Acorrentadas 
Blake Pierce


Um Mistério de Riley Paige #2
Uma obra-prima de thriller e mistério! O autor fez um trabalho magnífico no desenvolvimento das personagens com um lado psicológico tão bem trabalhado que temos a sensação de estar dentro das suas mentes, sentindo os seus medos e aplaudindo os seus sucessos. A história é muito inteligente e mantém-nos interessados durante todo o livro. Pleno de reviravoltas, este livro obriga-nos a ficar acordados até à última página. Books and Movie Reviews, Roberto Mattos (re Sem Pistas) Mulheres estão a ser assassinadas no estado de Nova Iorque. Os seus corpos são misteriosamente encontrados envoltos em correntes. Quando o FBI é chamado a intervir devido à natureza bizarra dos crimes – e à ausência de pistas – só pode recorrer a uma agente: a Agente Especial Riley Paige. Riley, a recuperar do seu último caso, mostra-se relutante em aceitar um novo por estar convencida que um assassino em série que conhece demasiado bem ainda está à solta e a persegui-la. Contudo, ela sabe que a sua capacidade de penetrar na mente de um assassino em série e a sua natureza obsessiva é aquilo de que o FBI precisa para resolver o caso e não o consegue recusar – mesmo que a leve ao limite. A investigação de Riley fá-la penetrar profundamente na mente psicótica do assassino conduzindo-a a orfanatos, hospitais psiquiátricos, prisões, tudo para compreender a profundidade da psicose em causa. Tendo a noção de que enfrenta um verdadeiro psicopata, Riley sabe que não demorará muito até que o mesmo volte a atacar. Mas com o seu emprego em jogo, a própria família como alvo e a sua mente frágil a colapsar, pode ser demasiada pressão para ela – e demasiado tarde. Um thriller psicológico negro com suspense inimaginável, ACORRENTADAS é o livro #2 da incrível nova série – com uma inesquecível nova personagem – que o obrigará a não largar o livro até o terminar. O livro #3 da série de Riley Paige já se encontra disponível!







ACORRENTADAS



(UM MISTÉRIO DE RILEY PAIGE—LIVRO 2)



B L A K E P I E R C E


Blake Pierce



Blake Pierce é autor da série de mistério de sucesso RILEY PAIGE que inclui os thrillers de suspense e mistério SEM PISTAS (livro #1), ACORRENTADAS (livro #2) e ONCE CRAVED (livro #3). Blake Pierce também é autor da série de mistério MACKENZIE WHITE.

isso, não deixe de visitar a página do autor em www.blakepierceauthor.com (http://www.blakepierceauthor.com) para saber mais e manter o contato.



Copyright© 2016 Blake Pierce. Todos os direitos reservados. Exceto como permitido sob o Copyright Act dos Estados Unidos de 1976, nenhuma parte desta publicação pode ser reproduzida, distribuída ou transmitida por qualquer forma ou meios, ou armazenada numa base de dados ou sistema de recuperação sem a autorização prévia do autor. Este ebook está licenciado apenas para seu usufruto pessoal. Este ebook não pode ser revendido ou dado a outras pessoas. Se gostava de partilhar este ebook com outra pessoa, por favor compre uma cópia para cada recipiente. Se está a ler este livro e não o comprou ou não foi comprado apenas para seu uso, por favor devolva-o e compre a sua cópia. Obrigado por respeitar o trabalho árduo deste autor. Esta é uma obra de ficção. Nomes, personagens, empresas, organizações, locais, eventos e incidentes ou são o produto da imaginação do autor ou usados ficcionalmente. Qualquer semelhança com pessoas reais, vivas ou falecidas, é uma coincidência. Jacket image Copyright GongTo, usado sob licença de Shutterstock.com.


LIVROS DE BLAKE PIERCE



SÉRIE DE MISTÉRIOS RILEY PAGE

SEM PISTAS (Livro 1)

ACORRENTADAS (Livro 2)



SÉRIE DE MISTÉRIOS MACKENZIE WHITE

ANTES QUE ELE MATE (Livro 1)



SÉRIE DE MISTÉRIOS AVERY BLACK

RAZÃO PARA MATAR (Livro 1)


ÍNDICE



PRÓLOGO (#uaa34dfd9-edcc-527a-97a3-225e738ee5e9)

CAPÍTULO 1 (#ucbf88095-262d-5988-b6a7-dc44271fd599)

CAPÍTULO 2 (#u02574f59-26b7-5471-a5c1-17f71a006300)

CAPÍTULO 3 (#u9fc4465d-0031-5692-a985-66f19fea9530)

CAPÍTULO 5 (#uc322b672-d6d6-57eb-8a78-8cff649f180b)

CAPÍTULO 8 (#ube321828-7a45-5f7b-b7cc-9c50ea8822d0)

CAPÍTULO 9 (#uaf93259d-0fa1-5516-825f-eaa815d0447e)

CAPÍTULO 10 (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO 12 (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO 14 (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO 15 (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO 16 (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO 17 (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO 18 (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO 19 (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO 20 (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO 21 (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO 22 (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO 23 (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO 24 (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO 25 (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO 26 (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO 30 (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO 31 (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO 33 (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO 34 (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO 36 (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO 38 (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO 39 (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO 40 (#litres_trial_promo)




PRÓLOGO


O capitão Jimmy Cole tinha acabado de contar aos seus passageiros uma antiga história de fantasmas do rio Hudson. Era uma história das boas sobre um assassino com um machado e um casaco comprido e negro, perfeita para uma noite de nevoeiro como aquela. Reclinou-se na cadeira, repousando por um momento os frágeis joelhos e pensou na reforma pela milionésima vez. Conhecia o Hudson como a palma das suas mãos mas, mais dia, menos dia, até um pequeno barco de pesca como o Suzy se tornaria numa responsabilidade demasiado grande para ele.

Terminada a faina naquela noite, manobrou a embarcação rumo a terra e, ao encaminhar-se firmemente para o cais de Reedsport, um dos passageiros chamou-o, arrancando-o aos seus devaneios.

“Ei, Capitão – aquilo ali não é o seu fantasma?”

Jimmy nem se deu ao trabalho de olhar. Os seus quatro passageiros – dois jovens casais de férias – estavam a cair de bêbedos. Não havia a mínima dúvida de que um dos homens estava apenas a tentar assustar as mulheres.

Mas então uma das mulheres acrescentou: “Também estou a ver. Não é estranho?”

Jimmy voltou-se para os seus passageiros. Raios partam os bêbedos. Era a última vez que trabalhava àquela hora da noite.

E então, o outro homem apontou.

“Está ali,” Disse.

A mulher tapou os olhos.

“Oh, nem consigo olhar!” Exclamou com um riso nervoso e constrangido.

Jimmy, exasperado e percebendo que não lhe iam dar descanso, virou-se finalmente e olhou para onde o homem estava a apontar.

Algo lhe chamou realmente a atenção num espaço entre as árvores que se avistavam na orla do rio. Reluzia e tinha uma forma vagamente humana. Fosse o que fosse, parecia flutuar acima do chão. Mas estava muito longe para se ver com nitidez.

Antes de Jimmy ter tempo de agarrar nos binóculos, o objeto desapareceu atrás das árvores na margem.

A verdade era que Jimmy também tinha bebido algumas cervejas, embora tal não constituísse um problema para ele. Conhecia bem o rio. E gostava do que fazia. Gostava especialmente de estar no Hudson àquela hora da noite quando as águas estavam calmas e pacíficas. Poucas coisas naquele local podiam abalar a sua tranquilidade.

Abrandou e manobrou o Suzy cuidadosamente de encontro aos protetores do cais. Orgulhoso da acostagem suave, desligou o motor e amarrou o barco ao cais.

Os passageiros saíram do barco aos trambolhões e a rir destemperadamente. Cambalearam do cais para terra firme e dirigiram-se para o Bed & Breakfast em que estavam hospedados. Jimmy estava contente por terem pago adiantado.

Mas não conseguia parar de pensar no objeto estranho que detetara. Estava bem para lá da linha da costa e não era possível vê-lo de onde se encontrava. Quem ou o que seria?

Incomodado, sabia que não ia sossegar enquanto não desvendasse aquele mistério. Ele era assim mesmo.

Jimmy suspirou audivelmente, aborrecido, e começou a caminhar pela margem do rio, seguindo a linha de comboio que bordejava as águas do rio. Aquela linha estivera ativa há cem anos atrás, na altura em que Reedsport era essencialmente constituída por bordéis e casas de jogo. Agora, era apenas mais uma relíquia de uma era passada.

Jimmy conseguiu finalmente contornar uma curva, aproximando-se de um velho armazém próximo da linha. Emanava uma luz difusa do edifício, mas ainda assim suficiente para conseguir ver uma luminosa forma humana que parecia flutuar ao vento. A forma estava suspensa de uma das traves de um poste de energia.

Quando se aproximou, viu com nitidez algo que lhe provocou um calafrio. A forma era de facto humana, apesar de não dar mostras de qualquer sinal de vida. O corpo estava de costas para ele, envolto num qualquer tipo de tecido e completamente embrulhado em pesadas correntes que cintilavam à luz.

Oh, meu Deus, outra vez não.

Jimmy não conseguiu evitar lembrar-se de um crime macabro que abalara a região há alguns anos atrás.

Jimmy dirigiu-se ao outro lado do corpo sentindo os frágeis joelhos a vacilar. Aproximou-se o suficiente para conseguir ver o rosto de quem ali estava pendurado e quando o contemplou, quase caiu na linha em estado de choque. Reconheceu-a. Era uma mulher que vivia na cidade, uma enfermeira, uma amiga de longa data. A garganta estava cortada e a boca aberta sem vida estava amordaçada por uma corrente que envolvia a cabeça.

Jimmy arquejou de dor perante aquele horror.

O assassino estava de volta.




CAPÍTULO 1


A Agente Especial Riley Page estacou, observando a cena em estado de choque. A mão cheia de pedras na sua cama não deveria ali estar. Alguém tinha arrombado a sua casa e tinha-os colocado ali. Alguém que lhe queria fazer mal.

Compreendeu de imediato que as pedras eram uma mensagem e que o portador da mensagem era um velho inimigo. Dizia-lhe que, afinal, ela não o tinha morto.

O Peterson está vivo.

O mero pensamento provocou-lhe um tremor que percorreu todo o seu corpo.

Há muito que suspeitava dessa possibilidade e agora tinha a certeza absoluta. Pior, ele tinha estado dentro da sua casa. A simples ideia nauseava-a a ponto de lhe apetecer vomitar. Ainda estaria ali?

Agora respirava com dificuldade, dominada pelo medo. Riley sabia que os seus recursos físicos eram limitados. Precisamente naquele dia, tinha sobrevivido a um perigoso confronto com um assassino sádico, e ainda tinha a cabeça ligada e o corpo repleto de hematomas. Estaria preparada para o enfrentar se ele estivesse dentro da sua casa?

Riley retirou imediatamente a arma do coldre. Com as mãos a tremer, dirigiu-se ao roupeiro e abriu-o. Ninguém estava ali. Confirmou debaixo da cama. Ali também não estava ninguém.

Riley parou e forçou-se a pensar com clareza. Tinha estado no quarto desde que tinha chegado a casa? Sim, porque tinha colocado o coldre por cima do armário ao lado da porta. Mas não tinha ligado a luz e não tinha olhado para o interior. Tinha-se circunscrito ao umbral da porta e a colocar a arma em cima do armário antes de sair. Tinha vestido o pijama na casa de banho.

Teria o seu inimigo estado na casa todo aquele tempo? Depois de chegarem a casa, ela e April tinham conversado e visto televisão até tarde. Depois April fora para a cama. Só alguém muito furtivo e ardiloso conseguiria ficar escondido numa casa minúscula como a dela. Mas era uma possibilidade que ela não podia descartar.

E então um novo medo se apoderou dela.

April!

Riley agarrou na lanterna que guardava na mesa-de-cabeceira. Com a arma em riste na mão direita e a lanterna na mão esquerda, saiu do quarto e ligou a luz do corredor. A casa parecia adormecida. Dirigiu-se rapidamente ao quarto de April e escancarou a porta. O quarto estava mergulhado em escuridão. Riley ligou a luz do teto.

A filha estava na cama.

“O que foi, Mãe?” Perguntou April, semicerrando os olhos surpreendida.

Riley entrou no quarto.

“Não saias da cama,” Disse. “Fica sossegada onde estás.”

“Estás-me a assustar,” Disse April com a voz a tremer.

Não havia problema. Também ela estava com muito medo e a filha tinha todas as razões para sentir medo como ela. Dirigiu-se ao roupeiro de April, apontou a lanterna para o seu interior e viu que ninguém se encontrava lá dentro. Também não havia ninguém debaixo da cama da April.

O que fazer de seguida? Tinha que percorrer cada canto e recanto da casa.

Riley sabia o que o seu parceiro Bill Jeffreys teria dito.

Raios Riley, pede ajuda.

A sua tendência de longa data de fazer tudo sozinha, sempre tinha enfurecido o Bill. Só que desta vez ia seguir o seu conselho. Com a April em casa, Riley não ia correr riscos.

“Veste um robe e calça-te,” Disse à filha. “Mas ainda não saias do quarto.”

Riley voltou ao seu quarto e pegou no telefone, pousado em cima da mesa-de-cabeceira. Pressionou a ligação automática para falar com a Unidade de Análise Comportamental. Mal ouviu uma voz do outro lado, sussurrou, “Daqui fala Agente Especial Riley Page. Alguém entrou na minha casa e ainda pode estar cá. Preciso que alguém cá venha rapidamente.” Pensou durante um segundo e depois acrescentou, “E enviem uma equipa de análise de provas.”

“Vamos já para aí,” Responderam do outro lado da linha.

Riley desligou a chamada e regressou ao corredor. Com exceção dos dois quartos e do corredor, a casa continuava mergulhada na escuridão. Ele podia estar em qualquer lugar, à espreita, à espera de desferir um ataque. Este homem já a tinha apanhado desprevenida uma vez e quase tinha morrido às suas mãos.

Riley moveu-se sorrateiramente pela casa, ligando as luzes à medida que avançava com a arma pronta para qualquer eventualidade. Apontou a lanterna para o interior de todos os roupeiros e para todos os cantos penumbrosos.

Finalmente, olhou para o teto do corredor. A portinhola acima dela conduzia ao sótão, escondendo uma escada de puxar nas suas entranhas. Atrever-se-ia a subir lá acima e espreitar?

Naquele preciso momento, Riley ouviu as sirenes da polícia. Soltou um profundo suspiro de alívio ao ouvir aquele som. Apercebeu-se que a agência tinha chamado a polícia local, considerando a distância de mais de meia hora da sede da UAC.

Dirigiu-se ao seu quarto, calçou uns sapatos e vestiu um roupão de banho, regressando depois ao quarto de April.

“Vem comigo,” Disse. “Fica perto de mim.”

Ainda segurando na arma, Riley envolveu com o seu braço esquerdo os ombros de April. A pobre criança tremia de medo. Riley levou April para a porta de entrada, abrindo-a ao mesmo tempo que vários polícias de uniforme se apressavam em direção à casa.

O polícia responsável aproximou-se da casa com a arma em riste.

“Qual é o problema?” Perguntou.

“Alguém esteve na minha casa,” Respondeu Riley. “Ainda pode lá estar.”

O polícia contemplou, inquieto, a arma que Riley empunhava.

“Sou do FBI,” Tranquilizou-o Riley. “Os agentes da UAC devem estar a chegar. Já revistei a casa, exceto o sótão.” Disse, apontando na sua direção. “Há uma porta no teto por cima do corredor.”

O polícia chamou, “Bowers, Wright, venham cá e revistem o sótão. Os outros revistam lá fora, atrás e à frente da casa.”

Bowers e Wright foram diretamente para o corredor e puxaram a escada para subirem até ao sótão. Ambos empunhavam as suas armas. Um esperou no fundo da escada, enquanto o outro subia e apontava uma lanterna em todas as direções. Dali a momentos, o homem desapareceu no interior do sótão.

E logo depois uma voz ressoou, anuncinado, “Não está aqui ninguém.”

Riley queria sentir-se aliviada. Mas a verdade era que desejava que Peterson estivesse ali em cima. Seria preso ali naquele momento, ou ainda melhor, alvejado, morto. E tinha a certeza de que não estaria nem atrás, nem à frente da casa.

“Tem uma cave?” Perguntou o polícia responsável.

“Não, só uma pequena arrecadação,” Respondeu Riley.

O polícia vociferou lá para fora, “Benson, Pratt, vejam debaixo da casa.”

April ainda estava desesperadamente agarrada à mãe.

“O que é que se passa, Mãe?” Perguntou.

Riley hesitou. Durante anos, evitara contar a April a verdade crua do seu trabalho. Contudo, recentemente compreendera que tinha sido excessivamente protetora. Então, contara a April o traumático cativeiro sofrido às mãos de Peterson, ou pelo menos, o que considerou suportável para ela. Também partilhara com ela as dúvidas quanto à morte do homem.

Mas o que diria agora a April? Não sabia ao certo.

Antes de Riley se decidir, April disse, “É o Peterson, não é?”

Riley abraçou a filha com força. Anuiu, tentando esconder o arrepio que lhe trespassou o corpo.

“Ele ainda está vivo.”




CAPÍTULO 2


Uma hora mais tarde, a casa de Riley estava repleta de pessoas de uniforme e agentes do FBI. Agentes federais armados até aos dentes e uma equipa de análise de provas estavam a trabalhar com a polícia.

“Embala essas pedras na cama,” Ordenou Craig Huang. “Têm que ser examinados para se detetarem impressões digitais ou ADN.”

Inicialmente, Riley não ficara muito satisfeita por ver que Huang era o agente encarregue de analisar o sucedido em sua casa. Ele era muito jovem e a anterior experiência de trabalho com ele não tinha corrido da melhor forma. Mas agora via que dava ordens sólidas e organizava a cena de forma eficiente. Huang estava a amadurecer.

A equipa de análise de provas já estava a trabalhar, percorrendo cada recanto da casa à procura de impressões digitais. Outros agentes tinham desaparecido na escuridão atrás da casa, tentando detetar marcas de veículos ou algum rasto na floresta. Agora que tudo parecia orientado, Huang levou Riley até à cozinha. Sentaram-se à mesa e April juntou-se a eles, ainda combalida.

“O que achas?” Perguntou Huang a Riley. “Há alguma hipótese de ainda o encontrarmos?”

Riley suspirou, desanimada.

“Não, temo que já não seja possível. Deve ter estado aqui no início da noite, antes de eu e a minha filha chegarmos a casa.”

Naquele preciso momento, uma agente envergando um fato Kevlar, surgiu vinda das traseiras da casa. Tinha cabelo escuro, olhos negros, tez morena e aparentava ser ainda mais nova do que Huang.

“Agente Huang, descobri uma coisa,” Anunciou. “Arranhões na fechadura da porta das traseiras. Parece que alguém a abriu.”

“Bom trabalho, Vargas,” Disse Huang. “Agora sabemos como entrou. Pode ficar com a Riley e a filha por um momento?”

O rosto da jovem mulher acendeu-se de satisfação.

“Claro que sim,” Respondeu.

Sentou-se à mesa e Huang saiu da cozinha para se juntar aos outros.

“Agente Paige, sou a Agente María de la Luz Vargas Ramírez.” Depois, disse sorrindo. “Eu sei, é um bocado complicado. É uma característica Mexicana. Tratam-me por Lucy Vargas.”

“Estou contente por estar aqui, Agente Vargas,” Transmitiu-lhe Riley.

“Trate-me só por Lucy.”

A jovem mulher permaneceu silenciosa durante algum tempo, limitando-se a olhar para Riley. Por fim, disse, “Agente Paige, espero não estar a pisar o risco ao dizer isto, mas… É um verdadeiro prazer conhecê-la. Sigo o seu trabalho desde que comecei o curso. Tudo o que fez é simplesmente incrível.”

“Obrigada,” Agradeceu Riley.

Lucy sorriu com admiração. “Quero dizer, a forma como resolveu o caso Peterson – toda a história é surpreendente.”

Riley abanou a cabeça.

“Quem me dera que as coisas fossem assim tão simples,” Declarou. “Ele não está morto. Foi ele quem entrou hoje na minha casa.”

Lucy fitou-a, atordoada.

“Mas toda a gente diz…” Começou Lucy.

Riley interrompeu-a.

“Mais alguém pensava que ele estava vivo. Marie, a mulher que salvei. Ela tinha a certeza que ele ainda andava por aí a provocá-la. Ela…”

De súbito, Riley parou, recordando dolorosamente o corpo de Marie pendurado no seu próprio quarto.

“Ela suicidou-se,” Rematou Riley.

Lucy parecia horrorizada e surpreendida em simultâneo. “Lamento,” Disse.

Naquele momento, Riley ouviu uma voz familiar dirigir-se a ela.

“Riley? Estás bem?”

Virou-se e viu Bill Jeffreys de pé na soleira da porta da cozinha, com um ar ansioso. A UAC devia tê-lo alertado sobre o sucedido e fora até lá por sua conta e risco.

“Estou bem, Bill,” Respondeu. “E a April também. Senta-te.”

Bill sentou-a à mesa com Riley, April e Lucy. Lucy fitava-o, aparentemente deslumbrada por conhecer o antigo parceiro de Riley, outra lenda do FBI.

Huang voltou à cozinha.

“Não está ninguém na casa ou fora dela,” Informou Riley. “O meu pessoal reuniu todas as provas que encontraram. Dizem que não é muito para se chegar a alguma conclusão. Terão que ser os técnicos do laboratório a determinar se é material sustentável ou não.”

“Já temia isso,” Sentenciou Riley.

“Parece-me que já terminámos por esta noite,” Disse Huang. E saiu da cozinha para dar as últimas ordens aos agentes.

Riley virou-se para a filha.

“April, esta noite vais ficar na casa do teu pai.”

Os olhos de April abriram-se muito.

“Não te vou deixar aqui,” Disse April. “E não quero ficar com o pai.”

“Tens que ficar,” Forçou Riley. “Aqui podes não estar segura.”

“Mas Mãe…”

Riley interrompeu-a. “April, há coisas que ainda não te contei sobre este homem. Coisas terríveis. Estás segura com o teu pai. Vou-te buscar amanhã depois das aulas.”

Antes de April protestar mais uma vez, Lucy falou.

“A tua mãe tem razão, April. Confia no que te digo. Aliás, encara-o como uma ordem minha. Vou escolher dois agentes para te levarem a casa do teu pai. Agente Paige, com sua autorização, posso ligar ao seu ex-marido e contar-lhe o que se passa.”

Riley ficou surpreendida com a oferta de Lucy. Mas também ficou satisfeita. De forma quase estranha, Lucy parecia compreender que aquela seria uma chamada estranha para ela realizar. O Ryan levaria aquelas notícias indubitavelmente mais a sério se transmitidas por qualquer outra pessoa que não Riley. Lucy também tinha lidado com April da melhor forma.

Lucy não só tinha detetado a fechadura forçada, como também tinha demonstrado empatia, uma excelente qualidade num agente da UAC muitas vezes ocultada pelo stress do trabalho.

Esta mulher é boa, Pensou Riley.

“Vamos lá,” Disse Lucy a April. “Vamos ligar ao teu pai.”

April olhou fixa e friamente para Riley. Ainda assim, levantou-se e seguiu Lucy até à sala de estar onde fizeram a chamada,

Riley e Bill ficaram sozinhos na mesa da cozinha. Apesar de parecer que nada mais havia a fazer, parecia correcto a Riley, Bill estar ali. Tinham trabalhado juntos durante vários anos e ela sempre os encarara como um par compatível – ambos estavam na casa dos quarenta com brancas a despontar do cabelo preto. Ambos eram dedicados aos seus trabalhos e ambos haviam tido casamentos problemáticos. O Bill era de constituição e temperamento sólidos.

“Era o Peterson,” Atirou Riley. “Ele esteve aqui.”

Bill não disse nada. Parecia não estar muito convencido.

“Não acreditas em mim?” Perguntou Riley. “Tinha pedras na minha cama. Ele deve tê-los colocado lá. Não podiam lá ter ido parar de outra forma.”

Bill abanou a cabeça.

“Riley, tenho a certeza que alguém entrou em tua casa,” Disse. “Não imaginaste isso. Mas o Peterson? Duvido muito.”

Riley começou a sentir invadir-se por uma onda de fúria crescente.

“Bill, ouve-me. Uma noite, ouvi ruídos à porta, olhei lá para fora e vi pedras. A Marie ouviu alguém a atirar pedras à janela do quarto. Quem mais podia ser?”

Bill suspirou e abanou a cabeça.

“Riley, estás cansada,” Afirmou. “ E quando estás cansada e tens uma ideia fixa na cabeça, é fácil acreditares em quase tudo. Pode acontecer a qualquer um.”

Riley tentou conter as lágrimas. Outrora, Bill teria confiado nos seus instintos sem sequer duvidar. Mas esse tempo já lá ia. E ela sabia porquê. Há algumas noites, ela tinha-lhe telefonado bêbeda e sugerira que tomassem medidas em relação à sua mútua atração, iniciando um caso. Tinha sido horrível e ela sabia-o, Não voltara a beber desde então. Mesmo assim, as coisas não se tinham endireitado entre ela e Bill desde então.

“Eu sei o que é que se passa, Bill,” Disse ela. “É por causa daquele estúpido telefonema. Já não confias em mim."

Agora a voz de Bill estalou de fúria.

“Raios, Riley, só estou a tentar ser realista.”

Riley não aguentou mais. “Vai-te embora, Bill.”

“Mas Riley…”

“Acredita em mim ou não acredites em mim. Escolhe. Mas neste momento, só quero que te vás embora.”

Resignado, Bill levantou-se e foi-se embora.

Pela soleira da porta da cozinha, Riley conseguia ver que quase todos tinham abandonado a casa, incluindo April. Lucy regressou à cozinha.

“O agente Huang vai deixar alguns agentes aqui,” Disse. “Vão vigiar a casa a partir de um carro durante a noite. Não me parece ser boa ideia que fique sozinha aqui dentro. Não me importo de ficar.”

Riley sentou-se e pensou por um momento. O que ela queria – o que ela precisava naquele exato instante – era que alguém acreditasse que o Peterson não estava morto. Duvidava até de conseguir convencer Lucy disso. Parecia um caso perdido.

“Eu fico bem, Lucy,” Disse Riley.

Lucy assentiu e saiu da cozinha. Riley ainda ouviu o som dos últimos agentes a sair da casa e a fechar a porta atrás deles. Riley levantou-se e confirmou se as portas de trás e da frente estavam trancadas. Colocou duas cadeiras encostadas à porta de trás. Se alguém tentasse arrombá-la, as cadeiras dariam sinal.

Depois dirigiu-se à sala de estar e olhou em seu redor. A casa parecia estranhamente luminosa com todas as luzes brilhando incandescentes.

Devia desligar algumas, Pensou.

Mas ao tentar alcançar o interruptor da sala de estar, os dedos congelaram. Não as conseguia desligar. Estava paralisada de terror.

Riley sabia que Peterson estava novamente no seu encalce.




CAPÍTULO 3


Riley hesitou por um momento ao entrar no edifício da UAC, não estava certa de estar preparada para encarar quem quer que fosse naquele dia. Não pregara olho a noite toda e estava exausta. A sensação de terror que a mantivera acordada a noite toda esgotara toda a sua adrenalina. Agora, apenas se sentia esvaziada.

Riley respirou fundo.

A única saída é enfrentar os medos.

Reuniu toda a sua determinação e caminhou na direção do labirinto buliçoso de agentes do FBI, especialistas e pessoal de apoio. Há medida que desbravava caminho, rostos familiares desviaram os olhares dos computadores na sua direção. A maioria sorriu por vê-la e vários dirigiram-lhe gestos de incentivo. Aos poucos, Riley sentiu-se feliz por se ter decidido entrar. Precisava de alguma coisa que a fizesse sentir-se melhor.

“Isso é que foi com o Dolly Killer,” Atirou um jovem agente.

Riley demorou alguns segundos a compreender a que é que ele se referia. Depois percebeu que “Dolly Killer” devia ser a alcunha de Dirk Monroe, o psicopata que tinha abatido. O nome fazia todo o sentido.

Riley também reparou que alguns dos rostos a encaravam de forma mais prudente. Não havia dúvidas de que tinham sabido do incidente ocorrido em sua casa a noite passada já que toda uma equipa tinha acorrido à sua chamada desesperada a solicitar apoio. Provavelmente pensam que não estou no meu juízo perfeito, Pensou. Tanto quanto sabia, mais ninguém no Bureau acreditava que o Peterson ainda pudesse estar vivo.

Riley parou junto à secretária de Sam Flores, um técnico de laboratório com óculos de aros pretos que trabalhava arduamente em frente ao computador.

“Que notícias tens para mim, Sam?” Perguntou Riley.

Sam desviou o olhar do monitor e ergueu-o para ela.

“Referes-te ao assalto a tua casa, certo? Estou agora mesmo a ver alguns relatórios preliminares. Não há muito por onde pegar. Os tipos do laboratório não conseguiram sacar nada das pedras. Nem ADN, nem fibras, nem impressões digitais.”

Riley suspirou, desalentada.

“Avisa-me se derem com alguma coisa,” Disse, dando uma palmadinha nas costas de Flores.

“Não contaria muito com isso,” Rematou Flores.

Riley permaneceu na área partilhada por agentes seniores. Quando passou junto aos gabinetes envidraçados, viu que Bill não estava lá. Na verdade, era um alívio, mas Riley também sabia que mais tarde ou mais cedo teria que esclarecer as recentes situações mal resolvidas entre eles.

Mal entrou no seu gabinete simples e bem organizado, Riley de imediato reparou que tinha uma mensagem no telefone. Era de Mike Devins, o psiquiatra forense de D.C. que por vezes consultava em casos da UAC. Há vários anos que ele lhe transmitia importantes perceções, não só relacionadas com os casos que Riley tinha em mãos. Mike também a ajudara a enfrentar as crises de Stress Pós-Traumático depois de Peterson a ter capturado e torturado. Riley sabia que ele estava a ligar para ver como ela estava, algo que fazia habitualmente.

Estava prestes a devolver-lhe a chamada quando a figura maciça do Agente Especial Brent Meredith surgiu na soleira da porta do seu gabinete. As feições negras e angulares do comandante da unidade sugeriam uma personalidade dura e inquebrantável. Riley ficou aliviada por vê-lo, tranquilizada, como sempre, pela sua presença.

“Bem-vinda, Agente Paige,” Disse.

Riley levantou-se para lhe apertar a mão. “Obrigado, Agente Meredith.”

“Ouvi dizer que teve outra pequena aventura a noite passada. Espero que esteja bem.”

“Estou bem, obrigado.”

Meredith fitou-a com sincera preocupação e Riley sabia que ele estava a avaliar a sua capacidade para retomar o trabalho.

“Vamos tomar um café?” Perguntou.

“Obrigado, mas tenho aqui uns ficheiros em que tenho que trabalhar. Fica para outra vez.”

Meredith assentiu e não disse mais nada. Riley sabia que ele estava à espera que ela falasse. Não havia dúvidas de que ele já sabia da sua crença de que Peterson tinha sido o intruso. Estava a dar-lhe uma oportunidade de dar a sua opinião. Mas ela tinha a certeza de que Meredith não estaria mais propenso do que os outros a acreditar na sua teoria sobre Peterson.

“Bem, é melhor eu ir andando,” Disse. “Quando quiser tomar um café ou almoçar, avise.”

“Assim farei.”

Meredith estacou e virou-se para Riley.

Lenta e cuidadosamente, disse, “Tenha cuidado, Agente Paige.”

Pareceu a Riley detetar um significado profundo naquelas palavras. Não há muito tempo, outro superior da agência tinha-a suspenso por subordinação. Tinha acabado por ser reintegrada, mas a sua posição ali dentro ainda parecia ser frágil. Reley pressentiu que Meredith lhe dava um aviso amigável. Não queria que ela cometesse um ato que a colocasse em xeque. E levantar poeira sobre Peterson, podia trazer problemas com aqueles que haviam dado o caso por encerrado.

Mal se encontrou sozinha, Riley procurou e retirou o grosso ficheiro do caso Peterson. Abriu-o em cima da secretária e percorreu-o, avivando a memória sobre as características do seu inimigo. Não encontrou nada que fosse muito útil.

A verdade era que o homem permanecia um enigma. Nem sequer havia qualquer registo da sua existência até Bill e Riley o terem apanhado. Peterson até podia nem ser o seu nome verdadeiro e tinham encontrado vários nomes próprios supostamente ligados a ele.

Ao folhear o ficheiro, Riley encontrou fotos das suas vítimas, mulheres que haviam sido encontradas em campas rasas. Todas apresentavam cicatrizes de queimaduras e a causa das mortes fora o estrangulamento. Riley estremeceu ao lembrar-se das mãos grandes e poderosas que a haviam apanhado e aprisionado como um animal.

Ninguém sabia ao certo quantas mulheres ele tinha assassinado. Ainda podia haver muitos corpos perdidos algures. E até Marie e Riley serem capturadas e terem sobrevivido para contar, ninguém sabia o quanto ele gostava de atormentar as mulheres no escuro com um maçarico de gás propano. E mais ninguém estava disposto a acreditar que Peterson ainda estava vivo.

Tudo isto estava a deitá-la abaixo. Riley era conhecida pela sua capacidade de entrar nas mentes dos assassinos – uma aptidão que por vezes a assustava. Ainda assim, nunca conseguira entrar na mente de Peterson. E mesmo agora, sentia que o compreendia menos do que nunca.

Riley nunca o encarou como um psicopata organizado. O facto de abandonar as vítimas em campas rasas, sugeria o contrário. Não era um perfeccionista. Ainda assim, era suficientemente meticuloso para não deixar pistas. O homem era um verdadeiro paradoxo.

Lembrou-se de algo que Marie lhe tinha dito pouco antes de se suicidar…

“Talvez ele seja como um fantasma, Riley. Talvez seja o que aconteceu quando rebentaste com ele. Mataste-lhe o corpo, mas não lhe mataste o mal.”

Ele não era um fantasma, Riley sabia que não. Ela tinha a certeza – mais do que nunca – de que ele andava à solta e que ela era o seu próximo alvo. É claro que, no que a ela dizia respeito, ele bem podia ser um fantasma. Para além dela, mais ninguém acreditava que ele existia.

“Onde estás tu, sacana?” Sussurrou.

Não sabia e não tinha forma de o saber. Estava completamente bloqueada. Não tinha escolha senão deixar as coisas como estavam por agora. Encerrou o ficheiro e colocou-o novamente no lugar.

Nessa altura, o telefone do gabinete tocou. Viu que a chamada provinha de uma linha partilhada por todos os agentes especiais. Era uma linha que a central telefónica da UAC utilizava para encaminhar chamadas destinadas aos agentes. A norma ditava que o agente que atendesse tal chamada em primeiro lugar, ficaria com o caso.

Riley olhou em redor para os outros gabinetes. Ninguém parecia estar disponível naquele momento. Os outros agentes estavam todos na pausa ou a trabalhar em casos no terreno. Riley atendeu o telefone.

“Agente Especial Riley Paige. Em que posso ajudar?”

A voz do outro lado da linha parecia preocupada.

“Agente Paige, fala Raymond Alford, Chefe da Polícia de Reedsport, Nova Iorque. Temos problemas por cá. Era possível falarmos por vídeo chamada? Talvez conseguisse explicar melhor. E tenho algumas fotos que deveria ver.”

Riley sentiu a sua curiosidade ser espicaçada. “Claro,” Disse e deu o seu contacto a Alford. Alguns momentos depois, já falava com ele olhos nos olhos. Era um homem esguio e careca aparentando já alguma idade. Naquele momento, apresentava uma expressão ansiosa e cansada.

“Tivemos um homicídio aqui a noite passada,” Relatou Alford. “Uma coisa bastante feia. Deixe-me mostrar-lhe.”

Surgiu uma fotografia no ecrã de Riley. Mostrava o que aparentava ser o corpo de uma mulher pendurado de uma corrente sobre uma linha de comboio. O corpo estava envolto num amontoado de correntes e parecia estar vestido de forma estranha.

“O que é que a vítima tem vestido?” Perguntou Riley.

“Um colete-de-forças,” Respondeu Alford.

Riley ficou sobressaltada. Olhando para a foto com mais atenção, conseguia ver que assim era. Depois a imagem desapareceu e Riley deu por si a olhar novamente para Alford.

“Chefe Alford, compreendo a sua preocupação. Mas o que é que o leva a pensar que este caso é apropriado para a Unidade de Análise Comportamental?”

“Porque a mesma coisa aconteceu muito perto daqui há cinco anos atrás,” Respondeu Alford.

Uma imagem com outro corpo de mulher apareceu no ecrã. Também ela estava toda acorrentada e presa por um colete-de-forças.

“Naquela altura foi uma funcionária prisional em part-time, Marla Blainey. O MO foi idêntico, mas em vez de ser pendurada, foi atirada para a margem do rio.”

O rosto de Alford voltou a aparecer.

“Desta vez a vítima foi Rosemary Pickens, uma enfermeira da cidade,” Informou. “Não ocorre um motivo a ninguém, para nenhuma das mulheres. Ambas eram pessoas queridas.”

Alford afundou-se na cadeira e abanou a cabeça.

“Agente Paige, eu e o meu pessoal estamos a apalpar terreno para nós desconhecido. Esta nova morte tem que se enquadrar numa série ou numa cópia. O problema é que nenhuma dessas hipóteses faz sentido. Não costumamos ter esse tipo de problema em Reedsport. Esta é apenas uma pequena cidade turística junto ao rio Hudson com uma população de cerca de sete mil habitantes. Por vezes temos que intervir numa escaramuça ou pescar um turista do rio. E isso é tudo o que de mais negativo se passa por aqui.”

Riley pensou naquilo. Parecia mesmo um caso para a UAC. Ela devia encaminhar Alford diretamente para Meredith.

Mas Riley relanceou o gabinete de Meredith e viu que ainda não tinha regressado. Podia falar com ele sobre o assunto mais tarde. Entretanto, talvez pudesse ajudar um pouco.

“Quais as causas das mortes?” Perguntou.

“Gargantas cortadas, ambas.”

Riley tentou não mostrar a sua surpresa. O estrangulamento e golpe grosseiro eram mais comuns do que o corte.

Parecia ser um assassino muito invulgar. Ainda assim, era o tipo de psicopata que Riley conhecia bem. Especializara-se exatamente em casos como aquele. Seria uma pena não poder aplicar os seus conhecimentos àquele caso. À luz do seu trauma recente, não lhe atribuiriam o caso.

“Já desceram o corpo?” Perguntou Riley.

“Ainda não,” Respondeu Alford. “Ainda está aqui pendurada.”

“Então não desçam. Deixem-no aí por agora. Esperem até os nossos agentes chegarem.”

Alford não pareceu agradado.

“Agente Paige, isso vai ser difícil. Está mesmo ao lado das linhas de comboio e pode ser visto do rio. E a cidade não precisa deste tipo de publicidade. A pressão para o descer é imensa.”

“Deixe-o,” Disse Riley. “Sei que não é fácil, mas é importante. Não vai demorar muito tempo. Teremos agentes aí ainda esta tarde.”

Alford assentiu, concordado em silêncio.

“Tem mais fotos da última vítima?” Perguntou Riley. “Imagens mais detalhadas?”

“Claro, vou mostrar-lhas.”

Riley observou uma série de fotos pormenorizadas do corpo. Os polícias locais tinham feito um bom trabalho. As fotos mostravam quão apertadas e elaboradamente envoltas no corpo estavam as correntes.

Finalmente, surgiu uma imagem aproximada do rosto da vítima.

Riley sentiu um sobressalto no coração. Os olhos da vítima estavam inchados e a boca estava amordaçada com uma corrente. Mas não foi isso que chocou Riley.

A mulher era muito parecida com Marie. Era mais velha e mais pesada, mas ainda assim, Marie ficaria muito parecida com aquela mulher se tivesse vivido mais uma década. Aquela imagem fora um soco no estômago de Riley. Era como se Marie lhe estivesse a pedir ajuda, a exigir que ela apanhasse aquele assassino.

Sabia que tinha que ficar com aquele caso.


CAPÍTULO 4



Peterson circulava, nem muito devagar, nem muito depressa, sentindo-se bem por ter a rapariga novamente debaixo de olho. Tinha-a finalmente encontrado. Ali estava ela, a filha de Riley, sozinha, a ir para a escola, sem lhe passar pela cabeça que ele a perseguia, sem lhe passar pela cabeça que ele estava prestes a matá-la.

Enquanto a observava, ela parou repentinamente e virou-se, como se pressentisse que estava a ser vigiada. Estacou e ali ficou, indecisa. Alguns estudantes passaram por ela e entraram no edifício.

Peterson encostou o carro na berma, esperando pelo seu próximo passo.

Não que a rapariga lhe interessasse particularmente. A mãe é que era o verdadeiro alvo da sua vingança. A mãe que o havia contrariado de forma inominável e que tinha que pagar por isso. De certa forma, já tinha pago, afinal, ele levara Marie Sayles a suicidar-se. Mas agora chegara a altura de lhe arrancar dos braços a pessoa mais importante da sua vida.

Para seu contentamento, a rapariga começou a voltar para trás e a afastar-se da escola. Aparentemente, decidira hoje não ir às aulas. O seu coração bateu com mais intensidade – ele queria atacar. Mas não podia. Ainda não. Tinha que ser paciente. Havia outras pessoas na rua.

Peterson arrancou e circulou no espaço de um quarteirão, forçando-se a ser paciente. Reprimiu um sorriso, antevendo a alegria iminente. Com aquilo que reservara para a sua filha, Riley ia sofrer de uma forma inimaginável. Apesar de ainda ser desengonçada e estranha, a miúda era muito parecida com a mãe. E isso só tornava tudo ainda mais agradável.

Enquanto conduzia, reparou que a miúda caminhava vigorosamente. Parou na curva e observou-a durante alguns momentos até se aperceber que se encaminhava para fora da cidade. Se ia para casa sozinha, então este poderia ser o momento ideal para levar o seu plano avante.

Com o coração a bater descompassadamente, querendo saborear a antecipação, Peterson conduziu mais um quarteirão.

Ele sabia que era necessário saber adiar certos prazeres, esperar até chegar o momento certo. A recompensa adiada tornava tudo mais agradável. Sabia-o graças a muitos anos de deliciosa e vagarosa crueldade posta em prática.

Há tanto por que esperar, Pensou, satisfeito.

Quando deu a volta e a viu novamente, Peterson riu-se. Estava a pedir boleia! Deus estava do seu lado naquele dia. Era óbvio que estava destinado a matá-la.

Parou o carro ao lado dela e dirigiu-lhe o seu mais agradável sorriso.

“Queres uma boleia?”

A miúda lançou-lhe um sorriso aberto. “Obrigado. Isso seria ótimo.”

“Para onde vais?” Perguntou.

“Vivo logo a seguir à cidade.”

A miúda disse-lhe a morada.

Peterson disse, “Fica a caminho. Entra.”

A miúda sentou-se no banco da frente. Observou, ainda mais satisfeito, que ela até tinha os olhos cor de avelã da mãe.

Peterson carregou no trinco para trancar as portas e as janelas. No meio do ruído difuso do ar condicionado, a rapariga nem se apercebeu de nada.



*



April sentiu um agradável fluxo de adrenalina ao colocar o cinto de segurança. Nunca tinha pedido boleia na vida. A mãe teria um ataque se descobrisse.

É claro que era algo que convinha à mãe. Fora desprezível deixá-la dormir em casa do pai a noite passada – tudo por causa da ideia maluca de que o Peterson tinha estado em sua casa. Não era verdade e April sabia-o. Os dois agentes que a tinham levado a casa do pai tinham-no dito. Por aquilo que comentaram entre eles, quase parecia que toda a agência achava que a mãe estava um bocado passada da cabeça.

O homem perguntou, “Então o que te traz a Fredericksburg?”

April virou-se e olhou para ele. Era um tipo de aspeto agradável com um maxilar saliente, cabelo desgrenhado e pera. Sorria.

“Escola,” Disse April.

“Um curso de verão?” Perguntou o homem.

“Sim,” Respondeu April. De certeza que não lhe ia dizer que decidira faltar às aulas. Não que parecesse alguém que não compreenderia. Parecia muito fixe. Talvez até lhe agradasse ajudá-la a desafiar a autoridade parental. Ainda assim, era melhor não arriscar.

O sorriso do homem tornou-se desconfiado.

“E o que pensa a tua mãe sobre pedir boleia?” Perguntou.

April corou de vergonha.

“Oh, ela não se importa,” Respondeu.

O homem soltou uma risadinha. Não era um som muito agradável. E April lembrou-se de algo. Ele perguntara o que a mãe pensava, não o que os pais pensavam. O que o levara a formular a pergunta daquela forma?

O trânsito era intenso perto da escola àquela hora da manhã. Ia demorar algum tempo a chegar a casa. April esperava que o homem não fosse demasiado conversador. Aquilo podia tornar-se estranho.

Após algum tempo de silêncio, April começou a sentir-se desconfortável. O homem já não sorria e a sua expressão pareceu-lhe sombria. Reparou que todas as portas estavam trancadas. Sub-repticiamente, tocou no botão da janela do lado do passageiro. Não se mexia.

O carro parou atrás de uma fila de carros que aguardavam pelo semáforo verde. O homem fciou na fila para virar à esquerda e, de repente, April sentiu uma súbita explosão de ansiedade apoderar-se dela.

“Hum… temos que ir por aqui,” Disse.

O homem nada disse. Será que não a tinha ouvido? Incompreensivelmente, não tivera a coragem de repetir o que dissera. Para além disso, talvez ele quisesse seguir por um caminho diferente. Mas não, ela não percebia como é que a levaria a casa seguindo naquela direção.

April começou a pensar no que devia fazer. Deveria gritar por socorro? Alguém a ouviria? E se o homem não tivesse ouvido o que ela tinha dito? E não lhe quisesse fazer mal? Seria tremendamente embaraçoso.

E foi então que April viu alguém conhecido a caminhar descontraidamente no passeio com a mochila pendurada no ombro. Era Brian, o seu “namorado”. Bateu audivelmente no vidro.

Suspirou de alívio quando Brian olhou e a viu.

“Queres uma boleia?” Perguntou a Brian através do vidro.

Brian sorriu e assentiu.

“Oh, é o meu namorado,” Disse April. “Podemos parar e dar-lhe boleia, por favor? De qualquer das formas, ia para a minha casa.”

Era mentira. April não fazia a mínima ideia para onde ia Brian. O homem franziu as sobrancelhas e resmoneou qualquer coisa. Não estava contente com aquela situação. Iria parar? O coração de April batia a um ritmo diabólico.

Brian falava ao telemóvel no passeio. Mas estava a olhar diretamente para o carro e April estava certa de que conseguia ver o condutor nitidamente. Estava contente por ter uma potencial testemunha no caso do homem ter em mente algo ilícito.

O homem estudou Brian, viu-o falar ao telemóvel e viu-o a olhar para ele.

Sem dizer uma palavra, o homem destrancou as portas. April fez sinal a Brian para entrar no banco detrás, ele abriu a porta e entrou. Fechou a porta no preciso momento em que a luz verde se acendeu e a fila de carros começou novamente a circular.

“Obrigado pela boleia,” Agradeceu Brian.

O homem não proferiu uma palavra, permanecendo de cenho franzido.

“Este senhor está a levar-nos para minha casa, Brian,” Informou April.

“Fantástico,” Respondeu Brian.

Agora April sentia-se segura. Se o homem realmente tivesse más intenções, de certeza que não os levaria a ambos. De certeza que os levaria diretamente para casa da mãe.

Refletindo antecipadamente, April pensou se deveria contar à mãe sobre o homem e as suas suspeitas. Mas não, isso significaria revelar que faltara às aulas e pedira boleia. A mãe castigava-a de vez.

Além disso, pensou, o condutor não podia ser Peterson.

Peterson era um assassino psicopata, não um homem normal a conduzir um carro.

E afinal de contas, Peterson estava morto.




CAPÍTULO 5


A expressão rígida e sombria de Brent Meredith indicava a Riley que ele não gostara nada do seu pedido.

“É um caso para mim,” Disse Riley. “Tenho mais experiência que qualquer outro com este tipo de assassino em série pervertido.”

Acabara de descrever a chamada recebida de Reedsport.

Após um longo silêncio, Meredith finalmente suspirou.

“Autorizada,” Anunciou, relutantemente.

Riley libertou um suspiro de alívio.

“Obrigado,” Agradeceu.

“Não me agradeça,” Rosnou Meredith. “Faço isto indo contra o senso comum. Só o permito porque tem as capacidades necessárias para lidar com este caso. A sua experiência com este tipo de assassino é única. Vou atribuir-lhe um parceiro.”

Riley sentiu um abanão de desânimo. Sabia que trabalhar com Bill não era uma boa opção neste momento, mas imaginou se Meredith sabia o porquê da tensão existente entre os parceiros de longa data. Pensou que o mais provável era Bill ter dito a Meredith que queria ficar mais perto de casa.

“Mas…” Principiou Riley.

“Não há mas,” Sentenciou Meredith. “E nada de artifícios de loba solitária. Não é inteligente e vai contra todas as regras. Quase morria mais do que uma vez. Regras são regras. E eu já estou a quebrar algumas neste momento ao não deixá-la de baixa depois dos recentes incidentes.”

“Sim, senhor,” Concordou Riley ordeiramente.

Meredith esfregou o queixo, obviamente considerando todas as opções que se lhe apresentavam. Acabou por dizer, “A agente Vargas vai consigo.”

“Lucy Vargas?” Perguntou Riley.

Meredith limitou-se a assentir. Riley não gostou muito da ideia.

“Ela fazia parte da equipa que esteve na minha casa ontem à noite,” Disse Riley. “Parece ser muito profissional e eu gostei dela, mas é uma novata. Estou habituada a trabalhar com alguém mais experiente.”

Meredith sorriu abertamente. “As notas dela na academia eram as mais altas. É certo que é jovem, mas é raro alguém sair diretamente da academia para a UAC. Ela é boa a esse ponto. Está pronta para ter uma experiência no terreno.”

Riley sabia que não tinha escolha.

Meredith prosseguiu, “Quando pode ir?”

Riley fez um cálculo mental. Em primeiro lugar, tinha que falar com a filha. E que mais? Não tinha o kit de viagem no gabinete. Tinha que ir até Fredericksburg, parar em casa, assegurar-se que April ficava em casa do pai e depois regressar a Quantico.

“Dê-me três horas,” Concluiu.

“Vou pedir um avião,” Disse Meredith. “Vou avisar o chefe da polícia de Reedsport que temos uma equipa a caminho. Esteja na pista daqui a exatamente três horas. Se se atrasar, vai ser o inferno na terra.”

Riley levantou-se nervosamente da cadeira.

“Compreendo,” Disse. Quase lhe agradeceu novamente, mas rapidamente se lembrou de que não o devia fazer. Saiu do gabinete sem proferir mais uma palavra.



*



Riley chegou a casa em meia hora, estacionou o carro e voou na direção da porta de entrada. Tinha que pegar no kit de viagem, numa pequena mala que tinha sempre pronta com produtos de higiene pessoal, num roupão e numa muda de roupa. Tinha que ser rápida e ir para a cidade onde explicaria tudo à April e a Ryan. Não ansiava por aquele momento, mas tinha que ter a certeza que April ficava segura.

Quando introduziu a chave na fechadura, reparou que já estava destrancada. Sabia que a tinha trancado quando saíra. Trancava-a sempre. Subitamente, todos os sentidos de Riley ficaram alerta. Sacou a arma e entrou em casa.

Ao movimentar-se furtivamente no seu interior, espreitando casa canto e recanto, apercebeu-se de um ruído longo e contínuo. Parecia vir do exterior da casa. Era música – música muito ruidosa.

Mas que raio?

Ainda na expectativa de encontrar um intruso, passou pela cozinha. A porta das traseiras estava parcialmente aberta e uma música pop soava vinda lá de fora. Sentiu um aroma familiar.

“Oh, meu Deus, não outra vez,” Disse para si própria.

Repôs a arma no coldre e dirigiu-se ao exterior da casa. E é claro que ali estava April, sentada na mesa de piquenique com um rapaz magricela da sua idade. A música vinha de dois pequenos altifalantes colocados em cima da mesa.

Ao ver a mãe, os olhos de April acenderam-se de pânico. Escondeu o charro debaixo da mesa para o apagar na mão, na esperança de o fazer desaparecer.

“Não te dês ao trabalho de o esconder,” Disse Riley, dirigindo-se à mesa. “Sei o que estás a fazer.”

Mal se conseguia fazer ouvir por causa da música. Desligou o leitor.

“Mãe, isto não é o que parece,” Disse April.

“Isto é exatamente aquilo que parece,” Disparou Riley. “Dá-me o resto.”

Revirando os olhos, April deu-lhe um saco de plástico com uma pequena porção de erva lá dentro.

“Pensei que estivesses a trabalhar,” Disse April, como se aquela afirmação explicasse alguma coisa.

Riley não sabia se devia sentir-se mais zangada ou desiludida. Esta era a segunda vez que apanhava April a fumar erva. Mas as coisas tinham melhorado entre elas e pensou que isso fosse coisa do passado.

Riley fitou o rapaz.

“Este é o Brian,” Apresentou April. “É um amigo da escola.”

Com um sorriso vago e olhos vítreos, o rapaz estendeu a mão a Riley.

“Prazer em conhecê-la, Ms. Paige,” Disse.

Riley manteve as mãos imóveis.

“O que é que estás aqui a fazer?” Perguntou Riley a April.

“Eu vivo aqui,” Respondeu April com um encolher de ombros.

“Sabes bem o que quero dizer. Devias estar na casa do teu pai.”

April não respondeu. Riley olhou para o relógio. Já não tinha muito tempo. Tinha que resolver aquela situação rapidamente.

April parecia estar envergonhada. Não estava preparada para aquele tipo de confronto.

“Esta manhã, fui da casa do pai para a escola,” Disse. “Encontrei o Brian à entrada da escola. Decidimos baldar-nos hoje. Não faz mal se me baldar de vez em quando. Já domino aquilo. O teste final é só na sexta-feira.”

Brian soltou um riso nervoso, ilógico.

“Pois é, a April está mesmo bem naquela disciplina, Ms. Paige,” Disse. “Ela é fantástica.”

“Como chegaste aqui?” Perguntou Riley.

April desviou o olhar. Riley adivinhou sem dificuldades porque é que ela estava relutante em dizer-lhe a verdade.

“Oh, meu Deus, vocês pediram boleia até aqui, não foi?” Perguntou Riley.

“O condutor era um tipo fixe, muito calado,” Disse April. “O Brian esteve sempre comigo. Estivemos seguros.”

Riley debateu-se com todas as suas forças para se manter calma.

“Como sabes que estavam seguros? April, nunca deves aceitar boleia de estranhos. E porque quiseste vir para aqui depois do susto de ontem à noite? Isso foi uma tolice pegada. E se o Peterson ainda andasse por aqui?”

April sorriu como se fosse a dona da verdade.

“Então, mãe. Preocupas-te demasiado. Os outros agentes dizem isso. Ouvi dois deles a falar – os que me levaram a casa do pai ontem à noite. Disseram que o Peterson estava mesmo morto e que tu não eras capaz de aceitar a realidade. Disseram que aquelas pedras tinham sido uma partida.”

Riley estava prestes a explodir. Só queria deitar as mãos àqueles agentes. Tinham uma grande lata em contrariar Riley em frente da filha. Pensou em pedir os seus nomes a April, mas decidiu não o fazer.

“Ouve-me, April,” Disse Riley. “Tenho que sair da cidade por uns dias em trabalho. Tenho que me ir embora agora. Vou levar-te para casa do teu pai. Preciso que fiques lá."

“Porque é que não posso ir contigo?” Perguntou April.

Riley pensou como é que os adolescentes podiam ser tão estúpidos em relação a algumas coisas.

“Porque tens que terminar este curso,” Disse. “tens que o fazer ou vais ficar atrasada na escola. O Inglês é um requisito e tu estragaste tudo sem razão aparente. Para além disso, estou a trabalhar. Nem sempre é seguro estar ao pé de mim quando estou a trabalhar. Já devias saber isso.”

April ficou calada.

“Vem para dentro,” Disse Riley. “Só temos alguns minutos. Tenho que reunir algumas coisas e tu também. Depois levo-te para casa do teu pai.”

Virando-se para Brian, Riley acrescentou, “E a ti, vou-te levar a casa.”

“Posso pedir boleia,” Disse Brian.

Riley limitou-se a fitá-lo com ferocidade.

“Ok,” Disse Brian, parecendo algo intimidado. Ele e April levantaram-se e seguiram Riley em direção à casa.

“Vão e entrem no carro,” Disse. Os miúdos saíram obedientemente de casa.

Trancou a porta das traseiras e percorreu todas as divisões, certificando-se de que todas as janelas estavam bem fechadas.

No seu quarto, pegou na mala de viagem e confirmou de que tinha lá dentro tudo aquilo de que precisava. Ao sair, olhou nervosamente para a cama como se as pedras ainda lá estivessem. Por um momento, pensou porque é que se ia por a caminho de outro estado em vez de ficar ali para tentar encontrar o assassino que a atormentava.

Acima de tudo, aquela proeza da April tinha-a assustado. Ficaria a filha segura em Fredericksburg? Outrora pensara que sim, mas agora tinha as suas dúvidas.

Ainda assim, não podia fazer nada para alterar o rumo dos acontecimentos. Tinha-lhe sido atribuído um novo caso e tinha que partir. Ao caminhar na direção do carro, olhou para a floresta densa e sombria, como se procurasse sinais do Peterson.

Mas não havia.


CAPÍTULO 6



Riley relanceou o relógio do carro enquanto levava os miúdos para uma zona sofisticada de Fredericksburg e estremeceu ao perceber que tinha tão pouco tempo. As palavras de Meredith martelavam-lhe na cabeça.

Se se atrasar, vai ser o inferno na terra.

Talvez chegasse à pista a tempo. Planeara parar em casa e pegar na mala, mas as coisas tinham-se complicado. Pensou se deveria telefonar a Meredith e informá-lo de que assuntos familiares a estavam a atrasar. Decidiu que não. O chefe já se mostrara suficientemente relutante. Não podia esperar qualquer condescendência da sua parte.

Felizmente, a casa do Brian ficava a caminho da casa de Ryan. Quando Riley parou em frente a um imenso relvado, disse, “Devia entrar e contar aos teus pais o que se passou.”

“Não estão em casa,” Disse Brian encolhendo os ombros. “O pai foi-se de vez e a minha mãe não para muito em casa.”

Saiu do carro, depois virou-se e disse, “Obrigado pela boleia.” Enquanto se encaminhava para casa, Riley pensou que tipo de pais deixavam um miúdo assim por sua conta. Não sabiam o tipo de problemas em que os adolescentes se podiam meter?

Mas talvez a mãe não tenha muita escolha, pensou Riley, miseravelmente. Quem sou eu para julgar quem quer que seja?

Mal Brian entrou em casa, Riley arrancou. April não dissera nada durante toda a viagem e também parecia não estar com disposição para falar naquele momento. Riley não sabia se aquele silêncio era de amuo ou embaraço. Apercebeu-se que havia muita coisa que não sabia acerca da sua própria filha.

Riley estava aborrecida tanto com ela própria como com April. Ainda ontem pareciam estar a entender-se melhor. Pensou que April começava a compreender as pressões a que um agente do FBI estava sujeito. Mas depois Riley insistira que April fosse para casa do pai na noite anterior e hoje April rebelara-se contra isso.

Riley lembrou a si mesma que devia ser muito mais compreensiva. Também ela tinha sempre sido um pouco rebelde. E Riley sabia o que era perder uma mãe e ter um pai distante. April tinha medo que o mesmo lhe acontecesse.

Ela teme por mim, Percebeu Riley. Nos últimos meses, April tinha visto a mãe a suportar feridas físicas e psicológicas. Depois do susto da noite anterior, era evidente que April estava muito preocupada. Riley lembrou a si mesma que tinha que estar mais atenta aos sentimentos da filha. Qualquer pessoa de qualquer idade teria dificuldade em lidar com as complicações da vida de Riley.

Riley parou em frente da casa que outrora partilhara com Ryan. Era uma casa ampla e bonita com um pórtico na porta lateral ou porte-cochère como Ryan lhe chamava. Agora Riley preferia estacionar na rua e não na entrada.

Nunca se sentira em casa ali. De alguma forma, viver num bairro suburbano respeitável nunca lhe agradara. O casamento, a casa, o bairro, tudo representara tantas expectativas que ela nunca se julgara capaz de preencher.

Com o passar dos anos, Riley percebera que era melhor no seu trabalho do que alguma vez seria a viver uma vida normal. Por fim, deixara o casamento, a casa e o bairro, e isso tornou-a mais determinada em ir ao encontro das expectativas de ser a mãe de uma filha adolescente.

Quando April estava prestes a abrir a porta do carro, Riley disse, “Espera.”

April voltou-se e olhou para ela de forma expectante.

E Riley disse, compassivamente, “Eu percebo. Eu compreendo.”

April fitou-a com uma expressão de espanto. Por um segundo, parecia estar à beira das lágrimas. Riley ficou quase tão surpreendida como a filha. Não sabia o que lhe tinha dado. Só sabia que não era o momento de sermões parentais, mesmo que tivesse tempo para proferir um, coisa que na verdade não tinha. No seu íntimo também tinha a certeza que tinha dito as palavras certas.

Riley e April saíram do carro e caminharam lado a lado em direção à casa. Não sabia se Ryan estaria ou não em casa. Não queria discutir com ele e já tinha decidido não lhe contar nada acerca do incidente com a marijuana. Sabia que devia, mas não havia tempo para lidar com as reações que provocaria naquele momento. De qualquer das formas, teria que lhe explicar que estaria fora durante alguns dias.

Gabriela, a mulher guatemalteca robusta e de meia-idade que cuidava da casa da família há anos, cumprimentou Riley e April à porta. Os olhos de Gabriela, muito abertos, demonstravam preocupação.

“Hija, onde estiveste?” Perguntou com o seu sotaque carregado.

“Desculpa Gabriela,” Disse April docilmente.

Gabriela olhou com atenção para o rosto de April. Riley viu pela sua expressão que percebera que April tinha fumado erva.

“Tonta!” Atirou Gabriela asperamente.

“Lo siento mucho,” Disse April, parecendo genuinamente arrependida.

“Vente Conmigo,” Disse Gabriela. Ao afastar April, voltou-se e lançou a Riley um olhar de amarga desaprovação.

Riley encolheu sob aquele olhar. Gabriela era uma das poucas pessoas no mundo que realmente a assustava. A mulher também tinha uma forma magnífica de lidar com April e naquele momento, parecia estar a cuidar melhor de April do que ela própria.

Riley perguntou a Gabriela, “O Ryan está em casa?”

Virando-se, replicou, “Sí.” Depois dirigiu a voz para o interior da casa, “Señor Paige, a sua filha voltou.”

Ryan surgiu no corredor, vestido e penteado para sair. Parecia surpreendido por ver Riley.

“O que é que estás a fazer aqui?” Perguntou. “Onde estava a April?”

“Estava em minha casa.”

“O quê? Depois de tudo o que aconteceu a noite passada, levaste-a para casa?”

Riley exasperou-se.

“Não a levei a lado nenhum,” Disse. “Pergunta-lhe se quiseres saber como lá foi parar. Não posso evitar o facto de ela não querer viver contigo. Só tu podes resolver isso.”

“Isto é culpa tua, Riley. Deixaste que ela ficasse completamente fora de controlo.”

Por um milésimo de segundo, Riley ficou furiosa. Mas a fúria acabou por dar lugar a um sentimento de impotência, à sensação de que ele podia ter razão. Não era justo, mas ele sabia despoletar aqueles sentimentos nela.

Riley respirou profunda e longamente, e disse, “Vou estar fora da cidade durante uns dias. Tenho um caso em Nova Iorque. A April tem que ficar cá e vai ter que se portar bem. Explica, por favor, a situação à Gabriela.”

“Explica tu a situação à Gabriela,” Disparou Ryan. “Neste momento, tenho uma reunião com um cliente.”

“E eu neste momento tenho que apanhar um avião.”

Ficaram a olhar um para o outro durante alguns segundos. A discussão tinha chegado a um impasse. Ao olhá-lo nos olhos, Riley lembrou-se que já o amara. E ele também. Mas isso fora na altura em que eram jovens e pobres, antes de ele se tornar num advogado de sucesso e ela numa agente do FBI.

Não se conseguiu impedir de reparar que ele ainda era um homem muito atraente. Tinha muito trabalho para manter aquela aparência e passava muitas horas no ginásio. Riley também sabia bem que ele tinha muitas mulheres na sua vida. Isso era parte do problema – gozava demasiado a sua liberdade de homem solteiro para se preocupar em ser pai.

Não que eu me esteja a sair melhor, Pensou Riley.

Então Ryan disse, “É sempre o trabalho.”

Riley sufocou a raiva. Já tinham falado imensas vezes sobre aquele assunto. O trabalho dela era demasiado perigoso e demasiado trivial. O trabalho dele era o mais importante, porque ele ganhava muito mais dinheiro e porque alegava que fazia a diferença no palco do mundo. Como se tratar de processos de clientes ricos fosse mais importante do que a interminável missão de Riley contra o mal.

Mas ela não se podia deixar arrastar para esta velha discussão de sempre naquele momento. Nenhum deles ganhara o que quer que fosse com isso.

“Falamos quando eu voltar,” Disse Riley.

Virou-se e saiu da casa. Ouviu Ryan fechar a porta atrás de si.

Riley entrou no carro e arrancou. Tinha menos de uma hora para estar em Quantico. Tinha a cabeça a andar à roda. Tantas coisas estavam a acontecer tão rapidamente. Ainda há pouco tinha decidido agarrar-se a um novo caso. Agora interrogava-se se era a atitude certa. Não só April estava a ter dificuldades em lidar com tudo, como tinha a certeza de que Peterson estava de volta.

Mas de certa forma, fazia todo o sentido. Desde que April ficasse com o pai, estaria a salvo das garras do Peterson. E Peterson não ia matar mais ninguém na ausência de Riley. Por muito intrigada que ele a deixasse, Riley tinha uma certeza. Ela era o seu único alvo. Ela e mais ninguém era a sua próxima vítima cobiçada. E ia saber bem estar longe dele durante algum tempo.

Também fez questão de se lembrar de uma dura lição que aprendera no decorrer do seu último caso. Não querer carregar às costas todo o mal do mundo ao mesmo tempo. Tudo se resumia a um simples lema: um monstro de cada vez.

E naquele momento, ela estava no encalço de um assassino particularmente cruel. Um homem que acabara de conhecer, iria atacar novamente muito em breve.


CAPÍTULO 7



O homem começou a espalhar grandes correntes numa comprida mesa de trabalho na cave. Estava escuro lá fora, mas todos aqueles elos de aço inoxidável eram luminosos e brilhantes sob o fulgor do difuso candeeiro.

Puxou uma das correntes ficando visível todo o seu comprimento. O intenso ruído despoletava-lhe as terríveis memórias de ser algemado, preso e torturado com correntes semelhantes àquelas. Mas era como continuava a dizer a si próprio. Tenho que enfrentar os meus medos.

E para o fazer, tinha que provar que dominava as correntes. No passado, demasiadas vezes as correntes o tinham dominado a ele.

Era uma pena que alguém tivesse que sofrer à custa daquilo. Durante cinco anos, julgara que era uma coisa do passado. Tinha sido uma grande ajuda a igreja contratá-lo como guarda-noturno. Gostava do trabalho, sentia-se orgulhoso da autoridade que podia exercer. Gostava de se sentir forte e útil.

Mas no mês anterior, tinham-no dispensado daquele trabalho. Precisavam de alguém com conhecimentos de segurança, disseram, e melhores credenciais – alguém maior e mais forte. Tinham prometido mantê-lo a trabalhar no jardim. Ainda teria dinheiro suficiente para pagar a renda daquela casa minúscula.

Contudo, a perda daquele emprego, a perda da autoridade que lhe conferia, abalara-o, fê-lo sentir-se indefeso. E aquela necessidade libertou-se novamente – aquele desespero de não estar indefeso, aquela frenética necessidade de dominar as correntes para que não o dominassem a ele outra vez. Já tentara ultrapassar o impulso, como se fosse possível deixar a sua escuridão interior ali abandonada naquela cave. Da última vez, fora até ao centro de Reedsport na esperança de lhe fugir, mas não conseguiu.

E não sabia porquê. Ele era um homem bom com um bom coração e gostava de ajudar as pessoas. Mas mais tarde ou mais cedo, a sua bondade virava-se contra ele. Quando tinha ajudado aquela mulher, aquela enfermeira a carregar sacos de compras para o carro em Reedsport, ela tinha-lhe sorrido e dito, “Mas que menino bonito!”

Estremeceu ao recordar o sorriso e aquelas palavras.

“Mas que menino bonito!”

A mãe sorria-lhe e dizia-lhe coisas como aquela, mesmo quando mantinha a corrente curta para não chegar à comida ou ver o mundo lá fora. E também as freiras tinham sorrido e dito coisas como aquela quando o espreitavam pela pequena abertura quadrada da porta da sua pequena prisão.

“Mas que menino bonito!”

Ele sabia que nem toda a gente era cruel. A maior parte das pessoas queria o seu bem, sobretudo as pessoas desta pequena cidade onde vivia há tanto tempo. Até gostavam dele. Mas porque é que toda a gente o encarava como uma criança – e uma criança deficiente, já agora? Ele tinha vinte e sete anos, e sabia que era extraordinariamente inteligente. A sua cabeça estava repleta de pensamentos brilhantes e raramente se deparava com um problema que não conseguisse resolver.

Mas é claro que sabia porque é que as pessoas o olhavam daquela forma. Era porque mal conseguia falar. Tinha gaguejado toda a vida e nem tentava falar, apesar de compreender tudo o que as outras pessoas diziam.

E era pequeno e fraco, e atarracado e infantil, como aqueles que tinham nascido com alguma espécie de defeito congénito. Aprisionada naquele crânio parcamente moldado, estava uma mente admirável, frustrada no seu desejo de fazer coisas fantásticas no mundo. Mas ninguém sabia disso. Ninguém mesmo. Nem mesmo os médicos do hospital psiquiátrico.

Era irónico.

As pessoas julgavam que ele não conhecia palavras como irónico. Mas sabia.

Agora encontrava-se a manipular nervosamente um botão na mão. Tinha-o retirado da blusa da enfermeira quando a pendurara. Lembrando-se dela, olhou para o berço onde a mantivera acorrentada durante mais de uma semana. Queria poder falar com ela, explicar-lhe que não queria ser cruel e que o problema tinha sido ela ser muito parecida com a mãe e com as freiras, sobretudo com aquele uniforme de enfermeira vestido.

Vê-la com aquele uniforme tinha-o deixado confuso. Tinha acontecido o mesmo com a outra mulher há cinco anos atrás, a guarda prisional. De alguma forma, ambas as mulheres tinham-se fundido na sua mente com a figura da mãe e das freiras e os funcionários hospitalares. Tinha travado uma batalha inglória simplesmente para as distinguir.

Era um alívio ter acabado com ela. Era uma tremenda responsabilidade mantê-la ali atada, dar-lhe água, ouvir os lamentos que a corrente usada para a amordaçar não filtrava. Só retirava a mordaça para lhe colocar uma palhinha na boca para beber água de vez em quando. Depois ela tentava gritar.

Se ao menos lhe tivesse conseguido explicar que não devia gritar, que havia vizinhos do outro lado da rua que não a podiam ouvir. Se ao menos lhe pudesse ter dito, talvez ela tivesse compreendido. Mas ele não conseguia explicar, não com o seu desesperado gaguejo. Em vez disso, ameaçava-a silenciosamente com uma navalha afiada. Passado algum tempo, mesmo a ameaça já não resultava e teve que lhe cortar a garganta.

Depois levara-a novamente para Reedsport e pendurara-a daquela forma, para que todos a vissem. Não sabia bem porquê. Talvez fosse um aviso. Se ao menos as pessoas pudessem compreender. Se compreendessem, ele não teria que ser tão cruel.

Talvez também fosse uma forma de dizer ao mundo o quanto lamentava tudo aquilo.

Porque ele lamentava. Iria amanhã à florista e compraria flores – um pequeno bouquet barato – para a família. Não podia falar com a florista, mas podia escrever algumas indicações simples. O presente seria anónimo. E se conseguisse encontrar um bom lugar onde se esconder, ficaria perto da sepultura quando a enterrassem, curvando a cabeça como qualquer outra pessoa que a chorasse nquela ocasião.

Puxou outra corrente esticada na sua mesa de trabalho, cerrando as pontas o máximo que conseguia, aplicando toda a sua força nessa tarefa, silenciando o seu chocalhar. Mas bem no fundo, ele sabia que aquilo não era suficiente para dominar as correntes. Para as dominar, tinha que as usar novamente. E usaria um dos coletes de força que ainda tinha consigo. Alguém tinha que sofrer, como ele sofrera.

Mais alguém teria que agonizar e morrer.




CAPÍTULO 8


Assim que Riley e Lucy saíram do avião do FBI, um jovem polícia de uniforme acorreu na sua direção.

“Estou mesmo feliz por vos ver,” Disse ele. “O Chefe Alford está à beira de um ataque de nervos. Se ninguém tirar o corpo da Rosemary daquele lugar o mais rapidamente possível, o mais certo é ter um ataque cardíaco. Os jornalistas já estão em cima do acontecimento. Chamo-me Tim Boyden.”

O coração de Riley sobressaltou-se quando soube que a comunicação social já se encontrava na cena do crime. Aquilo não augurava nada de bom.

“Posso ajudar-vos a levar alguma coisa?” Perguntou Boyden.

“Não é preciso,” Respondeu Riley. Ela e Lucy apenas transportavam um par de pequenas malas.

Boyden apontou para o outro lado da pista.

“O carro está já ali,” Disse.

Os três dirigiram-se apressadamente para o carro. Riley sentou-se no banco da frente do passageiro e Lucy no banco de trás.

“Estamos a apenas alguns minutos da cidade,” Disse Boyden quando arrancou. “Nem acredito que isto está a acontecer. Coitada da Rosemary. Todos gostavam muito dela. Estava sempre a ajudar as pessoas. Quando desapareceu há algumas semanas atrás, todos tememos o pior. Mas nunca imaginámos…”

A voz de Boyden silenciou-se e ele abanou a cabeça em sinal de horrorizada descrença.

Lucy inclinou-se para a frente.

“Sabemos que já tiveram um crime como este anteriormente,” Disse.

“Sim, quando ainda frequentava o liceu,” Confirmou Boyden. “Mas não foi aqui em Reedsport. Foi perto de Eubanks, mais a sul do rio. Um corpo acorrentado tal como o de Rosemary. Também vestido com um colete-de-forças. O chefe tem razão? Estamos a lidar com um assassino em série?”

“Ainda não sabemos,” Afirmou Riley.

A verdade era que ela pensava que o chefe devia ter razão. Mas o jovem polícia já parecia estar suficientemente incomodado. Não valia a pena alarmá-lo ainda mais.

“Não acredito,” Disse Boyden, abanando novamente a cabeça. “Uma pequena e simpática cidadezinha como a nossa. Uma senhora simpática como a Rosemary. Não acredito.”

Quando entraram na cidade, Riley viu algumas carrinhas com equipas de notícias de TV na rua principal. Um helicóptero com o logótipo de um canal de televisão sobrevoava a cidade.

Boyden conduziu até uma barricada onde um pequeno amontoado de jornalistas se tinha reunido. Um polícia acenou para o carro passar. Alguns segundos mais tarde, Boyden parou o carro ao lado da linha de comboio. Ali estava o corpo, pendurado num poste de energia. Vários polícias de uniforme estavam a apenas alguns metros de distância.

Ao sair do carro, Riley reconheceu o Chefe Raymond Alford que se encaminhava na sua direção. Não parecia nada contente.

“Espero que tenha uma excelente razão para termos mantido o corpo aqui pendurado,” Disparou. “Isto está a ser um pesadelo. O Presidente da Câmara ameaçou demitir-me.”

Riley e Lucy seguiram-no em direção ao corpo. No lusco-fusco do fim de tarde, parecia ainda mais estranho a Riley do que lhe parecera nas fotos vistas no computador. As correntes de aço inoxidável faiscavam à luz.

“Presumo que criou um cordão de segurança na cena,” Disse Riley a Alford.

“Fizemos o melhor que podíamos,” Declarou Alford. “Barricámos a área o suficiente para que ninguém conseguisse ver o corpo a não ser do rio. Desviámos as rotas dos comboios, o que está a gerar atrasos e agitação. Deve ter sido por causa disso que o canal de notícias de Albany descobriu que algo de errado se passava. Tenho a certeza que não souberam de nada pelo meu pessoal.”

Enquanto Alford falava, a sua voz foi abafada pelo helicóptero de TV que circulava diretamente por cima deles. Desistiu de falar. Riley conseguia ler-lhe nos lábios as obscenidades que proferia ao mesmo tempo que olhava para o helicóptero que se afastou num movimento circular, sem ganhar altitude. Era óbvio que o piloto pretendia regressar.

Alford pegou no telemóvel. Quando alguém o atendeu do outro lado da linha, gritou, “Eu disse para manterem o raio do helicóptero afastado deste local. Agora digam ao piloto que aquilo tem que estar a quinhentos pés de altitude. É a lei.”

Pela expressão de Alford, Riley depreendeu que a pessoa do outro lado da linha lhe estava a oferecer alguma resistência.

Por fim, Alford disse, “Se não tiram aquele pássaro daqui agora, os vossos jornalistas não vão estar presentes na conferência de imprensa que vou dar esta tarde.”

O seu rosto descontraiu um pouco. Olhou para cima e esperou. Passados alguns momentos, o helicóptero ganhou uma altitude mais razoável. O ruído do motor ainda preenchia o ar com um zumbido agudo e constante.

“Meu Deus, espero que isto não volte a acontecer,” Resmungou Alford. “Talvez quando retirarmos o corpo, já não haja aqui nada que lhes interesse. Ainda assim, a curto prazo, penso que há uma vantagem no meio disto tudo. Os hotéis e B&Bs estão a ter mais clientela. Os restaurantes também – os jornalistas têm que comer. Mas a longo prazo? É mau se afugentar os turistas de Reedsport.”

“Fizeram um bom trabalho mantendo-os afastados da cena do crime,” Disse Riley.

“Isso já é alguma coisa,” Declarou Alford. “Venha daí, vamos acabar com isto.”

Alford conduziu Riley e Lucy para mais perto do corpo suspenso. O corpo estava preso a um arnês de correntes improvisado e enrolado a toda a volta. O arnês estava amarrado a uma corda que se ligava através de uma roldana de aço a uma trave alta. O resto da corda descia para o chão num ângulo acentuado.

Agora Riley conseguia ver o rosto da mulher. Mais uma vez foi atingida pela enorme semelhança com Marie – a mesma dor silenciosa e angústia que o seu rosto apresentava após se ter enforcado. Os olhos inchados e a corrente que lhe amordaçava a boca tornou tudo ainda mais perturbador.

Riley olhou para a sua nova parceira para ver como estava a reagir. Para sua surpresa, Lucy já estava a tirar notas.

“É a primeira vez que estás numa cena de crime?” Perguntou-lhe Riley.

Lucy limitou-se a assentir com a cabeça enquanto escrevia e observava. Na perspetiva de Riley, parecia estar a encarar muito bem a brutalidade da situação. Por aquela altura, muitos novatos já estariam a vomitar atrás dos arbustos.

Em contraste, Alford parecia estar decididamente de estômago embrulhado. Mesmo depois de todas aquelas horas, ainda não se habituara. Riley esperava, para seu bem, que nunca tivesse que se habituar.

“Ainda não cheira muito,” Disse Alford.

“Ainda não,” Concordou Riley. “Ainda está em estado de autólise, sobretudo colapso interno das células. Não é suficiente para acelerar o processo de putrefação. O corpo ainda não começou a derreter por dentro. É nessa altura que o cheiro se começa a notar.”

Alford parecia cada vez mais pálido.

“E o rigor mortis?” Perguntou Lucy.

“Tenho a certeza que a rigidez é completa,” Disse Riley. “Provavelmente ficará assim durante mais doze horas.”

Lucy continuava a não parecer nada impressionada, prosseguindo com o apontamento de notas.

“Têm alguma teoria sobre como o assassino a colocou lá em cima?” Perguntou Lucy a Alford.

“Temos,” Respondeu Alford. “Ele subiu e atou a roldana no local. Depois puxou o corpo. Pode ver como está fixo.”

Alford apontou para uma série de pesos de ferro deitados junto à linha. A corda estava atada através de buracos nos pesos, atados cuidadosamente para não se soltarem. Aquele tipo de peso era o que se encontrava em máquinas de pesos num ginásio.

Lucy agachou-se e observou os pesos com mais atenção.

“Há aqui pesos suficientes para contrabalançar completamente o corpo,” Disse Lucy. “É estranho que tenha trazido todas estas estas coisas pesadas. Era de pensar que se limitasse a atar a corda diretamente ao poste.”

“O que é que isso te diz?” Perguntou Riley.

Lucy pensou por um momento.

“É pequeno e não muito forte,” Disse Lucy. “A roldana não lhe dava suficiente alavancagem. Precisava dos pesos para o ajudar.”

“Muito bem,” Disse Riley. Depois apontou para o lado oposto da linha do comboio. Numa pequena faixa, a marca parcial de um pneu guinava do pavimento para a terra. “E podes ver que trouxe o carro para muito perto. Tinha que o fazer. Não conseguia arrastar o corpo por uma longa distância sozinho.”

Riley examinou o solo junto ao poste de energia e descobriu reentrâncias fundas na terra.

“Parece que utilizou uma escada,” Disse.

“Sim e nós encontrámos a escada,” Disse Alford. “Venha, vou mostrar-lhe.”

Alford conduziu Riley e Lucy até um armazém curtido feito de chapa ondulada. Havia uma fechadura partida pendurada do ferrolho da porta.

“Podem ver como entrou cá dentro,” Disse Alford. “Foi fácil. Um torquês foi o suficiente. Este armazém não é muito utilizado, só armazena a longo prazo, por isso não é muito seguro.”

Alford abriu a porta e ligou as luzes florescentes do teto. O lugar estava praticamente vazio, com exceção de umas caixas repletas de teias de aranha. Alford apontou na direção de uma grande escada encostada na parede ao lado da porta.

“Ali está a escada,” Disse. “Encontrámos terra fresca na sua base. Talvez seja daqui e o assassino soubesse que a encontrava aqui. Entrou, levou-a lá para fora e subiu para atar a roldana no local. Quando colocou o corpo onde queria, arrastou a escada de volta para aqui. Depois foi-se embora.”

“Talvez tenha obtido a roldana também do armazém,” Sugeriu Lucy.

“A entrada do armazém está iluminada à noite,” Disse Alford. “Por isso podemos dizer que é ousado e aposto que é rápido, apesar de não ser muito forte.”

Naquele momento, ouviu-se um estampido ruidoso vindo do exterior.

“Mas que raio?” Gritou Alford.

Riley soube de imediato que era um tiro.




CAPÍTULO 9


Alford sacou a arma e saiu disparado do armazém. Riley e Lucy seguiram-no de armas nas mãos. Lá fora, algo rondava o poste onde o corpo estava pendurado. Emitia um zumbido contínuo.

O jovem polícia Boyden tinha a arma em riste. Tinha acabado de disparar para o pequeno drone que rodeava o corpo e preparava-se para disparar outro tiro.

“Boyden, larga essa arma já!” Gritou Alford, colocando a sua arma no coldre.

Boyden voltou-se para Alford surpreendido. Quando guardou a arma, o drone ganhou altitude e voou para longe.

O chefe estava a fervilhar.

“Que raio pensavas que estavas a fazer a disparar a arma daquela maneira?” Rosnou a Boyden.

“Estava a proteger a cena do crime,” Disse Boyden. “O mais certo é ser algum blogger a tirar fotos.”

“Provavelmente,” Disse Alford. “E gosto disso tanto quanto tu. Mas é ilegal disparar contra essas coisas. Para além disso, isto é uma área habitacional. Devias sabê-lo melhor que ninguém.”

Boyden baixou a cabeça, embaraçado.

“Peço desculpa,” Disse.

Alford virou-se para Riley.

“Raio de drones!” Disse. “Odeio mesmo o século XXI. Agente Paige, diga-me por favor que já podemos retirar o corpo do local.”

“Tem mais fotos para além daquelas que eu vi?” Perguntou Riley.

“Montes delas, mostrando cada ínfimo detalhe,” Informou Alford. “Pode vê-las no meu gabinete.”

Riley assentiu. “Já vi o que tinha a ver aqui. E vocês fizeram um bom trabalho mantendo a cena sob controlo. Pode mandar retirar o corpo.”

Alford disse a Boyden, “Chama o médico-legista. Diz-lhe que já pode parar de não fazer nada.”

“Certo, Chefe,” Disse Boyden, pegando no telemóvel.

“Vamos lá,” Disse Alford a Riley e Lucy, encaminhado-as para o seu carro. Quando já estavam a caminho, um polícia fez sinal para que o carro passasse a barricada na direção da rua principal.

Riley ficou atenta ao caminho. O assassino teria trazido o seu carro por este mesmo caminho que tanto Boyden como Alford usavam. Não havia outro para o local entre o armazém e as linhas do comboio. Parecia provável que alguém pudesse ter visto o carro do assassino, apesar de não terem considerado o avistamento anormal.

O Departamento de polícia de Reedsport ficava num pequeno edifício de tijolos na rua principal da cidade. Alford, Riley e Lucy entraram e sentaram-se no gabinete do chefe.

Alford colocou um calhamaço de ficheiros em cima da secretária.

“Aqui está tudo o que tenho,” Declarou. “ O ficheiro completo do caso de há cinco anos e tudo o que conseguimos reunir do homicídio de ontem à noite.”

Riley e Lucy pegaram cada uma num ficheiro e começaram a percorrê-los. A atenção de Riley estava concentrada nas fotos do primeiro caso.

A idade de ambas as mulheres era semelhante. A primeira trabalhava numa prisão, o que a colocava num certo grau de risco para um possível crime. Mas a segunda, era uma vítima com um nível de risco baixo. E não havia nenhuma indicação de qualquer uma delas frequentasse bares ou outros lugares que as tornassem particularmente vulneráveis. Em ambos os casos, as pessoas que as conheciam descreviam-nas como amigáveis, prestativas e convencionais. E ainda assim, havia algum fator que atraíra o assassino a estas mulheres em particular.

“Fizeram algum progresso no homicídio de Marla Blainey?” Perguntou Riley a Alford.

“Estava sob a jurisdição da polícia de Eubanks. Capitão Lawson. Mas trabalhámos juntos no caso e não descobrimos nada de relevante. As correntes eram normais. O assassino podia tê-las comprado em qualquer loja de ferragens.”

Lucy debruçou-se para Riley para observar as mesmas fotos.

“Mas a verdade é que ele comprou muitas,” Disse Lucy. “Era de esperar que algum funcionário se lembrasse de alguém que tivesse comprado tantas correntes.”

Alford concordou.

“Pois, isso foi exatamente o que pensámos na altura. Mas entrámos em contacto com todas as lojas de ferragens da região e nenhum dos funcionários se lembrava de uma venda tão pouco normal. Deve ter comprado poucas de cada vez, aqui e ali, para não atrair muita atenção. Quando cometeu o crime já devia ter uma pilha delas à mão de semear. Se calhar ainda tem.”

Riley observou atentamente o colete-de-forças que a mulher envergava. Parecia igual ao que envolvia a vítima da noite anterior.

“E o colete-de-forças?” Perguntou Riley.

Alford encolheu os ombros. “Era de supor que uma coisa dessas fosse fácil de localizar, mas não conseguimos nada. É uma coisa normal nos hospitais psiquiátricos. Percorremos todos os hospitais do estado, incluindo um bem próximo e ninguém deu pela falta de coletes-de-forças.”

Instalou-se o silêncio enquanto Riley e Lucy continuavam a vasculhar os relatórios e as fotos. Os corpos tinham sido deixados a uma distância de 16 Km um do outro. Tal indicava que o assassino não devia viver muito longe de ambos os locais. Mas o corpo da primeira mulher tinha sido deixado na margem do rio. Nos cinco anos que separavam ambos os crimes, a atitude do assassino tinha mudado.

“Então, o que acham deste tipo?” Perguntou Alford. “Porquê usar o colete-de-forças e todas as correntes? Não parece um excesso?”

Riley pensou por um momento.

“Não na sua cabeça,” Disse. “Está tudo relacionado com poder. Ele quer restringir as vítimas não só fisicamente, mas também simbolicamente. O assassino quer deixar isso bem claro.”

“Mas porquê mulheres?” Perguntou Lucy. “Se ele quer fragilizar as vítimas, não seria mais dramático se fossem homens?”

“É uma questão interessante,” Respondeu Riley. Recordou-se da cena do crime, na forma como o corpo tinha sido contrabalançado de forma tão cuidadosa.

“Lembra-te que ele não é muito forte,” Declarou Riley. “ Trata-se em parte de uma questão de escolher os alvos mais fáceis. Mulheres de meia-idade como estas dão menos luta. Mas talvez também representem algo na sua mente. Elas não foram escolhidas como indivíduos, mas como mulheres – e o que quer que as mulheres representam para ele.”

Alford soltou um grunhido cínico.

“Então pensa que não foi nada pessoal,” Disse Alford. “Estas mulheres não fizeram nada para serem apanhadas e mortas. O assassino nem pensou que elas o merecessem especialmente.”

“Geralmente é assim que estas coisas se processam,” Afirmou Riley. “No meu último caso, o assassino perseguia mulheres que compravam bonecas. Não queria saber quem elas eram. Tudo o que importava era o facto de vê-las a comprar uma boneca.”

Mais um momento de silêncio. Alford olhou para o relógio.

“Tenho uma conferência de imprensa daqui a meia hora,” Disse. “Há mais alguma coisa que devamos discutir até lá?”

Riley disse, “Bem, quanto mais cedo eu e a Agente Vargas entrevistarmos a família da vítima melhor. Se possível, ainda esta noite.”

Alford franziu o sobrolho, preocupado.

“Não me parece possível,” Disse. “O marido morreu jovem, há uns quinze anos atrás. Só tem dois filhos adultos, um filho e uma filha, ambos com as suas próprias famílias. Vivem na cidade. O meu pessoal entrevistou-os durante todo o dia. Estão exaustos e desolados. O melhor é deixarmos mais entrevistas para amanhã.”

Riley reparou que Lucy estava prestes a objetar, por isso impediu-a de o fazer com um gesto silencioso. Era inteligente da parte de Lucy querer falar com a família imediatamente. Mas Riley também tinha a consciência que não convinha fazer ondas com a polícia local, sobretudo se pareciam tão competentes como Alford e a sua equipa.

“Compreendo,” Disse Riley. “Deixemos então para amanhã de manhã. E a família da primeira vítima?”

“Penso que ainda haverá parentes em Eubanks,” Disse Alford. “Vou confirmar. Mas não apressemos nada porque o assassino também não está com pressa. O último crime foi há cinco anos e não é provável que ataque novamente em breve. Vamos fazer as coisas com tempo para as fazermos bem feitas.”

Alford levantou-se.

“É melhor preparar-me para a conferência de imprensa,” Disse. “Vocês querem estar presentes? Têm algum tipo de declaração a fazer?”

Riley refletiu por uns segundos.

“Não, não me parece,” Disse. “É melhor o FBI manter-se na sombra para já. Não queremos que o assassino pense que está a ter muita publicidade. É mais provável que se mostre se pensar que não lhe estão a dar a devida atenção. Neste momento, é melhor ser o chefe a dar a cara.”

“Nesse caso, podem instalar-se,” Disse Alford. “Reservei dois quartos num B&B local para vocês. Também têm um carro à vossa disposição à porta.”

Entregou a Riley o formulário de reserva e as chaves do carro. Ela e Lucy saíram da esquadra.



*



Mais tarde nessa noite, Riley sentou-se à janela contemplando a rua principal de Reedsport. A noite já tinha caído e as luzes começavam a acender-se. O ar da noite estava quente e agradável, e reinava a tranquilidade, sem jornalistas à vista.

Alford tinha reservado para Riley e Lucy dois adoráveis quartos no segundo andar do B&B. As proprietárias tinham servido um jantar delicioso. Depois, Riley e Lucy passaram cerca de uma hora na sala principal do piso térreo a delinear planos para o dia seguinte.

Reedsport era realmente uma cidade pitoresca e encantadora. Noutras circunstâncias, seria um lugar muito agradável para passar umas férias. Mas agora Riley pusera de lado o crime da noite anterior e centrava a sua atenção em preocupações mais familiares.

Só agora pensara em Peterson. Ele andava lá fora e ela sabia-o, mas ninguém acreditava nessa possibilidade. Fora sensato da parte dela deixar as coisas daquela forma? Devia ter sido mais persuasiva na tentativa de convencer alguém?

Arrepiava-a pensar que dois assassinos – Peterson e quem quer que tivesse morto aquelas duas mulheres – estavam naquele preciso momento a tratar das suas vidas à vontade. Quantos mais estavam à solta, algures no estado, algures no país? Porque é que a nossa sociedade estava maculada por estes hediondos seres humanos?

O que poderiam estar a fazer? Estariam a conspirar isolados algures ou estariam confortavelmente na companhia dos amigos e da família – pessoas inocentes que não faziam ideia do mal que acolhiam no seu âmago?

Riley não tinha forma de o saber. Mas o seu trabalho era descobrir.




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