A Carícia da Morte 
Blake Pierce


Um Mistério de Riley Paige #6
Uma obra-prima de thriller e mistério! O autor fez um trabalho magnífico no desenvolvimento das personagens com um lado psicológico tão bem trabalhado que temos a sensação de estar dentro das suas mentes, sentindo os seus medos e aplaudindo os seus sucessos. A história é muito inteligente e mantém-nos interessados durante todo o livro. Pleno de reviravoltas, este livro obriga-nos a ficar acordados até à última página. Books and Movie Reviews, Roberto Mattos (re Sem Pistas) A CARÍCIA DA MORTE é o livro #6 da série de mistério de Riley Paige que começou com o bestseller SEM PISTAS (Livro #1) . Homens e mulheres estão a aparecer mortos nos subúrbios de Seattle, envenenados por um químico misterioso. Quando é descoberto um padrão e se torna claro que um assassino em série brutal está envolvido nos crimes, o FBI recorre à sua melhor agente: A Agente Especial Riley Paige. Riley vê-se obrigada a regressar à linha da frente, embora ainda a recuperar dos ataques contra a sua família se mostre renitente em regressar. Mas à medida que os corpos vão aparecendo e os homicídios se tornam cada vez mais inexplicáveis, Riley sabe que não tem escolha. O caso leva Riley às profundezas do inquietante mundo dos lares, hospitais, de cuidadores estranhos e pacientes psicopatas. À medida que Riley penetra mais fundo a mente do assassino, percebe que está a perseguir o mais terrível assassino de todos: um cuja loucura não tem fim – e que pode parecer chocantemente normal. Um thriller psicológico negro com suspense de cortar a respiração, A CARÍCIA DA MORTE é o livro #6 de uma nova série alucinante – com uma inesquecível nova personagem – que o obrigará a não largar o livro até o terminar. O Livro #7 da série de Riley Paige estará em breve disponível.







A CARÍCIA DA MORTE



(UM MISTÉRIO DE RILEY PAIGE—LIVRO 6)



B L A K E P I E R C E


Blake Pierce



Blake Pierce é autor da série bestseller de mistérios RILEY PAGE, que inclui sete livros (e ainda há mais por vir). Ele também é o autor da série de mistério MACKENZIE WHITE, que inclui cinco livros (mais estão previstos); da série de mistério AVERY BLACK, composta por quatro livros (mais por vir); e da nova série de mistério KERI LOCKE.

Um leitor ávido e fã de longa data dos gêneros de mistério e suspense, Blake adora ouvir as opiniões de seus leitores. Então, por favor, sinta-se à vontade para visitar o site www.blakepierceauthor.com e manter contato.



Copyright© 2016 Blake Pierce. Todos os direitos reservados. Exceto como permitido sob o Copyright Act dos Estados Unidos de 1976, nenhuma parte desta publicação pode ser reproduzida, distribuída ou transmitida por qualquer forma ou meios, ou armazenada numa base de dados ou sistema de recuperação sem a autorização prévia do autor. Este ebook está licenciado apenas para seu usufruto pessoal. Este ebook não pode ser revendido ou dado a outras pessoas. Se gostava de partilhar este ebook com outra pessoa, por favor compre uma cópia para cada recipiente. Se está a ler este livro e não o comprou ou não foi comprado apenas para seu uso, por favor devolva-o e compre a sua cópia. Obrigado por respeitar o trabalho árduo deste autor. Esta é uma obra de ficção. Nomes, personagens, empresas, organizações, locais, eventos e incidentes ou são o produto da imaginação do autor ou usados ficcionalmente. Qualquer semelhança com pessoas reais, vivas ou falecidas, é uma coincidência. Jacket image Copyright GongTo, usado sob licença de Shutterstock.com.


LIVROS ESCRITOS POR BLAKE PIERCE



SÉRIE DE MISTÉRIO DE RILEY PAIGE

SEM PISTAS (Livro #1)

ACORRENTADAS (Livro #2)

ARREBATADAS (Livro #3)

ATRAÍDAS (Livro #4)

PERSEGUIDA (Livro #5)

A CARÍCIA DA MORTE (Livro #6)

COBIÇADAS (Livro #7)



SÉRIE DE ENIGMAS MACKENZIE WHITE

ANTES QUE ELE MATE (Livro nº1)

ANTES QUE ELE VEJA (Livro nº2)



SÉRIE DE ENIGMAS AVERY BLACK

MOTIVO PARA MATAR (Livro nº1)

MOTIVO PARA CORRER (Livro nº2)



SÉRIE DE MISTÉRIO KERI LOCKE

RASTRO DE MORTE (Livro 1)


ÍNDICE



CAPÍTULO UM (#uae6372d7-d43f-5f0b-ac3c-d01df4074d8b)

CAPÍTULO DOIS (#u157a3b27-12e6-5912-960f-72299322b6b4)

CAPÍTULO TRÊS (#u939032b7-09e0-54cf-83d0-f23a5d1862ee)

CAPÍTULO QUATRO (#uf55d61e5-4dea-5731-830d-8bc0dc9b7e50)

CAPÍTULO CINCO (#u2e344f52-6219-5bcb-bd6c-545d11e618b1)

CAPÍTULO SEIS (#ub88ce57d-f9f9-593e-9c4b-be2811b0a48d)

CAPÍTULO SETE (#u54c8d3e7-1ccf-52d7-ab84-4b979c37ef18)

CAPÍTULO OITO (#ua0a92c65-9834-57e4-af3e-dd77f9a0e4fb)

CAPÍTULO NOVE (#udc89bd6a-3329-5433-ba0e-556c949dcef1)

CAPÍTULO DEZ (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO ONZE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO DOZE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO TREZE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO CATORZE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO QUINZE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO DEZASSEIS (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO DEZASSETE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO DEZOITO (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO DEZANOVE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO VINTE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO VINTE E UM (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO VINTE E DOIS (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO VINTE E TRÊS (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO VINTE E QUATRO (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO VINTE E CINCO (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO VINTE E SEIS (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO VINTE E SETE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO VINTE E OITO (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO VINTE E NOVE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO TRINTA (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO TRINTA E UM (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO TRINTA E DOIS (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO TRINTA DE TRÊS (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO TRINTA E QUATRO (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO TRINTA E CINCO (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO TRINTA E SEIS (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO TRINTA E SETE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO TRINTA E OITO (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO TRINTA E NOVE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO QUARENTA (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO QUARENTA E UM (#litres_trial_promo)


PRÓLOGO



A terapeuta sorriu amavelmente ao seu paciente, Cody Woods, ao desligar a máquina.

“Penso que chega de MCP por hoje,” Disse-lhe à medida que a perna do paciente parava de se mexer.

A máquina movimentara lenta e repetidamente a perna durante quase duas horas, ajudando-o a recuperar da sua cirurgia ao joelho.

“Quase me esquecia que estava ligada, Hallie,” Disse Cody com uma ligeira risada.

Ela teve uma sensação agridoce. Ela gostava daquele nome – Hallie. Era o nome que utilizava quando trabalhava ali no Centro de Reabilitação Signet como terapeuta freelance.

Era uma pena que Hallie Stillians desaparecesse no dia seguinte sem deixar rasto.

De qualquer das formas, era assim que as coisas se processavam.

E para além disso, tinha outros nomes de que também gostava.

Hallie retirou a máquina da cama e colocou-a no chão. Endireitou cuidadosamente a perna de Cody e endireitou os cobertores.

Por fim, acariciou o cabelo de Cody – um gesto íntimo que a maior parte dos terapeutas evitavam. Mas ela assumia aqueles pequenos gestos com frequência e nunca nenhum paciente se queixara. Ela sabia que projetava um certo calor e empatia – e acima de tudo, total sinceridade. Vindo dela, um pequeno toque inocente era perfeitamente apropriado. Nunca ninguém o interpretara de forma incorreta.

“Como está a dor?” Perguntou ela.

Cody vinha tendo algum invulgar inchaço e inflamação depois da operação. Por isso ali ficara mais três dias e ainda não fora para casa. Esse também era o motivo por que Hallie ali estava a fazer a sua magia curativa especial. O pessoal ali no centro conhecia bem o trabalho de Hallie. Os funcionários gostavam dela e os pacientes gostavam dela, por isso era frequentemente convocada para situações como aquela.

“A dor?” Perguntou Cody. “Quase me esqueci dela. A sua voz fê-la desaparecer.”

Hallie sentiu-se lisonjeada, mas não surpreendida. Estivera a ler-lhe um livro enquanto a máquina estava a trabalhar – um thriller de espionagem. Ela sabia que a sua voz tinha um efeito calmante – quase anestésico. Não importava se estava a ler Dickens ou algum romance pulp ou o jornal. Os pacientes não necessitavam de muita medicação para a dor quando estavam sob os seus cuidados; Geralmente o som da sua voz era suficiente.

“Então é verdade que posso ir para casa amanhã?” Perguntou Cody.

Hallie hesitou um milésimo de segundo. Ela não podia ser inteiramente sincera. Não tinha a certeza como é que o seu paciente se sentiria no dia seguinte.

“É o que me dizem,” Afirmou ela. “Como se sente ao saber isso?”

O rosto de Cody foi atravessado por uma expressão de tristeza.

“Não sei,” Disse ele. “Daqui a três semanas é a vez do outro joelho, mas já cá não vai estar para me ajudar.”

Hallie segurou na sua mão carinhosamente. Ela tinha pena que ele se sentisse daquela forma. Desde que estava sob os seus cuidados, ela contara-lhe uma longa história sobre a sua suposta vida – uma história bastante entediante, pensava ela, mas ele parecia encantado com ela.

Por fim, ela explicou-lhe que o seu marido Rupert estava prestes a reformar-se da sua carreira de contabilista. O seu filho mais novo, James, estava em Hollywood a tentar vingar como argumentista. O filho mais velho, Wendell, estava ali em Seattle a dar aulas de Linguística na Universidade. Agora que os filhos estavam crescidos e entregues a si, ela e Rupert iam mudar-se para uma adorável vila colonial no México onde planeavam passar o resto das suas vidas. Partiam no dia seguinte.

Era uma bonita história, Pensou.

E no entanto, nada tinha de verdadeira.

Ela vivia sozinha.

Completamente sozinha.

“Ah, veja só, o seu chá ficou frio,” Disse ela. “Vou aquecê-lo.”

Cody sorriu e disse, “Obrigado. E tome também algum. A chaleira está no balcão.”

Hallie sorriu e disse, “Claro,” tal como sempre fazia quando repetiam aquela rotina. Levantou-se da cadeira, pegou na caneca de chá tépido de Cody e levou-a até ao balcão.

Mas desta vez, pegou na sua mala que se encontrava atrás do micro-ondas, dela retirando um pequeno contentor plástico cujo conteúdo esvaziou no chá de Cody. Fê-lo rapidamente, furtivamente, um movimento que aperfeiçoara com a prática, de tal forma que tinha a certeza que ele não o tinha percecionado. Mesmo assim, o seu coração bateu com maior rapidez.

Depois ela serviu-se de chá e colocou ambas as canecas no micro-ondas.

Não me posso enganar, Lembrou-se a si própria. A caneca amarela é para o Cody, a azul para mim.

Enquanto o micro-ondas trabalhava, voltou a sentar-se junto de Cody e olhou para ele sem dizer uma palavra.

Ele tinha um rosto agradável, Pensou ela. Mas tinha-lhe contado factos da sua própria vida e ela sabia que ele estava triste. Já estava triste há muito tempo. Fora um atleta premiado no secundário. Mas magoara os joelhos a jogar futebol, terminando as esperanças de prosseguir uma carreira no desporto. Aqueles mesmos ferimentos acabaram por resultar na necessidade de substituir as rótulas.

Desde essa altura que a sua vida ficara marcada pela tragédia. A sua primeira mulher morrera num acidente de viação e a segunda mulher deixara-o por outro homem. Tinha dois filhos adultos, mas não falavam com ele. Também tivera um ataque cardíaco há alguns anos atrás.

Ela ficava admirada com o facto dele não se ter tornado numa pessoa amarga. Na verdade, parecia cheio de esperança e otimista em relação ao futuro.

Julgava-o querido, mas ingénuo.

Ela sabia que a sua vida não ia mudar para melhor.

Era demasiado tarde para isso.

O micro-ondas deu sinal e Hallie despertou da sua divagação. Cody olhava para ela com olhos bondosos e expectantes.

Ela deu-lhe uma palmadinha na mão, levantou-se e caminhou na direção do micro-ondas. Retirou as canecas, quentes ao toque.

Lembrou-se mais uma vez.

Amarela para o Cody, azul para mim.

Era importante não as trocar.

Ambos bebericaram o chá sem dizer nada. Hallie encarava aqueles momentos como momentos de companheirismo tranquilo. Entristecia-a um pouco saber que não haveria mais momentos daqueles. Dali a alguns dias, este paciente já não precisaria dela.

Dali a nada Cody cabeceava de sono. Ela misturara o pó com um medicamento para dormir para garantir que tal sucedia.

Hallie levantou-se e juntou os seus pertences para se ir embora.

E então começou a cantar suavemente uma canção que conhecia desde sempre:



Longe de casa,

Tão longe de casa-

Este bebé pequenino está longe de casa.

Definha

De dia para dia

Demasiado triste para rir, demasiado triste para brincar.

Não chores,

Sonha até mais não poderes.

Deixa-te vencer pelo sono.

Não há mais suspiros,

Fecha os olhos

E estarás em casa pelo sono.



Os seus olhos fecharam-se, ela afagou o seu cabelo carinhosamente.

Então, depois de lhe pousar um beijo afável na testa, ergueu-se e foi-se embora.




CAPÍTULO UM


A Agente do FBI Riley Paige estava preocupada enquanto caminhava na escada de desembarque do Phoenix Sky Harbor International Airport. Estivera ansiosa durante todo o voo desde o Reagan Washington International. Viera à pressa porque ouvira que uma adolescente estava desaparecida – Jilly – uma rapariga em relação à qual Riley se sentia especialmente próxima. Riley estava determinada a ajudar a rapariga e até colocava a hipótese de a adotar.

Quando Riley se encaminhava para o portão de saída, caminhando apressadamente, olhou para cima e ficou chocada ao ver a própria Jilly ali com o agente do FBI do gabinete de Phoenix Garrett Holbrook mesmo a seu lado.

Jilly Scarlatti de treze anos estava ao lado de Garrett, a piscar os olhos, obviamente à sua espera.

Riley ficou confusa. Tinha sido Garrett a telefonar-lhe para lhe dizer que Jilly tinha fugido e estava em parte incerta.

Contudo, antes de Riley fazer qualquer pergunta, Jilly correu na sua direção e atirou-se para os seus braços a soluçar.

“Oh, Riley, desculpa. Desculpa-me. Nunca mais volto a fazer o mesmo.”

Riley abraçou Jilly carinhosamente, olhando para Garrett em busca de uma explicação. A irmã de Garrett, Bonnie Flaxman, tinha tentado adotar Jilly, mas Jilly rebelara-se e fugira.

Garrett sorriu ligeiramente – uma expressão fora do normal para um homem geralmente taciturno.

“Ela ligou à Bonnie depois de saires de Fredericksburg,” Disse Garrett. “Disse que só queria dizer adeus de uma vez por todas. Mas então a Bonnie disse-lhe que estavas a caminho para a levares contigo para casa. Claro que ficou logo entusiasmada e disse-nos onde a devíamos ir buscar.”

Ele olhou para Riley.

“Vires até cá salvou-a,” Concluiu Garrett.

Riley limitou-se a ficar parada durante uns instantes com Jilly a soluçar nos seus braços, sentindo-se estranhamente desajeitada e indefesa.

Jilly murmurou algo que Riley não conseguiu ouvir.

“O quê?” Perguntou Riley.

Jilly recompôs-se e olhou Riley nos olhos, olhos castanhos a transbordar de lágrimas.

“Mãe?” Disse Jilly com uma voz tímida e sufocada. “Posso chamar-te de Mãe?”

Riley abraçou-a novamente, esmagada pelo confuso massacre de emoções a que estava a ser sujeita.

“Claro,” Disse Riley.

Depois virou-se para Garrett. “Obrigada por tudo o que fizeste.”

“Ainda bem que pude ajudar, pelo menos um pouco,” Respondeu. “Precisas de um lugar para ficar enquanto cá estás?”

“Não. Agora que a Jilly foi encontrada, não vale a pena. Apanhamos o próximo voo de regresso.”

Garrett apertou-lhe a mão. “Espero que resulte para ambas.”

Depois foi-se embora.

Riley olhou para a adolescente que ainda estava agarrada a ela. Riley sentia uma mistura de sentimentos. Se por um lado estava eufórica por tê-la encontrado, por outro estava apreensiva quanto ao que o futuro lhes reservaria.

“Vamos comer um hambúrguer,” Disse Riley a Jilly.



*



Nevava levemente durante a viagem de carro do Reagan Washington Airport até casa. Jilly olhava silenciosamente pela janela. O seu silêncio era uma grande mudança depois do voo de mais de quatro horas de Phoenix. Nessa altura, Jilly não conseguia parar de falar. Nunca andara de avião e estava curiosa em relação a tudo.

Porque é que agora está tão sossegada? Interrogou-se Riley.

Ocorreu-lhe que a neve devia ser uma visão pouco usual para uma rapariga que tinha vivido toda a sua vida no Arizona.

“Já tinhas visto neve?” Perguntou Riley.

“Só na televisão.”

“Gostas?” Questionou-a Riley.

Jilly não respondeu, o que fez com que Riley se sentisse desconfortável. Ela lembrava-se da primeira vez que vira Jilly. A rapariga tinha fugido de um pai agressivo. Num ato de puro desespero, decidira tornar-se prostituta. Fora para uma paragem de camionistas que era um lugar conhecido no mundo do engate de prostitutas – chamavam-lhes “lot lizards” porque eram particularmente maltrapilhos.

Riley estava lá a investigar uma série de homicídios de prostitutas. Acontecera encontrar Jilly escondida na cabina de um camião à espera de se vender ao condutor quando ele regressasse.

Riley entregara Jilly aos Serviços de Proteção de Menores e mantivera o contacto com ela. A irmã de Garrett acolhera Jilly para a adotar, mas Jilly tinha acabado por fugir novamente.

E fora nessa altura que Riley decidira levar Jilly para sua casa.

Mas agora começava a pensar se cometera um erro. Já tinha que cuidar de uma filha de quinze anos, April. Só a April podia dar uma trabalheira. Tinham passado juntas por algumas experiências traumáticas desde que o casamento de Riley terminara.

E o que é que ela na verdade sabia sobre a Jilly? Será que fazia a mais pequena ideia do quão traumatiada ela estaria? Estaria preparada para lidar com os desafios que Jilly lhe poderia apresentar? E apesar de April ter aprovado a vinda de Jilly, como é que as duas adolescentes se dariam?

De repente, Jilly falou.

“Onde é que vou dormir?”

Riley ficou aliviada por ouvir a voz de Jilly.

“Vais ter um quarto só para ti,” Disse. “É pequeno mas acho que é perfeito para ti.”

Jilly calou-se novamente.

Então, passados alguns momentos disse, “Mais alguém ficou nesse quarto?”

Agora Jilly parecia preocupada.

“Não desde que lá vivemos,” Disse Riley. “Tentei adaptá-lo a escritório, mas era demasiado grande por isso instalei o escritório no meu quarto. A April e eu comprámos uma cama e uma cómoda mas quando tivermos tempo, podes escolher alguns posters e uma colcha de que gostes.”

“O meu próprio quarto,” Disse Jilly.

Pareceu a Riley que ela soava mais apreensiva do que feliz.

“Onde dorme a April?” Perguntou Jilly.

Riley preferia que Jilly esperasse até chegarem a casa e então veria tudo por si própria. Mas a rapariga parecia precisar de uma garantia naquele preciso momento.

“A April tem o seu próprio quarto,” Disse Riley. “Mas tu e a April vão partilhar a mesma casa de banho. Eu tenho uma só para mim.”

“Quem limpa a casa? Quem cozinha?” Perguntou Jilly. Depois acrescentou ansiosamente, “Não cozinho lá muito bem.”

“A nossa empregada, Gabriela, trata disso tudo. Ela é da Guatemala. Vive connosco, num apartamento na cave. Vais conhecê-la não tarda nada. Ela vai tomar conta de ti quando eu tiver que me ausentar.”

Outro silêncio.

Então Jilly perguntou, “A Gabriela vai-me bater?”

Riley ficou abismada com aquela pergunta.

“Não. É claro que não. Porque é que ela faria uma coisa dessas?”

Jilly não respondeu. Riley tentou compreender o significado daquela questão.

Tentou convencer-se de que não deveria ficar surpreendida. Riley ainda se lembrava do que Jilly lhe tinha dito quando a encontrou na cabina do camião e lhe disse que tinha que ir para casa.

“Eu não vou para casa. O meu pai bate-me se volto.”

Os serviços sociais de Phoenix já tinham retirado a custódia de Jilly ao pai. Riley sabia que a mãe de Jilly estava em parte incerta há muito tempo. Jilly tinha um irmão algures, mas ninguém sabia notícias dele há algum tempo.

Partiu-se-lhe o coração perceber que Jilly receava receber um tratamento semelhante na sua nova casa. Parecia que a pobre rapariga nem conseguia imaginar algo melhor na vida.

“Ninguém te vai bater, Jilly,” Disse Riley, com a voz a tremer um pouco de emoção. “Nunca mais. Vamos tomar bem conta de ti. Percebes?”

Mais uma vez, Jilly não respondeu. Riley desejava que ela ao menos dissesse que percebia e que acreditava no que Riley lhe transmitia. Mas em vez disso, Jilly mudou de assunto.

“Gosto do teu carro,” Disse. “Posso aprender a conduzir?”

“Claro, quando fores mais velha,” Disse Riley. “Agora vamos é instalar-te na tua nova vida.”



*



Ainda caía alguma neve quando Riley estacionou o carro em frente à sua casa e ela e Jilly saíram da viatura. O rosto de Jilly contraía-se um pouco quando os flocos de neve lhe tocavam na pele. Parecia não gostar daquela nova sensação. E tremia freneticamente de frio.

Temos que lhe arranjar umas roupas mais quentes imediatamente, Pensou Riley.

A meio caminho entre o carro e a porta de entrada, Jilly estacou. Olhou para a casa.

“Não posso fazer isto,” Disse Jilly.

“Por que não?”

Jilly calou-se durante alguns instantes. Parecia um animal acossado. Riley suspeitava que o mero pensamento de viver num lugar tão aprazível a oprimia.

“Vou atrapalhar a April, não vou?” Perguntou Jilly. “Quero dizer, a casa de banho é dela.”

Parecia procurar desculpas, agarrar-se a razões para que tudo parecesse um projeto votado ao fracasso.

“Não vais atrapalhar a April,” Disse Riley. “Agora entra.”

Riley abriu a porta. No interior, à espera, estavam April e Ryan, o ex-marido de Riley. Os rostos eram sorridentes e acolhedores.

April foi logo ter com Jilly e deu-lhe um grande abraço.

“Chamo-me April,” Disse. “Estou tão feliz por teres vindo. Vais gostar muito de cá estar.”

Riley ficou alarmada com a diferença entre as duas raparigas. Ela sempre considerara April magra e desengonçada, mas ao lado de Jilly parecia robusta. Riley atribuiu a extrema magreza de Jilly ao facto de, ao longo da sua vida, ter passado fome em alguns momentos.

Tantas coisas que ainda não sei, Pensou Riley.

De repente, Gabriela surgiu da cave, apresentando-se com um amplo sorriso.

“Bem-vinda à família!” Exclamou Gabriela, dando um abraço a Jilly.

Riley reparou que a pele da robusta mulher Guatemalteca era apenas ligeiramente mais escura do que a de Jilly.

“Vente!” Disse Gabriela, pegando na mão de Jilly. “Vamos até lá acima. Vou mostrar-te o teu quarto!”

Mas Jilly afastou a mão e ficou parada a tremer. Começaram a correr-lhe lágrimas pelo rosto. Sentou-se nas escadas e chorou. April sentou-se a seu lado e colocou-lhe um braço à volta dos ombros.

“Jilly, o que é que se passa?” Perguntou April.

Jilly abanou a cabeça lastimosamente.

“Não sei,” Soluçou. “É só que… Não sei. É tudo demasiado.”

April sorriu amorosamente e deu-lhe uma palmadinha carinhosa nas costas.

“Eu sei, eu sei,” Disse. “Vem até lá acima. Vais-te sentir em casa num instante.”

Jilly levantou-se obedientemente e seguiu April. Riley ficou agradada por constatar a forma graciosa como a filha estava a lidar com a situação. É claro que April sempre dissera que queria ter uma irmã mais nova. Mas April tinha passado por momentos difíceis que a tinham traumatizado gravemente.

Talvez, Pensou Riley esperançosa, a April seja capaz de compreender a Jilly melhor do que eu.

Gabriela olhou compassivamente para as duas raparigas.

“¡Pobrecita!” Disse. “Espero que fique bem.”

Gabriela voltou para a cave, deixando Riley e Ryan sozinhos. Ryan ficou a olhar para as escadas, parecendo algo atordoado.

Espero que não esteja arrependido, Pensou Riley. Vou precisar do apoio dele.

Muito tinha acontecido entre ela e Ryan. Nos últimos anos do seu casamento, fora um marido infiel e um pai ausente. Tinham-se separado e divorciado. Mas ultimamente Ryan parecia outro homem e passavam cada vez mais tempo juntos.

Tinham conversado sobre o desafio de introduzir a Jilly nas suas vidas. Ryan parecera entusiasmado com a ideia.

“Ainda concordas com isto?” Perguntou-lhe Riley.

Ryan olhou para ela e disse, “Sim. Mas vai ser duro, muito duro.”

Riley anuiu e seguiu-se um silêncio incómodo.

“Penso que talvez seja melhor eu ir embora,” Disse Ryan.

Riley sentiu-se aliviada. Deu-lhe um beijo leve, ele vestiu o casaco e foi-se embora. Riley preparou uma bebida e sentou-se sozinha na sala de estar.

No que é que nos meti? Interrogou-se.

Ela esperava que as suas boas intenções não dividissem novamente a sua família.




CAPÍTULO DOIS


Riley acordou apreensiva na manhã seguinte. Aquele ia ser o primeiro dia da vida de Jilly na sua nova casa. Tinham muito que fazer e Riley esperava que tudo corresse pelo melhor.

Na noite anterior apercebera-se que a transição de Jilly para a sua nova vida envolveria trabalho árduo de todos. Mas April tinha intervido e ajudara Jilly a instalar-se. Tinham escolhido roupas para Jilly usar no dia de hoje – não das que trouxera consigo num saco de compras, mas das coisas novas que Riley e April lhe tinham comprado.

Jilly e April tinham ido para a cama, por fim.

Riley também tinha ido, mas o seu sono fora perturbado e agitado.

Agora levantara-se e vestira-se, e dirigia-se para a cozinha onde April ajudava Gabriela a preparar o pequeno-almoço.

“Onde está a Jilly?” Perguntou April.

“Ainda não se levantou,” Disse April.

Riley ficou preocupada.

Dirigiu-se ao fundo das escadas e gritou, “Jilly, é altura de te levantares.”

Nenhuma resposta lhe chegou. De repente, foi dominada pelo pânico. Teria Jilly fugido durante a noite?

“Jilly, ouviste-me?” Chamou. “Temos que te matricular na escola agora de manhã.”

“Estou a ir,” Respondeu Jilly.

Riley respirou de alívio. O tom de Jilly era soturno, mas pelo menos estava ali e a colaborar.

Em anos recentes, Riley ouvira com frequência aquele mesmo tom de April. Agora April parecia ter passado essa fase, embora ainda tivesse recaídas de tempos a tempos. Riley interrogou-se se estaria mesmo à altura da tarefa de criar outra adolescente.

E naquele preciso momento, alguém bateu à porta. Quando Riley abriu a porta, deparou-se com o seu vizinho Blaine Hildreth.

Riley estava surpreendida por vê-lo, mas não desagradada. Blaine era alguns anos mais novo do que ela, um homem atraente e encantador, proprietário de um restaurante sofisticado na cidade. Na verdade, ela sentira uma inconfundível mútua atração entre eles que impossibilitava qualquer hipótese de restabelecer a ligação com Ryan. Mas mais importante do que tudo, Blaine era um vizinho maravilhoso e as filhas de ambos, melhores amigas.

“Olá Riley,” Cumprimentou Blaine. “Espero que não seja demasiado cedo.”

“De maneira nenhuma,” Disse Riley. “O que se passa?”

Blaine encolheu os ombros com um sorriso triste.

“Vim cá para me despedir,” Disse ele.

Riley ficou perplexa.

“O que é que queres dizer com isso?” Perguntou.

Ele hesitou e antes de responder, Riley viu um enorme camião estacionado em frente à sua casa. Homens transportavam mobília da casa de Blaine para o camião.

Riley ainda não conseguia acreditar no que via.

“Vais-te mudar?” Perguntou.

“Pareceu-me o melhor a fazer,” Disse Blaine.

Riley quase não conseguiu evitar perguntar, “Porquê?”

Mas era fácil adivinhar. Viver como vizinho de Riley provara ser perigoso e aterrador, tanto para Blaine como para a filha, Crystal. O penso que ainda ostentava no rosto provava-o. Blaine fora gravemente ferido quando tentara proteger April do ataque de um assassino.

“Não é o que estás a pensar,” Disse Blaine.

Mas Riley conseguia perceber pela sua expressão que se tratava exatamente daquilo em que ela estava a pensar.

Ele prosseguiu, “Chegámos à conclusão que este lugar não era o mais conveniente. Fica muito longe do restaurante. Encontrei uma casa bem agradável mais perto. Tenho a certeza que compreendes.”

Riley sentia-se demasiado confusa e aborrecida para responder. Memórias do terrível incidente regressaram numa torrente arrasadora.

Ela estava em Nova Iorque a trabalhar num caso quando soubera que um assassino brutal estava à solta. Chamava-se Orin Rhodes. Dezasseis anos antes, Riley fora obrigada a abater a namorada num tiroteio e ele fora preso. Quando Rhodes foi finalmente libertado de Sing Sing, jurara vingar-se de Riley e de todos os que ela mais amava.

Antes de Riley conseguir chegar a casa, Rhodes invadiu a sua casa e atacou April e Gabriela. Na casa ao lado, Blaine apercebera-se da luta e interviera para ajudar. O mais certo era ter salvo a vida de April. Mas fora gravemente ferido ao tentar.

Riley visitara-o duas vezes no hospital. Da primeira vez fora devastador. Ele ainda estava inconsciente com tubos intravenosos nos dois braços e uma máscara de oxigénio. Riley culpara-se amargamente do que lhe acontecera.

Mas quando o visitou pela segunda vez, ficou mais animada. Ele estava alerta e alegre, e até brincara com um pouco de orgulho da sua imprudência.

Acima de tudo, ela lembrava-se do que ele lhe dissera na altura…

“Eu faria qualquer coisa por ti e pela April.”

Era óbvio que já não tinha tanta certeza. O perigo de ser vizinho de Riley provara ser um fardo demasiado pasado para ele e agora ia-se embora. Ela não sabia se se devia sentir magoada ou culpada. De uma coisa tinha a certeza: sentia-se desiludida.

Os pensamentos de Riley foram interrompidos pela voz de April atrás dela.

“Oh meu Deus! Blaine, vocês vão-se mudar? A Crystal ainda está cá?”

Blaine anuiu.

“Tenho que lá ir dizer-lhe adeus,” Disse April.

April desatou a correr porta fora em direção à porta do lado.

Riley ainda estava a tentar organizar as suas próprias emoções.

“Peço desculpa,” Disse ela.

“Desculpa porquê?” Perguntou Blaine.

“Tu sabes.”

Blaine assentiu. “A culpa não foi tua Riley,” Disse ele com um tom de voz carinhoso.

Riley e Blaine fitaram-se durante um momento. Por fim, Blaine forçou um sorriso.

“Ei, eu não vou propriamente abandonar a cidade,” Disse ele. “Podemos sempre encontrar-nos quando quisermos. E as miúdas também. E elas ainda vão frequentar a mesma escola. Será como se nada tivesse mudado.”

Um sabor amargo apoderou-se da boca de Riley.

Isso não é verdade, Pensou. Tudo mudou.

E nessa altura a desilusão começou a dar lugar à fúria. Riley sabia que não estava certo sentir-se zangada. Ela não tinha esse direito. Ela nem sequer sabia porque é que se sentia assim. Tudo o que sabia era que não o conseguia evitar.

E o que deviam fazer agora?

Dar um abraço? Apertar as mãos?

Ela tinha a sensação de que Blaine sentia a mesma estranheza e indecisão.

Conseguiram trocar um adeus conciso. Blaine voltou para casa e Riley regressou para dentro da sua. Encontrou Jilly a tomar o pequeno-almoço na cozinha. Gabriela já colocara o pequeno-almoço de Riley na mesa por isso, sentou-se à mesa e comeu com Jilly.

“Então, estás entusiasmada com o dia de hoje?”

A pergunta de Riley saiu antes de perceber quão desajeitada soara.

“Acho que sim,” Disse Jilly, espetando um garfo nas panquecas. Nem olhou para Riley.



*



Um pouco mais tarde, Riley e Jilly entravam na Brody Middle School. O edifício era atraente com cacifos com portas de cores coloridas alinhados no corredor e arte de estudantes visível em todo o lado.

Uma aluna educada e agradável ofereceu ajuda e direcionou-as para o gabiente principal. Riley agradeceu-lhe e continuou a percorrer o corredor, segurando nos papéis de matrícula de Jilly com uma das mãos e segurando na mão de Jilly com a outra.

Anteriormente, tinham-se registado no gabinete central. Tinham levado a papelada que os Serviços Sociais de Phoenix tinham reunido – boletim de vacinas, transcrições escolares, a certidão de nascimento de Jilly e uma declaração de que Riley era a tutora oficial de Jilly. Jilly tinha sido retirada da custódia do pai, apesar dele ter ameaçado contestar essa decisão. Riley sabia que o caminho para finalizar e legalizar uma adoção não seria rápido ou fácil.

Jilly apertou com força a mão de Riley. Riley teve a sensação de que a rapariga se sentia muito pouco à vontade. Não era difícil imaginar porquê. Por muito dura que tivesse sido a vida em Phoneix, era o único lugar onde Jilly jamais tinha vivido.

“Porque é que não posso ir para a escola com a April?” Perguntou Jilly.

“No próximo ano vais estar no mesmo liceu,” Disse Riley. “Mas primeiro tens que terminar o oitavo ano.”

Encontraram o gabinete principal e Riley mostrou os papéis à rececionista.

“Gostaríamos de ver alguém para matricular a Jilly na escola,” Disse Riley.

“Tem que se encontrar com um orientador escolar,” Disse a rececionista com um sorriso. “Venham por aqui.”

Ambas precisamos de alguma orientação, Pensou Riley.

A orientadora era uma mulher na casa dos trinta anos com um cabelo castanho encaracolado. Chamava-se Wanda Lewis e o seu sorriso era tão terno quanto um sorriso pode ser. Riley pensou que ela podia realmente ajudar. Com certeza que uma mulher naquela posição já teria lidado com outros alunos com passados problemáticos.

Wanda Lewis fez-lhes uma visita guiada à escola. A biblioteca era impecável, organizada e bem fornecida de computadores e livros. No ginásio, raparigas jogavam basquetebol com alegria. A cantina era limpa e reluzente. Tudo parecia absolutamente perfeito para Riley.

Durante todo aquele tempo, Wanda Lewis colocou a Jilly várias perguntas acerca da sua anterior escola e sobre os seus interesses. Mas Jilly quase não disse nada em resposta e não colocou quaisquer perguntas. A sua curiosidade pareceu espevitar um pouco quando espreitou para a sala de arte. Mas mal se prosseguiu, voltou ao seu silêncio e indiferença.

Riley interrogou-se do que poderia estar a passar pela cabeça da rapariga. Ela sabia que as suas notas mais recentes haviam sido fracas, mas já tinham sido ótimas em anos anteriores. A verdade era que Riley quase não sabia nada sobre a experiência escolar passada de Jilly.

Talvez até odiasse a escola.

Esta nova devia ser assustadora, um lugar onde Jilly não conhecia ninguém. E claro, não ia ser fácil recuperar o atraso nos estudos quando só faltavam algumas semanas para o fim do período.

No fim da visita guiada, Riley conseguiu persuadir Jilly a agradecer a Wanda Lewis. Concordaram que Jilly começaria as aulas no dia seguinte. Depois Riley e Jilly saíram para o exterior rumo ao frio cortante de Janeiro. Uma fina camada da neve do dia anterior repousava no parque de estacionamento.

“Então o que te pareceu a tua nova escola?” Perguntou Riley.

“Bem,” Disse Jilly.

Riley não conseguia perceber se Jilly estava a ser soturna ou se estava simplesmente atordoada com todas as alterações que tinha que encarar. Ao aproximarem-se do carro, notou que Jilly tremia muito e que os dentes batiam. Usava um casaco pesado de April mas o frio estava mesmo a ser um problema para ela.

Entraram no carro e Riley ligou a ignição e o ar quente. Mesmo com o carro mais quente, Jilly ainda tremia.

Riley manteve o carro estacionado. Chegara o momento de descobrir o que incomodava aquela menina que estava ao seu cuidado.

“O que é que se passa?” Perguntou. “Há alguam coisa na escola que te incomode?”

“Não é a escola,” Disse Jilly, com a voz agora a tremer. “É o frio.”

“Bem sei que não faz frio em Phoenix,” Disse Riley. “Isto deve ser estranho para ti.”

Os olhos de Jilly encheram-se de lágrimas.

“Às vezes faz frio,” Disse ela. “Sobretudo à noite.”

“Diz-me o que é que se passa,” Pediu Riley.

As lágrimas começaram a correr pelo rosto. Ela falava numa vozinha mínima e abafada.

“O frio faz-me lembrar…”

Jilly calou-se. Riley esperou pacientemente.

“O meu pai culpava-me sempre por tudo,” Disse Jilly. “Culpava-me por a minha mãe se ter ido embora, e pelo meu irmão e até me culpava por ser despedido dos empregos que arranjava. Tudo o que corria mal, era sempre culpa minha.”

Agora Jilly soluçava silenciosamente.

“Continua,” Disse Riley.

“Uma noite ele disse-me que queria que eu me fosse embora,” Disse Jilly. “Disse que eu era um peso morto, que eu o atrasava, que já estava farto de mim. Expulsou-me de casa. Fechou as portas e eu não conseguia entrar.”

Jilly engoliu em seco perante aquela memória.

“Nunca senti tanto frio na minha vida,” Disse ela. “Nem agora com este tempo. Encontrei um grande tubo de canalização numa vala e era suficientemente grande para eu caber lá dentro, por isso foi lá que passei a noite. Era tão assustador. Às vezes as pessoas andavam por perto mas eu não queria que me descobrissem. Não pareciam pessoas que me ajudassem.”

Riley fechou os olhos, imaginando a rapariga escondida naquele tubo escuro. Murmurou, “E o que aconteceu depois?”

Jilly prosseguiu, “Fiquei por lá a noite toda. Não consegui dormir. Na manhã seguinte, voltei para casa e bati à porta e chamei pelo pai e implorei-lhe que me deixasse entrar. Ele ignorou-me, como se eu nem sequer ali estivesse. Foi quando fui para a paragem de camiões. Ali estava quente e havia comida. Algumas das mulheres eram simpáticas comigo e eu pensei que faria qualquer coisa para ficar ali. Foi nessa noite que me encontraste.”

Jilly acalmou ao contar a sua história. Parecia aliviada por libertar aquele peso de dentro de si. Mas agora Riley chorava. Mal podia acreditar o que aquela pobre rapariga tinha suportado. Colocou o braço à volta de Jilly e abraçou-a com força.

“Nunca mais,” Disse Riley no meio dos soluços. “Jilly, prometo-te, nunca mais te vais sentir assim outra vez.”

Era uma grande promessa e Riley sentia-se pequena, fraca e frágil naquele momento. Só esperava poder cumpri-la.




CAPÍTULO TRÊS


A mulher não parava de pensar no pobre Cody Woods. Ela tinha a certeza que ele já estaria morto por aquela altura. Saberia, com toda a certeza, pelo jornal da manhã.

Por muito que estivesse a apreciar o seu chá quente e granola, esperar pelas notícias impacientava-a.

Quando é que o jornal chega? Pensou, olhando para o relógio da cozinha.

A entrega parecia estar a atrasar-se cada vez mais nos últimos dias. É claro que não teria estes problemas com uma assinatura digital, mas a verdade era que não gostava de ler o jornal no computador. Gostava de se sentar numa cadeira confortável e desfrutar da sensação antiquada de segurar um jornal nas suas mãos. Ela até gostava da forma como a tinta por vezes ficava agarrada aos dedos.

Mas o jornal já estava atrasado quinze minutos. Se demorasse muito mais, teria que ligar e fazer uma reclamação. Odiaria ter que o fazer. Amargurava-a.

De qualquer das formas, o jornal era a única forma que tinha de descobrir o que sucedera a Cody. Não podia simplesmente ligar para o Centro de Reabilitação Signet para saber dele. Isso seria muito suspeito. Para além disso, para o pessoal de lá, ela já estava no México com o marido sem planos para regressar.

Ou melhor, Hallie Stillians estava no México. Era triste que nunca mais pudesse voltar a ser Hallie Stillians. Tinha-se afeiçoado particularmente àquele pseudónimo. Tinha sido simpático da parte do pessoal do Centro de Signet terem-lhe feito uma surpresa com um bolo no seu último dia no centro.

Sorriu ao lembrar-se. O bolo tinha sido decorado com sombreros coloridos e uma mensagem:



Buen Viaje, Hallie e Rupert!



Rupert era o nome do seu marido imaginário. Iria ter saudades de falar dele de forma tão carinhosa.

Terminou a sua granola e continuou a bebericar o seu chá caseiro preparado segundo uma antiga receita de família – uma receita diferente da que tinha partilhado com Cody e é claro que sem os ingredientes especiais que tinha acrescentado para ele.

Começou a cantar ociosamente…



Longe de casa,

Tão longe de casa-

Este bebé pequenino está longe de casa.

Definha

De dia para dia

Demasiado triste para rir, demasiado triste para brincar.



Como o Cody tinha gostado daquela canção! Também tinham gostado os outros pacientes. E muitos mais pacientes no futuro iriam gostar em igual medida. Aquele pensamento aquecia-lhe o coração.

E naquele preciso momento, ouviu um baque na porta da frente. Apressou-se para a abrir e olhou para o exterior. Repousado no degrau frio estava o jornal da manhã. A tremer de excitação, apanhou-o, voltou para a cozinha e abriu-o nos anúncios de mortes.

E lá estava:



SEATTLE – Cody Woods, 49, de Seattle…



Parou por um momento naquele ponto. Estranho. Quase podia jurar que ele lhe tinha dito que tinha cinquenta anos. Depois leu o resto…



… no Hospital South Hills, Seattle, Wash.; Serviços Funerários e de Cremação Sutton-Brinks, Seattle.



E era tudo. Era conciso, mesmo para um simples anúncio de morte.

Esperava que houvesse um simpático obituário nos próximos dias, mas estava preocupada que talvez não houvesse. Quem o iria escrever afinal de contas?

Estivera sozinho no mundo, pelo menos pelo que ela sabia. Uma mulher tinha falecido, outra tinha-o deixado e os dois filhos não lhe falavam. Não lhe dissera mais nada sobre mais ninguém – amigos, familiares, colegas de trabalho.

Que importa? Interrogou-se.

Sentiu uma fúria amarga e familiar a subir-lhe na garganta.

Fúria contra todas as pessoas na vida de Cody Woods que não queriam saber se ele estava vivo ou morto.

Fúria contra o pessoal sorridente no Centro de Signet, fingindo que gostavam e que teriam saudades de Hallie Stillians.

Fúria contra toda a gente e as suas mentiras e os seus segredos e a sua maldade.

Como fazia com frequência, imaginou-se a sobrevoar o mundo com as suas asas negras, a provocar a morte e a destruição aos maldosos.

E todos eram maldosos.

Toda a gente merecia morrer.

Até Cody Woods fora mau e merecia morrer.

Que tipo de homem fora ele na verdade para deixar este mundo sem que ninguém o amasse?

Com certeza um homem horrível.

Horrível e detestável.

“É bem feito,” Rosnou.

Depois saiu do seu estado de fúria. Sentiu-se envergonhada por ter dito tantas coisas em voz alta. Na verdade, não fora com intenção. Lembrou a si própria que não sentia nada mais do que amor e boa vontade em relação a todo o mundo.

Para além disso, era quase hora de ir trabalhar. Hoje chamava-se Judy Brubaker.

Olhando-se ao espelho, assegurou-se de que a peruca castanho-avermelhado estava devidamente colocada e de que a franja se espalhava de forma natural na sua testa. Era uma peruca cara e nunca ninguém tinha reparado que não era o seu cabelo natural. Por baixo da peruca, o cabelo curto e louro de Hallie Stillians tinha sido pintado de castanho-escuro e cortado num estilo diferente.

Não restava sinal de Hallie, nem no vestuário, nem na forma de se comportar.

Pegou nuns óculos de leitura modernos e pendurou-os num cordão brilhante à volta do pescoço.

Sorriu satisfeita. Era acertado investir nos acessórios apropriados e Judy Brubaker merecia os melhores.



Todos gostavam de Judy Brubaker.

E todos gostavam da canção que Judy Brubaker cantava frequentemente – uma canção que cantava alto quando se vestia para ir trabalhar…



Não chores,

Sonha até mais não poderes.

Deixa-te vencer pelo sono.

Não há mais suspiros,

Fecha os olhos

E estarás em casa pelo sono.



Ela transbordava paz, paz suficiente para partilhar com todo o mundo. Ela dera paz a Cody Woods.

E em breve daria paz a mais alguém que dela precisasse.




CAPÍTULO QUATRO


O coração de Riley bateu descompassadamente e os seus pulmões queimavam de respirar rápida e dificultosamente. Uma música familiar não lhe saía da cabeça.

“Segue a estrada de tijolo amarelo…”

Por muito cansada e sem fôlego que estivesse, Riley não conseguia evitar sentir-se divertida. Era manhã cedo e estava frio enquanto ela corria os dez quilómetros na pista de obstáculos de Quantico. A pista era vulgarmente apelidada de Estrada de Tijolo Amarelo.

Os Marines que a tinham construído é que lhe tinham dado esse nome por terem colocado tijolos amarelos na marcação de cada quilómetro. Os formandos do FBI que sobreviviam à pista recebiam um tijolo amarelo como recompensa.

Riley já recebera o seu tijolo amarelo há muitos anos, mas de vez em quando, voltava à pista, só para se assegurar de que ainda era capaz. Depois do stress emocional dos últimos dias, Riley precisava de algum esforço físico para limpar a mente.

Até ao momento, já tinha ultrapassado uma série de desafiantes obstáculos e tinha passado três tijolos amarelos. Tinha trepado paredes improvisadas, ultrapassado obstáculos e saltado por janelas simuladas. Há apenas alguns momentos, tinha-se içado por uma corda e agora já descia.

Quando chegou ao chão, olhou para cima e viu Lucy Vargas, a brilhante e jovem agente com quem gostava de trabalhar a treinar. Lucy estava a gostar de ser a companheira de treino de Riley naquela manhã. Estava no topo da face da rocha a olhar para baixo para Riley.

Riley chamou-a, “Não consegues acompanhar uma velhota como eu?”

Lucy riu-se. “Estou a ir nas calmas. Não quero exagerar – não com alguém da tua idade.”

“Ei, não te atrases por minha causa,” Gritou Riley. “Dá tudo o que tens.”

Riley tinha quarenta anos, mas nunca tinha descurada o seu treino físico. Ser capaz de se movimentar com rapidez e responder em força podiam revelar-se cruciais na luta contra monstros humanos. A simples força física tinha salvado vidas, incluindo a sua, mais do que uma vez.

Ainda assim, não ficava feliz por olhar para a sua frente e ver o próximo obstáculo – uma piscina de águas baixas, frias e lamacentas ia deixá-la encharcada e gelada.

Aqui vai disto, Pensou.

Atirou-se na direção da lama. O seu corpo foi trespassado pelo choque tremendo da água gelada. Ainda assim, esforçou-se por rastejar e espalmou-se quando sentiu o arame farpado a raspar ligeiramente nas suas costas.

Um entorpecimento corrosivo começou a apoderar-se dela, acionando uma memória indesejável.



Riley estava num espaço escuro debaixo da casa. Acabara de fugir de uma jaula onde estivera presa e fora torturada por um psicopata com um maçarico de gás propano. Na escuridão, perdera a noção do tempo que passara desde que fora capturada.

Mas conseguira forçar a porta da jaula e agora rastejava às cegas em busca de uma saída. Chovera há pouco tempo e a lama por baixo de si era pegajosa, fria e funda.

À medida que o seu corpo se entorpecia mais por causa do frio, um enorme desespero apoderou-se dela. Estava fraca das noites acordada e da fome.

Não consigo, Pensou.

Ela tinha que libertar a sua mente dessas ideias. Ela tinha que continuar a rastejar e a procurar a saída. Se ela não saísse, ele acabaria por matá-la – tal como o tinha feito com as outras vítimas.



“Estás bem, Riley?”

A voz de Lucy despertou Riley da memória de um dos seus mais assombrosos casos. Era uma situação que jamais esqueceria, sobretudo porque a sua filha fora mais tarde capturada por esse mesmo psicopata. Interrogava-se se alguma vez se libertaria daquelas recordações.

E April alguma vez se veria livre de memórias tão devastadoras?

Riley regressara ao presente e apercebeu-se de que se detivera debaixo do arame farpado. Lucy estava logo atrás dela, à espera que ela terminasse o obstáculo.

“Estou bem,” Disse Riley. “Desculpa atrasar-te.”

Esforçou-se por voltar a rastejar. À beira da água, ergueu-se e reuniu forças e energia. Depois desceu o trilho de madeira, certa de que Lucy não estava muito longe dela. Ela sabia que a sua próxima tarefa seria trepar uma rede. Depois disso, ainda tinha quase três quilómetros até terminar e mais alguns obstáculos duros para ultrapassar.



*



No fim da pista de dez quilómetros, Riley e Lucy tropeçavam juntas, ofegantes e rindo e dando os parabéns uma à outra pelo seu triunfo. Riley ficou surpreendida por ver o seu parceiro de longa data à sua espera onde o trilho terminava. Bill Jeffreys era um homem forte e robusto da idade de Riley.

“Bill!” Disse Riley, ainda sem fôlego. “O que é que estás aqui a fazer?”

“Vim à tua procura,” Disse ele. “Disseram-me que te encontraria aqui. Mal podia acreditar que quisesses fazer isto – e no pico do inverno! És alguma espécie de masoquista ou quê?”

Riley e Lucy riram-se.

Lucy disse, “Talvez a masoquista seja eu. Espero conseguir percorrer a Estrada de Tijolo Amarelo como a Riley quando tiver a sua provecta idade.”

Em jeito de provocação, Riley disse a Bill, “Ei, estou pronta para outra rodada. Queres vir comigo?”

Bill abanou a cabeça e riu.

“Huh-uh,” Disse ele. “Ainda tenho o meu velho Tijolo Amarelo em casa e uso-o como batente. Um é suficiente para mim. Mas estou a pensar em candidatar-me a ganhar um Tijolo Verde. Queres fazer-me companhia?”

Riley riu-se novamente. O chamado “Tijolo Verde” era uma piada que corria no FBI – um prémio concedido a quem conseguisse fumar trinta e cinco cigarros em trinta e cinco noites consecutivas.

“Passo,” Disse Riley.

E de repente a expressão de Bill ficou séria.

“Tenho um novo caso em mãos Riley,” Disse ele. “E preciso que me ajudes. Espero que não te importes. Eu sei que é muito em cima do nosso último caso.”

Bill tinha razão. Para Riley, parecia que apenas no dia anterior tinham apanhado Orin Rhodes.

“Sabes que acabei de trazer a Jilly para casa. Estou a tentar ambientá-la na sua nova vida. Nova escola… tudo novo.”

“Como é que ela está?” Perguntou Bill.

“Está irregular, mas está a tentar. Está tão feliz por fazer parte da família. Penso que vai precisar de muita ajuda.”

“E a April?”

“Está fantástica. Ainda estou abismada por ela se ter fortalecido graças à luta com Rhodes. E já gosta muito da Jilly.”

Depois de uma pausa, Riley perguntou, “Que tipo de caso é esse que tens em mãos, Bill?”

Bill ficou calado durante alguns instantes.

“Vou agora reunir-me com o chefe a propósito disso,” Disse ele. “Preciso mesmo da tua ajuda, Riley.”

Riley olhou para o seu amigo e parceiro. A sua expressão era de profundo desespero. Quando ele dissera que precisava da sua ajuda, não estava a brincar. Riley ficou curiosa.

“Deixa-me tomar um duche e vestir roupa seca,” Disse ela. “Vou ter contigo à sede num instante.”




CAPÍTULO CINCO


O Chefe da Equipa Brent Meredith não era homem para perder tempo com delicadezas. Riley sabia-o por experiência própria. Por isso, quando entrou no seu gabinete depois da sua corrida, não estava à espera de conversa da treta – não haveria perguntas educadas sobre a saúde e a casa e a família. Ele sabia ser bondoso e carinhoso, mas esses momentos eram raros. Hoje ele iria diretamente ao assunto e os seus assuntos eram sempre urgentes.

Bill já tinha chegado. Ainda parecia extremamente ansioso. Riley esperava compreender em breve porquê.

Mal Riley se sentou, Meredith debruçou-se sobre a secretária na sua direção com aquele seu rosto amplo e angular de Afro-Americano sempre desafiador.

“Comecemos pelo início Agente Paige,” Disse ele.

Riley esperou que ele dissesse algo diferente – que fizesse uma pergunta ou desse uma ordem. Mas em vez disso, limitou-se a olhar para ela.

Demorou apenas um momento para Riley perceber onde é que Meredith queria chegar.

Meredith estava a ter o cuidado de não colocar a pergunta. Riley apreciou a sua descrição. Um assassino ainda estava à solta e o seu nome era Shane Hatcher. Ele fugira de Sing Sing e o caso mais recente de Riley fora capturar Hatcher.

Riley falhara. Na verdade, ela nem sequer tentara e agora outros agentes de FBI tinham a tarefa de o capturar. Até ao momento, não o tinham conseguido.

Shane Hatcher era um génio do crime que se tornara num respeitado perito em criminologia durante a sua longa permanência na prisão. Riley tinha-o visitado algumas vezes na prisão para obter conselhos sobre os seus casos. Conhecia-o suficientemente bem para ter a certeza de que não constituía um perigo para a sociedade naquele momento. Hatcher tinha um código moral estranho mas rígido. Matara um homem desde a sua fuga – um velho inimigo que era, ele próprio, um criminoso perigoso. Riley tinha a certeza de que ele não mataria mais ninguém.

Naquele momento, Riley compreendia que Meredith precisava de saber se ela sabia alguma coisa de Hatcher. Era um caso de grande importância e parecia que Hatcher se estava rapidamente a tornar em algo semelhante a uma lenda urbana – um mestre do crime famoso capaz de tudo.

Riley apreciava a descrição de Meredith em não lhe colocar abertamente a pergunta mas a verdade era que Riley não sabia nada das atuais atividades de Hatcher ou o seu paradeiro.

“Não há nenhuma novidade,” Disse Riley em resposta à pergunta não pronunciada de Meredith.

Meredith anuiu e pareceu descontrair um pouco.

“Então muito bem,” Disse Meredith. “Vou direto ao assunto. Vou enviar o Agente Jeffreys a Seattle por causa de um caso. Ele quer que você seja a sua parceira. Preciso de saber se está disponível para o acompanhar.”

Riley tinha que dizer que não. Ela tinha tanta coisa com que lidar naquele momento na sua vida que assumir um caso numa cidade distante parecia completamente fora de questão. Ainda experimentava ataques ocasionais do SPT de que sofria desde que fora capturada por um criminoso sádico. A sua filha April sofrera às mãos do mesmo homem e agora April tinha que lidar com os seus próprios demónios. E agora Riley tinha uma nova filha que também tinha passado pelos seus próprios terríveis traumas.

Se ela pudesse ficar fora de ação durante algum tempo e dar algumas aulas na Academia, talvez conseguisse estabilizar a sua vida.

“Não posso aceitar,” Disse Riley. “Não agora.”

Virou-se para Bill.

“Tu sabes aquilo com que estou a lidar,” Disse ela.

“Eu sei, só esperava…” Disse Bill com uma expressão implorativa nos olhos.

Chegara o momento de saber o que se estava a passar.

“Que caso é este?” Perguntou Riley.

“Ocorreram pelo menos dois envenenamentos em Seattle,” Disse Meredith. “Parece ser um caso de assassino em série.”

Naquele momento, Riley compreendeu porque é que Bill estava tão abalado. Quando ele era criança, a mãe fora envenenada. Riley não sabia pormenores mas sabia que o seu assassinato fora uma das razões pela qual ele se tornara agente do FBI. Assombrara-o durante anos. Aquele caso abria velhas feridas.

Por isso, quando ele lhe dissera que precisa dela, era porque precisava mesmo dela.

Meredith prosseguiu, “Até ao momento só temos conhecimento de duas vítimas – um homem e uma mulher. Pode ter havido outros e ainda se podem seguir outros.”

“Porque é que nos chamaram?” Perguntou Riley. “Existe um departamento do FBI em Seattle. Eles não podem tratar do assunto?”

Meredith abanou a cabeça.

“A situação por lá é bastante disfuncional. Parece que o FBI local e a polícia local não concordam em nada a respeito deste caso. Por isso somos necessários. Posso contar consigo Agente Paige?”

De repente, a decisão de Riley tornou-se clara. Apesar dos seus problemas pessoais, ela era mesmo necessária neste caso.

“Contem comigo,” Disse por fim.

Bill assentiu e suspirou audivelmente de alívio e gratidão.

“Ótimo,” Disse Meredith. “Voam para Seattle amanhã de manhã.”

Meredith tamborilou os dedos na mesa por um momento.

“Mas não esperem uma receção calorosa,” Acrescentou. “Nem os polícias, nem os agentes federais vão gostar de vos ver.”




CAPÍTULO SEIS


Riley receava o primeiro dia de aulas de Jilly quase tanto como receava alguns casos. A adolescente parecia bastante sombria e Riley interrogava-se se faria uma cena no último momento.

Estará ela preparada para isto? Não parava Riley de se perguntar. Estarei eu preparada para isto?

Para além de tudo, o momento não parecia o mais adequado. Riley estava preocupada por ter de voar para Seattle naquela mesma manhã. Mas o Bill precisava de ajuda e isso para ela era suficiente. Jilly parecera bem quando conversaram sobre o assunto em casa, mas Riley não sabia muito bem o que esperar naquele momento.

Felizmente, não teve que levar Jilly para a escola sozinha. Ryan tinha-se oferecido para as levar e tanto Gabriela como April também estavam presentes para oferecer apoio moral.

Quando todos saíram do carro no parque de estacionamento da escola, April pegou na mão de Jilly e caminhou com ela na direção do edifício. As duas jovens esguias usavam calças de ganga, botas e casacos quentes. No dia anterior Riley fora fazer compras com elas e deixara Jilly escolher um novo casaco, uma colcha, cartazes e algumas almofadas para personalizar o seu quarto.

Riley, Ryan e Gabriela seguiam atrás das raparigas, e Riley enterneceu-se ao observá-las. Depois de anos de taciturnidade e rebelião, April de repente parecia incrivelmente madura. Riley interrogou-se se April não precisara de algo semelhante desde sempre – tomar conta de alguém.

“Olha para elas,” Disse Riley a Ryan. “Estão a criar laços.”

“Maravilhoso, não é?” Disse Ryan. “Parecem mesmo irmãs. Foi isso que te atraiu nela?”

Era uma pergunta interessante. Quando ela trouxe Jilly para casa, Riley fora surpreendida pelas diferenças entre as duas raparigas. Mas agora apercebia-se cada vez mais de parecenças. April era a mais pálida das duas com olhos cor de avelã como a mãe e Jilly tinha olhos castanhos e uma compleição mais morena.

Mas naquele momento em que as duas cabeças de cabelo escuro se moviam juntas, eram muito parecidas.

“Talvez,” Disse Riley, respondendo à pergunta de Ryan. “Não parei para pensar. Só sabia que ela tinha problemas graves e que talvez eu pudesse ajudar.”

“O mais certo é teres-lhe salvado a vida,” Disse Ryan.

Riley sentiu um nó na garganta. Aquela possibilidade não lhe tinha ocorrido e era um pensamento de humildade. Riley sentia-se tanto entusiasmada como assustada por esse novo sentimento de responsabilidade

Toda a família se dirigiu ao gabinete da orientadora escolar. Carinhosa e sorridente como sempre, Wanda Lewis cumprimentou Jilly com um mapa da escola.

“Vou levar-te já para a tua sala,” Disse Wanda.

“Percebe-se que é um bom lugar,” Disse Gabriela a Jilly. “Vais ficar bem aqui.”

Agora Jilly parecia nervosa, mas feliz. Abraçou-os a todos, depois seguiu Wanda pelo corredor.

“Gosto desta escola,” Disse Gabriela a Ryan, Riley e April quando se encaminhavam para o carro.

“Ainda bem que é do teu agrado,” Disse Riley.

E disse-o com sinceridade. Gabriela era muito mais do que uma empregada. Ela era um verdadeiro membro da família. Era importante que ela se sentisse bem com as decisões da família.

Entraram todos no carro e Ryan ligou a ignição.

“Para onde vamos agora?” Perguntou Ryan com alegria.

“Tenho que ir para a escola,” Disse April.

“Depois casa logo a seguir,” Disse Riley. “Tenho que apanhar um avião em Quantico.”

“Entendido,” Disse Ryan, saindo do parque de estacionamento.

Riley observou o rosto de Ryan enquanto ele conduzia. Parecia realmente feliz – feliz por fazer parte do mundo delas e feliz por ter um novo membro na família. Ele não fora assim durante grande parte do seu casamento. Parecia mesmo um homem mudado. E em momentos como aquele, Riley sentia-se grata.

Virou-se e olhou para a filha que se encontrava no banco de trás.

“Estás a lidar com tudo isto muito bem,” Disse Riley.

April pareceu surpreendida.

“Estou a empenhar-me,” Disse. “Ainda bem que notaste.”

Por um momento, Riley foi apanhada de surpresa. Estava ela a ignorar a filha por estar preocupada em instalar devidamente o novo membro da família?

April calou-se durante uns instantes e depois disse, “Mãe, ainda estou contente por a teres trazido para casa. Acho que é tudo mais complicado do que eu pensava que seria ter uma nova irmã. Ela passou muito mal e por vezes não é fácil comunicar com ela.”

“Não quero que isto seja difícil para ti,” Disse Riley.

April sorriu fracamente. “Fui dura contigo,” Disse ela. “Eu sou suficientemente dura para lidar com os problemas da Jilly. E a verdade é que começo a gostar de a ajudar. Nós vamos ficar bem. Não te preocupes connosco.”

Riley ficou mais tranquila por perceber que deixaria Jilly ao cuidado de três pessoas em quem confiava absolutamente – April, Gabriela e Ryan. Ainda assim, incomodava-a ter que partir naquele preciso momento. Esperava que não fosse por muito tempo.



*



O chão afastou-se quando Riley olhou pela janela do pequeno avião da UAC. O avião subiu acima das nuvens em direção ao nordeste pacífico – quase seis horas. Dali a poucos minutos, Riley já via a paisagem a rolar debaixo deles.

Bill estava sentado a seu lado.

Ele disse, “Voar pelo país desta forma faz-me sempre pensar em outros tempos em que as pessoas tinham que caminhar, cavalgar ou andar de comboio.”

Riley anuiu e sorriu. Era como se Bill tivesse lido os seus pensamentos. E não era raro isso acontecer entre eles.

“O país devia parecer enorme para as pessoas nessa altura,” Disse ela. “Os colonos demoravam meses a atravessar o país.”

Um silêncio familiar e confortável caiu entre eles. Ao longo dos anos, ela e Bill tinham tido a sua conta de desentendimentos e discussões, e houvera momentos em que a sua parceria parecia à beira do fim. Mas agora ela sentia-se mais próxima dele por causa desses tempos difíceis. Ela confiava totalmente nele e sabia que da parte de Bill era recíproco.

Em momentos como aquele, ela ficava feliz por ela e Bill não terem cedido à atração que sentiam um pelo outro. Momentos houve em que tinham estado perigosamente próximos.

Teria estragado tudo, Pensou Riley.

Tinham sido inteligentes em se manterem afastados desse perigo. A perda da sua amizade seria muito difícil de imaginar. Ele era o seu melhor amigo.

Passado um bocado, Bill disse, “Obrigado por vires Riley. Preciso mesmo da tua ajuda desta vez. Acho que não conseguia lidar com este caso com outro parceiro. Nem mesmo a Lucy.”

Riley olhou para ele e não disse nada. Ela não teve que lhe perguntar em que pensava. Ela sabia que ele lhe ia finalmente dizer a verdade sobre o que tinha sucedido com a mãe. Então ela compreenderia quão importante e perturbador aquele caso era para ele.

Ele olhava em frente, recordando-se.

“Aconteceu quando eu tinha nove anos,” Disse ele. “Já te tinha dito que o meu pai era professor de matemática do liceu e que a minha mãe trabalhava como caixa num banco. Com três filhos, vivíamos sem dificuldades. Tínhamos uma vida feliz até que…”

Bill parou por um momento.

“Aconteceu quando eu tinha nove anos,” Prosseguiu. “Mesmo antes do Natal, o pessoal no banco da minha mãe deu a sua festa de Natal anual, trocando presentes e comendo bolo e todas aquelas coisas normais nestas situações. Quando a minha mãe voltou para casa nessa tarde, parecia que se tinha divertido e estava tudo bem, mas à medida que a noite avançou, ela começou a ter um comportamento estranho.”

O rosto de Bill contraiu-se com a simples recordação.

“Ficou tonta e confusa, e a fala era desarticulada. Era quase como se estivesse bêbeda. Mas a minha mãe nunca bebia muito e para além disso não tinham servido álcool na festa. Nós não fazíamos ideia do que se estava a passar. As coisas pioraram rapidamente. Começou a ficar nauseada e a vomitar. O meu pai levou-a às urgências e nós fomos com eles.”

Bill calou-se novamente. Riley sabia que se estava a tornar mais difícil para ele contar-lhe o sucedido.

“Quando chegámos ao hospital, o coração dela estava a mil e estava a hiperventilar e a pressão sanguínea estava descontrolada. Depois entrou em coma. Os rins começaram a falhar e teve uma falência cardíaca congestiva.”

Os olhos de Bill fecharam-se com força e o seu rosto demonstrava toda a dor desses momentos. Riley interrogou-se se talvez fosse melhor ele não contar o resto da história. Mas ela pressentiu que seria errado dizer-lhe para parar de a contar.

Bill disse, “Na manhã seguinte, os médicos descobriram o que estava errado. Ela sofria de um grave envenenamento por etilenoglicol.”

Riley abanou a cabeça. Aquilo parecia-lhe familiar mas não sabia porquê.

Bill explicou tudo rapidamente, “O ponche na festa tinha sido enriquecido com anticongelante.”

Riley ficou chocada.

“Meu Deus!” Disse ela. “Como é que isso foi possível? Quero dizer, será que o sabor…?”

“O que se passou foi que a maior parte dos anticongelantes têm um sabor doce,” Explicou Bill. “É fácil de misturar com bebidas açucaradas sem ser notado. É muito fácil de ser usado como veneno.”

Riley tentava abarcar aquilo que estava a ouvir.

“Mas se o ponche estava contaminado, não houve outras pessoas afetadas?” Perguntou.

“Essa é que é a questão,” Disse Bill. “Mais ninguém foi envenenado. Não estava na taça de ponche. Estava só no copo da minha mãe. Alguém queria atacá-la de forma específica.”

Bill manteve-se em silêncio durante algum tempo.

“Nessa altura, já era tarde demais para fazer o que quer que fosse,” Disse ele. “Ela ficou em coma e morreu na Véspera de Ano Novo. Estávamos todos junto à cama dela.”

De alguma forma, Bill conseguiu não se desfazer em lágrimas. Riley calculou que já tivera a sua dose de choro ao longo dos anos.

“Não fazia sentido,” Disse Bill. “Toda a gente gostava da minha mãe. Ela não tinha inimigos. A polícia investigou e tornou-se claro que ninguém que trabalhava no banco fora responsável. Mas vários colegas de trabalho se lembravam de um homem estranho que ia e vinha durante a festa. Ele parecia amável e toda a gente partiu do princípio de que era convidado de alguém, um amigo ou um parente. Foi-se embora antes de a festa terminar.”

Bill abanou a cabeça amargamente.

“O caso foi arquivado. Penso que nunca se saberá a verdade. Depois de tantos anos, nunca será resolvido. Foi horrível nunca ter descoberto quem o fez, nunca o levar à justiça. Mas o pior de tudo foi não saber porquê. Parecia uma coisa tão sem nexo e cruel. Porquê a minha mãe? O que é que ela fez para fazer com que alguém praticasse um ato tão infame? Ou talvez não tenha feito nada. Talvez fosse apenas algum tipo de brincadeira cruel. Não saber foi uma tortura. Ainda é. E claro, essa foi uma das razões que me levou a…”

Bill não terminou o pensamento. Não precisava. Riley há muito que sabia que o mistério não solucionado da morte da mãe era o motivo pelo qual Bill tinha optado por aquela carreira.

“Lamento muito Bill,” Disse Riley.

Bill encolheu os ombros fracamente, como se tivesse um enorme peso nos ombros.

“Foi há muito tempo,” Disse ele. “Para além disso, deves conhecer a sensação melhor do que ninguém.”

As palavras calmas de Bill sacudiram Riley. Ela sabia ao que ele se referia. E tinha razão. Mas isso não tornava a memória menos abrasadora.



Riley tinha seis anos e a mamã tinha-a levado a uma loja de doces, Riley estava entusiasmada e perguntava por todos os doces que podia ver. Às vezes a mamã repreendia-a por agir assim. Mas naquele dia a mamã era querida e mimava-a, comprando-lhe todos os doces que queria.

Quando estavam na fila para pagar, um homem estranho caminhou na sua direção. Usava qualquer coisa no rosto que lhe espalmava o nariz e lábios e bochechas e o fazia parecer engraçado e assustador ao mesmo tempo, como um palhaço. Levou algum tempo para que a pequena Riley compreendesse que usava uma meia de nylon na cabeça, igual às que a mamã usava nas pernas.

O homem segurava uma pistola. A arma parecia enorme e apontava-a à mamã.

“Dê-me a sua mala,” Disse o homem.

Mas a mamã não a deu. Riley não sabia porquê. Tudo o que sabia era que a mamã estava assustada, talvez demasiado assustada para fazer o que o homem lhe mandava.

O homem proferiu umas palavras feias para a mamã, mas ainda assim ela não lhe deu a mala. Ela tremia como uma vara verde.

Então veio um ruído e um flash e a mamã caiu no chão. O homem disse mais palavras feias e fugiu. O peito da mamã sangrava e ela ainda se contorceu por um momento até ficar completamente imóvel.

A pequena Riley começou a gritar. E não parou de gritar durante muito tempo.



O toque carinhoso da mão de Bill na sua trouxe Riley de volta ao presente.

“Peço desculpa,” Disse Bill. “Não te queria trazer todas essas memórias de volta.”

Obviamente que ele vira as lágrimas a correrem-lhe pelo rosto. Ela apertou a sua mão. Ela estava grata pela sua compreensão e preocupação. Mas a verdade era que Riley nunca contara a Bill uma memória que a perturbava ainda mais.

O pai tinha sido coronel nos Marines – um homem rígido, cruel, incapaz de amar, de sentir, de perdoar. Nos anos que se seguiram à morte da mãe, ele culpara Riley pela morte da mãe. Não importava que ela tivesse apenas seis anos.

“É como se tivesses sido tu a matá-la,” Dizia ele.

Ele morrera no ano anterior sem nunca a perdoar.

Riley limpou o rosto e olhou pela janela para as paisagens que se movimentavam lentamente tantos quilómetros abaixo deles.

Como já sucedera tantas vezes, apercebeu-se do quanto ela e Bill tinham em comum e quão assombrados ambos estavam pelas tragédias passadas e a injustiça. Durante todos aqueles anos em que foram parceiros, carregavam os mesmos demónios e eram assombrados por fantasmas semelhantes.

Apesar de toda a sua preocupação com Jilly e a vida em casa, Riley agora sabia que tivera razão em acompanhar Bill neste caso. Cada vez que trabalhavam juntos, os seus laços fortaleciam-se e aprofundavam-se. Desta vez não seria exceção.

Eles resolveriam aqueles crimes, Riley tinha a certeza. Mas o que é que ela e Bill ganhariam ou perderiam com isso?

Talvez nos curemos um pouco, Pensou Riley. Ou talvez as nossas feridas abram e acabem por doer mais.

Mas na verdade não importava. Sempre tinham trabalhado juntos para resolver os enigmas que se lhes apresentavam, independentemente da dureza das missões.

Agora poderiam ter que enfrentar um crime particularmente horrendo.




CAPÍTULO SETE


Quando o avião da UAC aterrou em Sea-Tac, o Seattle International Airport, caía uma chuva pesada. Riley olhou para o relógio. Eram duas horas da tarde em casa naquele momento, mas ali eram onze da manhã. Isso dava-lhes tempo mais do que suficiente para ainda trabalharem no caso naquele dia.

Quando ela e Bill se dirigiram à saída, o piloto saiu da cabina e entregou a cada um deles um guarda-chuva.

“Vão precisar disto,” Disse ele com um sorriso. “O inverno é a pior altura para se estar neste canto do país.”

Quando se colocaram no cimo das escadas, Riley não pôde deixar de concordar. Ela estava contente por terem guarda-chuvas, mas desejava ter-se vestido com roupa mais quente. Estava não só chuvoso como muito frio.

Um SUV parou junto à pista. Dois homens com impermeáveis saíram do veículo e encaminharam-se para o avião. Apresentaram-se como Agentes Havens e Trafford do Departamento do FBI de Seattle.

“Vamos levar-vos para o gabinete do Médico-Legista,” Disse o Agente Havens. “O chefe da equipa desta investigação está lá à vossa espera.”

Bill e Riley entraram no carro, e o Agente Tarfford começou a conduzir debaixo de chuva torrencial. Riley conseguiu distinguir os habituais hotéis junto ao aeroporto e nais nada. Ela sabia que ali existia uma cidade vibrante, mas estava praticamente invisível.

Interrogou-se se enquanto ali permanecesse veria Seattle.



*



Mal Riley e Bill se sentaram na sala de reuniões do edifício de Medicina Legal de Seattle, ela pressentiu logo a existência de problemas. Trocou olhares com Bill e sabia que ele também sentiu essa mesma tensão.

O Chefe da Equipa Maynard Sanderson era um homem robusto com uma presença que oscilava entre o semelhante a um oficial militar e um pregador evangélico.

Sansderson olhava para um homem imponente cujo espesso bigode de morsa dava ao rosto o que parecia ser uma desconfiança permanente. Fora apresentado como Perry McCade, o Chefe da Polícia de Seattle.

A linguagem corporal dos dois homens e os lugares que ocuparem à mesa diziam muito a Riley. Seja por que razão fosse, a última coisa que queriam era estar juntos na mesma sala. E Riley também sentiu que ambos os homens não estavam minimamente satisfeitos por ter Bill e Riley ali.

Riley lembrava-se do que Brent Meredith dissera antes de deixarem Quantico.

“Não esperem uma receção calorosa. Nem os polícias, nem os agentes federais ficarão contentes por vos ver.”

Riley interrogava-se em que espécie de campo minado é que ela e Bill tinham penetrado.

Uma complexa luta pelo poder estava a decorrer sem que fosse pronunciada uma palavra. E ela sabia que dali a poucos minutos tudo se iria verbalizar.

Por contraste, a Chefe de Medicina Legal Prisha Shankar parecia afável e despreocupada. A mulher de pele escura e cabelo negro devia ter a idade de Riley e parecia ter um carácter estoico e imperturbável.

Afinal de contas, está no seu terreno, Pensou Riley.

O Agente Sanderson tomou a liberdade de iniciar a reunião.

“Agentes Paige e Jeffreys,” Disse ele a Riley e Bill, “Fico satisfeito por terem vindo de Quantico até aqui.”

Pelo seu tom de voz frio Riley interpretou precisamente o contrário.

“Estamos contentes por poder ajudar,” Disse Bill, não muito seguro de si próprio.

Riley limitou-se a sorrir.

“Meus senhores,” Disse Sanderson, ignorando a presença das duas mulheres, “estamos aqui para investigar dois homicídios. Um assassino em série pode estar a começar a cometer os crimes aqui na área de Seattle. Compete-nos a nós pará-lo antes que volte a matar.”

O Chefe de Polícia McCade pigarreou audivelmente.

“Deseja fazer algum comentário, McCade?” Perguntou Sanderson secamente.

“Não se trata de um assassino em série,” Disparou McCade. “E não é um caso para o FBI. Os meus homens têm tudo sob controlo.”

Riley começava a compreender tudo. Ela lembrava-se de Meredith dizer que as autoridades locais estavam a debater-se com este caso. E agora ela conseguia perceber porquê. Ninguém concordava em nada.

O Chefe de Polícia McCade estava furioso pelo facto de o FBI se estar a intrometer num caso de assassínio local. E Sanderson estava furibundo porque o FBI tinha mandado Bill e Riley de Quantico para por todos na ordem.

A tempestade perfeita, Pensou Riley.

Sanderson voltou-se para a Chefe de Medicina Legal e disse, “Dra. Shankar, talvez não se importasse de resumir o que sabemos até ao momento.”

Parecendo indiferente às tensões subjacentes, a Dra. Shankar clicou num comando para mostrar uma imagem no monitor de parede. Era uma foto de carta de condução de uma mulher de aspeto bastante normal com cabelo liso de cor castanha.

Shankar disse, “Há um mês e meio uma mulher chamada Margaret Jewell morreu em casa durante o sono de um aparente ataque cardíaco. Queixara-se no dia anterior de dores nas articulações, mas de acordo com a cônjuge, tal não era incomum. Ela sofria de fibromialgia.”

Shankar clicou novamente no comando e mostrou outra foto de carta de condução onde surgia um homem de meia-idade com um rosto bondoso mas melancólico.

Shankar disse, “Há alguns dias, Cody Woods entrou pelo seu próprio pé no Hospital South Hill a queixar-se de dores no peito. Também se queixava de dores nas articulações. Mais uma vez, a situação não tinha nada de surpreendente porque o paciente sofria de artrite e fora sujeito a uma cirurgia ao joelho na semana anterior. Algumas horas depois de dar entrada no hospital também ele morreu do que parece ter sido um ataque cardíaco.”

“Mortes não relacionadas,” Murmurou McCade.

“Então quer dizer que nenhuma destas mortes foi homicídio?” Perguntou Sanderson.

“A Margaret Jewell terá sido,” Disse McCade. “O Cody Woods nem pensar. Estamos a deixar que ele nos distraia. Estamos a turvar as águas. Se deixasse o caso ser resolvido por mim e pelos meus homens, resolveríamos isto em dois tempos.”

“Já passou um mês e meio desde o caso de Jewell,” Atirou Sanderson.

A Dra. Shankar sorriu de forma algo misteriosa enquanto McCade e Sanderson prosseguiam a sua disputa. Depois clicou novamente no comando. Surgiram mais duas fotos.

O silêncio apoderou-se da sala e Riley ficou surpreendida.

Os homens em ambas as fotos pareciam provenientes do Médio Oriente. Riley não reconheceu um deles, mas reconheceu perfeitamente o outro.

Era Saddam Hussein.




CAPÍTULO OITO


Riley olhou para a imagem no ecrã. Onde quereria chegar a Chefe de Medicina Legal ao mostrar uma foto de Saddam Hussein? O líder deposto do Iraque fora executado em 2006 por crimes contra a humanidade. Qual seria a sua ligação com um possível assassino em série em Seattle?

Depois de instalado o efeito das fotos, a Dra. Shankar falou novamente.

“Estou certa que todos reconhecemos o homem à esquerda. O homem à direita era Majidi Jehad, um dissidente da Shia contra o regime de Saddam. Em Maio de 1980, foi concedida permissão a Jehad para viajar até Londres. Quando parou numa esquadra de polícia de Bagdade para recolher o seu passaporte, ofereceram-lhe um sumo de laranja. Ele deixou o Iraque, aparentemente são e salvo. Morreu pouco depois de chegar a Londres.”

A Dra. Shankar mostrou muitos mais rostos do Médio Oriente.

“Todos estes homens tiveram destinos semelhantes. Saddam liquidou centenas de dissidentes da mesma forma. Quando alguns eram libertados da prisão, era-lhes oferecida uma bebida para celebrar a sua libertação. Nenhum viveu muito tempo.”

O Chefe McCade assentiu.

“Envenenamento por tálio,” Disse ele.

“Exato,” Disse a Dra. Shankar. “O tálio é um elemento químico que pode ser convertido num pó solúvel incolor, inodoro e sem sabor. Era o veneno predilecto de Saddam Hussein. Mas não foi ele que inventou a ideia de assassinar os seus inimigos com ele. Por vezes é denominado de ‘veneno do envenenador’ porque atua lentamente e produz sintomas que podem induzir em causas de morte enganadoras.”

Ela clicou no comando e surgiram mais alguns rostos, incluindo o do ditador Cubano Fidel Castro.

Shankar disse, “Em 1960, os serviços secretos Franceses usaram tálio para matar o líder rebelde camaronês Félix-Roland Moumié. E acredita-se que a CIA tentou usar tálio numa das suas muitas tentativas de assassinato de Fidel Castro. O plano era colocar pó de tálio nos sapatos de Castro. Se a CIA tivesse sido bem-sucedida com este método específico, a morte de Castro teria sido humilhante, assim como lenta e dolorosa. Antes de morrer, aquela sua barba icónica já teria caído.”

Clicou no comando e os rostos de Margaret Jewell e Cody Woods surgiram novamente.

“Faço esta digressão para que compreendam que estamos a lidar com um assassino muito sofisticado,” Disse a Dra. Shankar. “Encontrei restos de tálio nos corpos de Margaret Jewell e Cody Woods. Não tenho dúvidas de que ambos foram envenenados pelo mesmo assassino.”

A Dra. Shankar olhou em seu redor para todos os que se encontravam na sala.

“Alguém deseja fazer algum comentário?” Perguntou.

“Sim,” Disse o Chefe McCade. “Continuo a achar que as mortes não estão ligadas.”

Riley ficou alarmada com aquele comentário, mas a Dra. Shankar não ficou surpreendida.

“E porque pensa assim Chefe McCade?” Perguntou.

“Cody Woods era um canalizador,” Disse McCade. “Não seria possível ele estar exposto ao tálio devido à sua profissão?”

“É possível,” Disse a Dra. Shankar. “Os canalizadores têm que ter cuidado para evitar imensas substâncias nocivas, incluindo amianto e metais pesados tais como o arsénico e o tálio. Mas não me parece que seja o que aconteceu no caso de Cody Woods.”

Riley estava cada vez mais intrigada.

“Porque não?” Perguntou.

A Dra. Shankar clicou no comando e apareceram os relatórios de toxicologia.

“Estas mortes parecem ser envenenamentos por tálio com uma diferença,” Disse ela. “Nenhuma das vítimas mostrou sintomas clássicos – perda de cabelo, febre, vómitos, dores abdominais. Tal como disse anteriormente, ocorreram dores ao nível das articulações, mas pouco mais. A morte surgiu de forma repentina, dando a entender tratar-se de um comum ataque cardíaco. Não houve lentidão. Se o meu pessoal não estivesse atento, nunca reparariam que se trata de casos de envenenamento por tálio.”

Bill parecia partilhar o fascínio de Riley.

“Então estamos a lidar com o quê – um designer de tálio?” Perguntou.

“Algo do género,” Disse a Dra. Shankar. “O meu pessoal ainda está a desmontar a maquilhagem química do cocktail. Mas um dos ingredientes é sem dúvida ferrocianeto de potássio – um químico que podem conhecer como o corante azul Prussiano. É estranho porque o azul prussiano é o único antídoto conhecido para o envenenamento por tálio.”

O grande bigode do Chefe McCade estava a contorcer-se.

“Isso não faz sentido,” Grunhiu. “Porque é que um envenenador administraria um antídoto juntamente com o veneno?”

Riley arriscou uma hipótese.

“Poderia ser para disfarçar os sintomas do envenenamento por tálio?”

A Dra. Shankar anuiu afirmativamente.

“É essa a minha teoria. Os outros químicos encontrados teriam interagido com o tálio de uma forma complexa que ainda não compreendemos. Mas talvez tenham ajudado a controlar a natureza dos sintomas. Quem quer que tenha preparado a mistura sabia o que estava a fazer. Tinha conhecimentos amplos de farmacologia e química.”

O Chefe McCade tamborilava os dedos na mesa.

“Não vou nessa,” Disse ele. “Os vossos resultados para a segunda vítima devem ter sido distorcidos pelos resultados da primeira. Vocês encontraram aquilo que procuravam.”

Pela primeira vez, o rosto da Dra. Shankar mostrou sinais de supresa. Também Riley foi apanhada desprevenida pela audacidade do chefe de polícia ao colocar em causa a competência de Shankar.

“O que o faz pensar isso?” Perguntou a Dra. Shankar.

“Porque temos um suspeito infalível da morte de Margaret Jewell,” Disse ele. “Ela era casada com outra mulher chamada Barbara Bradley. Os amigos e vizinhos do casal afirmam que as duas estavam a ter problemas, discussões aos gritos que acordavam os vizinhos. Na verdade, Bradley até tem cadastro criminal. As pessoas dizem que tem um feitio difícil. Foi ela. Temos a certeza.”

“Então porque é que não a prenderam?” Exigiu saber o Agente Sanderson.

O Chefe McCade ficou na defensiva.

“Interrogámo-la em casa,” Disse ele. “Mas ela é uma pessoa dissimulada e ainda não temos qualquer prova para a deter. Estamos a construir o caso. Está a demorar algum tempo.”

O Agente Sanderson sorriu.

Disse, “Bem, enquanto estiveram a construir o vosso caso, parece que a vossa suspeita infalível matou outra pessoa. O melhor é não perderem o comboio. Pode estar a preparar-se para o fazer novamente neste preciso momento.”

O rosto do Chefe McCade começou a ficar vermelho de raiva.

“Está completamente enganado,” Disse ele. “Garanto-vos que a morte de Margaret Jewell foi um incidente isolado. Barb Bradley não tinha qualquer motivo para matar Cody Woods ou qualquer outra pessoa segundo conseguimos apurar.”

“Segundo conseguiram apurar,” Acrescentou Sanderson num tom de gozo.

Riley conseguia sentir as tensões subjacentes virem à superfície. Ela esperava que a reunião terminasse sem pancadaria.

Entretanto, o seu cérebro já tentava apanhar toda a informação que lhe chegara até ao momento.

Perguntou ao Chefe McCade, “Jewell e Bradley estavam bem financeiramente?”

“Nem por isso,” Disse ele. “Classe média-baixa. Na verdade, pensamos que a pressão financeira pode ter sido parte do motivo.”

“Qual a profissão de Barb Bradley?”

“Faz entregas,” Disse McCade.

Riley sentiu um palpite a formar-se na sua mente. Pensou que um assassino que usava veneno seria provavelmente uma mulher. E como pessoa que faz entregas, poderia ter acesso a várias instalações de saúde. Não havia dúvidas de que era alguém com quem gostaria de falar.

“Gostava que me dessem a morada de Barb Bradley,” Disse Riley. “Eu e o Agente Jeffreys queremos interrogá-la.”

O Chefe McCade olhou para ela como se tivesse enlouquecido.

“Acabei de lhe dizer, já fizemos isso,” Disse ele.

Parece que não muito bem, Pensou Riley.

Mas reprimiu o desejo de verbalizar esta ideia.

Bill falou, “Concordo com a Agente Paige. Devemos voltar a falar com Barb Bradley.”

O Chefe McCade sentia-se nitidamente insultado.

“Não o vou permitir,” Disse ele.

Riley sabia que o chefe da equipa do FBI, o Agente Sanderson, podia fazer prevalecer a sua posição se quisesse. Mas quando olhou para Sanderson para obter apoio, este olhava-a de forma pouco amistosa.

Percebeu a situação de imediato. Apesar de Sanderson e McCade se odiarem, eram aliados no seu ressentimento por Riley e Bill. Na opinião de ambos, os agentes vindos de Quantico não tinham nada que estar ali no seu território. Quer o compreendessem ou não, os seus egos eram mais importantes do que o próprio caso.

Como é que eu e o Bill vamos conseguir fazer alguma coisa? Interrogou-se Riley.

Em contraste, a Dra. Shankar parecia tão fria e controlada como sempre.

Ela disse, “Gostava de saber porque é que se trata de uma ideia tão má os agentes Jeffreys e Paige interrogarem Barb Bradley.”

Riley ficou surpreendida com a audacidade da Dra. Shankar em manifestar-se. No final de contas, mesmo como Chefe de Medicina Legal, estava a ultrapassar as suas competências.

“Porque tenho a minha própria investigação a decorrer!” Disse McCade, agora quase a gritar. “O mais certo é estragarem tudo!”

A Dra. Shankar sorriu aquele seu sorriso inescrutável.

“Chefe McCade, está mesmo a questionar a competência destes dois agentes de Quantico?”

Depois, virando-se para o chefe de equipa do FBI, acrescentou, “Agente Sanderson, o que tem a dizer sobre isto?”

McCade e Sanderson olharam para a Dra. Shankar num silêncio espantado.

Riley reparou que a Dra. Shankar lhe sorria. Riley não conseguiu evitar retribuir-lhe o sorriso com admiração. Ali no seu próprio edifício, Shankar sabia como projetar a sua presença autoritária. Não importava quem mais pensava que mandava. Ela era um osso duro de roer.

O Chefe McCade abanou a cabeça resignado.

“OK,” Disse. “Se querem a morada, nós damos a morada.”

O Agente Sanderson acrescentou rapidamente, “Mas quero que alguns dos meus homens vão com vocês.”

“Parece-me justo,” Disse Riley.

McCade anotou a morada e entregou-a a Bill.

Sanderson deu a reunião por terminada.

“Jesus, alguma vez tinhas visto um par tão arrogante de idiotas na tua vida?” Perguntou Bill a Riley enquanto se dirigiam para o carro. “Como é que vamos conseguir fazer alguma coisa?”

Riley não respondeu. A verdade era que não sabia. Ela pressentia que aquele caso ia ser suficientemente duro sem terem que lidar com a política de poderes locais. Ela e Bill tinham que agir rapidamente antes que mais alguém morresse.




CAPÍTULO NOVE


Hoje o seu nome era Judy Brubaker.

Ela gostava de ser Judy Brubaker.

As pessoas gostavam de Judy Brubaker.

Movia-se energicamente em redor da cama vazia, arranjando os lençóis e ajeitando as almofadas. Ao fazê-lo, sorria para a mulher sentada num confortável cadeirão.

Judy ainda não decidira se a matava.

O tempo está a esgotar-se, Pensou Judy. Tenho que me decidir.

O nome da mulher era Amanda Somers. Judy encarava-a como uma criaturinha estranha, tímida e reservada. Estava a ser tratada por Judy desde o dia anterior.

Continuando a fazer a cama, Judy começou a cantar.



Longe de casa,

Tão longe de casa-

Este bebé pequenino está longe de casa.



Amanda juntou-se a Judy com a sua vozinha.



Definha

De dia para dia

Demasiado triste para rir, demasiado triste para brincar.



Judy ficou algo surpreendida. Amanda Somers não tinha demonstrado qualquer interesse na canção de embalar até àquele momento.

“Gosta desta canção?” Perguntou Judy Brubaker.

“Penso que sim,” Disse Amanda. “É triste e acho que se adequa à minha disposição.”

“Porque é que está triste? O seu tratamento já terminou e vai para casa. A maioria dos pacientes fica feliz ao saber que vai para casa.”

Amanda suspirou e não disse mais nada. Juntou as mãos em posição de oração. Ao manter os dedos juntos, movia as palmas para longe uma da outra. Repetiu o movimento algumas vezes. Era um exercício que Judy lhe ensinara para ajudar no processo de cura depois da cirurgia de Amanda ao túnel do carpo.

“Estou a fazer isto bem?” Perguntou Amanda.

“Quase,” Disse Judy, ajoelhando-se a seu lado e tocando-lhe nas mãos para corrigir os seus movimentos. “Precisa de manter os dedos alongados para que se inclinem para fora. Lembre-se, as suas mãos devem parecer uma aranha a fazer flexões num espelho.”

Amanda agora já fazia os movimentos e forma correta. Sorriu, parecendo estar muito orgulhosa de si.

“Sinto mesmo que está a ajudar,” Disse ela. “Obrigada.”

Judy observou Amanda a prosseguir os seus exercícios. Judy odiava a pequena e feia cicatriz que se estendia na parte inferior da mão direita de Amanda.

Cirurgia desnecessária, Pensou Judy.

Os médicos aproveitaram-se da confiança e credulidade de Amanda. Ela tinha a certeza de que tratamentos menos drásticos teriam funcionado tão bem ou melhor. Talvez algumas injeções de corticoides. Judy tinha visto demasiados médicos a insistir em cirurgias, quer fossem realmente necessárias ou não. Era algo que a enfurecia.

Mas hoje Judy não estava apenas aborrecida com os médicos. Sentia-se impaciente com a doente também. E não sabia bem porquê.

Esta é difícil de entender, Pensou Judy ao sentar-se na borda da cama.

Durante todo o tempo em que permaneceram juntas, Amanda deixara que fosse apenas Judy a falar.

Judy Brubaker tinha muitas coisas interessantes de que falar é claro. Judy não era muito parecida com a agora desaparecida Hallie Stillians que tinha a personalidade caseira de uma tia de visita.

Judy Brubaker era a um tempo mais franca e mais extravagante, e geralmente vestia roupa de corrida e não vestuário mais convencional. Ela adorava contar histórias acerca das suas aventuras – Voo livre, skydiving, scuba diving, escalada e outras atividades semelhantes. Ela andara à boleia por toda a Europa e grande parte da Ásia.

E claro que nenhuma dessas aventuras tinha realmente acontecido, mas davam histórias magníficas.

A maior parte das pessoas gostava de Judy Brubaker. As pessoas que poderiam considerar Hallie um pouco enjoativa e adocicada, gostavam da personalidade mais direta de Judy.

Talvez Amanda não confie em Judy, Pensou.

Por alguma razão, Amanda não lhe tinha contado quase nada de si. Tinha quarenta e tal anos, mas nunca falara do seu passado. Judy ainda não sabia qual era a profissão de Amanda ou sequer se tinha profissão. Não sabia se Amanda já fora casada – apesar da ausência de uma aliança de casamento indicar que naquele momento não era casada.

Judy estava desapontada pela forma como as coisas estavam a decorrer. E o tempo estava realmente a esgotar-se. Amanda podia levantar-se e partir a qualquer momento. E ali estava Judy, ainda a tentar decidir se a envenenaria ou não.

Parte da sua indecisão era prudência. As coisas tinham-se alterado bastante no decorrer dos últimos dias. As suas duas últimas mortes estavam agora nos jornais. Parecia que algum médico-legista inteligente detetara tálio nos corpos. Era um desenvolvimento preocupante.

Ela tinha uma saqueta de chá preparada com uma receita alterada que usava um pouco mais de arsénico e um pouco menos de tálio. Mas a deteção era sempre um perigo. Ela não fazia ideia se as mortes de Margaret Jewell e Cody Woods tinham sido relacionadas às suas permanências em centros de reabilitação ou às pessoas que os tinham assistido. Este método de matar estava a tornar-se mais arriscado.

Mas o verdadeiro problema era que tudo aquilo parecia não fazer sentido.

Ela não conseguira estabelecer qualquer relacionamento com Amanda Somers.

Nem sentia que a conhecia.

Propor “brindar” à partida de Amanda com uma chávena de chá soaria forçado, até vulgar.

De qualquer das formas, a mulher ainda ali estava, a exercitar as mãos, não demonstrando qualquer inclinação para se ir embora, pelo menos para já.

“Não quer ir para casa?” Perguntou Judy.

A mulher suspirou.

“Bem, sabe, eu tenho problemas físicos. Por exemplo, as costas. Estão a piorar com a idade. O meu médico diz que preciso de ser operada. Mas não sei. Não consigo deixar de pensar que talvez a terapia seja o suficiente para melhorar. E você é uma excelente terapeuta.”

“Obrigada,” Disse Judy. “Mas sabe, não trabalho aqui a tempo inteiro. Sou freelancer e hoje é o meu último dia aqui por agora. Se ficar aqui durante mais tempo, já não será assistida por mim.”

Judy ficou alarmada com o olhar melancólico de Amanda e já não era a primeira vez que a olhara daquela forma.

“Não sabe como é que é,” Disse Amanda.

“O quê?” Perguntou Judy.

Amanda encolheu os ombros, olhando Judy nos olhos.

“Estar rodeada de pessoas em quem não pode confiar completamente. Pessoas que parecem preocupar-se consigo, e talvez se preocupem, ou por outro lado, talvez não. Talvez só queiram algo de si. Usuários. Usurpadores. Muitas pessoas na minha vida são assim. Não tenho família e não sei quem é meu amigo. Não sei em quem posso confiar.”




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