Entrevistas Do Século Breve
Marco Lupis







Marco Lupis


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ENTREVISTAS (#u1cb63749-1fe1-5120-bb74-8ddb8b6639e7)

PROPRIEDADE LITERÃRIA RESERVADA (#uf07eb56f-bdbd-547f-86a2-8da37d4dee03)

IntroduÃ§Ã£o (#uffa9c812-251f-5f8a-a33b-a62d78953186)

Subcomandante Marcos (#u4298354a-c01b-5889-ad7f-a487ccfc3930)

Peter Gabriel (#u2e68ff18-2fd6-59dd-b598-2a5ecb92aa9a)

Claudia Schiffer (#ue32eed76-8372-5a48-81ff-6cde2b389427)

Gong Li (#ud56c30a6-0b32-5de1-acab-b8a970f118e3)

Ingrid Betancourt (#u5612c861-029a-522c-b431-b46a2830a13c)

Aung San Suu Kyi (#ud17fd29e-9c30-52f7-824d-6a778e67c58a)

Lucia Pinochet (#u61ba2a5c-5e4d-519a-b822-05a1fc146138)

Mireya Garcia (#ucb7655c2-965f-5b73-b612-8594966918ab)

Kenzaburo Oe (#litres_trial_promo)

Benazir Bhutto (#litres_trial_promo)

Rei Costantino da GrÃ©cia (#litres_trial_promo)

Hun Sen (#litres_trial_promo)

Roh Moo-hyun (#litres_trial_promo)

Hubert de Givenchy (#litres_trial_promo)

Maria Dolores MirÃ² (#litres_trial_promo)

Tamara Nijinsky (#litres_trial_promo)

Franco Battiato (#litres_trial_promo)

Ivano Fossati (#litres_trial_promo)

Tinto Brass (#litres_trial_promo)

Peter Greenaway (#litres_trial_promo)

Suso Cecchi dâAmico (#litres_trial_promo)

Rocco Forte (#litres_trial_promo)

Nicolas Hayeck (#litres_trial_promo)

Roger Peyrefitte (#litres_trial_promo)

JosÃ© Luis de Vilallonga (#litres_trial_promo)

Baronesa Cordopatri (#litres_trial_promo)

Andrea Muccioli (#litres_trial_promo)

Xanana Gusmao (#litres_trial_promo)

JosÃ© Ramos-Horta (#litres_trial_promo)

Monsenhor do Nascimento (#litres_trial_promo)

Khalida Messaoudi (#litres_trial_promo)

Eleonora Jakupi (#litres_trial_promo)

Lee Kuan Yew (#litres_trial_promo)

Khushwant Singh (#litres_trial_promo)

Shobhaa De (#litres_trial_promo)

Joan Chen (#litres_trial_promo)

Carlos Saul Menem (#litres_trial_promo)

Pauline Hanson (#litres_trial_promo)

General Volkogonov (#litres_trial_promo)

Gao Xingjian (#litres_trial_promo)

Wang Dan (#litres_trial_promo)

Zang Liang (#litres_trial_promo)

Stanley Ho (#litres_trial_promo)

Pudim Gyatso (#litres_trial_promo)

Gloria Macapagal Arroyo (#litres_trial_promo)

Cardeal Sin (#litres_trial_promo)

General Giap (#litres_trial_promo)

Almirante Corsini (#litres_trial_promo)

Monsenhor Gassis (#litres_trial_promo)

Men Songzhen (#litres_trial_promo)

EpÃ­logo (#litres_trial_promo)

Agradecimentos (#litres_trial_promo)

Notes (#litres_trial_promo)



Os protagonistas





21









Do mesmo autor:





Il Male inutile

I Cannibali di Mao

Cristo si Ã¨ fermato a Shingo

Acteal










A bordo de um helicÃ³ptero do exÃ©rcito dos EUA durante uma missÃ£o

Jornalista, repÃ³rter fotogrÃ¡fico e escritor,     Marco Lupis     foi o correspondente do jornal     La Repubblica     de Hong Kong.

Nascido em Roma em 1960, trabalhou como correspondente e enviado especial em todo o Mundo, em particular na AmÃ©rica Latina e no Extremo Oriente, para as maiores jornais italianos (    Panorama    ,     Il Tempo    ,     Il Corriere della Sera    ,     L'Espresso     e     La Repubblica    ) e para a      rai      (    Mixer    ,     Format    ,     TG2     e     TG3    ). Trabalhando com frequÃªncia na zona de guerra, foi entre os poucos jornalistas a seguir os massacres seguidos Ã  declaraÃ§Ã£o de independÃªncia em Timor-Leste, os confrontos sangrentos entre cristÃ£os e islÃ¢micos nas Molucas, o massacre de Bali e a epidemia de SARS na China. Com as suas correspondÃªncias cobriu por mais de dez anos toda a Ã¡rea Ãsia-PacÃ­fico, com base em Hong Kong, indo atÃ© as ilhas HavaÃ­ e a AntÃ¡rtida. Entrevistou muitos protagonistas da polÃ­tica mundial e especialmente asiÃ¡tica, como o prÃªmio Nobel da birmanesa Aung San Suu Kyi e a primeira ministra paquistanesa Benazir Bhutto, denunciando frequentemente nos seus artigos as violaÃ§Ãµes dos direitos humanos. As suas reportagens foram publicadas tambÃ©m por jornais espanhÃ³is, argentinos e americanos     .  

    Marco Lupis vive na CalÃ¡bria.    




ENTREVISTAS


do SÃ©culo Breve





Marco Lupis













Encontros com os protagonistas da polÃ­tica, 

da cultura e da arte do sÃ©culo XX

































































Tektime













PROPRIEDADE LITERÃRIA RESERVADA






Copyright     Â©      2017 by Marco Lupis Macedonio Palermo de Santa Margherita

Todos os direitos reservados ao autor

interviste@lupis.it





































































Primeira ediÃ§Ã£o original 2017

Primeira ediÃ§Ã£o 2018

ISBN:





Esta obra Ã© protegida pela Lei de direito autoral.

Ã proibida toda duplicaÃ§Ã£o, mesmo se parcial, nÃ£o autorizada.

















O jornalista Ã© o histÃ³rico do instante

Albert Camus





















Para Francesco, Alessandro e Caterina



































IntroduÃ§Ã£o









Tertium non datur






























 Era outono em MilÃ£o, naquele distante mÃªs de outubro de 1976 quando, caminhando rapidamente ao longo do Corso Venezia na direÃ§Ã£o do teatro San Babila, estava para fazer a primeira entrevista da minha vida. 

 Eu tinha dezesseis anos e junto com o meu amigo Alberto conduzia uma transmissÃ£o de informaÃ§Ãµes do pouco original tÃ­tulo de âSpazio giovaniâ (espaÃ§o de jovens), em uma das primeiras rÃ¡dios privadas italianas,         Radio Milano Libera        .  

 Foram realmente anos fantÃ¡sticos aqueles, onde tudo parecia que podia acontecer e efetivamente ocorria. Anos maravilhosos. Anos terrÃ­veis. Eram os         anos de chumbo        , aqueles da contestaÃ§Ã£o dos jovens, dos cÃ­rculos autogerenciados, das greves na escola, das manifestaÃ§Ãµes que acabavam sempre em violÃªncia. Anos de enormes entusiasmos, cheios de um fermento cultural que pareciam querer explodir considerando o fato de serem animados, envolventes, totalizantes. Anos de conflitos e tambÃ©m Ã s vezes com assassinatos: de um lado os jovens da esquerda, do outro aqueles da direita. Em relaÃ§Ã£o Ã  hoje, era tudo muito simples: ou se ficava de um lado ou do outro.         Tertium non datur        . 

 Mas, sobretudo, eram anos em que cada um de nÃ³s tinha a impressÃ£o e com frequÃªncia muito mais que uma simples impressÃ£o, de poder mudar as coisas. De conseguir - dentro das minhas possibilidades -         fazer a diferenÃ§a        . 

 NÃ³s, naquela mistura de excitaÃ§Ã£o, cultura e violÃªncia, nos moviam na realidade tranquilos. Navegando Ã  vista. Os atentados, as bombas, as Brigadas Vermelhas eram um fundo constante da nossa adolescÃªncia - a juventude, de acordo com a idade - mas tudo somado nÃ£o nos perturbava tanto. TÃ­nhamos aprendido rapidamente a conviver de um modo nÃ£o muito diferente daquele que depois, mais adiante, nos anos seguintes, teria encontrado entre as populaÃ§Ãµes que viviam no meio de um conflito ou de uma guerra civil. A sua vida tinha se adaptado Ã quelas condiÃ§Ãµes extremas, um pouco como a nossa vida na Ã©poca. 

 O meu amigo Alberto e eu querÃ­amos realmente tentar fazer a diferenÃ§a, por isso, armados de entusiasmos sem limites e muita, muitÃ­ssima imprudÃªncia, em uma idade em que os rapazes de hoje passam o tempo a postar selfies em         Instagram         e a trocar smartphone, nÃ³s lÃ­amos tudo aquilo que nos caÃ­a nas mÃ£os, participÃ¡vamos de quermesses musicais - naquele momento mÃ¡gico no qual o rock nascia e se difundia - aos mega concertos nos parques, nos cineforum.  

 Por isso, com a cabeÃ§a cheia de ideias e um gravador cassete no bolso, nos apressÃ¡vamos para o teatro San Babila, naquele tarde molhada de outubro de quarenta anos atrÃ¡s. 

 O encontro era Ã s dezesseis horas, aproximadamente uma hora antes que comeÃ§asse o show da tarde. Nos conduziram para baixo, no subterrÃ¢neo do teatro onde se encontravam os camarins dos atores, inclusive aquele reservado ao protagonista. E ali nos esperava o nosso entrevistado, o primeiro da minha "carreira" jornalÃ­stica: Peppino de Filippo. 

 NÃ£o me lembro muito daquela entrevista e, infelizmente as fitas com as gravaÃ§Ãµes das sessÃµes da nossa transmissÃ£o foram perdidas, em uma das inÃºmeras mudanÃ§as na minha vida. 

 PorÃ©m, lembro perfeitamente ainda hoje daquela sutil descarga elÃ©trica, aquele arrepio de energia que precede - os teria sentido depois mil vezes - uma entrevista importante. Um         encontro         importante, porque cada entrevista Ã© muito mais do que uma simples sÃ©rie de perguntas e respostas.  

 Peppino de Filippo estava no fim - iria morrer dali a poucos anos - de uma carreira teatral e cinematogrÃ¡fica que atÃ© entÃ£o tinha feito histÃ³ria. Ele nos recebeu sem parar de se maquiar, em frente ao espelho. Foi gentil, cortÃªs e disponÃ­vel e demonstrou nÃ£o estar maravilhado por se encontrar em frente a dois rapazes cheios de espinhas. Lembro de seus gestos calmos, metÃ³dicos, enquanto estendia a maquiagem da cena, que me pareceu pesada, densa e muito clara. Mas lembro, principalmente, de uma coisa: a profunda tristeza do seu olhar. Uma tristeza que me atingiu intensamente, porque a percebi intensamente. Talvez sentisse que a sua vida estava se encaminhando ao fim ou talvez era apenas a prova que desde sempre se fala dos comediantes, isto Ã©, mesmo fazendo rir a todos, sÃ£o na realidade as pessoas mais tristes do mundo. 

 Falamos de teatro, de seu irmÃ£o Eduardo, naturalmente. Ele nos contou como nasceu no palco e estava sempre rodando com a companhia de famÃ­lia.  

 Fomos embora depois de quase uma hora, um pouco atordoados e com o cassete do gravador cheio totalmente cheio. 

 Aquela nÃ£o foi apenas a primeira entrevista da minha vida. Foi sobretudo o momento em que entendi que a profissÃ£o de jornalista teria sido para mim a Ãºnica opÃ§Ã£o possÃ­vel. E foi o momento em que experimentei pela primeira vez aquela estranha alquimia, quase uma magia sutil, que se instaura entre o entrevistado e o entrevistador. 

 Uma entrevista pode ser a fÃ³rmula matemÃ¡tica da verdade ou uma inÃºtil e vaidosa exibiÃ§Ã£o. A entrevista Ã© tambÃ©m uma arma poderosa nas mÃ£os do jornalista que tem o poder de escolher se agradar o entrevistado ou servir e apaixonar o leitor.  

 Para mim, a entrevista Ã© tambÃ©m muito mais; Ã© um confronto psicolÃ³gico, Ã© uma sessÃ£o de psicanÃ¡lise. Na qual sÃ£o envolvidos ambos, o entrevistado e o seu entrevistador.  

Como me disse mais tarde o MarquÃªs de Vilallonga, em uma das entrevistas coletadas neste livro, Â«o segredo estÃ¡ todo naquele estado de graÃ§a que se cria quando o jornalista para de ser um jornalista e se torna o amigo ao qual se conta tudo. Mesmo aquilo que nÃ£o se conta a um jornalistaÂ».

A entrevista Ã© aplicaÃ§Ã£o em prÃ¡tica da arte socrÃ¡tica da maiÃªutica, a capacidade do jornalista de extrair do entrevistado os seus pensamentos mais sinceros, de levÃ¡-lo a abaixar a guarda, de surpreendÃª-lo enquanto conta e conta de si sem filtros.

NÃ£o sempre esta magia particular se realiza. Mas quando acontece, entÃ£o estamos diante de uma bela entrevista. Algo mais de uma pergunta e resposta estÃ©ril, nada a ver com a inÃºtil vaidade do jornalista que mira sÃ³ executar um     scoop    .

Em mais de trinta anos de atividade jornalÃ­stica, encontrei celebridades, chefes de estado, primeiros ministros, lÃ­deres religiosos e polÃ­ticos. Mas tenho que admitir que nÃ£o foi com eles que senti instaurar-se uma verdadeira forma de empatia. 

Por formaÃ§Ã£o cultural e familiar, deveria ter-me sentido do lado deles, do lado daquelas mulheres e daqueles homens que lidavam com o poder, que     tinham     o poder para decidir o destino de milhÃµes de pessoas, da sua vida e, com frequÃªncia, da sua morte. Ãs vezes, do futuro de povos inteiros.

Em vez disso, nunca foi assim. A empatia, a corrente de simpatia, o arrepio e a excitaÃ§Ã£o os vivi quando encontrei os rebeldes, os lutadores, aqueles que estavam prontos - e o demonstravam - a sacrificar as suas vidas, geralmente tranquilas e favorecidas, pelos seus ideais. 

Que fosse um chefe revolucionÃ¡rio com o capuz, encontrado em uma cabana na floresta mexicana ou uma mÃ£e corajosa que procurava digna, mas teimosamente, saber a verdade sobre o fim horrÃ­vel dos seus filhos, desaparecidos no Chile de Pinochet. 

Eles me pareceram os verdadeiros poderosos.

Grotteria, agosto de 2017





*****





As entrevistas coletadas neste livro foram publicadas em um perÃ­odo que vai de 1993 a 2006, nos jornais para os quais trabalhei no curso dos anos, como enviado ou correspondente, principalmente da AmÃ©rica Latina e do Extremo Oriente: os jornais semanais     Panorama     e     LâEspresso    , os diÃ¡rios     Il Tempo    ,     Il Corriere della Sera     e     La Repubblica     e algumas para a      rai     .

Mantive intencionalmente a forma original na qual foram ao seu tempo escritas, Ã s vezes na estrutura tradicional de pergunta/resposta, outras vezes, naquela mais coloquial do     "entre aspas"    .

Escolhi antecipar cada uma das entrevistas com uma introduÃ§Ã£o que ajudasse ao leitor a orientar-se no espaÃ§o e tempo em que elas foram realizadas.









1





Subcomandante Marcos









Venceremos! (antes ou depois)






























Chiapas, MÃ©xico, San Cristobal de Las Casas, Hotel Flamboyant    .

A mensagem foi inserida por baixo da porta do quarto:



   Ã necessÃ¡rio partir para a Selva hoje.   

   Encontro na recepÃ§Ã£o Ã s 19.   

   Levar sapatos de montanha, uma coberta,   

   uma mochila e comida em lata.   





Tenho sÃ³ uma hora e meia para juntar estas poucas coisas. A minha meta estÃ¡ no coraÃ§Ã£o da floresta. Na fronteira entre o MÃ©xico e a Guatemala, onde comeÃ§a a Selva Lacandona, um dos poucos locais no mundo completamente inexplorados. No momento, existe sÃ³ um, muito especial, âoperador de turismoâ capaz de me fazer chegar lÃ¡ em cima. Ele pede para ser chamado subcomandante Marcos e a Selva Lacandona Ã© o seu Ãºltimo refÃºgio.    





  *****  





Motivo pelo qual, ainda hoje, se estou provavelmente mais orgulhoso na minha carreira Ã© sem dÃºvida este encontro com o       subcomandante       Marcos na floresta       Lacandona       del Chiapas, em abril de 1995, para o jornal       Sette       del Corriere della Sera; primeiro jornalista italiano a entrevistÃ¡-lo (nÃ£o sei, na verdade, se antes de mim, foi o simpÃ¡tico e onipresente Gianni MinÃ , a bem dizer, o verdadeiro), mas certamente bem antes que o mÃ­tico subcomandante, com o seu eterno capuz preto, fez surgir nos anos seguintes um tipo de autÃªntica âassessoria de imprensa guerrilheiroâ que levava para cima e para baixo do seu refÃºgio na floresta de jornalistas de cada lugar.    





Tinham se passado quase duas semanas de quando, os Ãºltimos dias de marÃ§o daquele dia de 1995, o aviÃ£o proveniente da Cidade do MÃ©xico tinha aterrissado no pequeno aeroporto militar de Tuxla Gutierrez, a capital de Chiapas. Na pista passavam aviÃµes com os emblemas do exÃ©rcito mexicano e meios militares estacionavam ameaÃ§adores nas bordas. Em um territÃ³rio grande quanto um terÃ§o da ItÃ¡lia viviam milhÃµes de habitantes. A maior parte dos quais com sangue Ã­ndio nas veias: duzentos e cinquenta mil os descendentes direitos dos Maias. Encontram-me em uma das Ã¡reas mais pobres do mundo: noventa por cento dos Ã­ndios nÃ£o tinha Ã¡gua potÃ¡vel. Sessenta e trÃªs em cem eram analfabetos.        Tudo me parecia muito claro: por um lado, os proprietÃ¡rios de terras brancos, poucos e riquÃ­ssimos. Pelo outro, os camponeses, tantos e que recebiam em mÃ©dia sete pesos: menos de dez dÃ³lares por dia.    

Para estas pessoas, a esperanÃ§a de receber tinha comeÃ§ado em primeiro de janeiro de 1994. Enquanto o MÃ©xico assinava o acordo de livre troca comercial com os Estados Unidos e CanadÃ¡, um revolucionÃ¡rio encapuzado declarava guerra ao PaÃ­s: a cavalo, armados com fuzis - alguns verdadeiros (poucos), outros falsos, de madeira - dois mil homens do ExÃ©rcito Zapatista de liberaÃ§Ã£o nacional ocupavam San Cristobal de Las Casas, a antiga capital de Chiapas, Palavra de ordem: Â«Terra e liberdadeÂ».    

Hoje sabemos como acabou o primeiro round, aquele decisivo: venceram os cinquenta mil soldados mandados com os carros blindados para enfrentar a revolta. E Marcos? Onde estava o homem que de algum modo tinha feito reviver a lenda de Emiliano Zapata, o herÃ³i da revoluÃ§Ã£o mexicana de 1910?    





  *****  





Ãs 19 horas, Hotel Flamboyant: o nosso contato chega pontual. Ele se chama Antonio, Ã© um jornalista mexicano que na Selva tinha ido nÃ£o uma, mas dez, vinte vezes. Claro, agora nÃ£o Ã© mais como um ano atrÃ¡s, quando Marcos ficava relativamente tranquilo com os seus na pequena cidade de Guadalupe Tepeyac, Ã s portas da Selva, munido com um celular, computador, conexÃ£o Ã  rede internet, pronto para receber os enviados das tvs americanas. Hoje para os Ã­ndios nÃ£o mudou nada, mas para Marcos e os seus mudou tudo: depois da Ãºltima ofensiva do governo, os chefes zapatistas tiveram que se esconder realmente na montanha. Ali nÃ£o existem telefones, nÃ£o existe eletricidade, nem estradas: nada.    

O       colectivo (      como chamamos aqui estes estranhos tÃ¡xi-miniÃ´nibus) corre rÃ¡pido entre as curvas, na noite. Dentro sente-se o cheiro de suor e de tecido molhado. SÃ£o necessÃ¡rias duas horas para chegar em Ocosingo     , um     pueblo     Ã s portas da Selva. Para as estradas animadÃ­ssimas, as garotas com os longos cabelos pretos e com traÃ§os indÃ­genas sorriem. E tantos militares, em todo lugar. Os quartos do Ãºnico hotel nÃ£o tÃªm janelas, sÃ³ uma grade na porta. Parece estar em um cÃ¡rcere. Na rÃ¡dio ouve-se uma notÃ­cia: Â«Hoje, o pai de Marcos declarou: meu filho, o professor universitÃ¡rio Rafael Sebastian Guillen Vicente, 38 anos, nascido em Tampico, Ã© o subcomandante MarcosÂ».

Na manhÃ£ seguinte, temos um novo guia. Chama-se Porfirio. Ele tambÃ©m Ã© Ã­ndio.

A bordo da sua camionete, sÃ£o necessÃ¡rias quase sete horas de buracos e poeira para chegar em Lacandon, o Ãºltimo povoado. Ali termina a terra batida. E comeÃ§a a Selva. NÃ£o chove, mas a lama chega mesmo assim atÃ© os joelhos. Dorme-se em algumas barracas na floresta, ao longo do caminho. Depois de dois dias de marcha intensa, cansativa, no meio da floresta inÃ³spita, sufocados pela umidade, chegamos ao povoado. A comunidade se chama     Giardin    ; estamos na Ã¡rea dos     Montes Azules    . Vivem aqui quase duzentas pessoas. Todos velhos, crianÃ§as e mulheres. Os homens estÃ£o na guerra. Fomos bem acolhidos. Poucos conhecem o espanhol. Todos falam o     Tzeltal    , o dialeto Maya. Â«Encontraremos Marcos?Â» perguntamos. Â«Pode serÂ», diz Porfirio.

Ãs trÃªs da manhÃ£, nos acordam delicadamente: Ã© preciso ir, nÃ£o tem lua, mas hÃ¡ muitas estrelas. Meia hora de caminhada para chegar em uma cabana. Dentro se intui a presenÃ§a de trÃªs homens. EstÃ¡ tudo preto, como o capuz deles. No retrato falado do governo, Marcos Ã© um professor formado em filosofia com uma tese sobre Althusser e uma especializaÃ§Ã£o na Sorbonne de Paris. Agora, rompendo o silÃªncio na cabana, chega uma voz em francÃªs: Â«Temos sÃ³ vinte minutos. Prefiro falar em espanhol, se nÃ£o houver problemas. Sou o subcomandante Marcos. Melhor nÃ£o usar o gravador porque se a gravaÃ§Ã£o for interceptada seria um problema para todos, principalmente para vocÃªs. Mesmo se oficialmente, estamos em um momento de trÃ©gua, na realidade me procuram em todos os modos. Pode me perguntar o que desejarÂ».





Por que se faz chamar de subcomandante? 

Dizem de mim: Â«Marcos Ã© o chefeÂ». NÃ£o Ã© verdade. Os chefes sÃ£o eles, o povo zapatista, eu tenho apenas funÃ§Ãµes de responsabilidade a nÃ­vel militar. Eles me encarregaram de falar porque sei espanhol. AtravÃ©s de mim falam os companheiros. Eu sÃ³ obedeÃ§o.





Dez anos de clandestinidade Ã© muito tempo... Como vive na montanha? 

Leio. Dos doze livros que levei comigo na Selva um Ã© o     Canto Generale    , de Pablo Neruda. Um outro Ã©     Don Quixote    ...





E depois?

E depois os dias, os anos passam na nossa luta. Vendo todos os dias a mesma pobreza, a mesma injustiÃ§a... NÃ£o se pode ficar aqui sem que a vontade de lutar, de mudar, aumente. A menos que vocÃª nÃ£o seja um cÃ­nico ou um filho da puta. Depois existem as coisas que geralmente os jornalista nÃ£o me perguntam. Ã que aqui na Selva, Ã s vezes temos que comer os ratos, beber a urina dos companheiros para nÃ£o morrer de sede nas longas transferÃªncias... Ã© isso.





O que lhe falta? O que deixou? 

Falta o aÃ§Ãºcar. E um par de meias secas. Ter sempre os pÃ©s molhados, dia e noite, no frio, Ã© uma coisa que nÃ£o desejo a ninguÃ©m. E depois o aÃ§Ãºcar: Ã© a Ãºnica coisa que a Selva nÃ£o lhe dÃ¡, Ã© preciso fazÃª-lo vir de longe, pelo cansaÃ§o fÃ­sico seria necessÃ¡rio. Para aqueles de nÃ³s que veem da cidade, certas lembranÃ§as sÃ£o uma espÃ©cie de masoquismo. EntÃ£o, nos repetimos: Â«VocÃª se lembra dos sorvetes de     CoyoacÃ n    ? E os tacos da     Division del Norte    ?Â». LembranÃ§as. Aqui se captura-se um faisÃ£o ou um outro animal, Ã© preciso esperar trÃªs ou quatro horas para que fique pronto. E se a tropa estÃ¡ desesperada de fome e o come cru, no dia depois Ã© diarreia para todos. Aqui a vida Ã© diferente, se vÃª tudo de uma outra forma... Ah, sim, me perguntou o que deixei na cidade. Um bilhete de metrÃ´, uma montanha de livros, um caderno cheio de poesias... e alguns amigos. NÃ£o tantos, alguns.





Quando mostrarÃ¡ o seu rosto?

NÃ£o sei, acho que o nosso capuz tenha tambÃ©m um significado ideolÃ³gico positivo, corresponde Ã  concepÃ§Ã£o desta nossa revoluÃ§Ã£o, que nÃ£o Ã© individual e que nÃ£o tem um chefe. Com o capuz somos todos Marcos.





PorÃ©m, para o governo, vocÃª esconde o rosto porque tem algo a esconderâ¦ 

Eles nÃ£o entenderam nada. Mas o verdadeiro problema nÃ£o Ã© nem o governo, sÃ£o sim as forÃ§as reacionÃ¡rias do Chiapas, os criadores e os latifundiÃ¡rios da Ã¡rea, com as suas âguardas brancasâ privadas. NÃ£o acredito que exista muita diferenÃ§a entre a tradicional abordagem racista de um branco da Ãfrica do Sul perante um negro e aquele de um proprietÃ¡rio     de terras     do Chiapas em relaÃ§Ã£o a um Ãndio. Aqui a expectativa de vida para um Ãndio Ã© de 50-60 anos para os homens e 45-50 para as mulheres.





E as crianÃ§as? 

A mortalidade infantil Ã© altÃ­ssima. Agora vou lhe contar tambÃ©m a histÃ³ria de Paticha. Uma vez, hÃ¡ um tempo, deslocando-nos de uma zona Ã  outra da Selva, acontecia atravessar uma pequena comunidade, muito pobre, onde sempre nos acolhia um companheiro zapatista com uma menina de trÃªs-quatro anos. Ela se chamava Patricia, mas ela pronunciava o seu nome âPatichaâ. Eu lhe perguntava o que queria fazer quando ficasse grande e ela me respondia sempre: Â«guerrilheiraÂ». Uma noite, a encontramos com febre alta. NÃ£o tÃ­nhamos antibiÃ³ticos e ele deveria estar com quarenta ou mais de febre. Os panos molhados secavam sobre ela como se fosse uma estufa. Ela morreu entre os meus braÃ§os. Patricia nÃ£o tinha uma certidÃ£o de nascimento. E nem teve uma de morte. Para o MÃ©xico, nunca existiu, nem a sua morte nunca ocorreu. Ã isso, esta Ã© a realidade dos Ãndios do Chiapas.





O Movimento Zapatista colocou em crise Todo o sistema polÃ­tico mexicano, mas nÃ£o venceu. 

O MÃ©xico precisa de democracia e de pessoas acima das partes que a garantam. Se a nossa luta for Ãºtil para alcanÃ§ar este objetivo, nÃ£o terÃ¡ sido uma luta em vÃ£o. Mas o ExÃ©rcito Zapatista nunca se converterÃ¡ em um partido polÃ­tico. DesaparecerÃ¡. E o dia em que isto acontecer, significarÃ¡ que teremos democracia.





E se isto nÃ£o ocorrer? 

Militarmente, estamos cercados. A verdade Ã© que dificilmente o governo irÃ¡ querer ceder porque o Chiapas e a selva Lacandona em particular, boiam literalmente sobre um mar de petrÃ³leo. E o petrÃ³leo do Chiapas Ã© a garantia que o Estado mexicano deu aos Estados Unidos para os bilhÃµes de dÃ³lares que os EUA lhes emprestaram. NÃ£o pode mostrar aos americanos que nÃ£o tem o controle da situaÃ§Ã£o.





E vocÃªs?

NÃ³s, em vez disso, nÃ£o temos nada a perder. E a nossa Ã© uma luta pela sobrevivÃªncia e para uma paz digna.

A nossa Ã© uma luta justa.





2





Peter Gabriel









O duende do Rock






















A cada sua (rara) exibiÃ§Ã£o, o lendÃ¡rio fundador e lÃ­der dos Genesis confirma que o seu apetite para cada forma de ensaio musical, cultural e tecnolÃ³gico Ã© realmente ilimitado.

Encontrei Peter Gabriel para esta entrevista exclusiva no curso da manifestaÃ§Ã£o musical Â«SonoriaÂ», trÃªs dias milaneses totalmente dedicados ao rock. Em duas horas de grande mÃºsica, Gabriel cantou, danÃ§ou e saltou como uma mola, envolvendo o pÃºblico em um espetÃ¡culo que, como sempre, foi bem alÃ©m de um simples concerto de rock.

No fim do concerto me convidou a subir com ele na limusine que o levava embora e enquanto corrÃ­amos para o aeroporto, me falou sobre ele, dos seus projetos futuros, do empenho social contra o racismo e a injustiÃ§a ao lado da Amnesty International, da sua    paixÃ£o pelas tecnologias multimÃ­dia    e os segredos do novo disco, Â«Secret World LiveÂ», que estava para lanÃ§ar em todo o mundo.





O fim do racismo na Ãfrica do Sul, o fim do apartheid; foi tambÃ©m uma vitÃ³ria do rock?

Foi uma vitÃ³ria do povo sul-africano. Mas acredito que a mÃºsica rock tenha contribuÃ­do com este resultado, tenha de algum modo assistido.





De que modo?

Penso que os mÃºsicos tenham feito bastante para elevar o nÃ­vel de consciÃªncia da opiniÃ£o pÃºblica europeia e americana para este problema. Escrevi tambÃ©m canÃ§Ãµes como "Biko", para fazer com que os polÃ­ticos de muitos paÃ­ses sustentassem as sanÃ§Ãµes contra a Ãfrica do Sul e fizessem pressÃ£o. SÃ£o pequenas coisas que certamente nÃ£o mudarÃ£o o mundo, mas fazem uma diferenÃ§a, uma pequena diferenÃ§a que envolve todos nÃ³s. Nem sempre sÃ£o as grandes manifestaÃ§Ãµes, os gestos evidentes, para conseguir o melhor sobre a injustiÃ§a.





Em que sentido?

Vou dar-lhe um exemplo. Nos Estados Unidos hÃ¡ duas velhinhas do Meio-Oeste que sÃ£o o bicho papÃ£o de todos os torturados da AmÃ©rica Latina. Passam o tempo escrevendo para os diretores dos cÃ¡rceres, sem trÃ©gua. E, sendo muito bem informadas, geralmente as suas cartas sÃ£o publicadas com grande evidÃªncia nos jornais americanos. E, ainda, com frequÃªncia acontece que os prisioneiros polÃ­ticos dos quais difundiram os nomes comecem quase como milagre, a ser deixados em paz. Isso, digo, quando falo de pequenas diferenÃ§as. No fundo, a nossa mÃºsica Ã© como uma carta delas!





O seu empenho contra o racismo liga-se estreitamente Ã  atividade da sua etiqueta, a Real World, a favor da mÃºsica Ã©tnica...

Com certeza. Para mim, foi uma grande satisfaÃ§Ã£o reunir mÃºsicos tÃ£o diferentes, pertencentes a paÃ­ses tÃ£o longÃ­nquos, da China Ã  IndonÃ©sia, da RÃºssia Ã  Ãfrica. Produzimos artistas como os chineses Guo Brothers ou o paquistanÃªs Nusrat Fateh. Nos seus trabalhos, como naqueles dos outros mÃºsicos da Real World, senti muita inspiraÃ§Ã£o. O ritmo, as harmonias, as vozes... JÃ¡ de 1982, do resto, tinha comeÃ§ado a trabalhar nesta direÃ§Ã£o, organizando o festival de Bath, que era, no fundo, tambÃ©m a primeira apariÃ§Ã£o pÃºblica de uma associaÃ§Ã£o que tinha acabado de fundar e que se chamava âWomad - World of Music Arts and Danceâ. Ali, a gente podia participar ativamente do evento, tocando em muitos palcos junto aos grupos africanos. Enfim, foi uma experiÃªncia tÃ£o exaltante e significativa que, sucessivamente, foi repetida em muitas partes do mundo: JapÃ£o, Espanha, Tel Aviv, FranÃ§a...





Por isso, vocÃª Ã© considerado o criador da World Music?

Real World e a World Music sÃ£o principalmente uma etiqueta comercial, que publica mÃºsica de artistas de todo o mundo para que aquela mÃºsica possa chegar em todo o mundo, nas lojas de discos, nas rÃ¡dios... PorÃ©m, eu espero que esta etiqueta desapareÃ§a logo, quando os artistas que incidem para mim ficarÃ£o famosos. Enfim, gostaria que acontecesse aquilo que aconteceu com Bob Marley e a mÃºsica reggae: as pessoas nÃ£o dizer mais Â«Ã© reggaeÂ», diz Â«Ã© Bob MarleyÂ». Espero que pouco a pouco ninguÃ©m mais diga dos meus artistas Â«Ã© World Music?Â»





Ultimamente, vocÃª manifestou um grande interesse em relaÃ§Ã£o Ã s tecnologias multimÃ­dia. O seu CD-ROM Â«Xplora    1Â»     despertou um enorme interesse. Como e liga tudo isso Ã  atividade da Real World? 

Neste CD-ROM podem ser feitas tantas coisas, entre as quais escolher as mÃºsicas de cada um dos artistas clicando na capa do disco. Eu, porÃ©m, gostaria de muito mais coisas deste tipo, porque a interatividade Ã© um meio para fazer chegar a mÃºsica Ã s pessoas que nÃ£o sabem muito a respeito. No fundo, o que a Real World estÃ¡ tentando fazer Ã© fundir a mÃºsica tradicional, feita a mÃ£o, vamos dizer assim, com as novas possibilidades oferecidas pela tecnologia.





O que quer dizer entÃ£o, para vocÃª, a mÃºsica rock enfim nÃ£o basta mais por si mesma, precisa de uma intervenÃ§Ã£o do ouvinte. VocÃª gostaria que cada um pudesse colocar as mÃ£os no produto - rock? 

NÃ£o sempre. Eu, por exemplo, a maior parte das vezes ouÃ§o mÃºsica no carro e nÃ£o quero ter que precisar de uma tela ou de um computador, para poder fazÃª-lo. Mas, quando me interessa um artista ou quero saber alguma coisa a mais sobre a sua histÃ³ria, de onde vem, o que pensa, entÃ£o aÃ­ Ã© que com o domÃ­nio da multimÃ­dia disponho de um material visual que me satisfaz. Enfim, gostaria que todos os CDs tivessem, no futuro, estes dois nÃ­veis de fruiÃ§Ã£o: ser simplesmente ouvidos ou ser literalmente "explorados". Em âXplora1â, quisemos construir um pequeno mundo dentro do qual as pessoas possam se mover e decidir, tomar decisÃµes interagir com o ambiente e com a mÃºsica. Dentro do cd, podem ser feitas vÃ¡rias coisas. Como visitar de modo virtual os estudos de registro da Real World, acessar muitos eventos (a premiaÃ§Ã£o do Grammy Awards ou o Womad Festival, entre outros), ouvir mÃºsicas de concertos, repercorrer a minha carreira do Genesis ate hoje e, enfim, remixar a gosto as minhas canÃ§Ãµes.





E tambÃ©m cascavilhar no seu guarda-roupa, sempre de modo virtual, digamos... 

Ã verdade (    ri    ). Pode-se tambÃ©m cascavilhar no guarda-roupa de Peter Gabriel!





Tudo isso parece longe anos-luz da experiÃªncia dos Genesis. O que restou daqueles anos? Nunca teve vontade, por exemplo, de fazer outra rock-Ã³pera como Â«The lamb lies down on BroadwayÂ»? E tudo superado?

NÃ£o Ã© fÃ¡cil responder. Penso estar ainda interessado em algumas daquelas ideias, mas de um modo diferente. Em certo sentido, aquilo que eu tentava fazer no Ãºltimo perÃ­odo com os Genesis nÃ£o Ã© fÃ¡cil responder. Penso estar ainda interessado em algumas daquelas ideias, mas de modo diferente. De certo modo, aquilo que eu tentava fazer no Ãºltimo perÃ­odo com os Genesis era ligado ao domÃ­nio da multimÃ­dia. Naquele tempo, a sensibilidade do som era limitada pela tecnologia da Ã©poca. Agora, gostaria de ir ainda mais adiante ao longo deste caminho...





Voltando ao seu empenho polÃ­tico e humanitÃ¡rio, depois do fim do apartheid, quais sÃ£o os seus outros projetos neste sentido, as causas de injustiÃ§a no mundo contra as quais lutar? 

SÃ£o muitas. Mas, neste momento penso que a coisa mais importante seja ajudar as pessoas a produzir testemunhos. Por exemplo, dar a todos a possibilidade de filmar com uma telecÃ¢mera ou dispor de instrumentos de comunicaÃ§Ã£o, como fax, computador, etc. Enfim, acredito que hoje exista a possibilidade de utilizar a tecnologia das redes de comunicaÃ§Ã£o para reforÃ§ar a defesa dos direitos humanos.





Muito interessante. Poderia dar um exemplo concreto?

Quero perseguir pequenos objetivos tangÃ­veis. Por exemplo, transformar a vida de um povoado atravÃ©s destes instrumentos de comunicaÃ§Ã£o: ligaÃ§Ãµes telefÃ´nicas, vinte ou trinta computadores e assim por diante. âPacotesâ deste tipo podem ser instalados em qualquer povoado do mundo, na Ãndia, na China, em uma montanha... Assim, no perÃ­odo de trÃªs ou cinco anos poderia-se ensinar Ã s pessoas daqueles locais como se tornar criadores de informaÃ§Ãµes, gerenciar e tratÃ¡-las. Isso permitiria transformar, com um esforÃ§o modesto, a economia de muitos paÃ­ses, dando-lhes a possibilidade de passar da economia agrÃ­cola Ã quela baseada na informaÃ§Ã£o. Seria, sem dÃºvida, positivo.





Quais sÃ£o os seus projetos futuros? 

Umas fÃ©rias (    ri    ). HÃ¡ muitÃ­ssimos meses que estamos em um tour. Paramos algumas vezes, mas acho que preciso me desligar. No tour, existe sempre o estresse do tempo, da viagem... e depois a impossibilidade de praticar esporte. Eu jogo muito tÃªnis, por exemplo. No que se refere ao trabalho, estou pensando em uma outra coisa como o CD-ROM. Por enquanto, acabei o meu novo Ã¡lbum âSecret World Liveâ, um cd duplo gravado ao vivo no curso, exatamente, deste longuÃ­ssimo tour. Ã, na verdade, um resumo do que eu fiz atÃ© hoje, uma espÃ©cie de antologia com uma sÃ³ mÃºsica que poderia ser definida semi-inÃ©dita, âAcross the Riverâ. No fundo, o Ã¡lbum Ã© tambÃ©m um modo de agradecer Ã queles que tocaram comigo neste tour massacrante. Dos âhabituÃ©sâ como Tony Levin ou David Rhodes Ã  Billy Cobham e Paula Cole, que me acompanharam tambÃ©m para MilÃ£o, o primeiro na bateria e o segundo como vocalista.





Tem um desejo, um sonho?

Gostaria que existisse jÃ¡ os Estados Unidos da Europa.





Por quÃª?

Porque afinal estÃ¡ claro que na economia mundial os paÃ­ses pequenos nÃ£o podem mais ser importantes. Ã preciso um organismo que os represente perante o resto do mundo, dos mercados futuros, tutelando a sua identidade cultural. Existe a necessidade de ter uma representaÃ§Ã£o econÃ´mica compacta, uma uniÃ£o comercial para sobreviver, para competir principalmente com aqueles lugares onde a mÃ£o de obra custa pouco. E depois fazer esta divisÃ£o do mundo em dois modelos, o da Europa branca, histÃ³rica e aquele dos paÃ­ses pobres a desfrutar. Seria preciso celebrar as diferenÃ§as entre as pessoas de cada paÃ­s, nÃ£o tentar tornar todos iguais.





3





Claudia Schiffer









A mais bela de todas


















Foi a mais bonita do mundo, a mais bem paga e, tudo somado, tambÃ©m a mais castigada. Â«Sou a Ãºnica modelo da qual nunca se viu nem o seioÂ» declarava orgulhosa. AtÃ© o seu contrato bilionÃ¡rio com a Revlon a proibia de mostrar-se sem vÃ©us.

Pelo menos atÃ© que dois fotÃ³grafos espanhÃ³is da AgÃªncia Korpa derrubaram tambÃ©m este baluarte e o mundo inteiro pode admirar o seio perfeito ao vento da famosa Claudia Schiffer.    Aquelas fotos rodaram o mundo inteiro e a imprensa internacional deu amplo espaÃ§o ao     acontecimento    . SÃ³ o jornal semanal alemÃ£o     Bunte     a colocou na capa vestida. Salvo depois dedicar-lhe, com hipocrisia, muitas pÃ¡ginas internas, com as fotos com os seios desnudos. E a nova Bardot protestou furiosa, anunciando queixas e pedidos de danos astronÃ´micos.

GraÃ§as a alguns contatos privilegiados com o ambiente da moda, decidiu aproveitar a onda de atenÃ§Ã£o provocada pelas âfotos-escÃ¢ndaloâ para tentar entrevistÃ¡-la para o jornal semanal     Panorama    . Foi muito complicado, muitos telefonemas e depois longas tratativas com a sua agente, que impedia cada tentativa de aproximaÃ§Ã£o jornalÃ­stica. Mas a minha constÃ¢ncia Ã© repagada e, finalmente, em agosto de 1993, conseguiu o encontro: Claudia estava de fÃ©rias com a famÃ­lia, nas Baleares e, deste modo, para entrevistÃ¡-la eu deveria ir lÃ¡.

Tratava-se de um autÃªntico     scoop    , uma entrevista absolutamente exclusiva: a bela Claudia nunca tinha concedido entrevistas Ã  imprensa italiana e, principalmente, nenhum jornalista nunca tinha colocado os pÃ©s na sua casa de fÃ©rias, na intimidade da sua famÃ­lia. AlÃ©m do mais, exatamente no local onde tinham sido tiradas as fotos-escÃ¢ndalo,     Puerto de Andratx    , na ilha de Maiorca, uma discreta baiazinha ao sul de Palma onde a famÃ­lia Schiffer possuÃ­a, hÃ¡ muitos anos, uma casa de fÃ©rias.

Aquele ano, Claudia tinha um motivo a mais para ir para lÃ¡ e repousar. Tinha acabado de gravar a si mesma em um longo filme-documentÃ¡rio dedicado Ã  sua vida:     Claudia Schiffer special,     dirigido por Daniel ZiskÃ¬nd, ex-assistente de Claude Lelouch, e rodado na FranÃ§a, Alemanha e Estados Unidos. As gravaÃ§Ãµes tinham acabado recentemente e todas as televisÃµes do mundo jÃ¡ estavam disputando para adquirir os direitos.





Pouco antes de partir, conversando com um meu caro amigo da Ã©poca, muito     rico    , da famÃ­lia proprietÃ¡ria de uma famosa empresa que produz ferramentas de trabalho, deixei escapar (talvez me orgulhar um pouco...) que estava para viajar para Palma de Maiorca para encontrÃ¡-la. Quando o meu amigo me disse para nÃ£o reservar nenhum hotel: Â«eu tenho lÃ¡ o meu iateÂ» (um magnÃ­fico trinta e dois metros a vela), me disse logo. Â«HÃ¡ cinco marinheiros alÃ©m do cozinheiro sem fazer nada, por minha conta, no porto de Palma. VÃ¡ entÃ£o, os faÃ§o trabalhar um poucoâ!Â». Â«E quando estiver lÃ¡, peÃ§a para o levarem para     Puerto de Andratx     de barco, assim vai fazer tambÃ©m um belo cruzeiro!Â».

NÃ£o deixei que repetisse duas vezes e assim no dia acertado para a entrevista desembarquei no pequeno porto, a duas horas de navegaÃ§Ã£o de Palma de Maiorca, descendo do barco do meu amigo. Saudando os marinheiros, fui para o local do encontro previsto para as trÃªs e meia, no     CafÃ¨ de la Vista    , em frente ao cais cheio de iates.

Certamente, a     entrada em cena     mais espetacular da qual tenha jamais desfrutado um jornalista, para fazer uma entrevista!





*****

Um pouco antes da hora marcada, chega um Audi 100 com placa de DÃ¼sseldorf: sÃ£o eles. Na frente, dois homens, no banco posterior, a inseparÃ¡vel agente, Aline Soulier. Um pouco de desilusÃ£o: onde estÃ¡ ela? Ã sÃ³ um rÃ¡pido instante. Uma nuvem loura aparece atrÃ¡s de Aline e se inclina para frente no banco. Â«OlÃ¡, sou ClaudiaÂ» diz, estende a mÃ£o e sorri. Um fascÃ­nio que atordoa, entre Lolita e a Madonna.

NinguÃ©m desce do carro. Â«Os paparazzi estÃ£o em todo lugarÂ» sussurra a agente no breve percurso para casa, uma vila baixa, cor de tijolo, de um andar. ComeÃ§ando a falar, Claudia afirma que nenhum jornalista, atÃ© aquele dia, tinha entrado na casa Schiffer e faz as apresentaÃ§Ãµes: Â«Meu irmÃ£ozinho, minha irmÃ£ Caroline, minha mÃ£eÂ». Uma senhora muito distinta, bem alemÃ£, cabelos louros curtos, superando atÃ© o metro e oitenta e um centÃ­metros da filha. No encontro, falto o pai, advogado em DÃ¼sseldorf, verdadeiro maestro na sombra e responsÃ¡vel pelo sucesso da filha, dizem os melhor informados que se deve a ele a criaÃ§Ã£o de um tal mito da beleza.





Tudo comeÃ§ou em uma discoteca de DÃ¼sseldorfâ¦ 

Eu era muito jovem. Uma noite, se aproximou o proprietÃ¡rio da agÃªncia Metropolitan, pediu-me para trabalhar para ele...





Qual foi a sua reaÃ§Ã£o?

Â«Se for uma coisa sÃ©riaÂ» eu lhe respondi, Â«falarei amanhÃ£ com os meus paisÂ». Sabe, existem tantas tÃ©cnicas de abordagem na discoteca, aquela podia ser uma, nem tÃ£o nova...





Ã ligada Ã  sua famÃ­lia? 

Muito. Ã uma famÃ­lia com os pÃ©s no chÃ£o. Meu pai e advogado e minha mÃ£e o ajuda na administraÃ§Ã£o. NÃ£o se deixaram impressionar pelo meu sucesso. Dificilmente se surpreendem. SÃ£o muito orgulhosos de mim, isso sim, mas para eles nÃ£o Ã© nada mais que o meu trabalho e esperam de mim que o faÃ§a da melhor forma.





E os seus irmÃ£os nÃ£o sÃ£o ciumentos? 

Claro que nÃ£o! SÃ£o orgulhosos de mim, aliÃ¡s. Em particular, o meu irmÃ£ozinho de doze anos. Depois, tenho uma irmÃ£ que tem dezenove e frequenta a universidade, enfim, nenhuma competiÃ§Ã£o entre mim e ela. E por Ãºltimo, tenho um irmÃ£o de vinte anos: um amigo.





Vem sempre aqui em Maiorca com eles, nas fÃ©rias? 

Desde que eu era bem pequena. Adoro este lugar.





Agora que cresceu, porÃ©m, parece que teve algum problema em passear por esses ladosâ¦ 

Efetivamente, existem os paparazzi em todos os lugares, nas plantas... Ã© embaraÃ§oso. Cada um dos meus movimentos Ã© observado, estudado, fotografado... NÃ£o sÃ£o exatamente fÃ©rias, sob este ponto de vista!     (ri    ).





Ã o preÃ§o da celebridadeâ¦

Bem, Ã© exatamente assim. PorÃ©m, eu saio frequentemente de barco com mamÃ£e, com os meus irmÃ£os. No mar, me sinto tranquila.





Tranquila mesmo?

Ah, pelas fotos em topless? Realmente, nÃ£o entendo como isso pode acontecer. Estava no barco com a minha mÃ£e e a minha irmÃ£. EstÃ¡vamos no convÃ©s tomando sol. Estava tambÃ©m Peter Gabriel que Ã© um meu caro amigo...





NÃ³s o vimosâ¦ 

JÃ¡, Ã© verdade. Ele estÃ¡ tambÃ©m naquelas fotos. Enfim, prefiro nÃ£o falar sobre isso... Em todo caso, jÃ¡ encarreguei os advogados pelos danos...





Dizem que quer se tornar atriz. 

Gostaria de experimentar, Ã© isso. Eles me propÃµem alguns scripts e quanto mais os leio, mais tenho vontade de tentar... Hoje, tenho vontade de fazer um filme. Muita vontade.





Mas nÃ£o irÃ¡ interpretar para Robert Altman, o prÃ³ximo ano, em âPrÃªt-Ã -porterâ, dedicado ao mundo da moda? 

Ã realmente incrÃ­vel. A imprensa do mundo inteiro continua a falar sobre isso, mas nÃ£o Ã© realmente verdade. E depois nÃ£o gostaria de fazer um filme onde interpreto ainda o papel de mim mesma.





Se tivesse que escolher entre a top-model e a atriz? 

Ser modelo nÃ£o Ã© para a vida toda. Ã um trabalho para garotas bem jovens, que Ã© feito por poucos anos, como jogar tÃªnis ou nadar... Enfim, Ã© preciso aproveitar atÃ© onde puder. Em seguida, eu gostaria tambÃ©m de voltar para a universidade e estudar histÃ³ria da arte.





Disse sempre de querer defender a todo custo a sua privacidade. Fazer este filme sobre a sua vida, na sua casa, naquela dos seus pais, nÃ£o Ã© uma contradiÃ§Ã£o? 

NÃ£o acho. Os momentos realmente privados ficaram assim. No filme, se vÃª aquilo eu decidi voluntariamente mostrar ao pÃºblico: a minha famÃ­lia, os meus amigos, as minhas fÃ©rias, os meus hobbies... Enfim, as coisas que amo. E depois, as viagens, os desfiles, os fotÃ³grafos com os quais trabalho, as conferÃªncias de imprensa...





VocÃª vive entre Paris e Monte Carlo? 

Na realidade, moro em Monte Carlo, e nÃ£o perco a oportunidade para voltar para lÃ¡ quando nÃ£o trabalho, nos fins de semana, por exemplo.





Viaja sempre acompanhada com a sua agente? 

Normalmente, nÃ£o. Eu preciso dela quando tenho que trabalhar em paÃ­ses que nÃ£o conheÃ§o. Na Argentina, no JapÃ£o, na AustrÃ¡lia ou na Ãfrica do Sul. Nesses casos, existem muitos fÃ£s e depois jornalistas, paparazzi...





SÃ£o chatas todas estas viagens? 

NÃ£o, porque adoro ler e com um livro o tempo passa sempre, mesmo de aviÃ£o. E depois, Ã© um trabalho, nÃ£o fÃ©rias!





Que tipo de livros costuma ler? 

Principalmente os livros de arte. Prefiro o Impressionismo e a arte Pop. Gosto muito tambÃ©m da histÃ³ria, as biografias dos grandes homens. Li a de CristovÃ£o Colombo. IncrÃ­vel!





Disseram que vocÃª Ã© na metade Brigitte Bardot e na outra metade Romy Schneider-Sissi. VocÃª se reconhece nestas duas modelos? 

Sim. Mas nÃ£o tanto fisicamente. Acho mais ter em comum com elas alguns aspectos do carÃ¡ter, o estilo de vida... Acho extraordinÃ¡ria a Bardot, alÃ©m de belÃ­ssima: que carÃ¡ter! Por Romy Schneider entÃ£o tenho um espÃ©cie de adoraÃ§Ã£o. Vi todos os seus filmes e foi terrÃ­vel quando morreu. Com uma vida tÃ£o infeliz...





Ã parte as desgraÃ§as, vocÃª gostaria de ser a nova Romy Schneider? 

Vejo um outro belo elogio! Parecer com esta, aquela e aquela outra bela mulher. SÃ£o todos elogios belÃ­ssimos, mas eu quero ser principalmente eu mesma. FaÃ§o de tudo para ser eu mesma.





O que queria fazer quando adulta? 

NÃ£o previa de forma alguma me tornar uma modelo. Teria querido me tornar uma advogada.





Como seu pai? 

Sim, teria ido trabalhar com prazer no seu escritÃ³rio de advocacia. Depois, todos os meus programas foram para o espaÃ§o. Quando percebi da sorte que tinha tido, decidi renunciar.





A sua histÃ³ria parece uma fÃ¡bula dos anos Noventa. E os momentos difÃ­ceis? 

Existem, claro. Mas, por exemplo, nunca me sinto inadequada...





Qual Ã© o segredo? 

Muita disciplina. E depois, a capacidade de estar com os outros. Gosto de ficar no meio das pessoas. Gosto de responder com presteza ao tiro cruzado dos jornalistas nas conferÃªncias de imprensa. Ã como um desafio. NÃ£o tenho medo, Ã© isso.





SÃ³ uma questÃ£o de disciplina? 

TambÃ©m um grande equilÃ­brio. E nesse sentido, Ã© fundamental a educaÃ§Ã£o recebida em famÃ­lia: isso me ajudou muito. Formou o meu carÃ¡ter dando-me seguranÃ§a, praticidade e equilÃ­brio. E nÃ£o perder o domÃ­nio da situaÃ§Ã£o nos momentos mais complexos. Ã mÃ©rito dos meus pais se agora, por exemplo, sei falar em pÃºblico sem timidez.





De acordo com a mÃ­dia, os seus amores nascem e mudam rapidamente, hoje Alberto de MÃ´naco, amanhÃ£ Julio Boca. Qual Ã© a verdadeira Claudia? 

A verdadeira Claudia Ã© uma garota com muitos amigos. O prÃ­ncipe Alberto Ã© um desses, outro Ã© Julio Boca. Mas depois, hÃ¡ tambÃ©m Placido Domingo ou Peter Gabriel e muitos outros personagens pÃºblicos. Assim, quando apareÃ§o em alguma fotografia junto a eles, a imprensa de todo o mundo os transforma imediatamente em namorados! Mas nÃ£o Ã© verdade.





Mas, no seu futuro, existe um namorado, um marido, filhos? 

Estou super disposta a me apaixonar e logo ainda. Mas por enquanto nÃ£o tenho nenhum companheiro pelo simples motivo que nÃ£o me apaixonei por ninguÃ©m.





O que olha mais em um homem? 

NÃ£o tenho um tipo estÃ©tico ideal. A primeira coisa que vejo Ã© o carÃ¡ter e, principalmente, o senso de humor. A um homem peÃ§o que tenha     fascÃ­nio,     de me conquistar com a inteligÃªncia, com a cabeÃ§a, enfim. Que saiba o que e a ironia e que saiba ensinÃ¡-la a mim. Se nÃ£o se consegue rir, na vidaâ¦





Ã difÃ­cil ser seu namorado    â¦

Todos os companheiros das pessoas famosas devem ter um carÃ¡ter forte. Eu gosto dos homens de carÃ¡ter, mas que sejam tambÃ©m sensÃ­veis. Para andar por aÃ­ comigo, Ã© preciso suportar o barulho, as intrusÃµes, as fofocas, os jornalistas...





Tem sentimentos de culpa? 

Como assim?





Bem, parece que vocÃª tenha tudo: beleza, celebridade, dinheiroâ¦ 

Eu acho que tenho sorte, isso sim, agradeÃ§o a Deus e aos meus pais que fizeram nascer assim. Por isso, quando posso tento fazer algo Ãºtil, social.





Na moda, porÃ©m, nÃ£o hÃ¡ sÃ³ os bons sentimentos. HÃ¡ tambÃ©m a droga, o Ã¡lcool, as rivalidadesâ¦

Droga e Ã¡lcool nÃ£o me interessam. Os ciÃºmes, esses sim, mas nÃ£o os entendo. As modelas tÃªm fÃ­sico, carÃ¡ter e mentalidade tÃ£o diferentes que, ao meu ver, hÃ¡ lugar para todas. E tambÃ©m, sempre hÃ¡ lugar para todas. E depois nÃ£o Ã© necessÃ¡rio ser belÃ­ssimas. Cada mulher tem algo de bonito. Ã preciso sÃ³ valorizÃ¡-lo.





O que Ã© necessÃ¡rio para conseguir? 

Principalmente, carÃ¡ter, porque existem tantas garotas bonitas no mundo... Depois educaÃ§Ã£o, personalidade e disciplina.





Disciplina alimentar tambÃ©m? 

NÃ£o demais. NÃ£o e nÃ£o tomo bebidas alcoÃ³licas, mas sÃ³ porque nÃ£o gosto. NÃ£o como muita carne porque acho que nÃ£o faz bem Ã  saÃºde e estou atenta Ã s gorduras. PorÃ©m, adoro chocolate... Ah! tambÃ©m a Fanta naturalmente!     (ri    ).





Que relaÃ§Ã£o tem com dinheiro? 

NÃ£o Ã© a coisa mais importante, mas    me    permitirÃ¡, no futuro, fazer o que desejo. Dinheiro Ã© liberdade.





O que significa para vocÃª a palavra sexo? 

Para mim?     (parece realmente surpresa    ).





Sim, para vocÃª

Bem, uma coisa que acontece naturalmente entre duas pessoas apaixonadas uma pela outra. Ã isso.





Acredita possuir uma grande carga erÃ³tica ou, ainda, sensual? 

Absolutamente.





Absolutamente nÃ£o? 

Absolutamente sim!









4





Gong Li









 Encantada pela lua 


















No inÃ­cio de 1996, eu tinha hÃ¡ pouco iniciado o meu encargo de correspondente do Extremo Oriente e com outros amigos jornalistas, saia com colega do     Time     em Hong Kong, John Colmey. John me colocou em contato com o empresÃ¡rio da belÃ­ssima atriz chinesa Gong Li, atravÃ©s da qual consegui ter uma entrevista exclusiva para     Panorama    , no set do filme que estava gravando, prÃ³ximo Ã  Xangai.

*****

Em Suzhou, Ã s margens do Lago Tai, cem quilÃ´metros a oeste de Xangai, Chen Kaige estÃ¡ para gravar uma das Ãºltimas cenas do seu esperado filme     Temptress Moon    , trÃªs anos depois do sucesso mundial de     Addio mia concubina    . Os assistentes correm entre as mais de duzentas participaÃ§Ãµes em trajes dos anos Vinte que enchem o cais do porto, as mulheres usam o caracterÃ­stico     cheongsam     em seda, alguns cavalheiros leem sentados em um banco e, no fundo, os operÃ¡rios do porto carregam as mercadorias no navio. EstÃ¡ sendo gravado um grande adeus: Gong Li, que no filme Ã© Ruyi, a bela e viciada herdeira de uma riquÃ­ssima famÃ­lia de Xangai na qual ocorrem incestos, ritos opiÃ¡cios e traiÃ§Ãµes cruzadas, estÃ¡ para partir para Pequim junto ao prometido cÃ´njuge, Zhongliang: Leslie Cheung, o ator de Hong Kong jÃ¡ ao seu lado em     Addio mia concubina    .

No banco, estÃ¡ o amigo de infÃ¢ncia Duanwu (interpretado pela promessa do cinema de Taiwan, Lin ChÃ¬en-hwa), que desde sempre ama Ruyi em segredo: Â«Deve pensar: Ã© a Ãºltima vez que a vejo, a Ãºltima vez! Isso se deve ler no seu vulto, Ã© aquilo que quero ver!Â» recomenda-lhe Chen Kaige, quarenta e seis anos, casaco de pele e jeans pretos. Â«Bem...     Yu-bei    ...     (prontos,     ndr) ...    Action    !Â». Quando Lin Chien-hwa se vira para olhar o navio que parte, nos seus olhos se lÃª a dor. Â«    Okay!    Â» grita Kaige satisfeito. Ã a Ãºltima claquete do dia.

Depois de mais de dois anos passados reescrevendo o roteiro, Kaige estÃ¡ trabalhando duro para preparar o seu filme para a participaÃ§Ã£o do Festival de Cannes, em maio. NÃºmero um do cinema chinÃªs dos anos Noventa, filho da arte (seu pai, Chen Huaiâai, era um monumento do cinema do pÃ³s-guerra), Chen Kaige Ã© famoso por obter o mÃ¡ximo dos seus atores, colocando Ã s vezes Ã  dura prova a sua paciÃªncia. E aquela do governo chinÃªs, que por anos proibiu, cortou e censurou os seus filmes, atÃ© que teve que reconhecer, no fim, a estatura de mestre do cinema contemporÃ¢neo.

O novo filme     Temptress Moon,     que custou atÃ© agora seis milhÃµes de dÃ³lares, representa de certo modo o sÃ­mbolo da condiÃ§Ã£o hoje do cinema chinÃªs, oscilando entre liberalismo e repressÃ£o, projetado nos mercados mundiais, mas com os pÃ©s bem no chÃ£o no solo da pÃ¡tria mÃ£e; cosmopolita e provinciana ao mesmo tempo. E o set do filme parece um microcosmo da China contemporÃ¢nea.

Os protagonistas sÃ£o o melhor que oferecem, atualmente, Â«as trÃªs ChinasÂ»: Hong Kong (Leslie Cheung), Taiwan (LÃ¬n Chien) e a China popular (Gong Li). O diretor Ã© um intelectual de Pequim e a produtora, Hsu Feng, Ã© uma ex-estrela do cinema de Taiwan, casada com um homem de negÃ³cios de Hong Kong, onde nos anos Setenta fundou a Tomson Film (e tinha sido exatamente ela a convencer Kaige, oito anos atrÃ¡s, a levar para a tela a novela de Lilian Lee,     Addio mia concubina    ).

Mas se a espera pela nova direÃ§Ã£o de Kaige Ã© grande, ainda maiores sÃ£o as expectativas do pÃºblico e da crÃ­tica para a prova de atriz da estrela incondicional da pelÃ­cula, Gong Li. Com trinta e um anos, a atriz Ã© com certeza neste momento a mulher chinesa mais conhecida no mundo. No seu passado, hÃ¡ filmes como     Sorgo rosso     (1987),     Lanterne rosse     (1991) e     Addio mia concubina     (1993). Ã uma longa histÃ³ria de amor recÃ©m terminada com Zhang Yimou, seu companheiro por oito anos, o diretor que fez dela uma estrela mundial e com o qual rodou uma Ãºltima pelÃ­cula o ano passado,     La triade di Shanghai    .

Mas o sucesso junto ao pÃºblico ocidental nÃ£o impediu a Gong Li de permanecer chinesa cem por cento.

No fim do dia no set, aceitou falar de si mesma para     Panorama    , nesta entrevista exclusiva.





Ainda um grande filme, mas ainda uma histÃ³ria antiga que fala dos anos Vinte na China e nÃ£o dos fatos da histÃ³ria recente... 

Penso que isto dependa do fato que a China abriu as suas portas para o resto do mundo sÃ³ hÃ¡ poucos anos. E desde que isso aconteceu, para nÃ³s tambÃ©m o cinema desfrutou de uma maior abertura estilÃ­stica e cultural. Com certeza, a censura desempenhou, por anos, um papel decisivo ao dirigir os temas e o destino do nosso cinema. Mas, hÃ¡ tambÃ©m um motivo, mais artÃ­stico, se pode-se falar assim: muitos diretores chineses pensam que seja bom fazer filmes sobre fatos que precedem a RevoluÃ§Ã£o cultural. Ã uma forma para reabilitar aqueles fatos e aquele passado. E talvez pensam que seja ainda cedo para levar para as telas, para o pÃºblico internacional, episÃ³dios recentes, que sÃ£o ainda muito recentes e dolorosos na memÃ³ria de todos.





VocÃª Ã© a mulher chinesa mais popular no mundo. Sente a responsabilidade deste seu papel de embaixadora? 

O termo embaixadora me amedronta um pouco... me parece um tÃ­tulo grande demais para mim. Digamos que me sinto, na verdade, atravÃ©s dos meus filmes, uma ponte entre a nossa cultura e aquelas do Ocidente. Isto sim: porque, de fato, penso que entre vocÃªs, nÃ£o se conhece muito da realidade da China atual. E se um meu filme pode servir para fazer compreender ao Ocidente algo a mais sobre a nossa vida, sobre o nosso povo, sobre nÃ³s, entÃ£o disto me sinto realmente orgulhosa.





Ultimamente, porÃ©m, a imagem da China no mundo nÃ£o Ã© das melhores: execuÃ§Ãµes em massa, orfanatos da morte... Tudo isto corresponde Ã  verdade? 

A China tem muitos problemas, isto Ã© verdade. Principalmente, quando se olham sÃ³ os eventos negativos, esquecendo aqueles positivos. Se de um paÃ­s se conhecem sÃ³ as distorÃ§Ãµes, Ã© claro que a imagem que se tem Ã© incompleta. O meu paÃ­s Ã© grande, somos mais de um bilhÃ£o de pessoas e por isso existem diferenÃ§as enormes no interior da China. E nÃ£o Ã© fÃ¡cil fazer julgamentos.





Quando decidiu aceitar o papel de Ruyi em Temptress Moon? 

Foi quase um acaso. Ou um destino profÃ©tico, porque foi uma Â«tentaÃ§Ã£oÂ» tambÃ©m para mim. Propuseram-me no Ãºltimo momento, com as gravaÃ§Ãµes jÃ¡ iniciadas, depois que uma atriz de Taiwan tinha decidido nÃ£o continuar. Sabe que os crÃ­ticos chineses compararam     Temptress Moon     com     O vento levou    ?





Ah, e por quÃª? 

NÃ£o pelo conteÃºdo. Pela escolha dos atores. Chen viu dezenas de atores para o meu papel, assim como para     O vento levou     foi descartada uma atriz depois da outra antes de escolherem Vivian Leigh para o papel de Scarlett O'Hara. Assim, eu cheguei com o filme jÃ¡ iniciado. E nÃ£o foi fÃ¡cil. Queriam que interpretasse um personagem completamente diferente daqueles que faÃ§o habitualmente: aqui devo ser uma garota rica e viciada.





Hoje, o cinema chinÃªs atravessa um momento mÃ¡gico. MÃ©rito de diretores como Kaige e de atores como vocÃª. Mas tambÃ©m de nomes como John Woo ou Ang Lee, que trabalham em Hollywood    .





Penso que a razÃ£o esteja no fato que os diretores chineses unem uma tÃ©cnica cinematogrÃ¡fica irrepreensÃ­vel Ã quele fascÃ­nio e ao estilo Ãºnicos que pertencem Ã  nossa cultura.





Como comeÃ§ou a representar? 

Absolutamente, por acaso. Quando eu era pequena, gostava de cantar. Um dia, o meu professor de canto me disse para ir com ele ver as gravaÃ§Ãµes de um roteiro para a televisÃ£o em Shandong. A diretora era uma mulher, me lembro. Quando me viu, decidiu que tinha que fazer uma parte, assim me deu para ler o roteiro. Era uma pequena parte. Mas ela disse que eu era uma atriz nata. Disse assim para a minha mÃ£e: Â«Sua filha deve ser atrizÂ». Conseguiu convencÃª-la e depois de dois meses entrei na escola de atuaÃ§Ã£o de Pequim. Estudava duro, me lembro, comecei a fazer pequenos papÃ©is e depois...





VocÃª vive entre Pequim e Hong Kong. E os jornais falam da sua nova histÃ³ria de amor com um homem de negÃ³cios de Hong Kong. Pensa em se transferir definitivamente para lÃ¡? 

NÃ£o creio. Gosto de Hong Kong porque Ã© frenÃ©tica. E Ã© bom para fazer compras. Mas a acho aborrecida. Pequim Ã© diferente. As pessoas se encontram pelas ruas e falam com vocÃª, conversam. Em Hong Kong, pensa-se sÃ³ em fazer dinheiro.





O interesse da imprensa pela sua vida particular a incomoda?

Penso que seja inevitÃ¡vel. Ã, principalmente, a imprensa asiÃ¡tica que escreve com frequÃªncia coisas desagradÃ¡veis ou inventadas. Os jornais ocidentais sÃ£o mais corretos.





Na China tambÃ©m Ã© importante ser bonita, para uma atriz? 

VocÃª acha que eu sou bonita?





No Ocidente, Ã© considerada um sÃ­mbolo sexual    .

Bem, isso me deixa satisfeita. Eu, porÃ©m, nÃ£o me sinto um sÃ­mbolo sexual. Talvez, possa representar a personalidade ou o fascÃ­nio da mulher chinesa, que sÃ£o tÃ£o diferentes das mulheres ocidentais.





Que projetos tÃªm para o futuro? 

Gostaria de me casar e ter filhos, penso que a famÃ­lia seja muito importante na vida de uma mulher. E sem uma famÃ­lia, nÃ£o se pode levar no prÃ³prio trabalho a verdade de cada dia.





E os projetos cinematogrÃ¡ficos? 

Por enquanto, nÃ£o. Estou lendo muitos roteiros, mas nÃ£o encontro nada que me convenÃ§a. NÃ£o acho que se deva aceitar um papel sÃ³ para fazer alguma coisa.





Trabalharia com um diretor ocidental? 

Se tivesse uma parte adequada para mim, adequada a uma mulher chinesa, por que nÃ£o?





Existe um italiano com quem gostaria de trabalhar? 

Claro, Bernardo Bertolucci!





5





Ingrid Betancourt









A apaixonada dos Andes










Cara Dina, eis a parte com box a seguir. Espero que tudo esteja bem. Hoje (segunda, 11) tomarei o aviÃ£o de TÃ³quio para Buenos Aires, onde chegarei amanhÃ£, 12 de fevereiro. DaÃ­ em diante, poderei ser encontrado no satelitar, mesmo nos dias de ânavegaÃ§Ã£oâ antÃ¡rtica. Estarei de novo na Argentina por volta de 24 de fevereiro, depois seguirei para BogotÃ¡, onde terei que encontrar a Bentacourt nos primeiros dias de marÃ§o. 

FaÃ§a-me saber se lhe interessa.

AtÃ© logo

Marco





Com este e-mail, que encontrei em um velho computador, no inÃ­cio de fevereiro de 2002 escrevia para Dina Nascetti, uma das minhas chefes no     Espresso,     para informÃ¡-la dos meus movimentos. Tinha estado no JapÃ£o para uma reportagem sobre o tÃºmulo de Jesus 


 e me preparava para enfrentar uma longa viagem, que me teria levado para longe de casa por quase dois meses. O destino final era o limite geogrÃ¡fico extremo: a AntÃ¡rtida.

Ao longo da estrada, previa uma parada na Argentina, para uma reportagem sobre a gravÃ­ssima crise econÃ´mica que assolava o paÃ­s sul americano naqueles meses e depois, no caminho de volta, a ColÃ´mbia, onde deveria ter que entrevistar Ingrid Betancourt Pulecio, a polÃ­tica colombiana e militante dos direitos humanos. Na realidade, cheguei alguns dias antes do previsto em BogotÃ¡. E foi - pelo menos para mim - uma sorte. Encontrei a Betancourt no dia vinte e dois de fevereiro e, exatamente, vinte e quatro horas depois enquanto viajava de carro para FlorenÃ§a, Ingrid Betancourt desapareceu no nada, pelos lados de San Vicente del Caguan. Sequestrada pelos guerrilheiros das     farc    , foi mantida como refÃ©m por quase seis anos.

Se tivesse chegado na ColÃ´mbia sÃ³ no dia depois, nunca a teria encontrado.





*****

Os cabelos castanhos soltos sobre os ombros. Os olhos escuros, de verdadeira colombiana. No pulso, uma pulseira de Ã¢mbar. E os lÃ¡bios que nÃ£o sorriem quase nunca.

Tem poucas ocasiÃµes para sorrir Ingrid Betancourt, quarenta anos bem cuidados, cinquenta quilos bem distribuÃ­dos em um metro e setenta, hoje candidata ao incÃ´modo cargo de presidente da RepÃºblica do paÃ­s mais violento do mundo, a ColÃ´mbia. Um lugar onde todos os dias se contam em mÃ©dia setenta homicÃ­dios. Onde, hÃ¡ quarenta anos, se combate uma guerra que desde 1990 atÃ© hoje fez trinta e sete mil vÃ­timas civis. Onde sÃ£o sequestradas, mais ou menos, dez pessoas a cada vinte e quatro horas. Um paÃ­s que se orgulha do recorde de primeiro produtor no mundo de cocaÃ­na e do qual, nos Ãºltimos trÃªs anos, fugiu mais de um milhÃ£o de pessoas.

Entretanto, nÃ£o se passaram muitos anos desde quando a mesma mulher que hoje se senta em frente a mim, em um anÃ´nimo apartamento super secreto e super blindado no centro de BogotÃ¡, colete a prova de balas e olhar nervoso, sorria serena, deitada em uma praia das Seychelles, sob o olhar indulgente do padre Gabriel de Betancourt, diplomÃ¡tico francÃªs belo, culto e inteligente, enviado para trabalhar naquele canto do paraÃ­so depois dos anos difÃ­ceis passados na ColÃ´mbia.

Exatamente vinte e quatro horas depois desta entrevista, enquanto viajava para FlorenÃ§a, Ingrid Betancourt desapareceu, pelos lados de San Vicente del Caguan, no limite da Ã¡rea mais avanÃ§ada de penetraÃ§Ã£o das tropas colombianas contra os rebeldes da     farc    . Junto a ela, desapareceram uma cinegrafista e um fotÃ³grafo franceses que a acompanhavam para documentar a sua arriscada campanha eleitoral. E tudo deixa pensar que se trata de um rapto.

Uma representaÃ§Ã£o dramÃ¡tica que, paradoxalmente mas nÃ£o demais em um paÃ­s cruel como a ColÃ´mbia, Â«aumenta de vez as possibilidades da sua eleiÃ§Ã£oÂ», como observa pragmaticamente um que entende de acontecimentos colombianos, Gabriel Marcela, professor na Escuela de Guerra.





Ingrid Betancourt Pulecio, tinha voltado para este inferno, espontaneamente. E nÃ£o ao ocaso da vida mas, com trinta anos, em 90.

Ex-deputada, atualmente senadora, funda um partido que se chama     Oxigeno Verte    , Â«para levar ar limpo para a polÃ­tica colombiana, doente de corrupÃ§Ã£oÂ», explica sÃ©ria. O slogan diz: Â«Ingrid es oxigenoÂ». E na foto, estÃ¡ ela, com uma mÃ¡scara antipoluiÃ§Ã£o e calÃ§as coloridas. Com cento e sessenta mil preferÃªncias, Ã© a mais votada do PaÃ­s. NinguÃ©m porÃ©m, talvez, falasse hoje dela se nÃ£o fosse pela autobiografia que sai exatamente nestes dias tambÃ©m na ItÃ¡lia. O tÃ­tulo nÃ£o deixa dÃºvidas sobre o carÃ¡ter da autora: Â«Provavelmente amanhÃ£, irÃ£o me matarÂ».





Um tanto teatral, talvez?

Â«A ediÃ§Ã£o francesa se intitulava     La rage au coeur â La rabbia nel cuore    Â» ela se defende. Â«Mas os editores italianos queriam um tÃ­tulo mais forte, assim escolhemos este. De resto Ã© assim que me sinto e Ã© isto que penso todas as manhÃ£s, quando me acordo e todas as noites, antes de adormecer. E nÃ£o acho que existe nada de especialmente heroico. A probabilidade de ser mortos amanhÃ£ Ã© uma perspectiva muito real e muito presente para uma grande parte da populaÃ§Ã£o deste paÃ­sÂ».

Os jornais a descreveram quase como uma santa.     Paris Match     a chamou âA mulher na miraâ.     LibÃ©ration     âUma heroÃ­naâ.     Le Figaro    , âA Apaixonada dos Andesâ.     Le Nouvel Observateur     escreveu que Â«se Simon BolÃ­var, o     libertador     da AmÃ©rica Latina, tivesse podido escolher um herdeiro para ele, a teria escolhidoÂ».

Os jornais colombianos, em vez disso, zombaram dela um pouco. A     Semana    , primeiro jornal semanal de informaÃ§Ãµes do PaÃ­s, a colocou na capa com o tÃ­tulo âJuan de Arcoâ (Joana D'Arc) e uma fotomontagem onde aparece na versÃ£o de Donzela de Orleans, cavalo, armadura e lanÃ§a em riste. Na realidade, o livro Ã© muito mais comedido e seco do tÃ­tulo que leva e nas suas crÃ­ticas. Ingrid nÃ£o esconde ser uma privilegiada. Filha da elite, conservou certos luxos: andar a cavalo uma vez por semana em uma fazenda, colocada Ã  disposiÃ§Ã£o por amigos, por exemplo.

De resto, porÃ©m, as ideias nÃ£o lhe faltam, e nÃ£o tem papas na lÃ­ngua para exprimi-las. Â«A     farc    , Fuerzas Armardas Revolucionarias de Colombia, primeiro grupo guerrilheiro do paÃ­s, em 1998, de acordo com cÃ¡lculos prudentes, podia contar com financiamentos anuais iguais a trezentos milhÃµes de dÃ³lares, na maioria proveniente dos âfinanciamentosâ de narcotraficantes e das rendas dos sequestros de pessoas e das extorsÃµes. Hoje sabemos que podemos contar com um valor anual que chega quase a meio bilhÃ£o de dÃ³lares, enquanto os seus quadros passaram de quinze mil a vinte e um mil. Esta situaÃ§Ã£oÂ» ele explica, Â«coloca o estado colombiano em uma situaÃ§Ã£o de total desnÃ­vel de forÃ§as nos confrontos da guerrilha. Para obter resultados decisivos calculamos que o governo deveria poder colocar em campo de trÃªs a quatro militares bem treinados para cada guerrilheiro, enquanto hoje pode ao mÃ¡ximo mobilizar uma proporÃ§Ã£o de um, no mÃ¡ximo, dois soldados para cada membro da     farc    . E tudo isso com um esforÃ§o econÃ´mico que, ainda, para o meu paÃ­s, Ã© quase sobre-humano. Calcula-se que desde 1990 o custo da repressÃ£o quase que foi decuplicado. E, se no inÃ­cio, representava um por cento do produto interno bruto, hoje supera a cota de dois por cento e alcanÃ§ou, afinal, o astronÃ´mico valor de mil milhÃµes de dÃ³lares norte-americanosÂ».

Uma exaltada, como a descrevem os seus inimigos ou uma mulher que quer fazer alguma coisa para o seu PaÃ­s, como diz ela? Os cÃ­rculos da polÃ­tica em BogotÃ¡ esnobam da sua candidatura. Mas, lÃ¡ no fundo, a temem. Omar, o chefe dos seus gorilas, diz: Â«Neste paÃ­s, quem Ã© honesto arrisca-se pagar com a morte.Â» E ela responde: Â«NÃ£o tenho medo de morrer. O medo a torna mais aguÃ§adaÂ».

O primeiro ponto da sua campanha eleitoral Ã© a luta contra a corrupÃ§Ã£o. O segundo, hÃ¡ a guerra civil: Â«O Estado deve tratar com os guerrilheiros de esquerda sem sujeiÃ§ÃµesÂ», conclui Â«tomando distÃ¢ncia das AUC, os paramilitares de direita, que sÃ£o responsÃ¡veis pela maior parte dos homicÃ­dios no PaÃ­sÂ».

Mas como se faz para conviver todos os dias com as ameaÃ§as e o medo?

Â«Talvez se torne tambÃ©m este um hÃ¡bito. Um hÃ¡bito horrÃ­vel. Outro diaÂ» conclui tranquila, Â«abrindo a correspondÃªncia, encontrou a foto de um menino esquartejado. Embaixo, estava escrito: âSenhora senadora, para a senhora, os assassinos jÃ¡ os pagamos. Para o seu filho, reservamos um tratamento especialâ¦âÂ».

















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Aung San Suu Kyi


PrÃªmio Nobel da Paz 1991




Livre do medo


















No dia seis de maio de 2002, em seguida Ã s fortes pressÃµes da     onu    , foi liberada Aung San Suu Kyi. A notÃ­cia rodou o mundo, mesmo se a sua liberdade foi de breve duraÃ§Ã£o. Em trinta de maio de 2003, enquanto estava a bordo de um trem com muitos apoiadores, um grupo de militares abriu fogo massacrando muitas pessoas e foi sÃ³ graÃ§as Ã  prontidÃ£o de reflexos do seu motorista o Kyaw Soe Lin que Aung San Suu Kyi conseguiu se salvar, mas foi de novo colocada em prisÃ£o domiciliar.

No dia depois da sua liberaÃ§Ã£o de maio de 2002, atravÃ©s de alguns contatos que tinha com a dissidÃªncia birmanesa, conseguiu fazer-lhe chegar uma sÃ©rie de perguntas para uma entrevista âÃ  distÃ¢nciaâ via e-mail.





*****

Ãs dez da manhÃ£ de ontem, silenciosamente, os guardas que estacionavam em frente Ã  residÃªncia de Aung San Suu Kyi, lÃ­der da dissidÃªncia democrÃ¡tica birmanesa, voltaram ao seu quartel. Assim, com um movimento de surpresa, a junta militar de Rangoon revogou as restriÃ§Ãµes Ã  liberdade de movimento da lÃ­der pacifista, âa Senhoraâ como a chamamos simplesmente na BirmÃ¢nia, prÃªmio Nobel da Paz em 1991, em prisÃ£o domiciliar do distante vinte de julho de 1989.

Das dez da manhÃ£ de ontem, entÃ£o, depois de quase treze anos, Aung San Suu Kyi estÃ¡ livre para sair da Casa no lago, de se comunicar com qualquer pessoa, de fazer polÃ­tica, de ver os seus filhos.

Mas, realmente acabou o terrÃ­vel isolamento da âapaixonada birmanesaâ? A oposiÃ§Ã£o no exÃ­lio nÃ£o acredita ainda Ã s altas declaraÃ§Ãµes da junta militar que declarou liberÃ¡-la sem condiÃ§Ãµes.

IncrÃ©dulos, os exilados birmaneses esperam. E rezam. Desde ontem, de fato, a diÃ¡spora birmanesa convocou manifestaÃ§Ãµes de oraÃ§Ãµes em todos os templos budistas da TailÃ¢ndia e da Ãsia Oriental.

Ela, a     Senhora    , assim que voltou em liberdade nÃ£o perdeu tempo. AlcanÃ§ou logo de carro o quartel geral do seu partido, aquela Liga nacional pela democracia (    lnd    ), que nas eleiÃ§Ãµes de 1990, obteve uma esmagadora vitÃ³ria (oitenta por cento dos votos), enquanto o Partido do governo da unidade nacional se adjudicou apenas dez cadeiras de 485. O governo militar anulou o resultado das eleiÃ§Ãµes, proibiu as atividades da oposiÃ§Ã£o, reprimiu violentamente as manifestaÃ§Ãµes das praÃ§as e os lÃ­deres da oposiÃ§Ã£o foram presos ou exilados. O parlamento nunca foi convocado.





A ediÃ§Ã£o italiana da sua autobiografia se intitula âLibera dalla pauraâ. Sente-se assim, agora?

Agora, pela primeira vez hÃ¡ mais de dez anos, me sinto livre. Fisicamente livre. Livre principalmente para agir e pensar. Como explico no meu livro, sÃ£o muitos anos afinal que me sentia "livre do medo". De quando tinha entendido que os abusos de poder da ditadura aqui no meu paÃ­s podiam nos ferir, humilhar, atÃ© nos matar. Mas nÃ£o podiam mais nos amedrontar.





Hoje, assim que foi libertada, logo declarou de nÃ£o ter sido submetida a condiÃ§Ãµes e que a junta militar no poder a autorizou a ficar tambÃ©m no exterior. Acredita nisso realmente?

Um porta-voz da junta, em um comunicado por escrito anunciado ontem Ã  noite, anunciou a abertura âde uma nova pÃ¡gina para o povo de Myanmar e para a comunidade internacionalâ. Nos Ãºltimos meses, foram liberados centenas de prisioneiros polÃ­ticos e os militares me garantiram que continuarÃ£o a liberar aqueles que - eles dizem â Â«nÃ£o representam um perigo para a comunidadeÂ». Todos aqui querem acreditar, querem esperar que isto seja realmente o sinal da mudanÃ§a. A retomada daquele caminho para a democracia interrompida bruscamente com a violÃªncia com o golpe de Estado de 1990. Mas nunca esquecida no Ã¢nimo do povo birmanÃªs.





Agora que foi liberada, nÃ£o teme ser expulsa, afastadas pelos seus sustentadores ? 

Deve ficar claro que eu nÃ£o irei embora. Eu sou birmanesa, renunciei Ã  cidadania britÃ¢nica exatamente para nÃ£o oferecer desculpas ao regime. NÃ£o tenho medo. E isso me dÃ¡ forÃ§a. Mas o povo tem fome, por isso tem medo e assim se torna fraca.





VocÃª, por mais vezes e com forÃ§a, denunciou as intimidaÃ§Ãµes dos militares contra os simpatizantes da Liga para a democracia. Tudo isso continua ainda hoje?

De acordo com os dados em nossa posse, sÃ³ em 2001 o exÃ©rcito deteve mais de mil militantes da oposiÃ§Ã£o por ordem dos generais do     slorc    . Muitos outros foram obrigados a demitir-se da     Liga     depois de ter sofrido intimidaÃ§Ãµes, ameaÃ§as, pressÃµes ilegais para as quais nÃ£o existe nenhuma justificaÃ§Ã£o. A estratÃ©gia de aÃ§Ã£o Ã© sempre a mesma, capilar: unidade de funcionÃ¡rios estatais espalhados em todo o territÃ³rio nacional vÃ£o âporta Ã  portaâ para as casas pedindo aos cidadÃ£os para deixar a     Liga    . As famÃ­lias que se negam sÃ£o chantageadas com o espectro da perda do trabalho e, com frequÃªncia, com ameaÃ§as explÃ­citas. Muitas seÃ§Ãµes do partido foram fechadas e todos os dias os militares controlam o nÃºmero de quantos se demitiram. Isto demonstra quanto medo ele tÃªm da     Liga    . A esperanÃ§a neste momento Ã©, para nÃ³s todos, que tudo isso tenha realmente acabado.





A virada de hoje, o acontecimento da sua liberaÃ§Ã£o, a colheu de surpresa ou se tratou de algo atentamente preparado e estudado pelos militares por questÃµes de âimagemâ internacional? 

De 95 atÃ© hoje, o isolamento da BirmÃ¢nia pouco a pouco se desfez, o Ateneu de Rangoon foi reaberto e talvez o nÃ­vel de vida melhorou levemente; mas a histÃ³ria da BirmÃ¢nia continua a se desenvolver no quotidiano feito de violÃªncias, ilegalidades e abusos tanto contra os dissidentes quanto contra as minorias Ã©tnicas (Shan, We, Kajn) na busca de autonomias e, em geral, contra a maior parte da sua populaÃ§Ã£o. Os militares estÃ£o sempre mais em dificuldades, tanto no plano interno quanto naquele internacional. Neste Ã­nterim, continuam a traficar droga, a menos que nÃ£o consigam substituir esta rentÃ¡vel fonte de renda com uma outra, igualmente lucrativa. Mas qual? A naÃ§Ã£o Ã© praticamente um imenso cofre do qual sÃ³ o exÃ©rcito conhece a combinaÃ§Ã£o. E nÃ£o serÃ¡ fÃ¡cil convencer os generais a dividir esta riqueza com os outros cinquenta milhÃµes de birmaneses.





A este ponto, quais sÃ£o as suas condiÃ§Ãµes para comeÃ§ar o diÃ¡logo ? 

NÃ£o aceitaremos nenhuma iniciativa - fala-se tambÃ©m de eleiÃ§Ãµes convocadas pelos generais - atÃ© que seja reunido o Parlamento eleito em 90. O meu PaÃ­s continua dominado pelo medo. NÃ£o haverÃ¡ paz verdadeira atÃ© que nÃ£o existirÃ¡ um verdadeiro empenho que honra todos aqueles que lutaram por uma BirmÃ¢nia livre e independente, mesmo se com a grande consciÃªncia que paz e reconciliaÃ§Ã£o nÃ£o possam ser alcanÃ§adas uma vez por todas e por isso Ã© necessÃ¡ria uma vigilÃ¢ncia sempre mais atenta, maior coragem e a capacidade de desenvolver em nÃ³s mesmos a verdadeira resistÃªncia ativa e nÃ£o violenta.





 O que pode fazer a UniÃ£o Europeia para ajudar o povo birmanÃªs? 

Continuar a fazer pressÃ£o, porque os generais devem saber que o mundo olha para eles e que nÃ£o podem cometer impunemente outros atos vergonhosos.

*****

Finalmente, no dia treze de novembro de 2010, Aung San Suu Kyi foi definitivamente solta. Em 2012, obteve uma cadeira no parlamento birmanÃªs e no dia dezesseis de junho do mesmo ano, pode receber o prÃªmio Nobel pela Paz. Como o governo lhe concedeu finalmente a permissÃ£o de ir para o exterior, foi para a Inglaterra, para se encontrar com o filho que nÃ£o via hÃ¡ anos.

Em seis de abril de 2016, se tornou Conselheira de Estado (Primeira Ministra) de Myanmar.

A BirmÃ¢nia, hoje Myanmar, nÃ£o Ã© ainda um paÃ­s completamente livre e o passado ditatorial pesa na histÃ³ria e no futuro da naÃ§Ã£o. Mas algo mais de uma esperanÃ§a de liberdade e democracia se abriu afinal no paÃ­s dos Mil Pagodes.





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Lucia Pinochet









â   Asasinar, torturar y hacer desaparecir    â


















Santiago do Cile, marÃ§o 1999    .

Â«Pinochet? Para os clientes Ã© como um cÃ¢ncer. Um mal obscuro..., doloroso. NÃ³s sabemos que o temos, mas temos medo atÃ© de falar nele, pronunciar o seu nome. Assim acabamos em fazer de conta que nÃ£o existe. Talvez esperamos que ignorando-o, este mal vÃ¡ embora sozinho, sem termos que enfrentÃ¡-lo...Â». A moÃ§a que serve Ã s mesas do     CafÃ¨ El Biografo    , ponto de encontro de poetas e estudantes, no     Barrio     pitoresco de     Bellavista     em Santiago, o bairro dos artistas e dos velhos restaurantes, com as suas casas coloridas, terÃ¡ um pouco mais de vinte anos. Talvez ainda nem tivesse nascido quando o general Augusto Pinochet Ugarte, o âSenador vitalÃ­cioâ, como o chamam aqui, ordenava âasasinar, torturar y hacer desaparecirâ os seus opositores - como gritam os familiares dos mais de trÃªs mil desaparecidos - ou enquanto providenciava com punho de ferro âliberar o Chile da ameaÃ§a do bolchevismo internacionalâ, como garantem os seus admiradores. PorÃ©m Ã© ela mesma a querer falar-me de Pinochet e tem as ideias claras: Â«Tudo aqui Ã© Pinochet. PrÃ³s ou contras, mas em cada aspecto da vida do Chile existe ele, o general. Ã na polÃ­tica, claro. Ã na memÃ³ria de todos, nos contos dos meus pais, nos discursos dos professores na escola. E Ã© nos romances, nos livros... no cinema. Sim tambÃ©m o cinema, aqui no Chile, se faz prÃ³s ou contras Pinochet. E nÃ³s continuamos a fazer de conta que nÃ£o existe...Â».

JÃ¡, este anciÃ£o senhor obstinado, que enfrenta âcom dignidade de soldadoâ a justiÃ§a britÃ¢nica (Â«...pobre velho!Â» sussurrou-me no ouvido o porteiro do âCirculo de la Prensaâ, onde os fidelÃ­ssimos do     Senador vitalÃ­cio    , nos anos obscuros da ditadura militar, vinham âretirarâ os jornalistas irritados, exatamente atrÃ¡s do palÃ¡cio da Moneda onde morreu Salvador Allende, perseguido pelo golpe do General), esse âpobre velhoâ que aliÃ¡s, no Chile do Terceiro milÃªnio, se torna um colosso incÃ´modo, que ocupa com os seus cais cada bairro, cada esquina, cada rua dessa cidade, Santiago, que aparece como incerta, dobrada sobre si mesma.

E depois Ã© ele a memÃ³ria vÃ­vida deste PaÃ­s, uma memÃ³ria imensa, invasora, embaraÃ§osa para os seus sustentadores e que incomoda aos seus difamadores. Uma memÃ³ria que se expande pegajosa como um     blob     nas vidas, nas esperanÃ§as e dores, no passado e no futuro dos chilenos.





Em outubro de 1998, ao se tornar senador, poucos meses depois do abandono do papel de chefe do exÃ©rcito, enquanto estava em Londres para alguns tratamentos mÃ©dicos, Pinochet Ã© preso e colocado em prisÃ£o domiciliar. Antes na clÃ­nica, na qual tinha acabado de sofrer uma intervenÃ§Ã£o cirÃºrgica na coluna, depois em uma residÃªncia em locaÃ§Ã£o.

O mandato de prisÃ£o internacional foi assinado por um juiz espanhol, Baltasar GarzÃ³n, por crimes contra a humanidade. As acusaÃ§Ãµes incluÃ­am quase cem casos de tortura contra cidadÃ£os espanhÃ³is e um caso de conspiraÃ§Ã£o por cometer tortura. A GrÃ£ Bretanha tinha recentemente assinado a ConvenÃ§Ã£o internacional contra a tortura e todas as acusaÃ§Ãµes eram por fatos ocorridos nos Ãºltimos quatorze meses do seu regime.

O governo do Chile se opÃ´s logo Ã  prisÃ£o, Ã  extradiÃ§Ã£o e ao processo. Foi iniciada uma dura batalha legal na CÃ¢mara dos Lordes, o Ã³rgÃ£o mÃ¡ximo jurisdicional britÃ¢nico, que durou dezesseis meses. Pinochet reivindicou a imunidade diplomÃ¡tica como ex-chefe de Estado, mas os Lordes a negaram em consideraÃ§Ã£o Ã  gravidade das acusaÃ§Ãµes e concederam a extradiÃ§Ã£o, mesmo com vÃ¡rios limites. Pouco tempo depois, porÃ©m uma segunda pronÃºncia dos mesmos Lordes permitiu Ã  Pinochet evitar a extradiÃ§Ã£o por causa das suas precÃ¡rias condiÃ§Ãµes de saÃºde (tinha oitenta e dois anos no momento da sua prisÃ£o), por motivos definidos âhumanitÃ¡riosâ. Depois de alguns acertos sanitÃ¡rios, o entÃ£o ministro do exterior britÃ¢nico Jack Straw permitiu Ã  Pinochet, depois de quase dois anos de prisÃ£o domiciliar ou na clÃ­nica, voltar para o seu PaÃ­s, em marÃ§o de 2000.





Durante este intricado caso legal internacional, no fim de marÃ§o de 1999, fui Ã  Santiago para acompanhar a evoluÃ§Ã£o da situaÃ§Ã£o para o jornal     Il Tempo    , e para encontrar a filha mais velha do     Senador vitalÃ­cio    , Lucia. A CÃ¢mara dos Lordes tinha acabado de negar a imunidade Ã  Pinochet e o aviÃ£o que â na esperanÃ§a da famÃ­lia e dos apoiadores do general - deveria levÃ¡-lo de volta ao Chile, chegava sem ele.

A reaÃ§Ã£o pelas ruas de Santiago foi imediata. Em vinte e quatro de marÃ§o a capital chilena tinha esperado a sentenÃ§a com a respiraÃ§Ã£o suspensa, mesmo se nÃ£o como uma cidade blindada. Enquanto uma discreta presenÃ§a de âCarabinerosâ, controlava os pontos quentes da capital chilena - o palÃ¡cio presidencial da Moneda, as embaixadas da GrÃ£ Bretanha e Espanha e as sedes das associaÃ§Ãµes prÃ³ e contra o     Senador vitalÃ­cio     - os chilenos acompanhavam minuto a minuto o ocorrido atravÃ©s da cobertura maciÃ§a que todas as redes nacionais lhe dedicavam. A atenÃ§Ã£o era aquela dirigida a um evento histÃ³rico, com conexÃµes diretas via satÃ©lite de Londres, Madri e diversos pontos de Santiago, iniciados perto das sete da manhÃ£ e que continuaram por todo o dia. Pouco menos de uma hora depois da decisÃ£o dos Lordes, por volta de meio-dia local, dois jornais da tarde jÃ¡ estavam prontos com uma ediÃ§Ã£o extraordinÃ¡ria. Um deles trazia o tÃ­tulo assim, eficaz, na primeira pÃ¡gina: Â«Pinochet perdeu e venceuÂ».

Nos momentos cruciais da manhÃ£ muitos santiaguinos tinham se juntado em torno Ã s televisÃµes instalados um pouco em todos os locais pÃºblicos, dos McDonald's aos bares menores. Em uma grande loja do centro tinha se reunido uma multidÃ£o revoltada de clientes quando, furiosos, forÃ§aram verbalmente o gerente para obrigÃ¡-lo a sintonizar a televisÃ£o na transmissÃ£o direta de Londres.

No fim da tarde a situaÃ§Ã£o que atÃ© entÃ£o tinha se mantido calma, comeÃ§ava a mostrar os primeiros sinais de tensÃ£o. Ãs dezesseis, hora de Santiago, ocorriam os primeiros confrontos entre estudantes e polÃ­cia no centro da capital, no cruzamento entre a Alameda 


 e a calle Miraflores, com um balanÃ§o de uma dezena de feridos e uns cinquenta estudantes presos.

Muitos os apelos Ã  calma, principalmente por parte dos expoentes do governo. TambÃ©m as declaraÃ§Ãµes ameaÃ§adoras do general Fernando Rojas Vender, (o piloto que bombardeou o palÃ¡cio presidencial da Moneda), comandante da ForÃ§a AÃ©rea Chilena, a fidelÃ­ssima FACH, que na terÃ§a-feira antes tinha sustentado publicamente que no PaÃ­s estava se preparando um clima Â«parecido com aquele do Golpe de Estado de 73Â», tinham sido asperamente censuradas pelo Governo, que tinha atÃ© forÃ§ado Rojas a uma retificaÃ§Ã£o pÃºblica.

Agora, a atenÃ§Ã£o se deslocava para a decisÃ£o do Ministro britÃ¢nico da justiÃ§a, Straw. E em torno Ã  sua figura jÃ¡ tinham se colocado em movimento todos os aparatos publicitÃ¡rios dos apoiadores de Pinochet, que apontavam Â«fazer com que Straw tivesse o mesmo fim do Lord HofmannÂ», desacreditar o Ministro britÃ¢nico acusado de ter manifestado, na juventude, fortes e pÃºblicas simpatias pela esquerda chilena, no curso de uma sua viagem ao Chile com a idade de trinta e trÃªs anos. Havia atÃ© quem sustentasse poder fornecer provas de um encontra amigÃ¡vel entre o jovem Straw e o entÃ£o presidente Allende, que o teria convidado para tomar um chÃ¡.

Enfim, os assuntos a enfrentar, eu pensava, enquanto caminhava para a casa de Lucia Pinochet, nÃ£o faltavam.





*****

InÃ©s Lucia Pinochet Hiriart Ã© a filha mais velha. Uma bela senhora, que traz muito bem a sua idade e ainda melhor o seu sobrenome. Um gesso banal a impediu de estar ela tambÃ©m, como os seus irmÃ£os, ao lado do pai, em Londres. Assim, sem poder ajudÃ¡-lo, coube-lhe na sorte permanecer aqui em Santiago, para representar, e principalmente defender, a figura do     Senador,     em um momento certamente nÃ£o fÃ¡cil.

Pelas janelas abertas da sua bela casa nos bairros altos, onde nos chegam as vozes dos manifestantes que gritam slogans a favor de seu pai, com os seus trÃªs rapazes ao lado, Hernan, Francisco e Rodrigo, falamos por quase uma hora dos temas âquentesâ do caso que envolve o destino de seu pai e, inevitavelmente, o futuro de todo o Chile.





O que pensa da decisÃ£o âhumanitÃ¡riaâ aplicada em relaÃ§Ã£o ao seu pai?

Teria preferido que tivesse sido reconhecida ao meu pai aquela imunidade completa que lhe cabia como ex Chefe de Estado de um paÃ­s soberano. Em vez de um processo penal passou-se a uma discussÃ£o polÃ­tica sobre presumidos casos de tortura, vÃ¡rios crimes e genocÃ­dio, cedendo Ã s pressÃµes dos socialistas e de gente que diz querer defender os direitos humanos.





Falou com o seu pai? Como ele reagiu?

Meu pai nÃ£o estÃ¡ contente com a soluÃ§Ã£o. Tinham-no avisado antes sobre a possibilidade de uma decisÃ£o âhumanitÃ¡riaâ. E claro, nÃ£o ficou contente pelo dato que tudo tenha sido confiado ao Ministro Jack Straw...





Aquele mesmo que visitou o Chile em 1966 e, se diz aqui, foi tomar chÃ¡ com Salvador Allende?

Exato, e isso jÃ¡ sabÃ­amos a tempo. Basta dizer que quando prenderam meu pai, em Londres, Straw declarou que tinha sido realizado o sonho da sua vida.





Assim, agora, do plano jurÃ­dico passou-se Ã quele humanitÃ¡rio...

Tudo sempre foi um fato polÃ­tico! Falar de um processo judiciÃ¡rio queria dizer fechar os olhos porque em Londres nÃ£o tinha que se discutir de tortura, mas apenas de imunidade presidencial e de soberania territorial.





Muitos comentaristas observaram que se trata de uma sentenÃ§a histÃ³rica, que constitui um precedente jurÃ­dico de notÃ¡vel importÃ¢ncia. EstÃ¡ de acordo?

Certo, visto que Ã© a primeira vez que se enfrenta uma situaÃ§Ã£o como esta. Deve considerar que hÃ¡ muitos anos existiam convenÃ§Ãµes internacionais mas nÃ£o existia nem um procedimento judicial, nem um tribunal de justiÃ§a que tivesse que julgar e, eventualmente, punir os crimes contra os direitos humanos. Assim, o experimento estÃ¡ sendo feito na pele do meu pai!





Como estÃ¡ o estado de saÃºde do general?

NÃ£o devemos esquecer que ele tem oitenta e trÃªs anos e que acabou de passar por uma cirurgia dificÃ­lima. EstÃ¡ se recuperando aos poucos, mas o diabetes nÃ£o o deixa tranquilo e todos os dias deve se submeter a cuidados e controles mÃ©dicos.





Teme pela sua saÃºde, se for extraditado?

Sim, porque poderÃ¡ lhe causar uma notÃ¡vel piora. E temo principalmente pela saÃºde da minha mÃ£e. NÃ£o sentiu seguir as fases mais dramÃ¡ticas deste caso. Por exemplo, quando ouviu a sentenÃ§a dos Lordes, na televisÃ£o, teve um mal estar e os mÃ©dicos tiveram que aplicar diversas injeÃ§Ãµes para atenuar as oscilaÃ§Ãµes de pressÃ£o a ser submetida...





A justiÃ§a inglesa a desiludiu?

NÃ£o, porque acho que este caso nÃ£o seja um caso ligado em geral aos ingleses. E mais, partiu daqueles que estÃ£o no governo, neste momento, na GrÃ£ Bretanha. Os quais, come se sabe, sÃ£o da esquerda...





Acredita que tambÃ©m na Inglaterra existem adeptos Ã  sua causa?

Muitos ingleses estÃ£o conosco. Mas percebi quando fui lÃ¡, recentemente. Muitas pessoas se aproximaram para me manifestar a sua solidariedade. E a sua oposiÃ§Ã£o em relaÃ§Ã£o ao fato que, alÃ©m do mais, o caso que envolve meu pai estÃ¡ custando, tambÃ©m aos cidadÃ£os ingleses, muito dinheiro pÃºblico.





Segundo vocÃª, o ex presidente Frei agiu com energia suficiente?

Teria preferido uma aÃ§Ã£o mais enÃ©rgica. Entretanto, fez bastante, isto reconheÃ§o e aprecio. Claro que gostaria de tÃª-lo visto agir para impor Ã  Comunidade Internacional o respeito que o nosso PaÃ­s merece. NÃ£o Ã© aceitÃ¡vel que detenham no exterior um ex Chefe de Estado, Senador da RepÃºblica e ex Comandante em Chefe do ExÃ©rcito.





Se seu pai voltar para o Chile, como pensam em comemorar isso?

Ficando em famÃ­lia. A sua volta para a PÃ¡tria, essa serÃ¡ a maior festa.





Ao voltar, irÃ¡ logo ao Senado ou, como alguÃ©m sustenta, para fazer acalmar as Ã¡guas se afastarÃ¡, por algum tempo em uma das suas m muitas residÃªncias em Bucalemu, El Melocoton ou Iquique?

Veja, eu sinceramente nÃ£o consigo entender porque o seu caso esteja agitando tanto os Ã¢nimos, aqui no Chile. O menos o meu pai deseja Ã© se deparar com problemas. E de divisÃµes e laceraÃ§Ãµes na sociedade chilena. A Ãºnica coisa que em vez disso deseja Ã© que o Chile possa se dirigir finalmente a uma definitiva pacificaÃ§Ã£o e reconciliaÃ§Ã£o nacional, prosseguindo assim na difÃ­cil estrada do desenvolvimento econÃ´mico. Por isso, se o considerar Ãºtil para tal fim, poderia tambÃ©m decidir nÃ£o voltar imediatamente ao Senado.





Ele falou com vocÃª?

NÃ£o, Ã© uma minha convicÃ§Ã£o. O que me repetiu porÃ©m Ã© que deseja muito voltar, porÃ©m sem ser fonte de problemas. Meu pai quer representar um fator de uniÃ£o, nÃ£o de divisÃ£o.





Acredita que seu pai esteja disposto a se submeter Ã  justiÃ§a chilena?

Estou absolutamente convencida que esteja pronto a responder a qualquer pergunta que a justiÃ§a chilena quisesse lhe fazer. Isso nÃ£o quer dizer que se sinta culpado. PorÃ©m repito, ele respeita e sempre respeitou a justiÃ§a chilena.









Concorda com o que declarou seu irmÃ£o Marco Antonio, isto Ã© que, durante o governo de seu pai, foram cometidos abusos?

Ãs vezes com meu irmÃ£o usamos palavras diferentes, ma sempre sustentei que, em algumas ocasiÃµes, ocorreram abusos. NÃ£o se deve esquecer, porÃ©m, que naquele perÃ­odo assim difÃ­cil na histÃ³ria atormentada do Chile, estava em curso uma verdadeira guerra, uma luta subterrÃ¢nea entre dois lados. Por isso, ocorreram excessos por ambas as partes.





Considera que seu pai deva pedir perdÃ£o?

Meu pai nÃ£o se sente culpado. E uma pessoa que se sente inocente, de que pode pedir perdÃ£o?





Compartilha com as afirmaÃ§Ãµes recentes do General Fernando Rojas Vender segundo o qual o Chile estÃ¡ preparando uma atmosfera semelhante Ã quela dos tempos do Governo da Unidade Popular?

O General Rojas disse apenas a verdade. E Ã© verdade que o PaÃ­s estÃ¡ se separando, com a possibilidade de ir ao encontro - a passos de gigante - de um futuro muito incerto e dramÃ¡tico.





O que pensa da abordagem das ForÃ§as Armadas em relaÃ§Ã£o Ã  detenÃ§Ã£o de seu pai. Fala-se de um crescente nervosismo...

Se eu fosse um militar e prendessem no exterior um ex Comandante em Chefe do ExÃ©rcito do meu PaÃ­s, me sentiria extremamente indignado. Acho que viveria o fato como um atentado Ã  soberania da minha pÃ¡tria e uma falta de respeito em relaÃ§Ã£o ao ExÃ©rcito. E acredito tambÃ©m que, atÃ© aqui, os militares tenham dado prova de uma grande paciÃªncia. Mas se eu fosse uma deles, talvez teria tido tanta.





O que espera do ExÃ©rcito?

NÃ£o espero nada. Se nÃ£o que ajam de acordo com a consciÃªncia.









8





Mireya Garcia









Perdoar Ã© impossÃ­vel






















Enquanto no PalÃ¡cio presidencial da     Moneda     estava ainda em curso a reuniÃ£o do Conselho de seguranÃ§a nacional, convocado com urgÃªncia pelo presidente Frei, uma notÃ­cia terrÃ­vel tinha percorrido o Chile, jÃ¡ agitado pelos pÃ³stumos da contraditÃ³ria sentenÃ§a londrina sobre Pinochet, contribuindo a aumentar a jÃ¡ alta tensÃ£o geral: a notÃ­cia da descoberta de um novo centro de detenÃ§Ã£o ilegal remonta o perÃ­odo da ditadura militar, graÃ§as Ã s revelaÃ§Ãµes do bispo de Punta Arenas, monsenhor Gonzales, onde jÃ¡ tinham sido identificados os restos de centenas de desaparecidos.

O centro de detenÃ§Ã£o se encontrava no extremo norte do Chile, a cento e dez quilÃ´metro da cidade de Arica, em uma regiÃ£o desÃ©rtica onde, hÃ¡ muito tempo, se suspeitava a sua existÃªncia. Foi assim que se tomou conhecimento que a magistratura local, de diversas semanas e no mais absoluto segredo, investigava no centro. Apesar da reserva mantida no caso do juiz da terceira seÃ§Ã£o penal de Arica, Juan Cristobal Mera, e graÃ§as Ã s declaraÃ§Ãµes do governador local, Fernando NuÃ±ez, se sabia que estava a par que restos humanos se encontravam em uma Ã¡rea costeira no distrito de Camarones. Muito prÃ³ximo ao antigo cemitÃ©rio da cidade definido âde fÃ¡cil acessoâ pelas autoridades.

Â«Ã preciso esclarecerÂ» tinha prontamente declarado o governador NuÃ±ez aos jornalistas, Â«que as coordenadas geogrÃ¡ficas nÃ£o sÃ£o tÃ£o precisas, mas sabemos que o juiz jÃ¡ verificou a existÃªncia de pelo menos duas delas. Assim, no momento da eventual exumaÃ§Ã£o dos restos dos desaparecidos, pediremos a presenÃ§a do ministro Juan Guzan TapiaÂ».

As indicaÃ§Ãµes que tinham permitido identificar este centro de detenÃ§Ã£o nasciam de algumas revelaÃ§Ãµes do bispo Gonzalez, que teria recebido as informaÃ§Ãµes do caso Â«sob o segredo da confissÃ£oÂ» como ele mesmo tinha declarado. NÃ£o estava ainda claro a quantos centros de detenÃ§Ã£o essas notÃ­cias se referiam.

Decidi entÃ£o aprofundar a terrÃ­vel realidade dos desaparecidos chilenos, encontrando a lÃ­der da AssociaÃ§Ã£o dos familiares dos desaparecidos.





*****

Presa, torturada, exilada. Mireya Garcia nÃ£o perdeu pelo caminho apenas a sua juventude com o golpe de Estado de Pinochet. Seu irmÃ£o desapareceu, afinal hÃ¡ mais de um quarto de sÃ©culo. Hoje, Mireya Ã© vice-presidente da AssociaÃ§Ã£o dos familiares dos detentos âdesaparecidosâ e nunca parou de combater para a busca da Verdade.

A sede onde se reÃºnem, dia apÃ³s dia, hÃ¡ anos afinal, essas mÃ£es, essas avÃ³s, cada uma com a sua carga de dor, cada uma com a sua fotografia de um filho, um irmÃ£o, um marido ou um sobrinho, desaparecido, Ã© um prÃ©dio azul prÃ³ximo ao centro de Santiago. As paredes do pÃ¡tio sÃ£o recobertas com fotografias dos desaparecidos, para cada um deles uma foto desbotada e uma frase, que repete ao infinito a mesma pergunta:     Donde estan?    Â» Â«Onde estÃ£o?Â». De vez em quando, tanto o muro de fotos e de perguntas todas iguais, todas sem resposta, Ã© interrompido por uma rosa, por uma flor.





Que lembranÃ§a tem daqueles anos, do Golpe de Estado?

Uma lembranÃ§a muito vaga. Estava em casa e lembro simplesmente de ter ouvido mÃºsicas militares na rÃ¡dio. Depois, muitos homens, de farda, pelas ruas. NÃ£o conseguia ainda perceber que, naquele dia, a histÃ³ria do meu paÃ­s, o Chile, tinha sofrido um golpe durÃ­ssimo...





Quantos anos tinha entÃ£o?

Fazia parte da juventude socialista de Concepcion, uma cidadÃ£ a algumas centenas de km ao sul de Santiago. Eu gostaria de ter estudo, casado, ter uma famÃ­lia e filhos... Em vez disso, tudo caiu. Rapidamente, muito rapidamente. Agora consigo falar de tudo isso com a relativa tranquilidade. Mas por anos nÃ£o fui capaz de lembrar daqueles dias. Nem com a minha famÃ­lia...

Uma noite, vieram nos pegar. Em casa, estava sÃ³ eu e o meu irmÃ£o... Fui presa (se pode-se dizer assim), depois torturada. Ainda hoje, sinceramente, nÃ£o consigo falar daquelas humilhaÃ§Ãµes...

NÃ£o vi mais meu irmÃ£o. Mais tarde, quando conseguimos, com a minha famÃ­lia, fugir para o exterior, no MÃ©xico, soube que Vicente tinha desaparecido definitivamente. Lembro com uma angÃºstia terrÃ­vel, saber que talvez ainda estava vivo, em algum lugar, e eu estava lÃ¡, longe a milhares de quilÃ´metros, sem poder voltar para o Chile, sem poder procurÃ¡-lo, ajudar.





Foi entÃ£o que teve a ideia de fundar essa associaÃ§Ã£o?

Sim. No MÃ©xico estamos em tantos, exilados, com parentes que foram feitos desaparecer pela ditadura de Pinochet. Organizamos cortejos pelas estradas. Uma arma muito dÃ©bil, contra uma ditadura tÃ£o feroz, mas pelo menos as pessoas comeÃ§aram a se interessar por nÃ³s. ComeÃ§ou a saber.





Quando conseguiu voltar para o Chile?

Foram necessÃ¡rios quinze anos. E ainda hoje me sinto uma exilada. Uma exilada no meu PaÃ­s.





O que conseguiu saber da sorte de seu irmÃ£o?

Muito pouco. Apenas que tinha sido deportado para um centro clandestino de detenÃ§Ã£o, de tortura, que se chamava Cuartel BorgoÃ±o e que hoje nÃ£o existe mais. DestruÃ­ram tudo, com os bulldozer, para fazer desaparecer os vestÃ­gios e as provas.





Acredita que as responsabilidades sejam todas de Pinochet?

NÃ£o. E Ã© este o aspecto incrÃ­vel do Chile. Nos arquivos dos tribunais hÃ¡ procedimentos judiciÃ¡rios abertos, pelo menos contra uns trinta pessoas, generais, coronÃ©is, polÃ­ticos e simples âtrabalhadoresâ da morte, que se tornaram responsÃ¡veis de tortura, assassinatos e violÃªncias de todo gÃªnero. Mas o aspecto absurdo do meu PaÃ­s Ã© que todos sabem que desapareceram no nada pelo menos trÃªs mil pessoas, enquanto Ã© certo pelos tribunais o desaparecimento apenas de onze deles. Ã como se todo um PaÃ­s soubesse, mas girasse a cabeÃ§a para o outro lado...





Alguns dizem que a JustiÃ§a nÃ£o Ã© um conceito universal, mas relativo ao momento histÃ³rico, Ã s condiÃ§Ãµes de um PaÃ­s... estÃ¡ de acordo?

NÃ£o, eu acho que a dignidade, o respeito e a justiÃ§a sÃ£o conceitos universais. De outro modo, por que assinar declaraÃ§Ãµes solenes para os direitos humanos ou tratados contra a tortura?





Como viveu o fato da prisÃ£o de Pinochet?

Foi uma contÃ­nua montanha-russa de esperanÃ§as e desilusÃµes. O que aconteceu em Londres, colocou em destaque que o Chile Ã© atÃ© agora um PaÃ­s profundamente dividido. Onde os militares exercem ainda um forte poder, decisivo no plano dos equilÃ­brios polÃ­ticos e institucionais. Por um outro ponto de vista fique ainda chocada. Pinochet, nestes anos, tinha construÃ­do a sua impunidade com uma atenÃ§Ã£o quase manÃ­aca. Tinha atÃ© feito modificar a ConstituiÃ§Ã£o para que ninguÃ©m pudesse atingi-lo. E se nÃ£o for julgado no Exterior, estou certa, Pinochet, aqui, no Chile, nunca serÃ¡ levado em frente de um tribunal. Nunca no Chile.




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