militares da equipe, porÃ©m sua funÃ§Ã£o principal era a administraÃ§Ã£o do banco de dados no departamento de informÃ¡tica da empresa. Ela chegou e se aproximou de suas colegas com uma pilha de tablets nas mÃ£os, percebendo que elas pareciam um tanto ressabiadas com o seu atraso. Ao longo dos anos, todas haviam aderido ao fetiche de Tess por pontualidade.

Galina colocou a pilha numa mesa e voltou para a entrada, onde foi buscar seu violino na caixa. Colocou-o sobre sua cadeira, e postou-se diante das colegas. Trajando seu habitual agasalho esportivo, ela era alta, loira e confiante, parecendo o modelo ideal de uma atleta russa.

- Desculpem o atraso, mas precisei ir buscar essas coisinhas, preparadas para nÃ³s.

Claudine externou sua impaciÃªncia.

- Se ainda nÃ£o percebeu, Galina, viemos aqui ensaiar, nÃ£o jogar em computadores.

Galina ficou impassÃ­vel com o comentÃ¡rio de Claudine.

- Quero lhes perguntar uma coisa. O que Ã© que vocÃªs menos gostam nas nossas apresentaÃ§Ãµes?

Yasmin colocou a viola de lado.

- Pensei que todas nÃ³s gostÃ¡ssemos de tocar juntas.

- Ã verdade. - comentou Galina. â Mas vocÃªs sempre reclamam do peso e do volume das partituras na nossa bagagem, quando tocamos numa sÃ©rie de cidades.

- Nisso, eu digo amÃ©m. â disparou Tess.

- Mas eu achei uma soluÃ§Ã£o. â disse Galina. â Podem guardar as partituras, e ponham essas maravilhas nas suas estantes.

Assim que todas o fizeram, Galina disse para apertarem um botÃ£o que havia na borda de cada aparelho.

Tess, Carmen e Aara se aproximaram para ver o que era. Em cada uma das telas apareceu uma partitura, com as diversas partes do Quinteto para Piano e Quarteto de Cordas de Ernest Chausson, que o grupo iria tocar dali a algumas semanas.

- Que beleza! â comentou Carmen. - Cada uma de vocÃªs tem a sua prÃ³pria parte. Parece atÃ© a partitura de verdade, Ã© do mesmo tamanho.

Claudine ficou interessada.

- E como se vira as pÃ¡ginas?

Galina tirou uns aparelhinhos de uma caixa.

- Ã fÃ¡cil, meninas. Pedais sem fio. Ã sÃ³ dar um toque com o pÃ©, e a pÃ¡gina vira.

Aara, a adolescente plugada logo percebeu o impacto do que via Ã  sua frente.

- Isso Ã© Ã³timo. NÃ£o vÃ£o ter mais de carregar aquelas partituras todas. JÃ¡ estÃ£o armazenadas nos tablets.

- Exatamente. - comentou Galina. - Agora vocÃªs podem acessar todas as partituras que quiserem no tablet. EstÃ£o livres da papelada.

Yasmin viu um problema.

- Mas eu gosto de fazer anotaÃ§Ãµes nas minhas partituras.

Galina distribuiu pequenos bastÃµes, parecidos com lÃ¡pis.

- Essas canetas eletrÃ´nicas vÃ£o substituir os seus lÃ¡pis. Podem atÃ© guardar vÃ¡rias versÃµes anotadas da mÃºsica com cores diferentes.

- Galina, isto aqui Ã© excelente. - disse Tess. â Vamos usar as partituras em papel hoje, mas estou vendo que estes tablets vÃ£o nos ajudar muito na prÃ³xima vez.

Galina, que nÃ£o conseguia conter o seu orgulho, resolveu ir alÃ©m.

- SÃ³ para vocÃªs saberem, agora podem baixar qualquer partitura que quiserem, pois incluÃ­ uma assinatura que oferece vÃ¡rias coleÃ§Ãµes acadÃªmicas com as partituras originais anotadas pelos compositores e mais ediÃ§Ãµes de apresentaÃ§Ãµes de outros instrumentistas. Isso poderÃ¡ resolver a maioria das dÃºvidas de interpretaÃ§Ã£o.

As mulheres aplaudiram Galina, que fez uma breve mesura.

Naquela noite, as ValquÃ­rias tiveram a oportunidade de tocar um concerto junto com uma orquestra de estudantes que, apesar do nome, eram excelentes. Tess empenhara-se muito orientando as mulheres para tocarem uma composiÃ§Ã£o incomum de um compositor americano, Benjamin Lees, seu Concerto para Quarteto de Cordas e Orquestra. NÃ£o havia nada para Tess tocar no piano, porÃ©m no programa ela constava como a lÃ­der do grupo. Ele dedicara muito tempo ajudando as colegas a aprenderem a tocar aquela peÃ§a tÃ£o complicada, e estava ansiosa para poder se sentar na plateia e apreciar o concerto.

As quatro entraram no palco, todas vestidas com impressionantes vestidos de noite, emprestados por diversos costureiros. As ValquÃ­rias nÃ£o eram sÃ³ conhecidas por sua mÃºsica, mas tambÃ©m pelo figurino. Os puristas desdenhavam essa prÃ¡tica, mas as plateias adoravam prever a moda das belas instrumentistas.

A orquestra comeÃ§ou a tocar. Depois de um moto perpÃ©tuo, o quarteto entrou em solo, com um breve tema desafiante. O violoncelo de Alice fez um breve solo, suave porÃ©m agitado. Passagens orquestrais em tutti repetiram o tema das cordas, desta vez com o rufar de tÃ­mpanos.

Tess escutava com atenÃ§Ã£o, contente ao ver que suas meninas haviam internalizado o espÃ­rito da mÃºsica. O final da obra comeÃ§ava a se descortinar com uma fanfarra de metais seguida de breves notas do quarteto solista, e a mÃºsica retomava o moto perpÃ©tuo inicial. A mÃºsica levava a plateia numa onda de sons virtuosos, culminando com um acorde final fortÃ­ssimo.

Sentado num camarote, um homem muito bonito e elegante, de uns quarenta anos, e com uma barba cuidadosamente aparada, assistia a tudo com grande interesse. Era a terceira vez que ele comparecia a um concerto das ValquÃ­rias.

A plateia pediu bis, entÃ£o as mulheres tocaram o AdÃ¡gio para Cordas de Samuel Barber. Sua execuÃ§Ã£o soberba e sensÃ­vel daquela mÃºsica sombria, porÃ©m sublime era a comprovaÃ§Ã£o do grande progresso que elas haviam conseguido fazer. TambÃ©m era a confirmaÃ§Ã£o do esforÃ§o que Tess fizera para transformar as instrumentistas num grupo profissional. As ValquÃ­rias haviam evoluÃ­do muito desde o dia em que haviam comeÃ§ardo, dois anos atrÃ¡s.

Agora eram brilhantes, compenetradas, tendo crescido muito em virtuosismo e popularidade, muitas vezes se apresentando com casa lotada. Poucos acreditariam que essas lindas mulheres, no seu trabalho cotidiano, eram guerreiras dedicadas a criar um mundo melhor.




5. O SACRIFÃCIO DOS INOCENTES


O

exÃ©rcito americano estava ajudando governos de paÃ­ses do norte e do oeste da Ãfrica no combate a grupos extremistas. O apoio incluÃ­a inteligÃªncia militar, vigilÃ¢ncia, reconhecimento e treinamento das forÃ§as de infantaria nigerianas.

Reconhecendo que a NigÃ©ria nÃ£o teria como comprar modernos caÃ§as a jato, cada um custando por volta de 70 milhÃµes de dÃ³lares, os americanos sugeriram que comprassem doze Super Tucanos projetados no Brasil e fabricados nos EUA. Esses monomotores turboÃ©lice eram comparativamente baratos, fÃ¡ceis de pilotar, Ã¡geis e perfeitos para operaÃ§Ãµes de ataque aÃ©reo a bases terrestres do grupo extremista islÃ¢mico Boko Haram que, nos Ãºltimos sete anos, dizimara milhares de pessoas no nordeste da NigÃ©ria e em paÃ­ses vizinhos, como CamarÃµes, Chade e NÃ­ger.

Em passado recente, Tess e a equipe da SRD haviam feito a entrega de helicÃ³pteros de ataque ao exÃ©rcito nigeriano, e atÃ© participaram de uma operaÃ§Ã£o militar onde ajudaram a resgatar 200 meninas sequestradas pelo Boko Haram.

Como subcontratados do exÃ©rcito americano, Tess, Jake, Nicola, Carmen, Yasmin, e Galina chegaram Ã  NigÃ©ria pela segunda vez, para fazer a entrega dos Super Tucanos, treinar os pilotos locais e lhes prestar apoio tÃ¡tico.

Ifeyinwa Idigbe Ukume, tambÃ©m conhecida como Alice, foi receber a equipe no aeroporto em Abuja, na NigÃ©ria. Alice fazia parte de uma divisÃ£o da polÃ­cia nigeriana especializada no trÃ¡fico de pessoas, e jÃ¡ havia trabalhado com a equipe da SRD no combate Ã  prostituiÃ§Ã£o de nigerianas na Europa, que foi quando fez amizade com as ValquÃ­rias. Sempre que podia, adorava participar dos concertos, tocando violoncelo.

Enquanto dirigia a van, Alice contou as mudanÃ§as desde a Ãºltima incursÃ£o da equipe naquele paÃ­s.

- Nosso novo presidente estÃ¡ fazendo uma reforma nas forÃ§as armadas. Anteriormente, oficiais corruptos desviavam e embolsavam verbas destinadas Ã  luta contra o Boko Haram. O ex-chefe do estado maior Ã© um dos acusados. Ã claro que ele se declarou inocente de ter roubado dinheiro destinado Ã  forÃ§a aÃ©rea nigeriana. Na verdade, usou o dinheiro para comprar um palacete e um terreno comercial, onde construiu um shopping center.

- Acho que isso explica porque o exÃ©rcito nigeriano estÃ¡ tendo tanta dificuldade para combater os rebeldes. - comentou Jake.

Tess estava bem ciente dos problemas que o paÃ­s enfrentava, mas nÃ£o quis se meter em assuntos da polÃ­tica local.

No dia seguinte, Alice levou a equipe para conhecer o recÃ©m-promovido Brigadeiro General Somi Okafor, o comandante no teatro de operaÃ§Ãµes. Ele fora colega de classe de Jake em Harvard, e ainda eram bons amigos. O general conhecia bem a capacidade da equipe, pois jÃ¡ havia lutado contra o Boko Haram junto com eles. Depois da troca de gentilezas, iniciou a reuniÃ£o.

- Senhoras e senhores, sejam bem-vindos Ã  NigÃ©ria. Nas prÃ³ximas duas semanas, vocÃªs irÃ£o ensinar nossos pilotos a usar os Tucanos em voos de vigilÃ¢ncia e ataque aÃ©reo a bases terrestres. Cada aviÃ£o estarÃ¡ equipado com uma metralhadora montada em cada asa, e levarÃ¡ quase uma tonelada e meia de armamentos. No ano passado, os exÃ©rcitos africanos da regiÃ£o conseguiram expulsar os militantes de boa parte do seu autoproclamado califado no nordeste da NigÃ©ria. Embora o esforÃ§o que lideramos tenha conseguido retomar um nÃºmero expressivo de vilarejos que estavam sob o controle do Boko Haram, nÃ£o tivemos tanto sucesso em manter a seguranÃ§a, de modo que o inimigo andou atacando novamente os mesmos vilarejos que haviam sido reconquistados pelas forÃ§as do governo. O Boko Haram se reorganizou e intensificou os ataques na bacia do Lago Chade, ameaÃ§ando a seguranÃ§a regional, apesar da forÃ§a multinacional de 9 mil homens para contÃª-los.

Jake atualizou o grupo.

- Os militares americanos esperam que nÃ³s terminemos de fazer o treinamento de dois batalhÃµes da infantaria nigeriana atÃ© o fim da semana. Os Estados Unidos tambÃ©m vÃ£o providenciar reconhecimento, vigilÃ¢ncia e inteligÃªncia adicionais para ajudar na luta regional contra o Boko Haram.

- NÃ£o vai ser nada fÃ¡cil. - concluiu o general. - E agora temos mais um problema. O Boko Haram estÃ¡ enviando mulheres-bomba e crianÃ§as-bomba para explodir mercados e outros alvos civis.

Ao sair, Jake murmurou:

- Desta vez, a parada vai ser dura.

A equipe passou as duas semanas seguintes treinando os pilotos nigerianos nos Super Tucanos. As mulheres se concentraram na pilotagem dos aviÃµes; Jake e Nicola treinaram as equipes de terra em manutenÃ§Ã£o. A equipe explicou aos nigerianos que a sobrevivÃªncia dos tripulantes era assegurada pela blindagem do aviÃ£o e recursos de vanguarda, como um Sistema de Alerta de AproximaÃ§Ã£o de MÃ­ssil e um Receptor de Alerta de Radar, alÃ©m de dispensadores de autodefesa (chaff e flares). AlÃ©m disso, os aviÃµes contavam com recursos de comunicaÃ§Ã£o e navegaÃ§Ã£o como o PR de InformaÃ§Ã£o de PosiÃ§Ã£o e o ALE para Estabelecimento AutomÃ¡tico de Link, que permitem a transmissÃ£o automÃ¡tica da posiÃ§Ã£o da aeronave e dos dados de voo para as bases em terra. A aeronave tambÃ©m incorpora um Sistema Inercial de NavegaÃ§Ã£o (INS/GPS) com Sistema de Posicionamento Global, e um Radar AltÃ­metro.

No lado tÃ¡tico, a inteligÃªncia dos satÃ©lites americanos alertou o exÃ©rcito nigeriano de que o Boko Haram estava reunindo combatentes para um ataque ao centro administrativo do governo, na parte oeste do paÃ­s.

O General Okafor reagiu, iniciando um contra-ataque com 500 soldados de CamarÃµes e da NigÃ©ria, com orientaÃ§Ã£o de uma forÃ§a tarefa multinacional no Chade. A ForÃ§a AÃ©rea nigeriana comeÃ§ou a enviar tropas para a Ã¡rea de combate, usando aviÃµes de transporte militar HÃ©rcules, cedidos pelos Estados Unidos.

Tess, Carmen, Claudine distribuÃ­ram-se pelos Tucanos, instalando-se na cabine e decolando, sendo seguidas pelos aviÃµes restantes, pilotados por nigerianos. Chegaram Ã  Ã¡rea de operaÃ§Ãµes antes das tropas de terra, e nÃ£o demorou atÃ© localizarem a multidÃ£o de combatentes do Boko Haram, reunida para atacar a cidade. Tess, no comando do contingente aÃ©reo, sobrevoou as unidades do inimigo para avaliar sua forÃ§a. Ignorou os tiros disparados a esmo contra seu aviÃ£o, e passou sua avaliaÃ§Ã£o para o general pelo rÃ¡dio. Ele ordenou um ataque aÃ©reo para garantir o terreno para pousar os aviÃµes de transporte. Tess deu as ordens aos pilotos.

- Claudine, Carmen, e Galina, vamos armar um ataque frontal na linha de frente do inimigo. Os outros aviÃµes vÃ£o dar a volta e atacar o inimigo por trÃ¡s. Queremos espremÃª-los entre nÃ³s. Vamos!

Os pilotos nigerianos deixaram a formaÃ§Ã£o e fizeram um semicÃ­rculo em torno dos inimigos, ate se posicionarem atrÃ¡s das forÃ§as hostis. Tess e a equipe haviam lhes ensinado que os novos aviÃµes eram suficientemente lentos, entÃ£o eles teriam tempo para alinhar suas armas e fazer boa pontaria.

NÃ£o precisou dizer muito a Carmen, Claudine, e Galina, que faziam tudo exatamente como ela. Lembrando-se de um incidente anterior na NigÃ©ria, no qual Claudine quase perdera a vida, Tess pediu a ela que seguisse as regras.

- Claudine, tenho certeza de que nÃ£o preciso lembrÃ¡-la da Ãºltima vez em que estivemos neste canto do mundo, quando vocÃª perdeu o seu caÃ§a MiG e quase morreu, entÃ£o comporte-se e siga o plano.

- Tess, Ã s vezes vocÃª me enche o saco. Sabe muito bem que aquela porcaria de MiG chinÃªs se desmanchou sozinho, entÃ£o largue do meu pÃ©.

- Vou largar, depois que voltarmos todas vivas.

- VocÃª me enche o saco, Tess. SÃ³ estou aqui para sair da monotonia.

- Claudine, por favor, siga o plano. Ela estava convencida de que um dia a sorte de Claudine iria acabar.

Os aviÃµes chegaram Ã s suas posiÃ§Ãµes e comeÃ§aram a metralhar as tropas inimigas por todos os lados. As manobras se pareciam com um balÃ© aÃ©reo, os aviÃµes sobrevoando os combatentes do Boko Haram com agilidade, enquanto despejavam saraivadas mortais. Logo o inimigo teve muitas baixas, e precisou parar sua marcha rumo Ã  cidade-alvo. As rajadas de tiros haviam eliminado combatentes inimigos e levantado nuvens de poeira, assim encobrindo a aterrissagem dos grandes aviÃµes de transporte e a descida das tropas do governo pelas rampas da fuselagem. Dentro de poucas horas, tudo havia terminado. A maioria dos combatentes inimigos estava morta ou ferida. Os sobreviventes se renderam.

Tess mandou os quatro aviÃµes da sua equipe aterrissarem no entorno do campo de batalha, e as outras aeronaves retornarem Ã  base. Um por um, os Tucanos pousaram e taxiaram sobre o gramado plano da savana africana.

Os soldados nigerianos haviam encurralado o inimigo derrotado em vÃ¡rios grupos. Logo se percebeu que muitos desses combatentes eram mulheres vestidas com trajes islÃ¢micos. O General Okafor ordenou Ã s tropas que separassem os homens das mulheres. Algumas das mulheres estavam ensanguentadas ou feridas, e se moviam como se estivessem drogadas. Os soldados nigerianos queriam revistar as mulheres em busca de armas escondidas, mas estavam relutantes em funÃ§Ã£o do que poderia haver por baixo daqueles hijabs. Tess percebeu a hesitaÃ§Ã£o dos soldados, e caminhou na direÃ§Ã£o das prisioneiras, com Alice a seu lado para servir como intÃ©rprete. Tentou nÃ£o parecer ameaÃ§adora, estendendo sua mÃ£o direita aberta, com o braÃ§o esticado.

- NÃ£o vamos machucar vocÃªs. Ergam suas mÃ£os acima da cabeÃ§a. Depois de revistarmos vocÃªs para ver se tÃªm armas, o pessoal vai cuidar de vocÃªs. VÃ£o ficar em seguranÃ§a.

Alice traduziu a mensagem, e cinco das mulheres obedeceram e ergueram os braÃ§os. Todavia uma nÃ£o se moveu. Parecia drogada, apÃ¡tica, num transe. Foi quando Tess percebeu que ela segurava na mÃ£o um pequeno aparelho com um botÃ£o sob o polegar.

- Ai, meu Deus, Ã© uma mulher-bomba suicida!

Todos se afastaram da mulher. Tess e Alice ficaram paradas, percebendo o olhar apavorado da mulher, evitando qualquer movimento brusco que pudesse assustÃ¡-la. Carmen e Claudine sacaram suas pistolas e apontaram para a cabeÃ§a da mulher.

- Fiquem longe! - Tess advertiu as colegas. - Ponham suas armas de volta no coldre.

O General Okafor chegou ao local e ordenou que suas tropas apontassem os rifles para a jovem mulher. Tess percebeu o que acontecia, e fez um gesto para o general conter seus homens, que preparavam suas armas para atirar na mulher-bomba. Deu um passo cauteloso na direÃ§Ã£o da mulher, e percebeu que era apenas uma moÃ§a bem jovem, tremendo incontrolavelmente.

- Major Turner, esta batalha nÃ£o Ã© sua! â o general implorou. - Jogue-se no chÃ£o e meus homens irÃ£o executÃ¡-la.

- NÃ£o posso, general. Se a moÃ§a apertar o botÃ£o, Alice e eu nÃ£o teremos chance de escapar.

Tess nÃ£o estava exagerando. JÃ¡ tivera experiÃªncia suficiente em combate para saber que uma explosÃ£o dessas mataria qualquer um que estivesse dentro do seu alcance. Ficar deitada no chÃ£o nÃ£o iria adiantar.

Carmen comeÃ§ou a entrar em pÃ¢nico. Vendo sua melhor amiga presa numa situaÃ§Ã£o de vida ou morte, teve vontade de ir atÃ© lÃ¡ para ficar a seu lado. Tess nÃ£o conseguia acreditar.

- Carmen, que doideira estÃ¡ fazendo? Volte!

- Ã tarde demais para isso. NÃ£o vou deixar vocÃª e Alice nesta situaÃ§Ã£o. Continue falando com a moÃ§a.

Tess sabia que Carmen era obstinada, e tÃ£o vulnerÃ¡vel quanto ela mesma. Deu mais um passo na direÃ§Ã£o da moÃ§a.

- Venha cÃ¡, moÃ§a. Solte essa coisa que tem na mÃ£o. VocÃª Ã© jovem demais para morrer. Aqueles homens nÃ£o vÃ£o mais poder lhe fazer mal. Vamos levar vocÃª de volta para casa, para junto de sua famÃ­lia.

Alice traduziu.

A moÃ§a comeÃ§ou a tremer. Os soldados nigerianos ainda estavam com as armas apontadas para ela.

- General, mande seus homens baixarem as armas. EstÃ£o deixando a moÃ§a nervosa. Eu estou cuidando disso.

O general fez sinal para seus soldados baixarem as armas.

- Viu sÃ³? NÃ£o tem motivo para ter medo.

Com cuidado, Tess deu mais um passo Ã  frente. Estava quase a ponto de tocar a moÃ§a.

Carmen sentiu nÃ¡usea, e lutou para controlar seu estÃ´mago, impensadamente tendo posto em risco a si mesma e o bebÃª que carregava dentro de si. Colocou as mÃ£os sobre a barriga e tentou conter as lÃ¡grimas. Tess deu-lhe um olhar rÃ¡pido e percebeu o que acontecia.

EntÃ£o abriu um largo sorriso e deu o Ãºltimo passo que faltava para chegar Ã  garota, que parecia estar saindo de um transe. Tess nÃ£o tinha certeza de se isso seria um bom sinal, e foi rÃ¡pida em tirar o detonador da mÃ£o dela. A moÃ§a desmaiou em seus braÃ§os.

As tropas vieram correndo para arrancÃ¡-la do abraÃ§o de Tess.

- Deixem-na em paz! â gritou ela, mas nÃ£o adiantou.

Os soldados agarraram a moÃ§a e a passaram para os especialistas em demoliÃ§Ã£o, que removeram o cinturÃ£o de explosivos amarrado em seu corpo e a levaram embora.

Tess deu meia-volta e viu Carmen vomitando no chÃ£o. Ela e Claudine a colocaram num jipe.

- VÃ¡ com ela, Claudine. NÃ³s nos veremos logo em seguida.

EntÃ£o foi atrÃ¡s do grupo de soldados que levava a moÃ§a suicida, e viu Alice dando conselhos a ela, confortando aquele farrapo humano.

- Ela me contou a histÃ³ria toda, Tess. O Boko Haram a sequestrou uns meses atrÃ¡s, e ela passou uns tempos no inferno. EntÃ£o eles a drogaram e amarraram um cinturÃ£o suicida nela. Contou que esta Ã© a nova tÃ¡tica do Boko Haram. Pretendem soltar mais mulheres assim, porque acham que Ã© mais difÃ­cil elas serem notadas. Era uma monstruosidade, atÃ© mesmo para os padrÃµes deles.

O General Okafor se aproximou.

- Ã verdade Andamos recebendo vÃ¡rios relatÃ³rios de mulheres-bomba em diversos vilarejos. Essas meninas sÃ£o vitimadas duas vezes. SÃ£o capturadas, sofrem toda sorte de abuso, e entÃ£o sÃ£o forÃ§adas a se matar, levando mais pessoas inocentes consigo.

Antes de retornar Ã  base, Alice levou Tess a um campo em Yola, no nordeste da NigÃ©ria, onde muitas das meninas sequestradas e resgatadas ficavam abrigadas. Infelizmente, nem tudo terminava bem, visto que muitas delas ainda tinham de enfrentar o estigma da ânoiva libertadaâ.

Conversaram com uma jovem, chamada Zara, e seu tio. Ela tinha 17 anos quando o Boko Haram a sequestrou, junto com muitas outras. Como milhares de outras moÃ§as, livres ou ainda em cativeiro, ficara profundamente traumatizada. Alice pediu que ela contasse a sua experiÃªncia horrÃ­vel um ano depois de ter sido libertada, e o sofrimento que ela continuava tendo de enfrentar.

- O Boko Haram nos deixava escolher: casar-se com um de seus combatentes ou ser escrava. Eu escolhi me casar. â contou Zara.

No final, a diferenÃ§a era pequena, descontando a crianÃ§a que ela daria Ã  luz em breve. A vida no cativeiro era terrÃ­vel e perigosa, porque os aviÃµes da forÃ§a aÃ©rea vinham regularmente bombardear a grande floresta de Sambisa, onde os militantes armavam seus acampamentos. Depois de alguns meses, foi salva por soldados nigerianos e devolvida Ã  sua famÃ­lia.

- As mulheres lÃ¡ em casa logo perceberam que ela estava grÃ¡vida de trÃªs meses. â disse seu tio Mohamed, que continuou a histÃ³ria. - Somos uma famÃ­lia mista, alguns cristÃ£os e outros muÃ§ulmanos. Antes de ser raptada, Zara era cristÃ£, mas o Boko Haram a casou com um deles e a tornou muÃ§ulmana. A famÃ­lia ficou dividida entre o que fazer, e pensaram seriamente num aborto. No final, decidiram manter a gravidez, e Zara deu Ã  luz um menino. Foi entÃ£o que comeÃ§aram os problemas, porque Zara foi banida da comunidade.

- As pessoas na minha vila me chamam de esposa do Boko Haram. NÃ£o querem que eu chegue perto. NÃ£o gostam de mim. â disse Zara enquanto uma lÃ¡grima rolava pelo seu rosto.

Ela precisava ficar dentro da pequena Ã¡rea murada em torno da sua casa, com medo de sair e ter de enfrentar os insultos cruÃ©is das crianÃ§as do bairro, as mensagens de Ã³dio que seus pais haviam lhes ensinavado.

- O pessoal da vila nÃ£o gosta do meu filho. Quando ele ficou doente, ninguÃ©m quis me ajudar a cuidar dele. â ela contou.

- No Ãºltimo fim de semana fez muito calor. Zara foi dormir com o filho na Ã¡rea murada, uma cobra entrou lÃ¡ e matou o menino. Ele tinha apenas nove meses de idade.

- Alguns dos familiares ficaram contentes por ele ter morrido, dizendo que foi a vontade de Deus. â prosseguiu Zara. - Ficaram contentes que o sangue do Boko Haram foi retirado da famÃ­lia, que Deus atendera suas preces.

O tio prosseguiu.

- Ãs vezes ela pensa em ir Ã  escola para se tornar mÃ©dica e ajudar as pessoas. Mas quando a insultam, ela fica brava e com vontade de voltar para a floresta. Sempre fala do marido dela no Boko Haram. Contou que ele era gentil, e queria que ela voltasse para ele. Esse tipo de conversa nÃ£o era nada mais do que um sinal de desespero, porque a vida de Zara se tornara tÃ£o ruim, que Ã s vezes ela tinha vontade de embarcar numa missÃ£o suicida.

- E ela vai fazer isso no dia em que lhe derem essa oportunidade. âconcluiu.

Alice discordou.

- HÃ¡ tanta confusÃ£o no rosto e nas respostas dela; nÃ£o Ã© uma assassina, Ã© apenas uma crianÃ§a.

Zara olhou para Alice com lÃ¡grimas nos olhos, e fez um comentÃ¡rio final.

- Muitas vezes tenho um desejo enorme de sumir na floresta, mas espero que com o tempo eu consiga esquecer o que o Boko Haram e o pessoal da minha vila fizeram comigo. Mas ainda Ã© cedo para isso.

Triste, com raiva e confusa, ela se sentia abandonada pela famÃ­lia e estigmatizada pela sua comunidade.

Ao sair, Alice expressou sua preocupaÃ§Ã£o.

- A comunidade Ã© responsÃ¡vel por continuar abusando de meninas que nÃ£o foram quem gerou essa situaÃ§Ã£o. Se continuarem estigmatizando pessoas traumatizadas, podem estar criando algo que serÃ¡ muito, muito mais problemÃ¡tico no futuro do que o Boko Haram Ã© hoje. Sem terem tido culpa nenhuma, essas vÃ­timas nÃ£o sÃ£o bem recebidas de volta pela sociedade, e ninguÃ©m quer ajudÃ¡-las. Estou tentando fazer o governo ajudar as vÃ­timas na sua reintegraÃ§Ã£o, demonstrando preocupaÃ§Ã£o e compreensÃ£o.

Tess saiu, abanando a cabeÃ§a. Entrou no carro de Alice e voltaram para a base. Na Ãºltima vinda Ã  NigÃ©ria, depois da operaÃ§Ã£o a equipe se recolheu no bar do hotel, e desta vez nÃ£o foi diferente, Ã  exceÃ§Ã£o de Tess pedir um uÃ­sque duplo com gelo. Tomou o segundo, atÃ© comeÃ§ar a acalmar seus nervos costumeiramente inabalÃ¡veis. Carmen havia parado de beber por causa do bebÃª, mas nesse dia resolveu abrir uma exceÃ§Ã£o. AtÃ© Alice tomou um copo de vinho. O trio havia superado o fato de terem passado tÃ£o perto da morte.

- NÃ£o sei o que houve com vocÃªs, garotas. - comeÃ§ou Claudine, assim que as coisas se acalmaram. - NÃ£o sou avessa a se arriscar, mas desta vez vocÃªs passaram dos limites.

- NÃ£o posso discordar de vocÃª, Claudine, - respondeu Tess â mas eu nÃ£o poderia aceitar a ideia de uma menina da idade da Aara se explodindo. EntÃ£o ela encarou Carmen, que estava pÃ¡lida.

- Carmen, se vocÃª fizer isso de novo, vou lhe dar uma surra.

Ainda tentando controlar o enjoo, Carmen fingiu um sorriso.

- NÃ£o me venha com lorotas, Tess. VocÃª sabe que acreditamos nos quatro mosqueteiros, tipo âum por todos, todos por umâ.

- Daqui para a frente, vocÃª estÃ¡ de castigo. Aposto que o Nicola vai concordar comigo. Tenho certeza de que ele quer ver o filho dele nascer.

- O nome dele Ã© Luca. â disse Carmen casualmente.

- Ã um menino? Por que esperou tanto para me contar?

- Sei guardar segredos. Nem o pai dele ainda sabe.

Antes que Tess pudesse dizer qualquer coisa, Alice disse que tinha uma notÃ­cia. Iria se casar com o General Okafor.

- Isso Ã© Ã³timo, Alice. VocÃª sempre dizia que nÃ£o queria se casar. O que a fez mudar de ideia?

- Somi Ã© um homem moderno, bem educado. Eu o respeito e tivemos a mesma ideia sobre como levarÃ­amos a nossa vida de casados.

Claudine ficou perplexa.

- E que mÃ©todo Ã© preciso para isso?

- Vou manter a minha independÃªncia, continuar tocando mÃºsica junto com as ValquÃ­rias. O Somi e eu vamos ficar em pÃ© de igualdade, e eu nÃ£o vou aceitar ordens sobre o que devo fazer.

- Fico surpresa com o general ter aceito isso. â comentou Tess. - Pelo andar da carruagem, ele estÃ¡ prestes a se tornar um homem muito importante no governo, e vai precisar de uma esposa bela e submissa para conduzir pelo braÃ§o.

- NÃ£o vou ser submissa, mas vou apoiÃ¡-lo se ele me apoiar da mesma forma. NÃ£o acho que vamos ter qualquer problema, nÃ³s nos amamos.

Galina ergueu a mÃ£o.

- Este casamento eu nÃ£o perco!

- Nem eu! â concordaram Tess, Carmen e Claudine.

Todas se abraÃ§aram e comeÃ§aram a discutir os detalhes do casamento.

Jake e Nicola entraram no bar, com cara de cansaÃ§o de quem passara o tempo mexendo com motores. Seus rostos tinham borrÃµes de fuligem, e os macacÃµes pareciam ter levado um banho de Ã³leo.

- LÃ¡ vÃªm os mecÃ¢nicos! â disse Carmen. - NÃ£o resistiram Ã  tentaÃ§Ã£o de meter a mÃ£o na graxa?

- EstÃ¡vamos ensinando ao pessoal daqui o modo correto de consertar os aviÃµes. Tivemos de dar uma incrementada num dos motores. Ã praticamente certeza que o pessoal local consegue assumir isso daqui por diante. Mais Ã  frente, vou voltar para a NigÃ©ria, ver como estÃ£o se saindo.

Tess ergueu o copo.

- Um brinde aos homens lambuzados de Ã³leo. Agora jÃ¡ podemos voltar para casa.

- NÃ³s precisamos de uma cerveja bem gelada. â disse Jake.

Enquanto a equipe conversava sobre suas aventuras, Jake pegou Tess pela mÃ£o e a levou a um canto mais discreto do bar.

- Tess, contaram-me o que aconteceu. NÃ£o acredito que vocÃª arriscou a sua vida e a das suas amigas para desarmar uma mulher-bomba suicida. O que lhe passou pela cabeÃ§a?

- A menina estava drogada e apavorada, entÃ£o eu me arrisquei, e consegui convencÃª-la a nÃ£o detonar os explosivos que estavam amarrados ao seu corpo.

- Tess, deve ter percebido que a chance de isso dar certo era mÃ­nima, e mesmo assim entrou com tudo. Em que universo disseram que vocÃª Ã© indestrutÃ­vel? NÃ£o percebeu que estava pondo em risco as vidas de Carmen e Alice? E iria querer que Aara e eu enterrÃ¡ssemos o que restasse de vocÃª? VocÃª foi valente, porÃ©m irresponsÃ¡vel. Ãs vezes eu gostaria que pensasse um pouco, antes de cometer loucuras.

- Jake, vocÃª estÃ¡ fazendo tempestade num copo dâÃ¡gua. Eu precisava fazer alguma coisa, e no fim deu tudo certo, entÃ£o me dÃª uma folga.

Jake se afastou, ainda furioso... e abalado.

Claudine observara a discussÃ£o entre Jake e Tess do outro extremo do bar. Ela entendia o que Jake vira em Tess: ela era linda, destemida e carinhosa. Mas tambÃ©m era impetuosa, e Ã s vezes isso aborrecia o metÃ³dico Jake. Esta era a oportunidade dela. Claudine tinha planos concretos para roubar o marido de Tess.




6. ARMAS PERDIDAS


O

repositÃ³rio de armas nucleares da Coreia do Norte ficava num bunker profundo, de seguranÃ§a mÃ¡xima. Um comboio levando um pelotÃ£o de soldados parou no portÃ£o, e o coronel no comando desceu do primeiro caminhÃ£o para mostrar os papÃ©is aos guardas. ApÃ³s um rÃ¡pido exame, deixaram-no entrar.

LÃ¡ dentro, o coronel foi levado Ã  sala do comandante da unidade. Depois das saudaÃ§Ãµes de praxe e elogios ao LÃ­der Supremo, o coronel informou ao comandante que viera buscar duas armas, para levÃ¡-las a um local secreto onde passariam por testes especializados.

O comandante da unidade jÃ¡ havia recebido a autorizaÃ§Ã£o para essa transferÃªncia algumas horas antes de o coronel chegar, e estava pronto para a entrega. Um caminhÃ£o do comboio entrou na unidade, e soldados carregaram as armas na sua plataforma. Ao sair, os soldados do coronel repentinamente sacaram suas armas e mataram, nÃ£o sÃ³ o comandante da unidade, mas todos os seus soldados. Os atiradores partiram rapidamente com sua carga, duas bombas nucleares de cinco quilotons cada.

Na cabine do primeiro caminhÃ£o, um jovem oficial nÃ£o estava muito satisfeito.

- Teria sido melhor nÃ£o ter de matar todos aqueles camaradas na unidade. â disse o Major Pang, subalterno do coronel.

- VocÃª sabe tÃ£o bem quanto eu que esta operaÃ§Ã£o precisa parecer um sequestro de armas feito por alguma entidade inimiga. Nossos camaradas pereceram defendendo sua unidade, e Ã© assim que irÃ¡ parecer. Tenho certeza de que serÃ£o tratados como herÃ³is por terem morrido defendendo a sua base. Agora, prepare-se para carregar o navio.

O comboio dirigiu-se celeremente atÃ© o porto de Haeju, no sul, e parou num cais onde uma banheira enferrujada havia atracado. Marinheiros do contingente local ajudaram a passar as armas nucleares do caminhÃ£o para a embarcaÃ§Ã£o. Assim que o barco ficou pronto para partir, o coronel deu a ordem para seus soldados executarem os marinheiros.

A embarcaÃ§Ã£o partiu imediatamente com rumo oeste, sem ser importunada pelas autoridades portuÃ¡rias. Elas tambÃ©m haviam sido dizimadas.

O pequeno e velho navio fora registrado em Serra Leoa, usando o que Ã© conhecido como bandeira de conveniÃªncia, uma tÃ¡tica comum usada por empresas marÃ­timas para se esquivarem de regulamentos ou taxas. Neste caso, o objetivo era encobrir o fato de que aquele barco enferrujado efetivamente partira da Coreia do Norte.

O navio seguiu rumo ao seu destino no Oriente MÃ©dio. Foi contornando a costa da China, virando para o sul nas ilhas Paracel, seguindo a costa do VietnÃ£, atravessando a MalÃ¡sia, passando pela Ãndia, cruzando o estreito de Ormuz, e chegando a uma praia deserta perto de Basra, no sul do Iraque, onde desembarcou sua carga oficial de diversas mercadorias. Pouco depois, transladaram furtivamente as armas atÃ© a costa, onde as trocaram com membros do grupo terrorista chamado Estado IslÃ¢mico por uma mala repleta de dÃ³lares americanos. Os norte-coreanos deixaram lÃ¡ dois tÃ©cnicos com a missÃ£o de ensinar aos terroristas como usar essas bombas. O restante da tripulaÃ§Ã£o partiu de regresso para o seu paÃ­s, para entregar a mala de dinheiro ao governo de Kim. Embora tivessem ganas de desertar, precisavam voltar Ã  Coreia do Norte, pois suas famÃ­lias estavam sendo mantidas em cativeiro atÃ© que eles retornassem depois de uma missÃ£o bem sucedida.

TÃ£o logo entregaram o dinheiro, as autoridades os elogiaram pelo seu patriotismo, e os executaram a tiros. Suas famÃ­lias inteiras jÃ¡ haviam sido assassinadas, antes mesmo de eles porem os pÃ©s em terra firme.

Alguns dias depois, o nome daquele barco apareceu numa lista do Conselho de SeguranÃ§a da ONU impondo sanÃ§Ãµes a 31 embarcaÃ§Ãµes norte-coreanas. Infelizmente, jÃ¡ era tarde demais. A carga mortal havia sido entregue.

Enquanto isso, um alerta norte-coreano revelou que as armas nucleares haviam sido roubadas por extremistas islÃ¢micos que, ao fazÃª-lo, mataram todos os soldados coreanos que defendiam o local onde estavam guardadas. O comunicado ficou restrito Ã s poucas agÃªncias governamentais que era preciso informar, e nÃ£o foi ostensivamente revelado a embaixadas estrangeiras, com a explicaÃ§Ã£o de permitir que o governo da Coreia do Norte pudesse conduzir suas investigaÃ§Ãµes. A notÃ­cia vazou deliberadamente um pouco depois, lanÃ§ando uma sÃ©rie de alertas a todos os paÃ­ses potencialmente ameaÃ§ados pelo ocorrido. AtÃ© entÃ£o, tudo ocorrera conforme planejado. O governo da Coreia do Norte era visto como vÃ­tima de um ato odioso, o roubo de armas nucleares cometido por terroristas. NÃ£o Ã© possÃ­vel dizer se alguÃ©m no Ocidente acreditou nessa histÃ³ria quando ela finalmente foi publicada.




7. UM RIO DE IMIGRANTES


D

epois do projeto na NigÃ©ria, Tess nÃ£o havia desistido de sua ideia de ajudar a resolver a crise dos refugiados na Europa. Jake continuava se negando a considerar a possibilidade de envolvimento numa empreitada dessas, porÃ©m Tess acabou por convencÃª-lo a, pelo menos, passar pela Alemanha para ver a situaÃ§Ã£o em primeira mÃ£o. Foram atÃ© algumas cidades menores onde havia muita atividade de imigrantes. Chegaram Ã  catedral de ColÃ´nia bem na hora de ver imigrantes muÃ§ulmanos fazendo tumulto durante as comemoraÃ§Ãµes de Ano Novo. Muitas mulheres alemÃ£s haviam sido assediadas, intimidadas e atÃ© estupradas. Tiveram as mesmas ocorrÃªncias em Hamburgo. A polÃ­cia local nÃ£o estava equipada para lidar com um evento inÃ©dito como esse, e ColÃ´nia logo se tornou o sÃ­mbolo dos problemas que uma imigraÃ§Ã£o maciÃ§a de homens muÃ§ulmanos causaria Ã  seguranÃ§a das mulheres alemÃ£s.

Depois de Munique, Tess e Jake passaram alguns dias em Erfurt, na Alemanha. Deixada praticamente incÃ³lume pela II Guerra Mundial, a pequena cidade parecia um vilarejo de conto de fadas congelado no tempo, com ruas de pedra no centro, casas antigas pintadas em tons pastel, e igrejas com algumas das torres mais bem conservadas na Alemanha.

Depois de terem se hospedado num pequeno hotel, Tess e Jake percorreram as ruas daquela cidade aprazÃ­vel, e perceberam uma multidÃ£o se formando no ginÃ¡sio da escola. De curiosidade, resolveram entrar. A prefeitura havia comunicado que, na noite anterior, um grupo de imigrantes sÃ­rios havia sido abrigado na vizinhanÃ§a. Os moradores nÃ£o pareciam nada contentes. Na verdade, parecia que o povo estava ficando revoltado.

Uma senhora idosa ergueu a mÃ£o:

- O que vamos fazer com toda essa gente? Precisamos construir uma mesquita? Eles vÃ£o nos acordar com suas oraÃ§Ãµes toda manhÃ£?

Outra mulher perguntou:

- O que serÃ¡ das nossas crianÃ§as? Como vamos protegÃª-las?

Um homem jovem gritou:

- Ã preciso acabar jÃ¡ com isso! â e recebeu uma calorosa salva de palmas.

Outro homem se ergueu, visivelmente irritado.

- Os muÃ§ulmanos nÃ£o comem carne de porco, certo?

Era uma pergunta vÃ¡lida, considerando-se que as salsichas e linguiÃ§as de porco eram uma especialidade local. Ironicamente, eles teriam de lidar com quatro mil imigrantes, a maioria deles vinda de paÃ­ses muÃ§ulmanos, que o governo federal pedira Ã  cidade para abrigar e cuidar.

A SRD, a empresa de Jake e Tess, ainda era credenciada pela ONU, em funÃ§Ã£o do seu trabalho anterior envolvendo o trÃ¡fico de pessoas. Essas credenciais serviam para lhes abrir portas e ter acesso a autoridades no mundo inteiro, entÃ£o foram conversar com o prefeito local.

Ele parecia cansado e estressado.

- Erfurt estÃ¡ mudando, â disse ele. - Acabamos de inaugurar um lar para imigrantes ao lado da minha casa. Minha filha caÃ§ula tem uma colega afegÃ£ na classe dela. A menina anda numa cadeira de rodas, porque foi atingida por estilhaÃ§os de granada na terra dela.

Jake ficou perplexo.

- Como o governo federal conseguiu persuadi-lo a acolher tantos imigrantes na sua cidade?

O prefeito lhe passou uma folha de papel com timbres oficiais.

- O governo nÃ£o nos deu outra opÃ§Ã£o. Simplesmente nos impÃ´s uma quota de gente que terÃ­amos de acolher. A Alemanha jÃ¡ recebeu mais de um milhÃ£o de pessoas buscando asilo, muitas delas com ideias bem diferentes sobre como a sociedade deveria funcionar. NÃ£o sei como podemos absorver tantos muÃ§ulmanos que nem mesmo falam alemÃ£o, quase nÃ£o tÃªm recursos, e nÃ£o sabem fazer nada de Ãºtil.

O prefeito parecia ter estado Ã  espera de ouvidos compassivos, porque continuava a descrever suas apreensÃµes.

- Para acomodar os refugiados, nÃ£o sÃ³ saÃ­mos correndo atrÃ¡s de alojamentos para eles, mas tambÃ©m intÃ©rpretes, professores, assistentes sociais, policiais, salas de aula, e isso sem falar em empregos e dinheiro. Muitos dos cidadÃ£os generosamente acolheram os primeiros imigrantes, mas outros estÃ£o preocupados, ainda nÃ£o estÃ£o convencidos de que os benefÃ­cios dessa imigraÃ§Ã£o valem o custo, o transtorno, e a transformaÃ§Ã£o da nossa identidade alemÃ£.

Tess quis saber mais.

- Parece que o seu povo estÃ¡ se esforÃ§ando muito para isso dar certo.

- Por enquanto, esta cidade estÃ¡ se adaptando. â disse o prefeito. - Avisados com meio dia de antecedÃªncia, conseguimos transformar o que era um centro de convenÃ§Ãµes num abrigo temporÃ¡rio para 674 pessoas. Ocupamos as camas para hÃ³spedes em 19 lares com imigrantes, e jÃ¡ achamos outras possibilidades. Ontem Ã  noite usamos um bordel desativado para abrigar pessoas vindas da SÃ­ria. O lugar acabou se mostrando bem adequado para essa finalidade: quartos pequenos com banheiros privativos. Cobrimos as paredes cor de rosa com tinta branca.

O prefeito levou Jake e Tess atÃ© a central da equipe de crises da cidade. Toda manhÃ£ reuniam-se ali os bombeiros, assistentes sociais, diretores de escolas, gestores de serviÃ§os de saÃºde, e membros do comitÃª de finanÃ§as para descobrir como lidar com a escassez de alojamentos para outros imigrantes que jÃ¡ estavam a caminho. A cidade elaborou um plano experimental de usar mais de 13 dos ginÃ¡sios de escolas da cidade para abrigar os refugiados.

- Tivemos de cancelar todas as aulas de educaÃ§Ã£o fÃ­sica e proibir os clubes esportivos locais de usarem essas instalaÃ§Ãµes atÃ© segunda ordem â explicou o prefeito, meneando a cabeÃ§a.

- Agora temos receio de que os pais se rebelem. â prosseguiu ele. - Um mÃªs atrÃ¡s, pedimos Ã s pessoas que aceitassem os imigrantes como vizinhos, mas agora estamos invadindo a vida delas. Estamos tirando aulas de nossos filhos, e seus times de futebol tambÃ©m. NÃ£o hÃ¡ outra opÃ§Ã£o.

O gerente de uma empresa que vendia contÃªineres habitÃ¡veis aguardava fora do escritÃ³rio do ginÃ¡sio, e contou que as entregas estavam com atÃ© 25 semanas de atraso.

O estoque de camas dobrÃ¡veis na Alemanha estava acabando. A cidade encomendara cinco mil camas e colchÃµes da Ikea da PolÃ´nia. Um funcionÃ¡rio passou uma hora ao telefone tentando comprar chuveiros portÃ¡teis.

- EstÃ£o em falta. â disse ele.

Depois, Tess e Jake foram conversar com Sabine Bauer, diretora de uma escola, que estava aconselhando suas colegas da cidade inteira em busca de orientaÃ§Ãµes sobre como lidar com as crianÃ§as imigrantes.

- Eu aviso que vÃ£o precisar de toda uma infraestrutura para isso. â disse ela.

Sua escola tinha uma âunidade de integraÃ§Ã£oâ, composta por uma assistente social, uma psicÃ³loga e uma professora que falavam Ã¡rabe. Algumas das professoras estavam fazendo cursos para ensinar o alemÃ£o para estrangeiros. TambÃ©m tiveram de comprar novas grelhas para servir as crianÃ§as muÃ§ulmanas com linguiÃ§as de frango e peru, em lugar das locais, que eram feitas com carne de porco.

- HÃ¡ muita gente insatisfeita com a atenÃ§Ã£o e os recursos que estamos destinando aos estrangeiros, tanto dentro como fora da escola. â disse Sabine. - Na Alemanha, um refugiado aceito como tal recebe um apartamento, assistÃªncia mÃ©dica, um curso de alemÃ£o e 399 euros por mÃªs. Muitos dos nossos, aqui da cidade, estÃ£o desempregados, e numa situaÃ§Ã£o mais difÃ­cil que essa. NÃ£o conseguimos integrar os desempregados na nossa sociedade, e entÃ£o nos mandaram achar um modo de integrar os refugiados.

De volta a Munique, Tess e Jake assistiram aos noticiÃ¡rios na TV, e conversaram com amigos alemÃ£es sobre a situaÃ§Ã£o. NÃ£o havia dÃºvida de que os alemÃ£es estavam ficando decepcionados com a decisÃ£o da Chanceler Merkel, de deixar mais de um milhÃ£o de refugiados muÃ§ulmanos virem para a Alemanha. As autoridades locais estavam no limite de sua capacidade. BilhÃµes de euros haviam sido gastos, e o problema parecia nÃ£o ter fim. A imprensa relatava casos de estupro cometidos por imigrantes na SuÃ©cia. A Dinamarca havia declarado que nÃ£o receberia nenhum imigrante ou refugiado. A Hungria fez igual. A FranÃ§a expulsou os refugiados que tentaram entrar pelo norte da ItÃ¡lia. Havia pressÃ£o polÃ­tica no Reino Unido para nÃ£o aceitarem refugiados. AtÃ© o ex-chanceler da Alemanha disse que abrir as portas para uma quantidade ilimitada de refugiados foi um erro, complementando com sua opiniÃ£o de que Angela Merkel âtinha coraÃ§Ã£o, mas nÃ£o contava com nenhum planoâ.

TrÃªs eleiÃ§Ãµes estaduais importantes se avizinhavam, e parecia inevitÃ¡vel que o partido populista Alternativa para a Alemanha, o AfD de extrema direita, conseguisse fazer avanÃ§os considerÃ¡veis. Merkel levaria a culpa, e seu apoio havia desabado. Se seu Partido Democrata CristÃ£o lhe virasse as costas, ela poderia atÃ© perder a chancelaria. A Europa sem a lideranÃ§a de Merkel iria afundar.

Durante o cafÃ© no apartamento de seus amigos alemÃ£es, Tess perguntou:

- Por que Merkel, sempre tÃ£o prudente, resolveu fazer isso?

- Porque nÃ³s, alemÃ£es, estamos tentando nos redimir do que os nazistas fizeram na II Guerra Mundial. â explicou Elfriede. - E tambÃ©m porque ela tem bom coraÃ§Ã£o.

- Mas o que ela estÃ¡ fazendo nÃ£o tem muito sentido. Estamos falando de acolher mais de um milhÃ£o de pessoas com religiÃ£o e cultura radicalmente diferentes.

- Acho que Merkel fez a coisa certa, porÃ©m nÃ£o estabeleceu limites. - completou Elfriede. - A questÃ£o agora Ã© como ela irÃ¡ lidar com as consequÃªncias. A Alemanha nÃ£o tem condiÃ§Ãµes de acolher mais refugiados.

Jake estava lendo o jornal local. Em duas semanas ele havia aprendido o suficiente de alemÃ£o para conversar e ler a linguagem complicada quase razoavelmente.

- O que vocÃª acha da situaÃ§Ã£o, Jake?

Elfriede sabia que Jake era um prodÃ­gio intelectual, com um enorme talento para discernir a essÃªncia de um problema a partir de um monte de informaÃ§Ãµes conflitantes.

- Esta Ã© uma situaÃ§Ã£o que vai muito alÃ©m da Alemanha. Boa parte do problema comeÃ§ou na SÃ­ria e na insurreiÃ§Ã£o que houve por lÃ¡. Inclui a Turquia, porque ela estÃ¡ na linha de frente da crise dos refugiados. EntÃ£o hÃ¡ a RÃºssia, que apoia a SÃ­ria. Os Estados Unidos entram na equaÃ§Ã£o tambÃ©m, e o problema imediato afeta a Europa inteira. A UniÃ£o Europeia precisa estabelecer uma fronteira externa que funcione, se quiser se manter sem fronteiras por dentro. Caso contrÃ¡rio, vÃ£o reaparecer as fronteiras nacionais, e a UE irÃ¡ se esfacelar. Precisamos terminar essa guerra da SÃ­ria, que Ã© a fonte primÃ¡ria do Ãªxodo de refugiados. A Europa estÃ¡ pagando para a Turquia aumentar o rigor nas suas fronteiras e interromper o fluxo de refugiados, mas os turcos estÃ£o fazendo um jogo de extorsÃ£o. TambÃ©m precisamos que paÃ­ses europeus como a PolÃ´nia e a Hungria, que recebem injeÃ§Ãµes maciÃ§as de capital da UE, larguem essa posiÃ§Ã£o ingrata de xenofobia nacionalista, mas isso nÃ£o irÃ¡ acontecer em breve.

Jake prosseguiu com sua dissertaÃ§Ã£o.

- Na RÃºssia, precisamos que Vladimir Putin coopere, mas a estratÃ©gia dele Ã© solapar uma Europa unida. Um fluxo de refugiados âarmadosâ conseguiria fazer exatamente isso.

- E quanto aos Estados Unidos? - perguntou Elfriede. - Certamente devem fazer parte da soluÃ§Ã£o.

- Os Estados Unidos estÃ£o ocupados em tentar manter no poder um governo disfuncional no Iraque, e em combater o EI pelo ar. NÃ£o querem se meter diretamente na crise sÃ­ria, e com bons motivos. JÃ¡ desistiram de derrubar Assad. Se ele cair, Ã© quase certo que as seitas muÃ§ulmanas virulentas irÃ£o tomar o seu lugar. A SÃ­ria irÃ¡ implodir.

A prÃ³xima escala era Berlim. A dimensÃ£o do desafio que a Alemanha enfrentava era evidente no aeroporto desativado de Tempelhof, em Berlim. Os amplos hangares de 15 metros de altura estavam sendo convertidos em abrigos para milhares de refugiados, que dormiam onde anteriormente se guardavam aviÃµes. Havia cerca de 2.600 refugiados ali, e eles esperavam receber mais sete mil. A expectativa era acomodar mais umas 60 mil pessoas na capital.

Tess conversou com um casal de jovens refugiados vindos de Alepo. Ouviu reclamaÃ§Ãµes sobre a comida, ter de aprender alemÃ£o, e como as semanas se esticavam para meses, enquanto eles ficavam naquela central de emergÃªncia. No inÃ­cio, nÃ£o queriam sair de Alepo, mas isso dependeria de a guerra terminar. Passaram um, dois, trÃªs anos nessa esperanÃ§a, atÃ© que perceberam que tinham quatro guerras a enfrentar: a SÃ­ria de Assad contra os rebeldes; o EI contra o governo e os rebeldes sÃ­rios; os sauditas contra o IrÃ£; e os curdos contra o EI. EntÃ£o perderam as esperanÃ§as. Os refugiados do Oriente MÃ©dio nÃ£o saÃ­ram de lÃ¡ como opÃ§Ã£o. Eles saÃ­ram por falta de qualquer outra opÃ§Ã£o.

A UE propusera que as naÃ§Ãµes europeias aceitassem e distribuÃ­ssem entre elas mais 160.000 imigrantes, lembrando aos europeus que seus ancestrais tambÃ©m haviam fugido da adversidade, da misÃ©ria e da fome. Havia certa pressÃ£o para os paÃ­ses aceitarem quotas obrigatÃ³rias, mas era pouco provÃ¡vel que todos se sujeitassem. Se a resistÃªncia de alguns paÃ­ses como a Hungria e a PolÃ´nia continuasse, poderia ser o fim do projeto europeu inteiro.

Apareceu um boletim especial no meio do noticiÃ¡rio da TV. A Inglaterra havia aprovado o Brexit. Essencialmente, o paÃ­s estava se desligando da UniÃ£o Europeia. Alguns dos votos tiveram a ver com patriotismo, porÃ©m o maior receio era que a UE tentaria forÃ§ar a Inglaterra a acolher um grande nÃºmero de refugiados muÃ§ulmanos.

O plano da chanceler alemÃ£ de manter as portas do paÃ­s abertas Ã s pessoas que fugissem do Iraque ou da SÃ­ria logo se mostrou bem impopular. Os alemÃ£es comuns passaram a recear as consequÃªncias de manter as portas abertas a refugiados. Isso levou a insinuaÃ§Ãµes de que Merkel se importava mais com os estrangeiros do que com a seguranÃ§a de seus prÃ³prios cidadÃ£os.

Um partido polÃ­tico de extrema direita, Alternativa para a Alemanha ou AfD, disparou nas pesquisas nacionais e venceu vÃ¡rias eleiÃ§Ãµes regionais importantes. Uma pesquisa nacional revelou que a soma do apoio popular aos dois maiores partidos polÃ­ticos do paÃ­s havia caÃ­do abaixo de 50%. Um receio intenso em relaÃ§Ã£o aos imigrantes enfraqueceu a polÃ­tica de centro, levando as pessoas para a direita, uma evoluÃ§Ã£o problemÃ¡tica que remontava ao surgimento do nazismo.

Para piorar as coisas, a Alemanha sofreu uma sÃ©rie de atentados terroristas sanguinÃ¡rios e caÃ³ticos. Enquanto viajava num trem regional perto da cidade de WÃ¼rzburg, um adolescente afegÃ£o que pleiteava asilo atacou os passageiros com uma foice, ferindo cinco deles. Outro adolescente, de ascendÃªncia iraniana, matou a tiros nove pessoas e feriu mais 35 num shopping center em Munique. Um refugiado sÃ­rio, usando um facÃ£o, atacou pedestres na cidade de Reutlingen, matando uma polonesa grÃ¡vida e ferindo mais duas pessoas. Um sÃ­rio que nÃ£o conseguiu asilo se explodiu num bar em Ansbach, ferindo 15 pessoas. Todos esses incidentes reforÃ§avam os argumentos dos partidos de extrema direita.




8. UMA CHAMADA AO DEVER


D

epois do tour pela Alemanha, Tess e Jake voltaram para Nova York. Desta vez Tess relutou, porÃ©m teve de concordar que a situaÃ§Ã£o dos refugiados na Europa era algo tÃ£o avassalador, que os recursos limitados que ela teria Ã  sua disposiÃ§Ã£o nÃ£o conseguiriam fazer a menor diferenÃ§a. A crise teria de ser resolvida pelos governos europeus. Todavia Jake nÃ£o tinha dÃºvidas de que Tess acabaria dando um jeito de voltar a esse tema.

Era um dia bonito, entÃ£o decidiram jantar num restaurante ao ar livre no centro da cidade. Colocaram as coleiras nos cachorros e saÃ­ram para caminhar. Os pedestres sorriam ao ver aquele par estranho formado por Maggie e Sebastian, mas nÃ£o resistiam ao desejo de pedir licenÃ§a para acariciar Maggie. Ãs vezes as carÃ­cias ficavam sujeitas ao humor do buldogue. Tubby havia se autonomeado protetor de Maggie, e levava essa funÃ§Ã£o muito a sÃ©rio. Era normal ele rosnar quando um transeunte que ele julgasse digno de suspeita acariciasse Maggie no topo da cabeÃ§a. Um leve puxÃ£o na coleira era o bastante para fazer Tubby se comportar, mas ele jÃ¡ teria manifestado o seu parecer.

Pouco depois de terem se assentado no restaurante Ã  beira da calÃ§ada, o celular de Tess tocou, e ela atendeu.

- Oi, papai. O que houve?

Depois de uma breve conversa, ela passou o telefone a Jake.

- Meu pai quer falar com vocÃª.

Jake estava mastigando uma massa muito apetitosa ao pesto com edamame e amÃªndoas, mas pegou o telefone.

- Boa noite, general. A que devo o prazer?

- OlÃ¡, Jake. Sei que estou perturbando o seu jantar por minha conta e risco, mas preciso lhe fazer uma pergunta urgente. O nome Paul Saunders lhe diz alguma coisa?

- Claro! Paul era o meu chefe na CIA.

- Bem, ele gostaria que vocÃª e Tess tivessem uma reuniÃ£o conosco amanhÃ£. Disse que tem um assunto importante para conversar.

Jake ficou imediatamente desconfiado.

- Morgan, na Ãºltima vez em que vi o Paul, eu tinha levado um tiro no pulmÃ£o de terroristas iraquianos. NÃ£o hÃ¡ o que me faÃ§a voltar para o Iraque.

- O Saunders nÃ£o estÃ¡ propondo nada disso. Agora ele Ã© Diretor Assistente da CIA, e precisa conversar com vocÃª sobre alguma coisa importante.

- E por que ele mesmo nÃ£o me procurou?

- Teve receio de que vocÃª nÃ£o o atendesse por causa de uns desentendimentos que vocÃªs tiveram no passado. Agora estÃ¡ insistindo em falar com vocÃª. Como um favor para mim, gostaria que viesse falar conosco amanhÃ£ de manhÃ£. NÃ£o deve levar mais do que uma hora. Ã coisa simples.

- Nada pode ser simples com o Paul envolvido, mas tudo bem, estaremos aÃ­ amanhÃ£ de manhÃ£, desde que ninguÃ©m espere que nos envolvamos com o que o Paul estiver tentando fazer.

- Ã tudo o que eu lhe peÃ§o, Jake. Fico muito grato por vocÃª se dispor a ouvir o que Saunders tem a dizer. Posso contar com vocÃªs no meu escritÃ³rio amanhÃ£ de manhÃ£, Ã s dez horas?

- Estaremos lÃ¡. Tenha uma boa noite.

Jake pÃ´s o celular na mesa, recostou-se na cadeira, e olhou para Tess.

- NÃ£o estou gostando disso, Tess. Acho que a CIA me quer de volta, e nÃ£o estou nem um pouco interessado.

- NÃ£o posso culpÃ¡-lo, Jake, considerando que vocÃª escapou por pouco na sua Ãºltima aventura no Iraque. Eu fui vÃª-lo, baleado e sangrando, no hospital militar, lembra?

- Acho que nÃ£o temos outra opÃ§Ã£o alÃ©m de ouvir o que Saunders tem para dizer. Vamos aproveitar a noite, e amanhÃ£ veremos.

Alheios ao lugar onde estavam, Tubby e Maggie desfrutavam seus hambÃºrgueres mal passados. Na verdade, Maggie comia como uma dama, saboreando sua comida em pequenas mordiscadas. Sebastian deglutira seu hambÃºrguer segundos depois de o garÃ§om ter trazido a comida, e observava a refeiÃ§Ã£o de sua comensal com uma despudorada volÃºpia. A pequena Maggie prudentemente protegia seu repasto de uma pilhagem, lanÃ§ando um olhar de ânÃ£o ouse!â para o buldogue guloso. Como sempre, Jake evitou uma altercaÃ§Ã£o mandando servirem a Tubby uma tigela do seu favorito sorvete de creme.

Na manhÃ£ seguinte, Jake e Tess tomaram um tÃ¡xi para o centro da cidade, atÃ© o escritÃ³rio central da NTC, uma grande fornecedora de equipamentos militares para o PentÃ¡gono. Foram levados rapidamente Ã  sala do CEO, o General Morgan Turner, reformado. Como sempre, o general recebeu Tess e Jake efusivamente, e os convidou para se sentarem Ã  mesa de reuniÃµes.

- EntÃ£o, como vÃ£o os negÃ³cios? - perguntou o general.

- Estamos indo bem, papai. â Tess respondeu. - Tiramos uma folga depois do ano decepcionante que passamos tentando fazer alguma coisa contra o trÃ¡fico de pessoas, mas agora estamos novamente focados no nosso negÃ³cio principal. Acabamos de voltar da NigÃ©ria, onde fizemos a entrega de alguns aviÃµes Tucano a serem usados contra o Boko Haram.

- Seria bom se a NigÃ©ria pudesse bancar alguns caÃ§as Raptor F-22. NÃ£o quero me gabar, mas tenho muito orgulho desse aviÃ£o. Ele Ã© furtivo e sofisticado, sem falar em como Ã© lucrativo.

Jake sorriu.

- Talvez ele impressionasse mais, se nÃ£o custasse $ 68.362 por hora de voo.

O sogro estava preparado.

- VocÃª nÃ£o perde uma chance de estragar prazeres, nÃ£o Ã©?

- SÃ³ estou citando fatos.

- De qualquer modo, isso Ã© complicado. Como sabe, todos esses nÃºmeros ficam sujeitos a convenÃ§Ãµes de contabilidade, Ã  interpretaÃ§Ã£o dos contadores, e simplesmente ao nÃºmero de horas de voo por ano. Estes sÃ£o custos mÃ©dios, e nÃ£o custos marginais.

O cÃ©rebro matematicamente infalÃ­vel de Jake entrou em aÃ§Ã£o.

- Ã preciso admitir, Morgan, que o nosso equipamento Ã© vergonhosamente caro para qualquer um comprar e operar. O novo caÃ§a F-35 custa apenas $ 85 milhÃµes de dÃ³lares por unidade. O Eagle F-15C custa $ 41.921 dÃ³lares por hora de voo, o Fighting Falcon F-16C custa $ 22.514 por hora. O venerÃ¡vel Thunderbolt II A-10C, o Warthog, custa uma mixaria para voar, mÃ­seros $ 19.000 dÃ³lares por hora. Acho que o drone Reaper MQ-9A Ã© uma pechincha, por apenas $ 4.762 por hora.

- Como sempre, vocÃª tem razÃ£o, Jake. O custo Ã© um fator, mas os drones Reaper estÃ£o numa categoria completamente diferente. Essas coisinhas vÃ£o acabar afetando a lucratividade das principais indÃºstrias de material bÃ©lico. Os militares jÃ¡ descobriram como eles sÃ£o prÃ¡ticos e baratos. Neste ano, os drones representaram mais de 60% de todas as armas aÃ©reas mandadas para o AfeganistÃ£o. Em 2015, os drones foram usados em 56% dos ataques contra o TalibÃ£. Em 2011, esse nÃºmero era 5%, entÃ£o o destino estÃ¡ traÃ§ado. Os militares estÃ£o aumentando o uso de drones, nÃ£o sÃ³ pelo custo, mas porque eles evitam por a vida do piloto em risco.

O general sabia muito bem que nunca iria ganhar uma discussÃ£o com Jake, e ficou aliviado quando sua secretÃ¡ria trouxe Paul Saunders para dentro da sala.

Saunders aproximou-se de Jake e abriu um sorriso.

- Nossa! Jake, vocÃª estÃ¡ Ã³timo. Pelo que vejo, para vocÃª o tempo nÃ£o passa.

Os homens trocaram um aperto de mÃ£os.

- Continuo aprontando sem levar a culpa. â Brincou Jake. - ParabÃ©ns pelo seu novo cargo na CIA.

- Obrigado, Jake. Eu estava ansioso para curtir minhas novas mordomias, mas parece que o Tio Sam teve uma ideia diferente. E esta deve ser a famosa Tess. Ã um prazer finalmente vir a conhecÃª-la. Saunders estendeu-lhe a mÃ£o.

Todos se acomodaram ao redor da mesa. Saunders foi direto ao assunto.

- Jake, fontes confiÃ¡veis da inteligÃªncia indicam que Ã© iminente um grande ataque envolvendo uma arma nuclear alegadamente perdida, ou um ataque com armas quÃ­micas, igualmente devastador. Acreditamos que esse material esteja no Iraque ou na SÃ­ria. Se alguma dessas bombas for usada, nÃ£o importa qual seja o alvo, Ã© Ã³bvio que a repercussÃ£o serÃ¡ significativa. Achamos provÃ¡vel que esse ataque ocorra no Oriente MÃ©dio, havendo contudo a possibilidade de ser na Europa. Os Estados Unidos e a OTAN jÃ¡ colocaram Ã  disposiÃ§Ã£o todos os recursos que forem necessÃ¡rios para enfrentar essa ameaÃ§a, porÃ©m temos muito trabalho pela frente.

- E o que isso poderia ter a ver comigo? - perguntou Jake com um olhar de ceticismo.

- O presidente nos deu instruÃ§Ãµes para usar os recursos que forem necessÃ¡rios para chegar ao cerne da questÃ£o e impedir o uso dessas armas. JÃ¡ colocamos os melhores agentes e analistas de inteligÃªncia para trabalhar neste caso, incluindo vÃ¡rios especialistas de informÃ¡tica e cientistas bem conhecidos. Todavia eu acho que isso nÃ£o Ã© o bastante, e Ã© por este motivo que estou pedindo para vocÃª vir participar.

- Paul, vocÃª sabe que sou alÃ©rgico Ã  polÃ­tica e ao pensamento grupal. NÃ£o foi sÃ³ uma vez que eu externei a minha opiniÃ£o de que a Ãºltima guerra no Golfo foi uma operaÃ§Ã£o horrÃ­vel e mal dirigida que destruiu o Iraque, desestabilizou o Oriente MÃ©dio e, de muitas maneiras, criou as condiÃ§Ãµes necessÃ¡rias para a ascensÃ£o do Estado IslÃ¢mico. TambÃ©m reclamei da corrupÃ§Ã£o no novo governo iraquiano. Percebi que estava pregando no deserto, entÃ£o pedi demissÃ£o. Agora os problemas se agravaram, e vocÃªs querem que eu me envolva novamente numa outra confusÃ£o, que nÃ£o fui eu quem criou.

- Entendo o que diz, Jake, e reconheÃ§o que vocÃª estava com a razÃ£o o tempo todo. Tem todo o direito de ver isso com ceticismo, porÃ©m agora precisa levar mais um aspecto em consideraÃ§Ã£o. Desta vez nÃ£o estamos lidando com polÃ­tica. Estamos diante de uma possÃ­vel catÃ¡strofe, que nÃ£o sÃ³ irÃ¡ afetar os Estados Unidos, mas a Europa tambÃ©m. OuÃ§a o que eu tenho a dizer, e depois decida.

- Certo, vÃ¡ em frente.

- VocÃª Ã© uma das poucas pessoas com memÃ³ria infalÃ­vel, que consegue montar um quebra-cabeÃ§as apenas olhando para as peÃ§as. Na minha longa carreira, raramente vi pessoas com a sua habilidade analÃ­tica e, alÃ©m disso, vocÃª costuma estar com a razÃ£o. Outra coisa Ã© a sua capacidade de aprender idiomas e outras coisas com uma rapidez incrÃ­vel. Vamos precisar dessas qualidades para descobrir quem roubou esse material, e onde pretendem usÃ¡-lo.

- Obrigado pelos elogios, Paul, mas tenho certeza de que deve haver outras pessoas com as mesmas qualidades que vocÃª acabou de enumerar.

- De fato hÃ¡, sim, Jake. O nome dele Ã© Vaughn Wentworth, um tipo de agente do MI6 britÃ¢nico, que Ã© a Ãºnica pessoa que, na minha opiniÃ£o, tem os mesmos talentos que vocÃª.

- Uau, Vaughn Wentworth. Nome difÃ­cil de pronunciar. â observou Jake.

- Espere um pouco... â Tess interrompeu. - Ã o mesmo Vaughn Wentworth, o famoso maestro de mÃºsica clÃ¡ssica? Muitas orquestras gostariam de contratÃ¡-lo como diretor musical, mas ele prefere ser autÃ´nomo.

Saunders tratou dos detalhes.

- Sim. Wentworth Ã© uma figura interessante. Seus ancestrais eram cossacos, que ficaram famosos por suas proezas militares, e pela sua inabalÃ¡vel lealdade aos czares da RÃºssia. Quando os soviÃ©ticos tomaram conta da RÃºssia no final da I Guerra Mundial, fizeram o possÃ­vel para exterminÃ¡-los ou despachÃ¡-los para a SibÃ©ria. A famÃ­lia de Vaughn conseguiu fugir da RÃºssia, e ele nasceu em Londres. Seu nome originalmente era Vasyli Kirsanov. EntÃ£o seus pais se naturalizaram britÃ¢nicos e adotaram um nome inglÃªs mais adequado. O interessante Ã© que Wentworth nunca esqueceu suas raÃ­zes russas, fala o idioma fluentemente, e conseguiu se inserir na elite do poder russo dando conselhos polÃ­ticos Ãºteis que chegaram aos ouvidos do Presidente Vladimir Putin, que se vÃª como um czar ressurgente.

- Por que estÃ¡ me contando tudo isso? â Jake ainda estava cÃ©tico.

- GostarÃ­amos que vocÃª e Wentworth trabalhassem juntos neste problema, que unissem seus impressionantes recursos intelectuais para poupar o mundo de uma experiÃªncia terrÃ­vel, com graves consequÃªncias.

Tess nÃ£o gostou do rumo que aquilo estaca tomando.

- Paul, tenho certeza de que vocÃª jÃ¡ sabe que o Jake Ã© refratÃ¡rio a bajulaÃ§Ã£o. Eu nÃ£o acredito que o mundo ocidental nÃ£o seja capaz de resolver este problema sem ele. Se a situaÃ§Ã£o Ã© tÃ£o perigosa quanto vocÃª diz, os vastos recursos das grandes potÃªncias devem ser suficientes para dominÃ¡-la.

- Na verdade, Tess, nÃ£o Ã© sÃ³ isso. VocÃª tambÃ©m faz parte da soluÃ§Ã£o. GostarÃ­amos de usar a SRD, sua empresa, como disfarce para examinar outra parte do enigma.

- E como seria isso?

- Gostaria que vocÃª pegasse alguns dos melhores elementos da sua equipe, passasse duas semanas com o exÃ©rcito dos Estados Unidos na BulgÃ¡ria para se qualificarem como pilotos dos aviÃµes A-10, apelidados de Warthogs, ou javalis, e entÃ£o levassem alguns deles atÃ© a UcrÃ¢nia, como parte do nosso programa de assistÃªncia para trazer aquele paÃ­s para o sÃ©culo XXI.

- NÃ£o vejo o que isso tem a ver com o outro problema que vocÃª descreveu. â disse Tess, um pouco encafifada com o que acabara de ouvir.

Paul tirou um documento impresso e o olhou rapidamente.

- Pelo que soube, vocÃª teve um papel importante em ajudar a justiÃ§a da FranÃ§a a julgar Laurent Belcour, acusado de lenocÃ­nio e promoÃ§Ã£o da prostituiÃ§Ã£o. Esse incidente sÃ³rdido o forÃ§ou a renunciar da lideranÃ§a da IDO, a International Development Organization.

- Ã verdade, mas vocÃª se esqueceu de mencionar que os tribunais franceses nÃ£o conseguiram condenar Belcour e seus capangas. Aqueles pervertidos escaparam, livres e soltos.

- Isso nÃ£o tem importÃ¢ncia. O importante Ã© que Belcour a conhece, e ainda estÃ¡ tentando entrar em contato com vocÃª.

- NÃ£o vou lhe perguntar como Ã© que vocÃª sabe, mas Ã© verdade. Ele fica me mandando e-mails, flores, e me convidando para almoÃ§ar. Sem dÃºvida, ele quer tripudiar por eu nÃ£o ter conseguido colocÃ¡-lo na cadeia. De qualquer modo, nÃ£o entendo o motivo para o Big Brother ficar perdendo tempo e gastando recursos com isso, e nem vejo uma ligaÃ§Ã£o ente isso e as bombas nucleares.

- Ah, mas essa ligaÃ§Ã£o existe. Depois de sair da IDO, Belcour passou a prestar serviÃ§os de consultoria financeira para paÃ­ses que, no momento, nÃ£o sÃ£o os mais benquistos pela comunidade internacional. Alguns deles sÃ£o o SudÃ£o, SÃ©rvia, CazaquistÃ£o, TajiquistÃ£o, Myanmar, ZimbÃ¡bue, VietnÃ£ e, mais recentemente, a Coreia do Norte. Aparentemente, ele os ajuda a melhorar suas estratÃ©gias e gestÃ£o financeira.

- Afinal de contas, ele precisa ganhar a vida. â observou Jake. - NÃ£o vejo nada de sinistro nisso.

- Fora o fato de Belcour exigir que sua remuneraÃ§Ã£o inclua damas de todos os naipes, atÃ© mesmo as fora do baralho, suas atividades nÃ£o seriam motivo de preocupaÃ§Ã£o, se ele nÃ£o tivesse passado os Ãºltimos dois meses na Coreia do Norte como convidado especial do charmoso ditador Kim Jong-un. Como sabe, a Coreia do Norte estÃ¡ financeiramente arruinada, e sob diversos embargos que paralisaram o paÃ­s. A especialidade de Belcour Ã© arranjar financiamentos com diversas organizaÃ§Ãµes financeiras, mas nÃ£o achamos que ele possa fazer muito nesse sentido pela Coreia do Norte, que Ã© um paÃ­s proscrito. A conclusÃ£o Ã© que o envolvimento dele vai alÃ©m da consultoria financeira, podendo entrar em Ã¡reas um tanto nebulosas.

- Deve haver mais alguma coisa. â disse Tess.

- De fato hÃ¡, sim. O governo dos Estados Unidos contratou Belcour como consultor principal para ajudar a UcrÃ¢nia a melhorar sua situaÃ§Ã£o financeira.

Tess nÃ£o conseguia acreditar.

- VocÃªs contrataram um conhecido traficante de pessoas para participar de um prestigiado programa internacional?

- Infelizmente, dadas as circunstÃ¢ncias, nÃ£o tivemos muita escolha. A CIA facilitou a seleÃ§Ã£o dele como integrante da equipe de apoio Ã  UcrÃ¢nia. Precisamos descobrir o que ele sabe sobre as armas desaparecidas, e onde elas poderÃ£o ser usadas. Tess, no cÃ´mputo final, vocÃª Ã© a Ãºnica pessoa que conseguimos ver como capaz de iniciar o diÃ¡logo com Belcour sem que ele suspeite. Precisamos descobrir o que ele sabe. Temos certeza de que ele estÃ¡ envolvido nisso de algum modo. VocÃª Ã© a Ãºnica pessoa que pode se aproximar dele. Afinal de contas, Ã© ele que estÃ¡ tentando fazer contato com vocÃª.

Tess ficara visivelmente aborrecida.

- Paul,vocÃª nÃ£o tem noÃ§Ã£o do quanto eu abomino esse homem. Se eu chegar a ficar a dez quilÃ´metros dele, jÃ¡ serÃ¡ perto demais.

- Entendo os seus motivos, Tess, mas preciso lembrÃ¡-la de que estamos lidando com uma questÃ£o de seguranÃ§a nacional, a nossa e a de nossos aliados. NÃ£o podemos permitir uma explosÃ£o nuclear em nenhum lugar, e o Belcour pode ser a chave para resolvermos este caso. A esta altura vocÃª Ã© a Ãºnica pessoa que pode se aproximar dele, e estou formalmente lhe pedindo para participar. Providenciei para vocÃª participar de uma reuniÃ£o de instruÃ§Ãµes na central do SOCOM, em Tampa, que estÃ¡ montando uma equipe de elite para trabalhar nisso. Se concordar em participar, vamos reintegrar vocÃªs dois Ã  ativa do exÃ©rcito.

- Paul, posso pensar melhor nisso?

- VocÃªs dois tÃªm atÃ© amanhÃ£ de manhÃ£ para decidir. NÃ£o podemos perder tempo. As armas certamente estÃ£o nas mÃ£os de terroristas, e nossa capacidade de prevenir uma catÃ¡strofe vai diminuindo a cada hora que passa.




9. SALVANDO O MUNDO


J

ake e Tess desembarcaram no aeroporto de Tampa, na FlÃ³rida. No caminho atÃ© os balcÃµes das locadoras de automÃ³veis no outro lado do terminal, puderam curtir o sol da FlÃ³rida por exatos dois minutos. Pegaram o carro, um Corvette novo, e rumaram para a Base AÃ©rea de MacDill para participar de uma reuniÃ£o no SOCOM, o Comando de OperaÃ§Ãµes Especiais dos Estados Unidos.

Assim que foram liberados no portÃ£o da base, um tenente veio ao seu encontro na porta de um prÃ©dio e os conduziu atÃ© uma sala de reuniÃµes muito bem equipada. Havia vÃ¡rias pessoas sentadas Ã  volta da longa mesa de reuniÃ£o, e Jake e Tess foram convidados a se juntar a eles. Um oficial do exÃ©rcito com estrelas nos ombros deu inÃ­cio aos trabalhos.

- Bom dia. Sou o Major-General Kevin Brooks. VocÃªs foram solicitados a participar de uma operaÃ§Ã£o da mÃ¡xima importÃ¢ncia. Todos estÃ£o aqui em funÃ§Ã£o dos seus talentos exclusivos.

O General Brooks passou Ã  apresentaÃ§Ã£o dos integrantes da equipe.

- Agora eu gostaria de apresentar rapidamente as pessoas aqui presentes, que foram selecionadas para atingir certos objetivos importantes. Fazendo a volta, o Coronel Howard Anders serÃ¡ o seu contato principal. Ele irÃ¡ se comunicar com vocÃªs conforme necessÃ¡rio, e tambÃ©m irÃ¡ providenciar quaisquer recursos de que vocÃªs possam precisar. Vaughn Wentworth nos vem do mundo da mÃºsica, mas tambÃ©m Ã© um respeitado ativista da paz e alto agente do MI6 britÃ¢nico. Ao longo dos anos, desenvolveu uma valiosa rede de informantes na RÃºssia, IrÃ£, Coreia do Norte e no Oriente MÃ©dio. Ele tambÃ©m Ã© amigo prÃ³ximo do presidente da RÃºssia. Eva Bar-Lev Ã© do Mossad, de Israel. Seu foco Ã© monitorar as ameaÃ§as do IrÃ£ e da SÃ­ria, e coordenar o contato entre os Estados Unidos e Israel. O Coronel Jake Vickers e a Major Tess Turner sÃ£o da SRD, uma respeitada empresa de serviÃ§os militares, nÃ£o sÃ³ para o governo dos Estados Unidos, mas tambÃ©m para vÃ¡rias naÃ§Ãµes em desenvolvimento. O grupo nesta sala foi criado como uma unidade autorizada a conduzir as operaÃ§Ãµes da maneira que achar mais adequada. Sua tarefa serÃ¡ vasculhar as ligaÃ§Ãµes entre Coreia do Norte, RÃºssia, China, IrÃ£ e as organizaÃ§Ãµes terroristas no Oriente MÃ©dio. Obtivemos informaÃ§Ãµes confiÃ¡veis de que um evento de consequÃªncias significativas estÃ¡ sendo planejado. Sua missÃ£o Ã© descobrir qual Ã© a ameaÃ§a escondida nas sombras, e coordenar um modo de compartilhar as informaÃ§Ãµes a serem usadas para lidar com o problema das armas nucleares desaparecidas.

Jake ergueu a mÃ£o.

- Senhor, os recursos de inteligÃªncia da minha empresa foram organizados para apoiar nossas atividades normais. NÃ£o imagino o motivo de precisarem de nossos serviÃ§os num teatro de operaÃ§Ãµes tÃ£o grande.

- Na verdade, vocÃªs estiveram envolvidos em algo relevante Ã  tarefa que temos pela frente. â respondeu o General Brooks. â Entendo que tiveram tratativas com um sujeito chamado Laurent Belcour, ex-chefe da IDO, a International Development Organization.

Vaughn Wentworth, alto, bonito e em boa forma, elegantemente vestido com um terno risca de giz, ostentando uma barba bem aparada no rosto e um belo par de abotoaduras Wedgewood, comeÃ§ou a falar com um sotaque britÃ¢nico bem cultivado, como se fosse repassar conhecimentos preciosos Ã s massas ignaras. Ele se recostou na cadeira e entrelaÃ§ou os dedos.

- A CIA e o MI6 seguiram Belcour durante algum tempo. Nossos contatos relataram que ele estÃ¡ fazendo coisas que podem ser preocupantes para as forÃ§as ocidentais. Muito depende de com quem ele anda. Depois das visitas dele, cada um dos paÃ­ses com os quais ele trabalhou aumentou significativamente as despesas com suas forÃ§as armadas. A Coreia do Norte, especificamente, fez testes nucleares e lanÃ§ou mÃ­sseis balÃ­sticos no oceano. O LÃ­der Supremo Kim agora diz que seu paÃ­s conseguiu miniaturizar bombas atÃ´micas a ponto de caberem nas ogivas de seus mÃ­sseis.

- Isso jÃ¡ Ã© do conhecimento pÃºblico. â observou Jake. - Kim tambÃ©m reclamou dos exercÃ­cios militares dos Estados Unidos e da Coreia do Sul, que ele considera como um prelÃºdio para a invasÃ£o. Ele fica ameaÃ§ando guerra, regularmente.

O General Brooks entrou na conversa.

- Tudo isso Ã© verdade, e atÃ© certo ponto um padrÃ£o de comportamento jÃ¡ conhecido. O problema Ã© que hÃ¡ provas inquietantes de que estÃ£o armando alguma outra coisa. Nossos satÃ©lites observaram algo peculiar. Parece que alguÃ©m pegou armas nucleares ou material nuclear de uma das instalaÃ§Ãµes militares da Coreia do Norte. O que Ã© realmente estranho Ã© que as caixas foram carregadas em caminhÃµes e, antes de partir, os receptores mataram a tiros as pessoas que os ajudaram a colocÃ¡-las em cima dos veÃ­culos.

- Parece sabotagem interna. â observou Tess.

O general prosseguiu.

- NÃ£o sabemos quem estÃ¡ por trÃ¡s dessa operaÃ§Ã£o, mas hÃ¡ outra coisa preocupante. Os caminhÃµes foram atÃ© um pequeno porto na costa oeste da Coreia do Norte, e embarcaram as caixas num pequeno navio cargueiro, que partiu imediatamente, rumando para oeste. Poderia ser uma entrega para clientes desafetos no Oriente MÃ©dio.

O grupo inteiro ficou calado, pesando as implicaÃ§Ãµes do que haviam acabado de ouvir.

Eva Bar-Lev foi a primeira a romper o silÃªncio.

- Pensei que a maioria dos navios norte-coreanos era impedida de navegar para outros paÃ­ses, devido Ã s sanÃ§Ãµes internacionais.

- Provavelmente mudaram de bandeira assim que saÃ­ram. - acrescentou o general. - AlÃ©m disso, perdemos o rastro do navio, entÃ£o nÃ£o sabemos aonde ele foi parar.

O Coronel Anders deu seu palpite.

- Nem Ã© preciso dizer que se essas armas foram parar nas mÃ£os do EI ou do IrÃ£, estamos diante de uma situaÃ§Ã£o catastrÃ³fica. TambÃ©m podemos supor que o alvo seja qualquer uma das principais cidades ou instalaÃ§Ãµes militares de vÃ¡rios paÃ­ses naquela regiÃ£o. Um ataque a Israel nÃ£o deixa de ser uma possibilidade. E tambÃ©m hÃ¡ a preocupaÃ§Ã£o de que possam levar essas armas para a Europa. VocÃªs precisam trabalhar juntos para descobrir o que estÃ¡ acontecendo, e coordenar os esforÃ§os de descobrir o que estÃ¡ acontecendo no Oriente MÃ©dio, comeÃ§ando pelo IrÃ£ e pela SÃ­ria.

- Esta situaÃ§Ã£o Ã© uma ameaÃ§a Ã  existÃªncia do Estado de Israel. â Eva Bar-Lev comentou. â Meu paÃ­s Ã© pequeno. Uma explosÃ£o nuclear seria o bastante para apagÃ¡-lo da face da terra.

- NÃ£o hÃ¡ dÃºvida quanto a isso, embora a Europa tambÃ©m seja vulnerÃ¡vel. â acrescentou o general. â Precisamos ir rÃ¡pido com isso; as potÃªncias do Ocidente irÃ£o participar e nos providenciar o que for preciso. Agora vamos falar do papel individual de cada um nesta sala, comeÃ§ando com o Sr. Wentworth. VocÃª irÃ¡ trabalhar com Jake Vickers, para determinar onde estÃ£o, ou para onde pretendem levar essas armas. O Sr. Wentworth tambÃ©m pode acessar recursos de inteligÃªncia na RÃºssia e no IrÃ£. Embora nÃ£o suspeitemos dos russos, precisamos ter certeza de que eles nÃ£o estÃ£o envolvidos nisso. Eva Bar-Lev, do Mossad, irÃ¡ trabalhar com suas fontes no IrÃ£, caso esteja envolvido. Parte dessa avaliaÃ§Ã£o se baseia nas ideias da teocracia que governa o paÃ­s, os aiatolÃ¡s. Seu instrumento Ã© a Guarda RevolucionÃ¡ria do IrÃ£, um bando de fanÃ¡ticos extremamente hostis ao Ocidente.

- NÃ£o sei em quÃª a SRD poderia contribuir para esta iniciativa. â observou Jake. - NÃ£o somos uma organizaÃ§Ã£o governamental, e nem temos acesso aos recursos necessÃ¡rios para trabalhar no projeto.

- Na verdade vocÃª tem algo muito relevante para esta operaÃ§Ã£o, coronel. Tanto vocÃª como a Major Turner cruzaram com Laurent Belcour em muitas ocasiÃµes, e pelo que sabemos ele vem tentando se encontrar com Tess desde aquele julgamento desagradÃ¡vel na FranÃ§a. Achamos que seria produtivo tentar abordÃ¡-lo para descobrir atÃ© que ponto ele estÃ¡ envolvido nisso. Ele pode ser o elemento crucial deste caso.

- De jeito nenhum! â protestou Tess. O homem Ã© um porco, e vem me assediando com telefonemas e mensagens, mesmo sabendo que eu tentei colocÃ¡-lo na prisÃ£o. Ele nÃ£o se arrepende, nÃ£o toma jeito, e Ã© um proxeneta internacional que merece um chute no mapa-mÃºndi.

- Sim, mas precisamos de alguÃ©m que consiga conversar com ele. VocÃªs tÃªm atÃ© amanhÃ£ de manhÃ£ para se decidirem.

O general saiu da sala, seguido por dois oficiais.

â¦â¦â¦

Naquela noite, Tess e Jake foram jantar no Charlie's Steakhouse em Tampa, e Tess se sentiu aliviada por Jake nÃ£o ter a oportunidade de pedir coisas da cozinha exÃ³tica; teria de se contentar com um excelente bife com batatas assadas.

Tess ainda estava aborrecida com a possibilidade de ter de se encontrar com Belcour.

- Jake, como Ã© que eu posso falar com o Belcour depois de tudo o que passamos? O homem Ã© manÃ­aco. Mesmo depois de eu ter tentado colocÃ¡-lo na cadeia, ele age como se nada tivesse acontecido. Ele ainda me incomoda quando vem para Nova York, me manda e-mails, vai assistir aos meus concertos, e atÃ© telefona. Eu nunca atendo aos telefonemas dele, e nem respondo Ã s suas mensagens. E agora querem que eu vÃ¡ procurÃ¡-lo?

- Eu entendo qual Ã© o plano do general. VocÃª Ã© a Ãºnica pessoa que pode ir ao encontro dele sem levantar suspeitas, jÃ¡ que Ã© ele que estÃ¡ tentando fazer contato com vocÃª.

- Ele sÃ³ quer me encontrar para me jogar na cara que fracassei na tentativa de pÃ´-lo na cadeia. Agora ele se sente invencÃ­vel. Tenho certeza de que ele ainda tem ressentimentos de ter sido forÃ§ado a pedir demissÃ£o da IDO. Ele ainda Ã© perigoso. Pode estar planejando sua vinganÃ§a contra nÃ³s. Seria um bom motivo para manter distÃ¢ncia.

- Talvez, mas vocÃª tem um problema. O Belcour nÃ£o para de assediÃ¡-la, nÃ£o sÃ³ com mensagens e convites para almoÃ§ar, mas tambÃ©m indo assistir aos seus concertos quando estÃ¡ por perto. Ele parece estar envolvido com alguma coisa que poderia ser uma calamidade para muitos paÃ­ses. Se conseguirmos pegÃ¡-lo em flagrante, desta vez ele irÃ¡ para o xilindrÃ³ por um bom tempo.

- Quer dizer que se eu nÃ£o me envolver, o mundo vai acabar me culpando por nÃ£o ter ajudado a impedir uma bomba nuclear de explodir?

- Ã mais ou menos isso.

Tess engoliu seu Scotch com gelo de uma vez.

- Acho que vou precisar de outro desses.

â¦â¦â¦

Na manhÃ£ seguinte, Tess e Jake foram falar novamente com o General Brooks em seu escritÃ³rio. NÃ£o havia mais ninguÃ©m lÃ¡.




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