Perdidas 
Blake Pierce


Um Mistério de Riley Paige #10
Uma obra-prima de thriller e mistério! O autor fez um trabalho magnífico no desenvolvimento das personagens com um lado psicológico tão bem trabalhado que temos a sensação de estar dentro das suas mentes, sentindo os seus medos e aplaudindo os seus sucessos. A história é muito inteligente e mantém-nos interessados durante todo o livro. Pleno de reviravoltas, este livro obriga-nos a ficar acordados até à última página. Books and Movie Reviews, Roberto Mattos (re Sem Pistas) PERDIDAS é o livro #10 da série de mistério de Riley Paige que começou com o bestseller SEM PISTAS (Livro #1) – um livro que pode descarregar gratuitamente com mais de 1000 opiniões de cinco estrelas! Ainda a recuperar da morte de Lucy, sua ex parceira, e do SPT do parceiro Bill, a Agente Especial do FBI Riley Paige faz o seu melhor para se manter estável e equilibrar a vida familiar. Tem que decidir o que fazer com o namorado de April, a sarar as feridas causadas por um pai abusivo, e com Blaine, pronto para que a sua relação avance. Mas antes de resolver esses assuntos, Riley é chamada a resolver um novo caso. Numa idílica cidade suburbana do Midwest, estão a desaparecer adolescentes – e um corpo já apareceu. A polícia está em dificuldades e Riley é chamada para apanhar o assassino antes que outra rapariga desapareça. Para tornar tudo pior, Riley tem uma nova parceira – a sua némesis, a Agente Especial Roston – que a interrogara no caso de Shane. Um thriller psicológico negro com suspense de cortar a respiração, PERDIDAS é o livro #10 de uma nova série alucinante – com uma inesquecível nova personagem – que o obrigará a não largar o livro até o terminar. O Livro #11 da série de Riley Paige estará disponível brevemente.







PERDIDAS



(UM MISTÉRIO DE RILEY PAIGE—LIVRO 10)



B L A K E P I E R C E


Blake Pierce



Blake Pierce é o autor da série de enigmas RILEY PAGE, com doze livros (com outros a caminho). Blake Pierce também é o autor da série de enigmas MACKENZIE WHITE, composta por oito livros (com outros a caminho); da série AVERY BLACK, composta por seis livros (com outros a caminho), da série KERI LOCKE, composta por cinco livros (com outros a caminho); da série de enigmas PRIMÓRDIOS DE RILEY PAIGE, composta de dois livros (com outros a caminho); e da série de enigmas KATE WISE, composta por dois livros (com outros a caminho).



Como um ávido leitor e fã de longa data do gênero de suspense, Blake adora ouvir seus leitores, por favor, fique à vontade para visitar o site www.blakepierceauthor.com (http://www.blakepierceauthor.com) para saber mais a seu respeito e também fazer contato.



Copyright© 2016 Blake Pierce. Todos os direitos reservados. Exceto como permitido sob o Copyright Act dos Estados Unidos de 1976, nenhuma parte desta publicação pode ser reproduzida, distribuída ou transmitida por qualquer forma ou meios, ou armazenada numa base de dados ou sistema de recuperação sem a autorização prévia do autor. Este ebook está licenciado apenas para seu usufruto pessoal. Este ebook não pode ser revendido ou dado a outras pessoas. Se gostava de partilhar este ebook com outra pessoa, por favor compre uma cópia para cada recipiente. Se está a ler este livro e não o comprou ou não foi comprado apenas para seu uso, por favor devolva-o e compre a sua cópia. Obrigado por respeitar o trabalho árduo deste autor. Esta é uma obra de ficção. Nomes, personagens, empresas, organizações, locais, eventos e incidentes ou são o produto da imaginação do autor ou usados ficcionalmente. Qualquer semelhança com pessoas reais, vivas ou falecidas, é uma coincidência. Jacket image Copyright GongTo, usado sob licença de Shutterstock.com.


LIVROS ESCRITOS POR BLAKE PIERCE



SÉRIE DE ENIGMAS KATE WISE

SE ELA SOUBESSE (Livro n 1)

SE ELA VISSE (Livro n 2)



SÉRIE OS PRIMÓRDIOS DE RILEY PAIGE

ALVOS A ABATER (Livro #1)

ESPERANDO (Livro #2)



SÉRIE DE MISTÉRIO DE RILEY PAIGE

SEM PISTAS (Livro #1)

ACORRENTADAS (Livro #2)

ARREBATADAS (Livro #3)

ATRAÍDAS (Livro #4)

PERSEGUIDA (Livro #5)

A CARÍCIA DA MORTE (Livro #6)

COBIÇADAS (Livro #7)

ESQUECIDAS (Livro #8)

ABATIDOS (Livro #9)

PERDIDAS (Livro #10)

ENTERRADOS (Livro #11)



SÉRIE DE ENIGMAS MACKENZIE WHITE

ANTES QUE ELE MATE (Livro nº1)

ANTES QUE ELE VEJA (Livro nº2)

ANTES QUE COBICE (Livro nº3)

ANTES QUE ELE LEVE (Livro nº4)

ANTES QUE ELE PRECISE (Livro nº5)

ANTES QUE ELE SINTA (Livro nº6)

ANTES QUE ELE PEQUE (Livro nº7)

ANTES QUE ELE CAÇE (Livro nº8)

ANTES QUE ELE ATAQUE (Livro nº9)



SÉRIE DE ENIGMAS AVERY BLACK

MOTIVO PARA MATAR (Livro nº1)

MOTIVO PARA CORRER (Livro nº2)

MOTIVO PARA SE ESCONDER (Livro nº3)

MOTIVO PARA TEMER (Livro nº4)

MOTIVO PARA SALVAR (Livro nº5)

MOTIVO PARA SE APAVORAR (Livro nº6)



SÉRIE DE ENIGMAS KERI LOCKE

UM RASTRO DE MORTE (Livro nº1)

UM RASTRO DE HOMICÍDIO (Livro nº2)

UM RASTRO DE IMORALIDADE (Livro nº3)

UM RASTRO DE CRIME (Livro nº4)

UM RASTRO DE ESPERANÇA (Livro nº5)


ÍNDICE



PRÓLOGO (#u84a0bb3f-a8db-5c02-b2a6-04ac42945d0f)

CAPÍTULO UM (#u25755769-4061-52d6-b3ab-564794df4837)

CAPÍTULO DOIS (#u852f0f38-b0e4-52d8-911c-dc5077c5c238)

CAPÍTULO TRÊS (#u32e88226-2413-5f90-87b2-a0758aeb9299)

CAPÍTULO QUATRO (#u853ea07b-b986-5560-b862-6b925d7bab36)

CAPÍTULO CINCO (#u03b7ed53-b454-5c5e-880c-25b179acdefd)

CAPÍTULO SEIS (#ue99be72f-024d-5e36-8b1a-a721cb9f10f4)

CAPÍTULO SETE (#ue9ef0659-37ed-5fc1-9731-0240f6b09faf)

CAPÍTULO NOVE (#ub91baf82-9eb9-5be4-8b96-688f5433ed8e)

CAPÍTULO DEZ (#u127535cd-566b-515f-8700-f0c974d74a5f)

CAPÍTULO ONZE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO DOZE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO TREZE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO CATORZE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO QUINZE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO DEZASSEIS (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO DEZASSETE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO DEZOITO (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO DEZANOVE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO VINTE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO VINTE E UM (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO VINTE E DOIS (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO VINTE E TRÊS (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO VINTE E QUATRO (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO VINTE E CINCO (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO VINTE E SEIS (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO VINTE E SETE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO VINTE E QUATRO (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO VINTE E NOVE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO TRINTA (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO TRINTA E UM (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO TRINTA E DOIS (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO TRINTA E TRÊS (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO TRINTA E QUATRO (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO TRINTA E CINCO (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO TRINTA E SEIS (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO TRINTA E SETE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO TRINTA E OITO (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO TRINTA E NOVE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO QUARENTA (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO QUARENTA E UM (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO QUARENTA E DOIS (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO QUARENTA E TRÊS (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO QUARENTA E QUATRO (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO QUARENTA E CINCO (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO QUARENTA E SEIS (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO QUARENTA E SETE (#litres_trial_promo)




PRÓLOGO


Katy Philbin ria-se enquanto descia cautelosamente as escadas.

Para com isso! Disse a si própria.

O que é que tinha tanta graça?

Que estava ela a fazer, rindo-se como uma menina e não como a rapariga de dezassete anos que era?

O que ela ais queria no mundo era agir com a seriedade de uma adulta.

No final de contas, ele estava a tratá-la como uma adulta. Ele conversara com ela como uma adulta durante toda a noite, fazendo-a sentir-se especial e respeitada.

Até a chamara de Katherine e não Katy.

Ela gostava muito de ser tratada por Katherine.

Também gostava das bebidas que ele lhe preparara toda a noite – “Mai Tais”, assim ele lhes chamava, e eram tão doces que ela mal sentia o álcool.

E agora já nem se lembrava de quantos tomara.

Estaria bêbeda?

Oh, isso seria terrível! Pensou.

O que é que ele pensaria dela se não aguentasse umas quantas bebidas?

E agora sentia-se extremamente aérea.

E se caísse das escadas?

Olhou para os seus pés, pensando porque é que não se moviam como deveriam. E porque é que a estava tão escuro ali?

Para sua vergonha, ela nem se lembrava porque é que se encontrava naquele lanço de escadas de madeira que pareciam cada mais intermináveis.

“Para onde vamos?” Perguntou ela.

As suas palavras saíram arrastadas, mas pelo menos conseguira parar de rir.

“Eu disse-te,” Respondeu ele. “Quero mostrar-te uma coisa.”

Ela procurou-o. Ele estava algures no fundo das escadas, mas não o conseguia ver. Apenas um candeeiro se encontrava a um canto distante.

Mas aquela luz era suficiente para lhe lembrar onde estava.

“Ah, sim,” Murmurou ela. “Na tua cave.”

“Estás bem?”

“Sim,” Disse ela, tentando convencer-se a si mesma de que era verdade. “Eu desço já.”

Fez um esforço para que os pés descessem as escadas.

Ouviu-o dizer, “Anda, Katy. O que prometi mostrar-te está mesmo aqui.”

Vagamente, apercebeu-se…

Ele chamou-me de Katy.

Sentiu-se estranhamente desiludida, depois de durante toda a noite ter sido chamada de Katherine.

“Tou quase aí,” Disse ela.

A desarticulação das suas palavras piorava.

E por qualquer razão, considerou isso extremamente divertido.

Ouviu-o a dar uma risada.

“Estás a divertir-te, Katy?” Perguntou ele com um tom de voz agradável – um tom de voz de que ela gostava e em que confiava há muitos anos.

“Muito,” Disse ela, rindo novamente.

“Ainda bem.”

Mas agora o mundo parecia girar à sua volta. Debruçada sobre o corrimão, sentou-se nas escadas.

Ele falou outra vez num tom de voz menos paciente.

“Despacha-te, miúda. Não vou ficar aqui o dia todo.”

Katy levantou-se, lutando para limpar a cabeça. Não gostara do seu tom de voz agora. Mas será que o podia culpar por começar a ficar impaciente? O que se passava com ela? Porque é que não conseguia descer aquelas estúpidas escadas?

Estava a tornar-se cada vez mais difícil concentrar-se no local onde estava e no que estava a fazer.

Desequilibrou-se e caiu num degrau.

Interrogou-se outra vez – quantas bebidas teria tomado?

Depois lembrou-se.

Duas.

Apenas duas!

É claro que não bebia desde aquela noite horrível…

Até agora. Mas apenas bebera duas bebidas.

Por um momento, não conseguiu respirar.

Está a acontecer novamente?

Disse firmemente a si própria que estava a ser pateta.

Ela estava segura ali com aquele homem em quem confiara toda a vida.

E estava a fazer uma triste figura, e a última coisa que queria era fazer uma triste figura, sobretudo ao pé dele e depois dele a a tratar tão bem e de lhe servir aquelas bebidas e…

E agora tudo estava enevoado, desfocado e escuro.

E ela sentiu uma estranha náusea a insinuar-se.

“Não me estou a sentir lá muito bem,” Disse ela.

Ele não respondeu e ela não o conseguia ver.

Ela não conseguia ver nada.

“Acho que o melhor é eu ir para casa agora,” Disse ela.

Ele continuou calado.

Ela tateou cegamente no ar à sua frente.

“Ajuda-me… a levantar-me… das escadas. Ajuda-me a subir as escadas.”

Ela ouviu os seus passos a aproximarem-se, caminhando na sua direção.

Ele vai ajudar-me, Pensou.

Então porque é que uma sensação negativa se apoderava dela?

“Leva-me a casa,” Disse ela. “Podes fazer isso por mim? Por favor?”

Os passos cessaram.

Ela sentia a sua presença mesmo à sua frente, ainda que não o visse.

Mas porque é que ele não dizia nada?

Porque não fazia nada para a ajudar?

Então percebeu que sensação era aquela que a invadira.

Medo.

Invocou as suas últimas forças, agarrou o corrimão e ergueu-se.

Tenho que me ir embora, Pensou. Mas foi incapaz de falar de forma audível.

Depois Katy sentiu uma pancada na cabeça.

E depois não sentiu mais nada.




CAPÍTULO UM


Riley Paige esforçou-se para não chorar. Estava sentada no seu gabinete em Quantico a olhar para a foto de uma mulher jovem com gesso no tornozelo.

Porque é que me estou a punir desta forma? Interrogou-se.

No final de contas, ela precisava de pensar noutras coisas naquele momento – sobretudo numa reuniao da UAC agendada para dali a a poucos minutos. Riley temia aquela reunião porque podia ameaçar o seu futuro profissional.

Apesar disso, Riley não conseguia afastar o olhar da foto no telemóvel.

Tinha tirado aquela foto a Lucy Vargas no outono passado, ali mesmo na Unidade de Análise Comportamental. O tornozelo de Lucy estava engessado, mas o seu sorriso era simplesmente radiante, contrastando com a sua pele bronzeada e suave. Lucy tinha acabado de ser ferida no primeiro caso em que trabalhara com Riley e com o seu parceiro Bill Jeffreys. Mas Lucy fizera um trabalho fantástico e ela sabia-o, assim como Riley e Bill. Por isso Lucy sorria.

A mão de Riley tremeu um pouco ao segurar no telemóvel.

Agora Lucy estava morta – abatida por um atirador perturbado.

Lucy morrera nos braços de Riley, mas Riley sabia que a morte de Lucy não tinha sido por sua culpa.

Desejava que Bill pensasse da mesma forma. O seu parceiro estava de licença e a passar menos bem.

Riley estremeceu ao lembrar-se do desfecho de tudo.

A situação era caótica e em vez de atingir o atirador, Bill atingira um homem inocente que tentava ajudar Lucy. Felizmente, o homem não tinha ficado gravemente ferido e ningué culpava Bill pelas suas ações, muito menos Riley. Riley nunca o vira tão debilitado pela culpa e pelo trauma. Interrogava-se quando é que ele regressaria ao trabalho – se alguma vez regressasse.

Riley ficou com um nó na garganta ao lembrar-se de segurar Lucy nos braços.

“Tens uma grande carreira à tua frente,” Dissera Riley. “Agora fica connosco Lucy. Fica connosco.”

Mas não havia nada a fazer. Lucy perdera demasiado sangue. Riley sentira a vida a escapar-se do corpo de Lucy até desaparecer em definitivo.

E agora as lágrimas escorriam pelo rosto de Riley.

As suas recordações foram interropidas por uma voz familiar.

“Agente Paige…”

Riley olhou e viu Sa Flores, o técnico de laboratório com óculos de aros pretos. Ele estava à porta do seu gabinete.

Riley abafou a dor que sentia naquele momento.Limpou apressadamente as lágrimas e tentou esconder o telemóvel.

Mas percebeu pela expressão afetada de Sam que ele vira o que ela contemplava. E isso era a última coisa que ela queria.

Estava a nascer uma relação entre Sam e Lucy, e custara-lhe muito suportar a sua morte. Ainda parecia atordoado.

Agora Flores olhava tristemente para Riley, mas para alívio dela ele não perguntou o que acabara de interromper.

Em vez disso, disse, “Vou para a reunião. Vem?”

Riley anuiu e Sam retribuiu-lhe o gesto.

“Bem, boa sorte Agente Paige,” Disse ele, prosseguindo o seu caminho.

Riley murmurou alto para si própria…

“Sim, boa sorte.”

Sam parecia perceber que ela precisaria de sorte para esta reunião.

Chegara o momento de se recompor e enfrentar o que viesse.



*



Um pouco depois, Riley sentou-se na ampla sala de reuniões rodeada por mais pessoal da UAC do que esperava, incluindo técnicos e investigadores de várias áreas. Nem todos os rostos eram familiares e nem todos eram amigáveis.

Precisava mesmo de um aliado agora, Pensou.

Sentia a falta da presença de Bill. Sam Flores sentou-se próximo, mas parecia demasiado abatido para a ajudar de alguma forma.

O rosto menos amigável de todos era o do Agente Especial Responsável Carl Walder que estava sentado à sua frente. O homem de rosto sardento dividia o seu olhar entre Riley e um relatório que tinha diante de si.

Disse num tom de voz soturno, “Agente Paige, estou a tentar perceber o que é que se passa aqui. Concedemos um pedido de colocar agentes na sua casa em permanência. Isto parece estar relacionado com as atividades recentes de Shane Hatcher, mas não sei ao certo como ou porquê. Explique, por favor.”

Riley engoliu em seco.

Ela sabia que naquela reunião se falaria da sua relação com Shane Hatcher, um foragido brilhante e perigoso.

Ela também sabia que uma explicação completa e honesta significaria o fim da sua carreira.

Até a podia levar à prisão.

Ela disse, “Agente Walder, como sabe Shane Hatcher foi visto pela última vez numa cabana que possuo nas Montanhas Apalache.”

Walder assentiu e esperou que Riley prosseguisse.

Riley sabia que tinha que escolher as palavras muito cuidadosamente. Até há pouco tempo, ela e Hatcher tinham um pacto secreto. Em troca por ajudar Riley num caso intensamente pessoal, Riley concordara em deixar Hatcher esconder-se na cabana que herdara do pai.

Fora um pacto com o diabo e Riley encarava-o agora com vergonha.

Riley continuou, “Como também sabe, Hatcher fugiu à equipa SWAT do FBI que cercou a cabana. Tenho motivos para crer que poderá ir a minha casa.”

Walder olhou para ela com desconfiança.

“Porque pensa isso?”

“O Hatcher está obcecado por mim,” Disse Riley. “Agora que foi encontrado, tenho quase a certeza que tentará chegar a mim. Se for esse o caso, os agentes que se encontram na minha casa, terão uma boa oportunidade de o capturar.”

Tratava-se, no mínimo, de uma meia-verdade.

A verdadeira razão pela qual queria agentes na sua casa era para a proteger a ela e a sua família.

Walder sentou-se tamborilando os dedos na mesa durante um momento.

“Agente Paige, diz que Hatcher está obcecado por si. Tem a certeza que essa obsessão não é mútua?”

Riley ficou surpreendida com a insinuação.

Ficou aliviada quando o superior imeditao, Brent Meredith, falou. Meredith tinha sempre uma presença intiidante com os seus traços angulosos e olhar rígido. Mas a relação de Riley com Meredith sempre tinha sido de respeito e amigável. Não raro havia sido seu aliado em momentos difíceis.

Riley esperava que também agora o fosse.

Ele disse, “Chefe Walder, penso que o pedido da Agente Paige solicitando agentes para sua casa foi bem fundamentado. Não podemos desperdiçar a mais pequena possibilidade de apanhar Hatcher.”

“Sim,” Disse Walder. “E não estou satisfeito com o facto de sabermos exatamente onde é que ele se encontrava e mesmo assim ter fugido.” Walder endireitou-se na cadeira, olhou diretamente para Riley e perguntou, “Agente Paige, avisou Hatcher de que a equipa SWAT ia cercá-lo?”

Riley ouviu uma reação na sala.

Poucas pessoas teriam a coragem de lhe colocar aquela pergunta. Mas Riley teve que suprimir um riso. Esta era uma pergunta que podia responder com honestidade. Por isso tinha motivos para temer Hatcher naquele momento.

“Não, não avisei,” Disse Riley firmemente, encontrando o olhar de Walder.

Walder baixou os olhos primeiro. Virou-se para Jennifer Roston, uma jovem mulher Afro-Americana com cabelo curto que estava sentada a olhar para Riley com uns olhos negros intensos.

“Tem perguntas a colocar, Agente Roston?” Perguntou ele.

Roston não disse nada durante um momento. Riley esperou ansiosamente pela sua resposta. Roston tinha sido incumbida de apanhar Shane Hatcher. Era nova na UAC e parecia ansiosa para deixar a sua marca. Riley não podia contar com a nova agente para ser sua aliada.

Roston não tirara os olhos de Riley durante o decurso de toda a reunião.

“Agente Paige, importa-se de explicar a exata natureza da sua relação com Shane Hatcher?”

Riley sobressaltou-se.

Ela queria dizer…

Sim, importo-me. Importo-me muito.

A tática de Roston começava a tornar-se clara a Riley.

Há alguns dias atrás, Roston tinha interrogado Riley e privado sobre aquele mesmo assunto naquela sala.

Agora Roston tencionava claramente fazer-lhe a mesma pergunta outra vez, esperando apanhar Riley em contradição. Roston esperava que Riley cedesse sob a pressão de uma grande reunião como aquela. E Riley sabia por experiência própria que não a devia subestimar. Roston era altamente capaz em jogos mentais.

Diz o mínimo possível, Disse a si própria. Tem muito cuidado.



*



Após o fim da reunião, todos saíram da sala exceto Riley.

Agora que terminara, Riley sentia-se demasiado abalada para se levantar da cadeira.

Roston fizera-lhe perguntas familiares – por exemplo, com que frequência é que Riley comunicara com Hatcher e como. Também colocara a questão da morte de Shirley Redding, a agente imobiliária que fora à cabana contra a vontade de Riley e lá morrera. A polícia não suspeitava de uma jogada desonesta, mas Riley tinha a certeza de que Hatcher a tinha assassinado por entrar no seu território. Riley pressentiu que Roston também suspeitava da verdade.

A todas as perguntas de Roston, Riley respondera com mentiras familiares.

Riley percebeu que Roston estava longe de estar satisfeita.

Isto ainda não acabou, Pensou com um arrepio. Durante quanto tempo conseguiria esconder toda a verdade sobre a sua relação co Hatcher?

Mas uma maior preocupação lhe pesava.

O que iria Shane Hatcher fazer agora?

Ela sabia que ele se sentia traído por ela não o ter avisado da ida da equipa SWAT à cabana. Na verdade, ele mostrara-se na cabana, permitira que o FBI se aproximasse apenas para testar a sua lealdade.

Na perspetiva de Hatcher, ela falhara o teste.

Ela lembrava-se de uma mensagem de texto que ele lhe enviara…



“Vai viver para se arrepender. Quanto à sua família, não sei.”



Ela conhecia Hatcher demasiado bem para não levar as suas ameaças a sério.

Riley mantinha-se sentada na grande mesa apertando as mãos ansiosamente.

Como é que deixei as coisas chegarem a isto? Interrogou-se.

Porque é que ela permitira que a sua relação com Hatcher continuasse mesmo depois da sua fuga da prisão?

Algo que Walder dissera ecoava na sua mente..

“Diz que Hatcher está obcecado por si. Tem a certeza que a obsessão não é mútua?”

Agora que estava ali sozinha, não conseguia negar a verdade por detrás da pergunta de Walder.

Hatcher fascinava Riley desde a primeira que se tinham encontrado em Sing Sing para obter a sua perspetiva enquanto reputado criminologista. Ele ainda a fascinava – fascinava-a com o seu brilhantismo, a sua crueldade e a sua estranha capacidade para ser leal. Na verdade, Riley sentia um estranho laço com ele – e Hatcher tudo fazia para o fortalecer e manipular.

Era como Hatcher algumas vezes lhe dissera:

“Estamos unidos pelo cérebro, Riley Paige.”

Riley estremeceu perante aquele pensamento.

Ela esperava finalmente ter quebrado esse laço.

Mas será que também atraíra a ira de Shane Hatcher sobre aqueles que mais amava?

Nesse preciso momento ouviu uma voz atrás de si.

“Agente Paige…”

Riley virou-se e viu que Jennifer Roston tinha entrado na sala.

“Penso que precisamos de falar mais um pouco,” Disse Roston, sentando-se na mesa de frente para Riley.

Riley ficou em pânico.

Que truque teria agora Roston na manga?




CAPÍTULO DOIS


Riley e Jennifer Roston ficaram sentadas encarando-se durante quase um minuto.

O suspense era demasiado para Riley aguentar.

Por fim, Roston disse, “Grande atuação, Agente Paige.”

Riley sentiu-se picada e zangada.

“Eu não tenho que aturar isto,” Disse Riley.

Começou a levantar-se da cadeira para se ir embora.

“Não, não vá,” Disse Roston. “Não se antes ouvir o que tenho para lhe dizer.”

Então, com um sorriso estranho acrescentou, “Pode ficar surpreendida.”

Riley sentiu-se como se soubesse perfeitamente bem o que ia na mente de Roston.

Ela metera na cabeça destruir Riley.

Ainda assim, Riley permaneceu sentada. Chegara o momento de esclarecer o que quer que se passasse entre ela e Roston. E para além disso, estava curiosa.

Roston disse, “Antes de mais nada, penso que começámos mal. Ocorreram alguns mal-entendidos. Nunca foi minha intenção que fôssemos inimigas. Acredite em mim, por favor. Eu admiro-a. Muito. Vim para a UAC ansiosa para trabalhar consigo.”

Riley foi apanhada de surpresa. A expressão facial e tom de voz de Roston pareciam perfeitamente sinceros. A verdade era que Riley ficara muito impressionada sobre tudo o que ouvira sobre Roston. Os seus resultados na academia tinham sido espantosos e já fora recomendada para trabalhar no terreno em Los Angeles.

E agora, ali sentada a olhar para ela, Riley estava novamente impressionada com a conduta de Roston. A mulher era baixa mas compacta e atlética, e irradiava energia e entusiasmo.

Mas agora não era altura de Riley elogiar a nova agente. Houvera demasiada tensão e desconfiança entre elas.

Após uma pausa, Roston disse, “Penso que temos muito a oferecer uma à outra. Neste momento. Na verdade, tenho a certeza de que ambas queremos a mesma coisa.”

“Que é o quê?” Perguntou Riley.

Roston sorriu e inclinou ligeiramente a cabeça.

“Por um ponto final na carreira de criminoso de Shane Hatcher.”

Riley não respondeu. Demorou um momento para Riley registar que as palavras de Roston eram a mais pura verdade. Para ela, Shane Hatcher já não era um aliado. Na verdade, era um perigoso inimigo. E tinha que ser parado antes que fizesse mal a algum ente querido de Riley.

Para tal, ele tinha que ser apanhado ou morto.

“Diga-me mais coisas,” Disse Riley.

Roston acomodou o queixo à mão e debruçou-se na direção de Riley.

“Vou dizer algumas coisas,” Disse ela. “Gostaria que ouvisse sem falar. Não negue nem concorde com aquilo que vou dizer. Limite-se a ouvir.”

Riley anuiu com algum desconforto.

“A sua relação com Shane Hatcher prosseguiu depois da fuga de Sing Sing. Na verdade, tornou-se mais intensa do que nunca. Comunicou com ele mais do que uma vez – várias vezes, tenho a certeza, pessoalmente de forma ocasional. Ele ajudou-a em casos oficiais e ajudou-a em situações mais pessoais. A sua relação com ele tornou-se – como é que se diz? Simbiótica.”

Riley teve que se conter bastante para não reagir ao que era dito.

É claro que era tudo verdade.

Roston prosseguiu, “Tenho a certeza que tinha conhecimento da sua presença na cabana. Na verdade, o mais provável é ter concordado. Mas a morte de Shirley Redding não foi um acidente. E não fazia parte do acordo. Hatcher está fora de controlo e não quer ter mais nada a ver com ele. Mas tem medo dele. Não sabe como cortar a ligação.”

Instalou-se um silêncio inquietante entre Riley e Roston. Riley interrogou-se como é que ela sabia tudo aquilo. Parecia estranho. Mas Riley não acreditava em telepatia.

Não, é só uma grande detetive, Pensou Riley.

Esta nova agente era extremamente esperta e os seus instintos e intuição pareciam ser tão fortes como os de Riley.

Mas o que é que Roston estava a tentar fazer agora? Estaria a montar uma armadilha, a tentar obrigar Riley a confessar tudo o que tinha sucedido entre ela e Hatcher?

O instinto de Riley dizia-lhe o contrário.

Mas atrever-se-ia a confiar nela?

Roston sorria enigmaticamente outra vez.

“Agente Paige, pensa que não sei como se sente? Pensa que não tenho os meus próprios segredos? Pensa que não agi erroneamente e fiz um pacto com quem não devia? Acredite em mim, sei exatamente com o que está a lidar. Arriscou e às vezes as regras têm que ser quebradas. Por isso quebrou-as. Não são muitos os agentes que têm essa coragem. Quero muito a sua ajuda.”

Riley estudou o rosto de Roston sem responder. Foi novamente atingida pela sinceridade da nova agente.

Riley detetou um sorriso soturno a formar-se nos cantos da sua boca. Parecia que algo obscuro se insinuava em Roston, tal como acontecia com Riley.

Roston disse, “Agente Paige, quando comecei a trabalhar no caso Hatcher, deu-me acesso a todos os ficheiros de computador relacionados com ele, exceto um denominado ‘PENSAMENTOS’. Estava listado no índice, mas não o consegui encontrar. Disse-me que o apagou. Disse que eram apenas algumas notas sem importância e escritos redundantes.”

Roston recostou-se na cadeira, parecendo relaxar um pouco.

Mas Riley estava tudo menos descontraída. Tinha eliminado o ficheiro denominado PENSAMENTOS de forma precipitada, um ficheiro que continha informação vital sobre as ligações financeiras de Hatcher – ligações que o permitiam manter-se em fuga ao mesmo tempo que detinha considerável poder.

Roston disse, “Tenho quase a certeza de que ainda tem esse ficheiro.”

Riley conteve um estremecimento de alarme. A verdade era que ela guardara o ficheiro numa pen. Muitas vezes pensara em simplesmente apagá-lo, mas não o conseguia fazer. A influência de Hatcher sobre ela fora poderoso. E talvez ela pensasse que poderia utilizar aquela informação algum dia.

Em vez de o apagar, mantivera-o por uma questão de indecisão.

Encontrava-se na mala de Riley naquele preciso momento.

“Tenho a certeza de que esse ficheiro é importante,” Disse Roston. “Na verdade, pode conter informação de que preciso para prender Hatcher de uma vez por todas. E ambas queremos que isso aconteça. Tenho a certeza.”

Riley engoliu em seco.

Não devo dizer nada, Pensou.

Mas será que tudo o que Roston dissera não fazia perfeito sentido?

Aquela pen podia muito bem ser a chave para libertar Riley das garras de Shane Hatcher.

A expressão de Roston suavizou-se mais.

“Agente Paige, vou fazer-lhe uma promessa solene. Se me facultar essa informação, ninguém jamais saberá que a reteve. Não direi a ninguém. Nunca.”

Riley sentiu a sua resistência a ruir.

O seu instinto dizia-lhe que podia confiar na sinceridade de Roston.

Pegou silenciosamente na sua mala, retirou a pen e entregou-a à agente mais nova. Os olhos de Roston dilataram-se ligeiramente, mas não proferiu uma palavra. Apenas assentiu e colocou a pen no bolso.

Riley sentiu uma necessidade desesperada de quebrar o silêncio.

“Quer discutir mais alguma coisa, Agente Roston?”

A agente deu uma risadinha.

“Trate-me por Jenn, por favor. Todos os meus amigos o fazem.”

Riley observou Roston a levantar-se.

“Se não se importar, não a tratarei de outra forma que não por Agente Paige. Pelo menos até se sentir confortável para que seja de outra forma. Mas por favor, trate-me por Jenn. Insisto.”

Roston saiu da sala, deixando Riley ali sentada num silêncio espantado.



*



Riley foi para o seu gabinete tratar de papelada. Quando não estava a trabalhar num caso, aguardava-a sempre toneladas de tédio burocrático e só desaparecia quando regressava ao terreno.

Era sempre desagradável, mas naquele dia estava a seer especialmente difícil concentrar-se no que estava a fazer. Começava a preocupar-se cada vez mais com a possibilidade de ter cometido um erro pateta.

Porque raio acabara ela de entregar aquele ficheiro a Jannifer Roston – ou “Jenn” como ela insistira que Riley a tratasse?

Era nada mais, nada menos do que uma confissão de obstrução da parte de Riley.

Porque é que entregara aquela informação àquela agente em particular quando nunca a mostrara a mais ninguém? Será uma jovem agente ambiciosa não a reportaria a transgressão de Riley aos seus superiores – talvez mesmo ao próprio Carl Walder?

A qualquer momento, Riley podia ser presa.

Porque é que não se limitara a apagar o ficheiro?

Ou podia ter-se livrado dele como fizera com a corrente de ouro que Hatcher lhe dera. A corrente fora um símbolo da sua ligação a Hatcher. Também continha um código para entrar em contacto com ele.

Riley deitara-a fora num esforço frenético para se libertar dele.

Mas por qualquer razão, não conseguira fazer o mesmo com a pen.

Porquê?

A informação financeira que continha era suficiente para limitar os movimentos e atividades de Hatcher.

Até o podia parar de vez.

Era um enigma, tal como tantos aspetos da sua relação com Hatcher.

Enquanto Riley mexia em papéis na sua secretária, o telemóvel vibrou. Era uma mensagem de um número desconhecido. Riley perdeu o fôlego quando viu o que dizia.



Pensava que isto me parava? Tudo foi mudado. Não pode dizer que não foi avisada.



Riley sentiu dificuldade em respirar.

Shane Hatcher, Pensou.




CAPÍTULO TRÊS


Riley olhou para a mensagem com o pânico a invadi-la.

Não era difícil de adivinhar o que sucedera. Jenn Roston abrira o ficheiro mal se tinham despedido. Jenn descobrira o que continha e começara logo a trabalhar para bloquear as operações de Hatcher.

Mas na sua mensagem, o próprio Hatcher anunciava desafiadoradamente que Jenn não tinha sido bem-sucedida.



Tudo foi mudado.



Shane Hatcher ainda estava em fuga e estava zangado. Com os seus recursos financeiros intactos, poderia ser mais perigoso do que nunca.

Tenho que lhe responder, Pensou. Tenho que me entender com ele.

Mas como? O que poderia ela dizer que não o enfurecesse ainda mais?

Então ocorreu-lhe que Hatcher poderia não compreender completamente o que se estava a passar.

Como poderia saber que era Roston que estava a sabotar a sua rede e não Riley? Talvez o conseguisse fazer compreender isso.

As suas mãos tremiam enquanto lhe respondia.



Deixe-me explicar.



\Mas quando tentou enviar o texto, surgiu-lhe a indicação de que não era possível ser entregue.

Riley desesperou.

Exatamente o mesmo que acontecera da última vez que tentara comunicar com Hatcher. Ele enviara uma mensagem críptica e não lhe dera hipótese de responder. Ela costumava conseguir comunicar com Hatcher por chat de vídeo, SMS e até chamadas telefónicas. Mas agora já não.

Naquele momento, não tinha forma de comunicar com ele.

Mas ele ainda conseguia comunicar com ela.

A segunda frase daquela nova mensagem era particularmente arrepiante.



“Não pode dizer que não foi avisada.”



Riley lembrou-se do que ele escrevera da última vez que haviam comunicado.



“Vai viver para se arrepender. A sua família talvez não.”



Num acesso de consciência, Riley disse alto…

“A minha família!”

Ligou atrapalhadamente para casa. Ouviu o toque, depois continuou a tocar. Então surgiu uma mensagem com a sua própria voz.

Era tudo o que Riley podia fazer para evitar gritar.

Porque é que ninguém atendia? As escolas estavam na pausa da primavera. As suas filhas deviam estar em casa. E onde é que estava Gabriela?

Antes da mensagem do telefone terinar, ouviu a voz de Jilly, a menina de treze anos que Riley estava prestes a adotar. Jilly parecia estar sem fôlego.

“Ei, desculpa mãe. A Gabriela foi à mercearia. A April, o Liam e eu estávamos no quintal a jogar à bola. A Gabriela deve estar quase a chegar.”

Riley percebeu que estivera a conter a respiração. Fez u esforço consciente para recomeçar a respirar.

“Está tudo bem?” Perguntou.

“Claro,” Disse Jilly de forma despreocupada. “Porque é que não estaria?”

Riley lutou para se acalmar.

“Jilly, podes ir espreitar à janela?”

“OK,” Disse Jilly.

Riley ouviu passos.

“Estou a espreitar,” Disse Jilly.

“A carrinha com os agentes do FBI ainda aí está?”

“Sim. E também outra no beco. Via-a quando estava no quintal. Se esse tal de Shane Hatcher aparecer, apanham-no de certeza. Passa-se alguma coisa? Estás a assustar-me.”

Riley forçou um sorriso.

“Não, não se passa nada. Estou só – a ser mãe.”

“OK. Vemo-nos mais tarde.”

A chamada terminou, mas Riley ainda estava preocupada.

Caminhou pelo corredor diretamente para o gabinete de Brent Meredith.

Riley gaguejou, “Eu… eu preciso de tirar o resto do dia.”

Meredith fitou-a.

“Posso perguntar poirquê, Agente Paige?” Perguntou.

Riley abriu a boca, mas não saíram palavras. Se ela explicase que acabara de receber uma ameaça de Shane Hatcher, não insistiria ele em ver a mensagem? Como a poderia mostrar sem admitir que dera o ficheiro a Jenn Roston?

Agora Meredith parecia preocupado. Ele parecia consciente de que havia algo de errado de que Riley não podia falar.

“Vá,” Disse ele. “Espero que tudo esteja bem.”

Riley sentiu uma imensa gratidão pela compreensão e descrição demonstradas por Meredith.

“Obrigada,” Disse ela.

Depois saiu do edifício, entrou no carro e foi para casa.



*



Ao aproximar-se da sua casa situada num pacato bairro de Fredericksburg, ficou aliviada por ver que a carrinha do FBI ainda lá estava. Riley sabia que havia outra carrinha estacionada no beco. Apesar de os veículos estarem descaracterizados, não eram propriamente discretos. Mas nada se podia fazer quanto a isso.

Riley estacionou o carro, caminhou na direção da carrinha e olhou para a janela aberta do passageiro.

Dois jovens agentes estavam sentados à frente – Craig Huang e Bud Wigton. Riley sentiu-se mais tranquilizada. Tinha ambos os agentes em elevada consideração e trabalhara com Huang diversas vezes recentemente. Riley não simpatizara de imediato com Huang quando ele chegou à UAC, mas começava a amadurecer rapidamente para se tornar num excelente agente. Não conhecia Wigton tão bem, mas ele tinha uma excelente reputação.

“Passa-se alguma coisa?” Perguntou Riley pela janela.

“Nada,” Disse Huang.

Huang parecia aborrecido, mas Riley sentiu-se aliviada. Não haver novidades eram boas notícias para ela. Mas seria bom demais para durar?

“Posso entrar?” Perguntou Riley.

“Claro,” Disse Huang.

A porta lateral deslizou e Riley entrou, encontrando outro agente, Grace Lochner, no interior. Riley sabia que Grace também tinha uma reputação notável na UAC.

Lochner estava sentada em frente a vários monitores de vídeo. Virou-se para Riley com um sorriso.

“O que é que tens aqui?” Perguntou Riley.

Parecendo ansiosa por mostrar a tecnologia à sua disposição, Lochner apontou para alguns monitores que mostravam vistas aéreas do bairro.

Ela disse, “Aqui temos imagens de satélite em tempo real a mostrar todas as vindas e idas num raio de meio quilómetro. Ninguém se pode aproximar daqui sem darmos por isso.”

A rir-se, Lochner acrescentou, “Ainda bem que vives num bairro sossegado. Não temos que monitorizar tanto tráfego.”

Apontou para vários outros monitores que mostravam a atividade ao nível da rua.

Disse, “Escondemos câmaras à volta do bairro para ver o que se passa mais de perto. Podemos verificar matrículas de qualquer veículo que se aproxime.”

Uma voz soou num intercomunicador.

“Têm uma visita?”

Lochner respondeu, “A Agente Paige passou por aqui para nos cumprimentar.”

A voz disse, “Olá Agente Paige. Sou o Agente Cole e estou no veículo atrás da sua casa. Tenho comigo os Agentes Cypher e Hahn.”

Riley sorriu. Eram todos nomes familiares de agentes com boa reputação.

Riley disse, “Estou contente por estarem aqui.”

“O prazer é nosso,” Disse o Agente Cole.

Riley estava impressionada com a comunicação entre as duas carrinhas. Ela podia ver a carrinha atrás da sua casa em alguns dos monitores de Lochner. Era obvio que nada podia acontecer com nenhuma das equipas sem que a outra o detetasse imediatamente.

Riley também ficou agradada com as armas presentes no interior da carrinha. A equipa tinha suficiente poder de fogo para combater um pequeno exército se necessário.

Mas não conseguia deixar de pensar se seria suficiente para combater Shane Hatcher? Saiu da carrinha e encaminhou-se para sua casa, dizendo a si própria para não se preocupar. Não conseguia imaginar Shane Hatcher a passar por cima de toda aquela segurança.

Ainda assim, não conseguia evitar lembrar-se da mensagem que recebera.



Não pode dizer que não foi avisada.




CAPÍTULO QUATRO


Quando Riley entrou em sua casa, o local parecia soturnamente vazio.

“Cheguei,” Disse.

Mas ninguém respondeu.

Onde estão todos? O alarme que sentiu começou a transformar-se em pânico.

Seria possível que Shane Hatcher pudesse passar por todo aquele dispositivo de segurança?

Riley tentou não imaginar o que poderia acontecer caso tal tivesse sucedido. O seu pulso e respiração aceleraram ao dirigir-se para a sala.

Os três miúdos – April, Liam e Jilly – estava lá. A April e o Liam estavam a jogar xadrez e a Jilly estava a jogar um jogo de vídeo.

“Ouviram-me?” Perguntou.

Os três olharam para ela com expressões distraídas. Estavam obviamente todos concentrados no que estava a fazer.

Estava prestes a perguntar aos miúdos onde é que estava Gabriela quando ouviu a voz da epregada atrás dela.

“Está em casa, Señora Riley? Estava lá e baixo e pareceu-e ouvi-la entrar.”

Riley sorriu à robusta mulher Guatemalteca.

“Sim, acabei de chegar,” Disse, já respirando melhor.

Assentindo e sorrindo, Gabriela virou-se e dirigiu-se para a cozinha.

April tirou os olhos do jogo por u omento.

“Está tudo bem, mãe? Pareces um pouco agitada.”

“Está tudo bem,” Disse Riley.

April voltou a sua atenção novamente para o jogo.

Riley demorou um momento a pensar na maturidade da sua filha de quinze anos. April era elegante, alta, tinha cabelo escuro e os olhos de avelã de Riley. April já passara por muito nos últimos meses, mas agora parecia estar a passar muito bem.

Riley olhou para Jilly, uma rapariga mais pequena com pele mais escura e grandes olhos negros. Riley estava a passar pelo processo de a adotar. Naquele momento, Jilly estava sentada em frente a um grande monitor a tratar da saúde de alguns tipos maus.

Riley não ficou agradada. Não gostava de jogos de vídeo violentos. No que lhe dizia respeito, faziam a violência – sobretudo a violência com armas – parecer demasiado atrativa e demasiado asséptica. Riley acreditava que exerciam uma influência negativa sobretudo nos rapazes.

Ainda assim, pensou Riley, talvez aqueles jogos fossem inofensivos quando comprados com a própria experiência de Jilly. No final de contas, a menina de treze anos sobrevivera a horrores na vida real. Quando Riley encontrou Jilly, ela estava a tentar vender o corpo por puro desespero. Graças a Riley, Riley tivera a oportunidade de ter uma vida melhor.

Liam levantou o olhar do tabuleiro de xadrez.

“Ei Riley. Estava a pensar…”

Hesitou antes de fazer a pergunta.

Liam era novo lá em casa. Riley não tinha planos para adotar o miúdo alto, ruivo e de olhos azuis. Mas salvara-o de um pai bêbedo que lhe batia. Precisava de um lugar para viver naquele momento.

“O que é Liam?” Perguntou Riley.

“Não há problema se for a uma competição de xadrez amanhã?”

“Também posso ir?” Perguntou April.

Riley sorriu novamente. Liam e April namoravam quando Liam começou a viver ali em baixo na sala de família, mas tinham prometido suspender a sua relação por enquanto. Tinham que ser hermanos solamente, como Gabriela dissera – apenas irmão e irmã.

Riley gostava de Liam, e ainda mais pela influência positiva que o rapaz inteligente tinha sobre April que se interessara por xadrez, línguas estrangeiras e trabalho escolar em geral.

“É claro que ambos podem ir,” Disse ela.

Mas depois teve um repentino acesso de preocupação. Tirou o telemóvel, encontrou algumas fotos de Shane Hatcher e mostrou-as aos três miúdos.

“Mas têm que ter cuidado com Shane Hatcher,” Disse ela. “Têm estas fotos nos vossos telemóveis. Lembrem-se sempre da sua aparência. Liguem-me de imediato se virem alguém que se pareça com ele.”

Liam e April olharam para Riley surpreendidos.

“Já nos disseste isto antesm” Disse Jilly. “E vimos essas fotos um milhão de vezes. Alguma coisa mudou?”

Riley vacilou por um momento. Ela não queria assustar os miúdos. Mas sentia que tinham que ser avisados.

“Recebi uma mensagem de Hatcher há pouco,” Disse ela. “Era…”

Hesitou novamente.

“Era uma ameaça. É por isso que quero que estejam muito atentos.”

Para surpresa de Riley, Jilly sorriu-lhe.

“Isso quer dizer que ficamos em casa quando a pausa de primavera da escola terminar?” Perguntou.

Riley ficou alarmada com a despreocupação de Jilly. Também se interrogou se a ideia de Jilly não era correta. Deveria manter os miúdos longe da escola? E não deveriam o Liam e a April ir à competição de xadrez no dia seguinte?

Antes de pensar bem nas coisas, April disse, “Não sejas pateta, Jilly. É claro que vamos continuar a ir à escola. Não podemos deixar de viver as nossas vidas.”

Depois, virando-se para Riley, April acrescentou, “Não é uma ameaça real. Até eu sei isso. Lembram-se do que aconteceu em janeiro?”

Riley lembrava-se demasiado bem. Hatcher tinha salvo April e Ryan, o ex-marido de Riley, de um assassino que se queria vingar de Riley. Também se lembrava como Shane Hatcher tinha deixado o assassino preso e amordaçado para que Riley lidasse com a situação como entendesse.

April continuou, “O Hatcher não nos faria mal. Deu-se a muito trabalho para me salvar.”

Talvez a April tivesse razão, Pensou Riley. Pelo menos no que dizia respeito a ela e aos outros miúdos. Mas mesmo assim estava contente por os agentes se encontrarem à porta.

April encolheu os ombros e acrescentou, “A vida continua. Temos que continuar a fazer o que fazemos.”

Jilly disse, “E isso também é para ti mãe. É bom teres vindo para casa mais cedo. Assim tens muito tempo para te preparares para hoje à noite.”

Durante um momento, Riley não se lembrava a que é que Jilly se referia.

Então recordou-se – tinha um encontro com o seu antigo vizinho, Blaine Hildreth. Blaine era dono de um dos mais simpáticos resraurantes de Fredericksburg. Planeava passar por lá, apanhar Riley e levá-la a desfrutar de um magnífico jantar.

April levantou-se.

“Ei, é verdade!” Disse ela. “Anda mãe. Vamos até lá acima e eu ajudo-te a escolher a roupa.”



*



Mais tarde nessa noite, Riley estava sentada no pátio iluminado por velas do Blaine’s Grill, apreciando o tempo fantástico, a excelente comida e a adorável companhia. À sua frente, Blaine estava tão atraente como sempre. Era apenas um pouco mais novo do que Riley, em forma e aparentando já sinais de falta de cabelo de que não se orgulhava.

Riley também o considerava uma agradável companhia para conversar. Enquanto comiam um delicioso prato de pasta com frango em alecrim, conversaram sobre acontecimentos atuais, memórias de tempos há muito passados e viagens.

Riley estava encantada por a sua conversa nunca ter trazido à tona o seu trabalho na UAC. Nem estava com disposição para pensar nisso. Blaine parecia pressentir isso e manteve-se longe do assunto. Uma coisa que Riley gostava muito em Blaine era a sua sensibilidade aos seus humores.

Na verdade, havia muito poucas coisas em Blaine de que Riley não gostava. É verdade que tinham tido uma discussão há pouco tempo. Blaine tentara provocar ciúmes em Riley com uma amiga e conseguira realizar o seu intento. Agora já se conseguiam rir da sua infantilidade.

Talvez fosse do vinho, mas Riley sentia-se extremamente descontraída. Blaine era uma companhia confortável – recentemente divorciado como Riley e ansioso para prosseguir com a sua vida sem saber muito bem como.

A sobremesa chegou finalmente – a favorita de Riley, cheesecake de framboesa. Sorriu ligeiramente ao recordar-se do telefonema que um dia April fizera a Blaine para lhe dar a conhecer algumas das suas coisas preferidas, incluindo cheesecake de framboesa e a sua música preferida – “One More Night” de Phil Collins.

Ao desfutar o cheesecake, Riley falou dos seus miúdos, sobretudo de como Liam se estava a habituar a tudo.

“A princípio estava um pouco preocupada,” Admitiu. “Mas ele é um miúdo espetacular e todas gostamos imenso de o ter lá em casa.”

Riley parou de falar durante um momento. Parecia um luxo ter alguém com quem falar sobre as suas dúvidas e preocupações domésticas.

“Blaine, não sei o que vou fazer com o Liam a longo prazo. Não o posso mandar de volta para aquele pai bêbedo e só Deus sabe o que é feito da mãe. Mas não vejo como é que o posso adotar legalmente. Acolher a Jilly tem sido complicado e ainda não é uma situação resolvida. Não sei se consigo passar por isso outra vez.”

Blaine sorriu-lhe.

“Encara as coisas um dia de cada vez,” Disse ele. “E faças o que fizeres, será sempre o melhor para ele.”

Riley abanou a cabeça tristemente.

“Quem me dera ter a certeza,” Disse ela.

Blaine segurou na mão de Riley.

“Bem, acredita no que te digo,” Disse ele. “O que já fizeste pelo Liam e pela Jilly é maravilhoso e generoso. Admiro-te muito por isso.”

Riley sentiu um nó na garganta. Quantas vezes alguém lhe dizia coisas daquelas? Era muitas vezes elogiada no seu trabalho na UAC e até recebera uma Medalha de Perseverança recentemente. Mas não estava habituada a ser elogiada por coisas simples. Nem sabia como lidar com isso.

Então Blaine disse, “És uma boa mulher, Riley Paige.”

Riley sentiu lágrimas nos olhos. Riu-se nervosamenteao limpá-las.

“Oh, vê só o que fizeste,” Disse ela. “Fizeste-me chorar.”

Blaine encolheu os ombros e irradiou um sorriso delicado.

“Desculpa. Só estou a tentar ser brutalmente honesto. Acho que às vezes a verdade dói.”

Riram-se durante alguns momentos.

Por fim, Riley disse, “Mas não te perguntei pela tua filha. Como tem passado a Crystal?”

Blaine desviou o olhar com um sorriso agridoce.

“A Crystal está ótima – boas notas, feliz e alegre. Agora está na praia com os primos e a minha irmã.”

Blaine suspirou. “Só se passaram alguns dias, mas já estou cheio de saudades.”

Riley ficou novamente à beira de chorar. Sempre soubera que Blaine era um pai extraordinário. Como seria ter uma relação mais permanente com ele?

Calma, Disse a si própria. Não nos apressemos.

Entretanto, já quse tinha terminado o seu cheesecake de framboesa.

“Obrigada, Blaine,” Disse ela. “Foi uma noite maravilhosa.”

Fitando-o mais intensamente, acrescentou, “Odeio vê-la terminar.”

Olhando para ela com a mesma intensidade, Blaine apertou-lhe a mão.

“Quem diz que tem que acabar?” Perguntou ele.

Riley sorriu. Ela sabia que o seu sorrido era suficiente para responder à sua pergunta.

No final de contas, porque é que a sua noite deveria terminar? O FBI estava a guardar a sua família e nenhum assassino exigia a sua atenção.

Talvez tivesse chegado o momento de se divertir.




CAPÍTULO CINCO


George Tully não gostava do aspeto de um pedaço de terreno na estrada. Não sabia exatamente porquê.

Não tens que te preocupar, Disse a si próprio. A luz da manhã estaria apenas a pregar-lhe partidas.

Inspirou o ar fresco. Depois inclinou-se e apanhou uma mão cheia de terra solta. Como sempre, era macia e rica. Também cheirava bem, rica com nutrientes de antigas colheitas de milho.

A boa terra do Iowa, Pensou enquanto pedaços dela lhe escapavam pelos dedos.

A terra estava na família de George há muitos anos, por isso conhecera aquele magnífico solo toda a vida. Mas nunca se canasava dele e o seu orgulho em lavrar a terra mais rica do mundo nunca se esgotava.

Olhou para os campos que se estendiam ao longo de uma imensa extensão. A terra fora lavrada há alguns dias. Estava pronta para receber os grãos de milho já pulverizados com insecticída.

Adiara a plantação até àquele dia devido às condições meteorológicas. É claro que não havia forma de saber se uma geada surgiria mesmo naquela altura do ano, arruinado assim a colheita. Lembrava-se de uma nevasca em abril nos anos 70 que apanhara o pai de surpresa. Mas quando George sentiu uma brisa de ar quente e olhou para as nuvens altas que atravessavam o céu, sentiu confiança para avançar.

Hoje é o dia, Pensou.

Enquanto George ali permaneceu, o seu ajudante Duke Russo chegou a conduzir um trator que transportava um plantador de doze metros. O plantador plantaria dezasseis filas de seguida, com uma distância de trinta polegadas, um grão de cada vez, depositando o fertilizante em cima de cada um, cobriria a semente e prosseguiria.

Os filhos de George, Roland e Jasper, estavam no campo à espera da chegada do trator e caminharam na sua direção. George sorriu para si próprio. Duke e os rapazes eram uma boa equipa. Não havia necessidade de George ficar para a sementeira. Acenou aos três homens, depois virou-se para regressar ao seu camião.

Mas aquele pedaço estranho de terra junto à estrada chamou a sua atenção mais uma vez. O que estava errado ali? A semeadora tinha falhado aquele pedaço? Não compreendia como é que aquilo podia ter acontecido.

Talvez uma marmota andasse por ali a escavar.

Mas ao aproximar-se do local, pode ver que não fora uma marmota a fazer aquilo. Não havia abertura e a terra estava achatada.

Parecia que algo tinha sido ali enterrado.

George rabujou. Os vândalos e os brincalhões às vezes davam-lhe trabalho. Hà alguns anos atrás, alguns rapazes de Angier roubaram um trator e usaram-no para demolir um barracão de armazenamento. Mais recentemente, outros tinham pontado obscenidades em vedaçoes e paredes e até em gado.

Era enfurecedor – e doloroso.

George não fazia ideia porque é que os miúdos lhe arranjavam problemas. Nunca lhes fizera mal que soubesse. Dera conhecimento dos incidentes a Joe Sinard, o chefe da policia de Angier, mas nunca nada fora feito.

“O que é que aqueles sacanas fizeram desta vez?” Disse em voz alta, calcando a terra com o pé.

Achou que o melhor era descobrir. O que quer que estivesse enterrado ali, poderia estragar o equipamento.

Virou-se para a sua equipa e acenou a Duke para parar o trator. Quando motor foi desligado, George gritou aos filhos.

“Jasper, Roland – tragam-me essa pá que está na cabina do trator.”

“O que é que se passa pai?” Indagou Jasper.

“Não sei. Traz-me a pá.”

Um momento mais tarde, Duke e os rapazes já caminhavam na sua direção. Jasper entregou a pá ao pai.

George manejou a pá contra a terra enquanto o grupo observava a operação com curiosidade. Ao enterrar a pá na terra, um cheiro estranho, azedo, inundou-lhe as narinas.

Sentiu uma onda de pavor instintivo.

Que raio está aqui em baixo?

Continuou a escavar até atingir algo sólido mas mole.

Escavou com mais cuidado, tentando desenterrar o que quer que fosse. De repente, avistaram algo pálido.

Demorou alguns segundos até George conseguir perceber de que se tratava.

“Oh, meu Deus!” Exclamou com horror.

Era uma mão – a mão de uma mulher jovem.




CAPÍTULO SEIS


Na manhã seguinte, Riley deparou-se com Blaine a preparar um pequeno-almoço de ovos Benedict com sumo de laranja fresco e café escuro. Chegou à conclusão que fazer amor com paixão não se resumira aos ex-maridos. E percebeu que acordar confortavelmente ao lado de um homem era algo novo.

Sentiu-se grata por aquela manhã e gratidão para com Gabriela que se assegurou de tratar de tudo quando Riley lhe ligara na noite anterior. Mas não conseguia evitar pensar se uma relação daquele tipo sobreviveria devido às muitas outras complicações da sua vida.

Riley decidiu ignorar essa questão e concentrar-se na deliciosa refeição. Mas ao comerem, notou de imediato que a mente de Blaine parecia estar noutro lugar.

“O que é que se passa?” Perguntou-lhe.

Blaine não respondeu. Os seus olhos denotavam incómodo.

Riley ficou preocupada. O que é que se passava?

Estaria com dúvidas em relação à noite passada? Estaria menos satisfeito com a situação do que ela?

“Blaine, o que é que se passa?” Perguntou Riley com a voz a tremer ligeiramente.

Passados alguns instantes, Blaine disse, “Riley, eu não me sinto… seguro.”

Riley tentou compreender o que Blaine acabara de dizer. Teria todo o afeto partilhado na noite anterior subitamente desaparecido? O que se passara que alterara tudo?

“Eu… eu não compreendo,” Gaguejou Riley. “O que é que queres dizer quando dizes que não te sentes seguro?”

Blaine hesitou, depois disse, “Penso que tenho que comprar uma arma. Para proteção em casa.”

As suas palavras sacudiram Riley. Não estava à espera daquilo.

Mas talvez devesse, Pensou.

Sentada na mesa à frente de Blaine, viu a cicatriz na sua bochecha direita. A cicatriz que obtivera em novembro último em casa de Riley quando tentava proteger April e Gabriela de um atacante que se queria vingar de Riley.

Riley lembrava-se da terrível culpa que sentira ao ver Blaine inconsciente numa cama de hospital.

E agora voltava a sentir essa culpa.

Será que Blaine alguma vez se ia sentir seguro com Riley na sua vida? Alguma vez sentiria que a sua filha estava segura?

E seria uma arma aquilo de que precisava para o fazer sentir-se mais seguro?

Riley abanou a cabeça.

“Não sei Blaine,” Disse ela. “Não sou muito favorável a civis terem armas em casa.”

Mal proferiu as palavras, Riley percebeu como soara tão paternalista.

Não conseguia perceber pela expressão de Blaine se ficara ou não ofendido. Parecia estar à espera que ela dissesse algo mais.

Riley bebericou o café, organizando os pensamentos.

Ela disse, “Sabes que estatisticamente, ter armas em casa pode mais rapidamente levar a homicídios, suicídios e mortes acidentais do que a uma defesa caseira bem-sucedida? Na verdade, os donos de armas têm um maior risco de se tornarem vítimas de homicídio do que as pessoas que não possuem armas.”

Blaine assentiu.

“Sim, sei tudo isso,” Disse ela. “Fiz alguma pesquisa. Também conheço as leis de auto-defesa da Virginia. E que este é um estado em que há liberdade para possuir armas.”

Riley anuiu aprovadoramente.

“Bem, já estás mais preparado do que a maior parte das pessoas que decide comprar uma arma. Ainda assim…”

Não completou o raciocínio. Estava relutante em dizer o que lhe ia na cabeça.

“O que é?” Perguntou Blaine.

Riley respirou fundo.

“Blaine, ias querer comprar uma arma se eu não fizesse parte da tua vida?”

“Oh, Riley…”

“Diz-me a verdade. Por favor.”

Blaine ficou a olhar para o café durante alguns segundos.

“Não, não ia,” Disse finalmente.

Riley estendeu os braços na mesa e pegou na mão de Blaine.

“Era o que pensava. E deves imaginar como me sinto. Gosto muito de ti Blaine. É terrível saber que a tua vida é mais perigosa por minha causa.”

“Eu sei,” Disse Blaine. “Mas quero que me digas a verdade sobre uma coisa. E por favor não leves isto a mal.”

Riley preparou-se silenciosamente para o que Blaine lhe ia perguntar.

“Os teus sentimentos não são um bom motivo para eu comprar uma arma? Quero dizer, não é verdade que estou mais exposto que o cidadão comum e que me devo poder defender a mim e à Crystal – e talvez mesmo a ti?”

Riley encolheu os ombros. Sentiu-se triste por admiti-lo, mas Blaine tinha razão.

Se uma arma o fizesse sentir-se mais seguro, devia arranjar uma.

Ela também tinha a certeza que ele seria muito responsável enquanto dono de uma arma.

“OK,” Disse ela. “Vamos terminar o pequeno-almoço e vamos às compras.”



*



Mais tarde nessa manhã, Blaine entrou numa loja de armas com Riley. Blaine pensou de imediato se estaria a cometer um erro. Via armas nas paredes e em montras de vidro. Nunca dispara uma arma – a não ser que se pudesse contar com a arma de pressão que usara quando era miúdo.

No que é que me estou a meter? Pensou.

Um homem grande de barba com uma camisa xadrez movimentava-se entre a mercadoria.

“Em que vos posso ajudar?” Perguntou.

Riley disse, “Estamos à procura de uma arma de proteção pessoal para o meu amigo.”

“Bem, tenho a certeza que temos por aqui alguma coisa que lhe convenha,” Disse o homem.

Blaine sentiu-se constrangido sob o olhar do homem. Não devia ser todos os dias que uma mulher atraente ali entrava para o namorado escolher uma arma.

Blaine sentiu-se envergonhado. Até se sentiu envergonhado por se sentir envergonhado. Nunca se vira a si próprio como o tipo de homem que se sentisse inseguro em relação à sua masculinidade.

Enquanto Blaine saía da sua estranheza, o vendedor olhou para a arma de Riley aprovadoramente.

“Essa Glock Modelo 22 que aí tem é uma bela arma, minha senhora,” Disse ele. “Pertence às forças de segurança, não é?”

Riley sorriu e mostrou-lhe o distintivo.

O homem apontou para uma fila de armas semelhantes numa montra de vidro.

“Bem, tenho das vossas Glocks aqui. Uma excelente escolha, na minha opinião.”

Riley olhou para as armas, depois olhou para Blaine como que perguntando a sua opinião.

Blaine limitou-se a encolher os ombros e a corar.

Riley abanou a cabeça.

“Não me parece que uma semiautomática seja o tipo de arma que mais nos interessa,” Disse ela.

O homem assentiu.

“Sim, são complicadas, sobretudo para alguém sem grande experiência no manejo de armas. As coisas podem correr mal.”

Riley concordou, acrescentando, “Sim, podem acontecer falhas de ignição, obstrução, palheta dupla, falha na ejeção.”

O homem disse,”É claro que esses problemas não se colocam a uma experiente agente do FBI. Mas para este senhor, talvez um revólver seja a melhor escolha,”

O homem conduziu-os a uma montra de vidro repleta de revólveres.

Os olhos de Blaine repousavam nas armas com canos mais curtos.

Pelo menos pareciam menos intimidantes.

“E que tal este?” Disse ele, apontando para um em particular.

O homem abriu a montra, tirou a arma e entregou-a a Blaine. Era estranho ter a arma na mão. Não sabia se era mais leve ou mais pesada do que estava à espera.

“Uma Ruger SP101,” Disse o homem. “Nada má escolha.”

Riley olhou para a arma de forma incerta.

“Penso que estamos à procura de algo com um cano de quatro polegadas,” Disse ela. “Algo que absorva melhor o recuo.”

O homem voltou a assentir.

“Certo. Bem, penso que tenho aquilo que procuram.”

Tirou uma pistola maior da montra. Entregou-a a Riley que a examinou de forma aprovadora.

“Oh, sim,” Disse ela. “Uma Smith e Wesson 686.”

Depois sorriu a Blaine e entregou-lhe a arma.

“O que é que te parece?” Perguntou Riley.

Esta arma mais longa parecia-lhe ainda mais estranha na mão. Só lhe restava sorrir envergonhadamente para Riley. Ela retribuiu o sorriso. Ele percebeu pela sua expressão que ela finalmente se apercebera do seu sentimento de estranheza.

Riley virou-se para o dono e disse, “Penso que a levamos. Quanto custa?”

Blaine ficou espantado com o preço da arma, mas partiu do princípio que Riley sabia se o negócio era ou não justo.

Também ficou surpreendido com a facilidade em comprar a arma. O homem pediu-lhe dois comprovativos de identidade e Blaine deu-lhe a carta de condução e o cartão de eleitor. Depois Blaine preencheu um pequeno formulário consentindo uma verificação de passado. A verificação computorizada demorou apenas alguns minutos e Blaine estava apto a comprar a arma.

“Que tipo de munição querem?” Perguntou o homem.

Eiley disse, “Dê-nos uma caixa de Federal Premium Low Recoil.”

Alguns momentos mais tarde, Blaine era o perplexo proprietário de uma arma.

Ficou a olhar para a arma assustadora que se encontrava non balcão numa caixa de plástico aberta, envolta num material protetor. Blaine agradeceu ao homem, fechou a caixa e virou-se para se ir embora.

“Espere um minuto,” Disse o homem alegremente. “Não a quer experimentar?”

O homem conduziu Riley e Blaine até uma porta nas traseiras da loja que dava para um campo de tiro interior. Depois deixou Riley e Blaine sozinhos. Blaine estava contente por não estar lá mais ninguém naquele momento.

Riley apontou para a lista de regras que se encontrava na parede e Blaine Leu-as com atenção. Depois abanou a cabeça apreensivo.

“Riley, deixa-me dizer-te…”

Riley riu-se.

“Eu sei. Eu ajudo-te.”

Riley levou-o até uma das cabinas vazias onde ele colocou o equipamento de proteção para os ouvidos e olhos. Ele abriu a caixa com cuidado.

“Carrego-a?” Perguntou a Riley.

“Ainda não. Primeiro praticamos sem munições.”

Ele segurou a pistola nas mãos e Riley ajudou-o a encontrar a posição mais adequada – ambas as mãos na coronha da pistola mas com os dedos afastados do cilindro, cotovelos e joelhos ligeiramente curvados, ligieramente inclinados para a frente. Dali a momentos, Blaine estava a apontar a pistola para uma forma vagamente humana num alvo de papel a cerca de vinte e três metros de distância.

“Primeiro vamos praticar a ação dupla,” Disse Riley. “É quando não puxas o gatilho para trás a cada disparo, fazes tudo com o gatilho. Isso vai-te permitir sentir o gatilho. Puxa o gatilho para trás suavemente, depois liberta-o também suavemente.”

Blaine praticou com a arma descarregada algumas vezes. Depois Riley mostrou-lhe como abrir o cilindro e preenchê-lo com munição.

Blaine assumiu a mesma postura de há pouco. Preparou-se, sabendo que a arma daria um bom coice e apontou cuidadosamente ao alvo.

Premiu o gatilho e disparou.

A subita força para trás assustou-o e a arma saltou das suas mãos. Baixou a arma e olhou na direção do alvo. Não via buracos. Subitamente interrogou-se como é que alguém quereria utilizar uma arma com um coice tão intenso.

“Vamos trabalhar a tua respiração,” Disse Riley. “Inspira devagar enquanto apontas, depois expira suavemente para que exales no momento em que disparas. É quando o teu corpo está mais quieto.”

Blaine disparou outra vez. Ficou surpreendido por ter sentido mais controlo.

Olhou para o fundo da carreira e viu que pelo menos desta feita tinha acertado no alvo de papel.

Mas ao preparar-se para disparar outro tiro, foi assaltado por uma memória – a memória do dia mais assustador da sua vida. Um dia em que ainda vivia na casa ao lado da de Riley e ouvira um barulho infernal vindo da casa ao lado. Correra para a casa de Riley e deparou-se com a porta da frente parcialmente aberta.

Um homem estava a atacar a filha de Riley no chão.

Blaine correra na sua direção e tirara o homem de cima de April. Mas o home m era demasiado forte para Blaine o controlar e Blaine foi selvaticamente atacado até perder a consciência.

Era uma memoria amarga e por um momento trouxe-lhe de volta um sentimento de triste impotência.

Mas de repente, esse sentimento evaporou-se ao sentir o peso da arma nas suas mãos.

Respirou e disparou, respirou e disparou, mais quatro vezes até não haver mais munições.

Riley carregou num botão que trouxe o alvo de papel até junto deles.

“Nada mal para uma primeira vez,” Disse Riley.

De facto, Blaine pôde ver que aquelas últimos quatro tiros tinham atingido a forma humana.

Mas percebeu que o seu coração batia com força e que estava avassalado por uma estranha mistura de sentimentos.

Um desses sentimentos era o medo.

Mas medo de quê?

Poder, Percebeu Blaine.

O sentimento de poder nas suas mãos era espantoso, algo diferente de tudo o que jamais sentira.

Sentia-se tão bem que ficou assustado.

Riley mostrou-lhe como abrir o cilindro e retirar as munições vazias.

“Chega por hoje?” Perguntou Riley.

“Nem penses,” Disse Blaine sem fôlego. “Quero que me ensines tudo o que há para saber sobre esta coisa.”

Riley sorriu-lhe enquanto Blaine recarregava a arma.

Ainda sentia o seu sorriso ao apontar para outro alvo.

Entretanto ouviu o telemóvel de Riley tocar.




CAPÍTULO SETE


Quando o telemóvel de Riley começou a tocar, os últimos tiros de Blaine ainda lhe soavam nos ouvidos. De forma relutante, pegou no telemóvel. Esperava ter uma manhã sem interrupçoes com Blaine. Quando olhou para o telemóvel soube que estava prestes a ficar desiludida. A chamada era de Brent Meredith.

Estava surpreendida com o quanto se divertira a ensinar Blaine a disparar a sua nova arma. O que quer que Meredith quisesse, Riley tinha a certeza de que ia interromper o melhor dia que tivera desde há muito tempo.

Mas não tinha alternativa que não fosse atender a chamada.

Como habitualmente, Meredith foi brusco e direto ao assunto.

“Temos um novo caso. Precisamos de si. Quanto tempo demora a chegar a Quantico?”

Riley conteve um suspiro. Com Bill de licença, Riley esperava que decorresse mais algum tempo após a morte de Lucy.

Nem por sombras, Pensou.

Não havia dúvidas de que teria de sair da cidade em pouco tempo. Teria tempo suficiente de ir a casa, ver todos e mudar de roupa?

“Uma hora?” Perguntou Riley.

“Tente chegar em menos tempo. Venha ter comigo ao meu gabinete. E traga a sua mala de viagem.”

Meredith terminou a chamada sem esperar por uma resposta.

Blaine estava à sua espera. Retirou a proteção dos olhos e ouvidos e perguntou, “Alguma coisa relacionada com o trabalho?”

Riley suspirou.

“Sim, tenho que ir para Quantico de imediato.”

Blaine anuiu sem se queixar e descarregou a arma.

“Eu levo-te lá,” Disse ele.

“Não, preciso da minha mala de viagem. E está no meu carro em casa. Tens que me deixar em minha casa e estamos com o tempo contado.”

“Não há problema,” Disse Blaine, colocando cuidadosamente a nova arma na caixa.

Riley deu-lhe um beijo na bochecha.

“Parece que vou deixar a cidade,” Disse ela. “Odeio isso. Diverti-me tannto.”

Blaine sorriu e retribui-lhe o beijo.

“Eu também me diverti muito,” Disse ele. “Não te preocupes. Nós retomamos tudo quando voltares.”

Quando saíram da carreira de tiro e da loja de armas, o dono lançou-lhes um adeus caloroso.



*



Depois de Blaine a deixar em casa, Riley entrou em casa para explicar a todos que teria que se ausentar. Nem teve tempo de mudar de roupa, mas pelo menos tinha tomado banho em casa de Blaine nessa manhã. Estava aliviada por a sua família aceitar a sua súbita mudança de planos.

Estão a acostumar-se a passar sem mim, Pensou. Não tinha a certeza se gostava da ideia, mas sabia que era uma necessidade numa vida como a dela.

Riley verificou que tinha tudo o que precisava no carro e conduziu até Quantico. Quando chegou ao edifício da UAC, dirigiu-se de imediato ao gabinete de Brent Meredith. Para sua consternação, encontrou Jenn Roston a caminhar na mesma direção no corredor.

Riley e Jenn olharam-se por um breve momento, depois prosseguiram os seus caminhos em silêncio.

Riley perguntou-se se Jenn se sentia tão estranha agora quanto ela. No dia anterior tinham tido uma reunião e Riley ainda não tinha a certeza se tinha cometido um erro ao dar a Jenn a pen.

Mas Jenn provavelmente não estava preocupada com isso, Pensou Riley.

No final de contas, Jenn tivera a preponderância no dia anterior. Ela controlara a situação de forma brilhante para sua própria vantagem. Alguma vez Riley conhecera alguém capaz de a manipular daquela forma?

Rapidamente chegou a uma conclusão – é claro que sim.

Por Shane Hatcher.

Ainda a caminhar e ainda virada para a frente, a agente mais nova falou num tom baixo. “Não resultou.”

“O quê?” Perguntou Riley sem deixar de avançar.

“A informação financeira da pen. O Hatcher tinha fundos guardados nessas contas. Mas o dinheiro foi todo removido e as contas estão encerradas.”

Riley resistiu ao impulso de dizer, “Eu sei.”

No final de contas, Hatcher dissera-o ontem na sua mensagem ameaçadora.

Por um momento, Riley não soube o que dizer. Continuou a caminhar sem falar.

Será que Jenn pensava que Riley a tinha traído dando-lhe um ficheiro falso?

Por fim, Riley disse, “Aquele ficheiro era tudo o que eu tinha. Não lhe estou a esconder nada.”

Jenn não respondeu. Riley desejava saber se ela acreditava em si.

Também se interrogou – se tinha usado aquela informação, poderia Hatcher já estar preso? Ou até morto?

Quando chegaram à porta do gabinete de Meredith, Riley parou, assim como Jenn.

Riley sentiu-se alarmada.

Era óbvio que Jenn também ia ao gabinete de Meredith.

Porque é que a nova agente ia participar naquela reunião? Teria informado Meredith acerca da retenção de informação de Riley?

Mas Jenn limitou-se a estar ali a olhar.

Riley bateu à porta e depois ela e Jenn entraram.

O chefe Meredith estava sentado na sua secretária, parecendo tão intimidante como habitualmente.

Ele disse, “Sentem-se ambas.”

Riley e Jenn sentaram-se em cadeiras em frente à secretária.

Meredith ficou calado durante alguns segundos.

Depois disse, “Agente Paige, Agente Roston – gostava que conhecessem a vossa nova parceira.”

Riley olhou para Jenn Roston, cujos olhos castanho escuros se tinham dilatado com a notícia.

“Espero que isso não seja um problema,” Disse Meredith. “A UAC está sobrecarregada com casos neste momento. Com o Agente Jeffreys de licença e todos os outros envolvidos em casos, vocês calharam uma com a outra. Está arrumado.”

Riley percebeu que Meredith tinha razão. O único outro agente com quem ela quereria trabalhar naquele momento seria Craig Huang, mas ele estava atarefado a vigiar a sua casa.

“Está tudo bem,” Disse Riley a Meredith.

Jenn disse, “Será uma honra trabalhar com a Agente Paige.”

Aquelas palavras surpreenderam Riley um pouco. Interrogou-se se Jenn fora sincera.

“Não fiquem muito entusiasmadas,” Disse ele. “Provavelmente este caso não será da nossa competência. Esta manhã, foi encontrado o corpo de uma adolescente enterrado numa quinta perto de Angier, uma pequena cidade do Iowa.”

“Um único homicídio?” Perguntou Jenn.

“Porque é que isto é um caso para a UAC?” Perguntou Riley.

Meredith tamborilou os dedos na secretária.

“Penso que não será caso único,” Disse ele. “Outra jovem desapareceu da mesma cidade e ainda não foi encontrada. É uma cidade pacata onde estas coisas não acontecem. As pessoas de lá dizem que nenhuma das raparigas era do tipo de fugir ou aproximar-se de estranhos.”

Riley abanou a cabeça.

“Então porque pensam que se trata de um assassino em série?” Perguntou. “Sem outro corpo, é um pouco prematuro falar nessa possibilidade.”

Meredith encolheu os ombros.

“Sim, é essa a minha perspetiva. Mas o chefe da polícia de Angier, Joseph Sinard, está em pânico.”

Riley reconheceu aquele nome.

“Sinard,” Disse ela. “Onde é que já ouvi esse nome?”

Merdith sorriu um pouco e disse, “Talvez esteja a pensar no diretor assistente executico, Forrest Sinard. Joe Sinard é seu irmão.”

Riley quase revirou os olhos. Agora fazia sentido. Alguém no topo da cdeia alimentar do FBI estava a ser importunado por um familiar, por isso o caso fora acolhido na UAC. Já se vira envolvida em investigações deste tipo no passado.

Meredith disse, “Vocês têm que lá ir e ver se há sequer um caso a desvendar.”

“E o meu trabalho no caso Hatcher?” Perguntou Jenn Roston.

Meredith disse, “Temos muita gente a trabalhar nisso – técnicos e outros. Presumo que tenham acesso a toda a informação.”

Jenn anuiu.

Meredith disse, “Podem passar sem si durante alguns dias. Se é que isto vai demorar tanto tempo.”

Riley sentia-se dividida. Para além de não saber ao certo se queria trabalhar com Jen Roston, também não queria perder tempo num caso que não seria da competência da UAC.

Preferia estar a ensinar Blaine a disparar.

Ou a fazer outras coisas com Blaine, Pensou, contendo um sorriso.

“Então quando é que partimos?” Perguntou Jenn.

“O mais rapidamente possível,” Disse Meredith. “Disse ao Chefe Sinard para não mexer no corpo até vocês chegarem. Vão voar até Des Moines onde terão à vossa espera pessoal do Chefe Sinard que vos levarão a Angier. Fica a cerca de uma hora de Des Moines. Vamos abastecer o avião e estamos prontos. Entretanto, não se afastem. Partem daqui a menos de duas horas.”

Riley e Jenn saíram do gabinete de Meredith. Riley foi direta para o seu gabinete, sentou-se e olhou em seu redor.

Des Moines, Pensou.

Só lá estivera algumas vezes, mas era lá que vivia a sua irmã mais velha, Wendy. Riley e Wendy, afastadas durante vários anos, tinham entrado em contacto uma com a outra no último outono quando o pai estava a morrer. Wendy, não Riley, estivera com o pai quando ele morreu.

Pensar na Wendy trazia ao de cima essa culpa, bem como outras memórias perturbadoras. O pai fora duro com a irmã de Riley e Wendy fugira quando tinha quinze anos. Riley só tinha cinco anos. Depois de o pai morrer, tinham prometido manter o contacto, mas até ao momento só tinham falado uma vez via chat de vídeo.

Riley sabia que devia visitar Wendy se tivesse a oportunidade. Mas obviamente que não de imediato. Meredith dissera que Angier ficava a uma hora de Des Moines e que a polícia local as ia buscar ao aeroporto.

Talvez consiga ver a Wendy antes de regressar a Quantico, Pensou.

Naquele momento, tinha algum tempo antes do avião da UAC decolar.

E havia alguém que ela queria ver.

Estava preocupada com o seu parceiro de longa data, Bill Jeffreys. Ele vivia perto da base, mas não o via há vários dias. Bill sofria de SPT e Riley sabia por experiência própria que a recuperação não era fácil.

Pegou no telemóvel e escreveu uma mensagem.



Pensei estar contigo alguns minutos. Estás em casa?



Esperou alguns momentos. A mensagem estava marcada como “Entregue” mas não lida.

Riley suspirou. Não tinha tempo para Bill verificar as suas mensagens. Se o queria ver antes de se ir embora, tinha que sair naquele instante e esperar que ele estivesse em casa.



*



O pequeno apartamento de Bill na cidade de Quantico ficava a apenas alguns minutos do edifício da UAC. Quando ela estacionou o carro e começou a caminhar na direção do prédio, reparou como aquele local era deprimente.

Não havia nada de especialmente errado com aqueles prédios – era um edifício de tijolo vermelho. Mas Riley não conseguia evitar lembrar-se da simpática casa suburbana em que Bill vivera antes do divórcio. Em comparação, aquele lugar não tinha charme e Bill vivia sozinho. Não era uma situação feliz para o seu melhor amigo.

Riley caminhou na direção do prédio rumo ao apartamento de Bill que ficava no segundo andar. Bateu à porta e esperou.

Ninguém respondeu. Bateu outra vez e ainda assim não obteve resposta.

Pegou no telemovel e viu que a sua mensagem ainda não tinha sido lida.

Ficou preocupada. Será que tinha acontecido alguma coisa a Bill?

Colocou a mão na maçaneta e girou-a.

Para sua preocupação, a porta estava destrancada e abriu sem dificuldade.



CAPITULO OITO



Parecia que o apartamento de Bill tinha sido arrombado. Riley congelou à porta durante uns instantes, prestes a sacar a arma em caso de um intruso ali se encontrar.

Depois descontraiu. As coisas espalhadas por todo o lado eram embalagens de comida, pratos sujos e copos. O apartamento estava completamente desarrumado, mas era uma desarrumação pessoal.

Chamou por Bill.

Não obteve resposta.

Chamou outra vez.

Desta vez pareceu-lhe ouvir um grunhido de um compartimento próximo.

O seu coração bateu com mais força ao aproximar-se do quarto de Bill. O quarto estava mal iluminado e as persianas estavam corridas. Bill estava deitado na cama desfeita, usando roupas amarrotadas e olhando para o teto.

“Bill, porque é que não me respondeste quando chamei por ti?” Perguntou Riley um pouco irritada.

“Eu respondi,” Disse ele num sussurro. “Tu é que não me ouviste. Importaste-te de fazer menos barulho?”

Riley viu uma garrafa de bourbon quase vazia na mesa de cabeceira. De repente, tudo fez sentido. Riley sentou-se à beira da cama.

“Tive uma noite complicada,” Disse Bill, tentando forçar um riso fraco. “Sabes como é.”

“Sim, sei,” Disse Riley.

Afinal de contas, o desespero tinha-a levado às suas próprias bebedeiras e ressacas.

Riley tocou na sua testa, imaginando como ele se devia sentir doente.

“O que é que te levou a beber?” Perguntou Riley.

“Os meus rapazes,” Disse ele.

Depois calou-se. Riley não via os dois filhos de Bill há algum tempo. Imaginava que teriam nove e onze anos por aquela altura.

“O que têm eles?” Perguntou Riley.

“Vieram visitar-me ontem. Não correu bem. A casa estava uma confusão e eu estava irritável e instável. Estavam ansiosos para ir para casa. Riley, foi horrível. Mais uma visita daquelas e a Maggie não me deixar voltar a vê-los. Ela está só à procura de uma desculpa para os tirar de vez da minha vida.”

Bill fez um ruído parecido com um soluço. Mas ao mesmo tempo não parecia ter energia para chorar. Riley suspeitou que já chorara muito sozinho.

Bill disse, “Riley, se não presto como pai, o que é que valho? Não valho nada como agente, já não. O que é que me resta?”

Riley sentiu um nó na garganta.

“Bill, não fales assim,” Disse ela. “És um pai fantástico. E és um grande agente. Talvez não hoje, mas em todos os outros dias do ano.”

Bill abanou a cabeça, cansado.

“Não me senti um bom pai ontem. E continuo a ouvir aquele tiro. Continuo a lembrar-me de ir na direção daquele edifício, de ver a Lucy lá deitada a sangrar.”

Riley estremeceu.

Também ela se lembrava de tudo demasiado bem.

Lucy tinha entrado no edifício abandonado sem consciência do perigo e fora abatida por um atirador. Surgindo pouco depois dela, Bill tinha atirado por engano contra o homem que a tentava ajudar. Quando Riley chegou, Lucy usara as suas últimas forças para abater o atirador com vários tiros.

Lucy morrera pouco depois.

Fora uma cena horrível.

Riley não se recordava de muitas situações mais dramáticas em toda a sua carreira.

Ela disse, “Eu cheguei lá mais tarde do que tu.”

“Sim, mas não atiraste contra um miúdo inocente.”

“A culpa não foi tua. Estava escuro. Não tinhas forma de saber. Para além disso, o rapaz agora está bem.”

Bill abanou a cabeça. Ergueu uma mão tremente.

“Olha para mim. Pareço o tipo de homem que vai conseguir voltar a trabalhar?”

Agora Riley estava quase zangada. Ele realmente tinha um péssimo aspeto – nada semelhante ao parceiro astuto e corajoso parceiro a que aprendera a confiar a vida, nem parecido com o homem atraente por quem se sentira atraída ocasionalmente.

Mas lembrou-se…

Eu já passei por aquilo. Eu sei como é.

E quando estivera assim, Bill sempre lá estivera para a ajudar.

Por vezes tivera que ser duro com ela.

Ela calculou que ele agora precisava de alguma dessa dureza.

“Estás com um péssimo aspto,” Disse ela. “Mas o estado em que estás agora – bem, fizeste-o a ti próprio. E és o único que pode reverter as coisas.”

Bill olhou-a nos olhos. Ela pressentiu que ele agora estava a prestar-lhe atenção.

“Senta-te,” Disse ela. “Recompõe-te.”

Bill sentou-se com dificuldade na beira da cama ao lado de Riley.

“O FBI atribuiu-te um terapeuta?” Perguntou ela.

Bill anuiu.

“Quem é ele?” Perguntou Riley.

“Não interessa,” Disse Bill.

“Podes crer que interessa,” Disse Riley. “Quem é ele?”

Bill não respondeu. Mas Riley podia adivinhar. O psiquiatra de Bill era Leonard Ralston, mais conhecido pelo publico como “Dr. Leo”. Riley sentiu-se invadir por uma fúria ilimitada. Mas agora não era com Bill que estava zangada.

“Oh meu Deus,” Disse ela. “Puseram-te com o Dr. Leo. De quem foi a ideia?Do Walder, aposto.”

“Como disse, não interessa.”

Riley queria abaná-lo.

“Ele é um charlatão,” Disse ela. “Sabes isso tão bem quanto eu. Dedica-se à hipnose, memórias recuperadas, todo o tipo de merda sem crédito nenhum. Não te lembras no ano passado quando ele convenceu um homem inocente de que era culpado de homicídio? O Walder gosta do Dr. Leo porque escreveu livros e aparece muitas vezes na televisão.”

“Não o deixo mexer com a minha cabeça,” Disse Bill. “Não o deixo hipnotizar-me.”

Riley estava a tentar manter a sua voz sob controlo.

“Não é essa a questão. Tu precisas de alguém que te ajude.”

“E quem me poderá ajudar?” Perguntou Bill.

Riley não teve que pensar mais do que alguns segundos na resposta.

“Vou-te preparar café,” Disse ela. “Quando voltar, espero que estejas de pé e pronto para sair daqui.”

A caminho da cozinha de Bill, Riley olhou para o relógio. Tinha pouco tempo antes do aviao decolar. Tinha que agir rapidamente.

Pegou no telemóvel e ligou para o número pessoal de Mike Nevins, o psiquiatra forense de DC que trabalhava ocasionalmente para o FBI. Riley considerava-o um bom amigo que a ajudara a ultrapassar crises no passado, incluindo um terrível caso de SPT.

Quando o telefone de Mike começou a tocar, ela colocou o telemóvel em alta voz, deixou-o no balcão da cozinha e começou a preparar o café de Bill. Ficou aliviada quando Mike atendeu.

“Riley! Que bom ter notícias tuas! Como vão as coisas? Como vai essa tua família em crescimento?”

O som da voz de Mike era refrescante e quase conseguia visualizar a expressão agradável do homem bem vestido. Ela gostava de poder conversar com ele, mas agora não havia tempo para isso.

“Estou bem, Mike. Mas estou com pressa. Tenho que apanhar um avião daqui a pouco. Preciso de um favor.”

“Diz,” Disse Mike.

“O meu parceiro, Bill Jeffreys, está a passar por um mau bocado depois do nosso último caso.”

Ouviu uma nota de genuína preocupação na voz de Mike.

“Oh, é verdade, ouvi falar. Que coisa terrível, a morte de uma tua jovem protegida. É verdade que o teu parceiro está de licença? Algo relacionado com disparar sobre o homem errado?”

“Sim. Ele precisa de ajuda e precisa já. Ele está a beber, Mike. Nunca o vi tão mal.”

Seguiu-se um breve silêncio.

“Não tenho a certeza se compreendo,” Disse Mike. “Não lhe foi dessignado um terapeuta?”

“Sim, mas não está a fazer bem nenhum ao Bill.”

Agora havia uma nota de cautela na voz de Mike.

“Não sei, Riley. Geralmente não me sinto confortável em aceitar pacientes que já estão a ser acompanhados por outra pessoa.”

Riley ficou preocupada. Ela não tinha tempo para lidar com os escrúpulos éticos de Mike naquele momento.

“Mike, foi-lhe atribuído o Dr. Leo.”

Outro silêncio se seguiu.

Aposto que isto resulta, Pensou Riley. Ela sabia perfeitamente bem quye Mike desprezava o célebre terapeuta.

Por fim, Mike disse, “Quando é que o Bill pode vir?”

“O que é que estás a fazer agora?”

“Estou no meu escritório. Vou estar ocupado durante umas duas horas mas depois disso estou disponível.”

“Ótimo. Ela estará aí nessa altura. Mas diz-me alguma coisa se ele não aparecer.”

“Fica descansada.”

Quando terminaram a chamada, o café já estava pronto. Riley serviu uma chávena e voltou ao quarto de Bill. Ele não estava lá. Mas a porta da casa de banho estava fechada e Riley conseguia ouvir a máquina de barbear de Bill do outro lado.

Riley deu um toque na porta.

“Sim, estou decente,” Disse Bill.

Riley abriu a porta e viu Bill a barbear-se. Colocou o café na beira do lavatório.

“Marquei-te uma consulta com o Mike Nevins,” Disse ela.

“Para quando?”

“Para agora. É o tempo de conduzires até lá. Envio-te uma mensagem com a morada do gabinete dele. Eu tenho que ir.”

Bill pareceu surpreendido. É claro, Riley não lhe tinha dito que estava com pressa.

“Tenho um caso no Iowa,” Explicou Riley. “O avião está à espera. Não percas a consulta do Mike Nevins. Se faltares eu descubro e vai ser uma carga dos diabos.”

Bill tentou resistir mas então disse, “OK, eu não falto.”

Riley virou-se para partir. Então pensou numa coisa que não tinha a certeza se devia mencionar.

Por fim disse, “Bill, o Shane Hatcher ainda está à solta. Há agentes na minha casa. Mas recebi uma mensagem ameaçadora dele e ninguém o sabe exceto tu. Penso que ele não atacaria a minha família, mas não tenho a certeza. Se calhar…”

Bill assentiu.

“Eu mantenho as coisas debaixo de olho,” Disse ele. “Tenho que fazer alguma coisa útil.”

Riley deu-lhe um abraço rápido e saiu do apartamento.

Ao caminhar na direção do carro, olhou novamente para o relogio.

Se não encontrasse trânsito, chegaria a tempo.

Agora tinha que começar a pensar no seu novo caso, mas não estava particularmente preocupada com ele. Este não devia demorar muito tempo.

No final de contas, que tempo e esforço exigiria um homicídio isolado ocorrido numa pequena cidade?




CAPÍTULO NOVE


Ao atravessar a pista em direção ao avião, Riley começou a preparar-se psicologicamente para o seu novo caso. Mas havia uma coisa que tinha que fazer antes de se embrenhar nele.

Enviou uma mensagem a Mike Nevins.



Envia-me uma mensagem quando o Bill aparecer. E também se não aparecer.



Suspirou de alívio quando Mike lhe respondeu imediatamente.



Fica descansada.



Riley tinha consciência de ter feito tudo o que podia naquele momento pelo Bill e agora apenas dependia dele tirar partido dessa ajuda. Se alguém podia ajudar Bill a lidar com o que o atormentava, essa pessoa era Mike Nevins.

Entrou para a cabina onde Jenn Roston já se encontrava sentada e a trabalhar no seu portátil. Jenn olhou para cima e fez um gesto com a cabeça enquanto Riley se sentava do outro lado da mesa.

Riley retribuiu-lhe o gesto.

Depois Riley olhou pela janela durante a decolagem e enquanto o avião ganhava altitude até atingir a velocidade de cruzeiro. Não lhe agradava o arrepiante silêncio entre ela e Jenn. Interrogou-se se Jenn também não o apreciaria. Estes voos eram geralmente uma boa altura para discutir detalhes do caso. Mas na verdade, ainda não havia grande coisa a dizer sobre este. Afinal de contas, o corpo acabara de ser encontrado naquela manhã.

Riley tirou uma revista da sua mala e tentou ler, mas não se conseguia concentrar nas palavras. Ter Jenn sentada do outro lado tão silenciosamente era um factor de distração. Por isso, Riley limitou-se a fingir que lia.

A história da minha vida por estes dias, Pensou.

Fingir e mentir estavam a tornar-se uma rotina.

Por fim, Jenn levantou o olhar do computador.

“Agente Paige, eu estava a ser sincera na reunião com Meredith,” Disse ela.

“Desculpe?” Disse Riley, olhando por cima da sua revista.

“Sobre ser uma honra trabalhar consigo. Era um sonho meu. Sigo o seu trabalho desde a academia.”

Por um momento, Riley não soube o que dizer. Jenn já lhe dissera o mesmo anteriormente. Mas mais uma vez, Riley não conseguia perceber pela expressão de Jenn se estava a ser sincera.

“Ouvi falar grandes coisas a seu respeito,” Disse Riley.

Por muito evasiva que parecesse, pelo menos era verdade. Sob circunstâncias diferentes, Riley estaria encantada por ter a oportunidade de trabalhar com uma nova agente inteligente.

Riley acrescentou com um sorriso leve, “Mas não teria grandes expetativas se fosse a si – não em relação a este caso.”

“Certo,” Disse Jenn. “Se calhar nem é um caso para a UAC. O mais certo é regressarmos a Quantico ainda esta noite. Bem, haverão outros.”

Jenn voltou a sua atenção novamente para o seu computador. Riley interrogou-se se estaria a trabalhar nos ficheiros de Shane Hatcher. E claro, preocupou-se novamente em ter facultado aquela pen a Jenn.

Mas enquanto pensava nisso, apercebeu-se de uma coisa. Se Jenn realmente quisera traí-la ao solicitar-lhe aquela informação, já não o teria usado contra ela?

Lembrou-se do que Jenn lhe dissera ontem.

“Tenho a certeza que queremos a mesma coisa – acabar com a carreira criminosa de Shane Hatcher.”

Se isso fosse verdade, Jenn era uma aliada de Riley.

Mas como é que Riley podia ter a certeza? Ficou ali a pensar se devia tocar no assunto.

Não contara a Jenn a ameaça que recebera de Hatcher.

Haveria razão para não o fazer?

Poderia Jenn ajudá-la de alguma forma? Talvez, mas Riley ainda não se sentia preparada para tomar esse passo.

Entretanto, parecia estranho que a sua nova parceira ainda a tratasse por Agente Paige quando insistira para que Riley a tratasse pelo seu primeiro nome.

“Jenn,” Disse ela.

Jenn ergueu o olhar do computador.

“Penso que me deves tratar por Riley,” Disse Riley.

Jenn sorriu e voltou novamente a sua atenção para o computador.

Riley colocou a revista de lado e olhou pela janela as nuvens lá em baixo. O sol brilhava, mas Riley não o considerava alegre.

Sentiu-se terrivelmente só. Sentia falta de Bill e da confiança que podia depositar nele.

E sentia tantas saudades de Lucy que lhe doía por dentro.



*



Quando o avião aterrou no Aeroporto Internacional de Des Moines, Riley consultou o seu telemóvel. Ficou agradada por ver que recebera uma mensagem de Mike Nevins.



O Bill está aqui comigo.



Era menos uma preocupação.

Um carro da polícia estava à espera à saída do avião. Dois polícias de Angier apresentaram-se na base das escadas do avião. Darryl Laird era um jovem desengonçado na casa dos vinte anos e Howard Doty era um homem mais baixo na casa dos quarenta.

Ambos tinham expressões de espanto nos rostos.

“Estamos contentes por cá estarem,” Disse Doty a Riley e Jenn enquanto os dois polícias as acompanhavam até ao carro.

Laird disse, “Isto tudo é…”

O homem mais jovem abanou a cabeça sem concluir o seu pensamento.

Pobres tipos, Pensou Riley.

Eram apenas polícias numa cidade pequena. Não haveria com certeza muitos homicídios numa pequena cidade do Iowa. Talvez o polícia mais velho já tivesse lidado com um ou dois homicídios, mas Riley tinha a certeza que o mais jovem nunca vira nada igual.

Quando Doty começou a conduzir, Riley pediu aos dois polícias para lhe contarem a ela e Jenn o que pudessem sobre o sucedido.

Doty disse, “O nome da rapariga era Katy Philbin, dezassete anos. Uma estudante na secundária Wilson. Os pais são donos da farmácia local. Uma rapariga simpática, todos gostavam dela. O velho George Tully encontrou o corpo dela esta manhã quando ele e os filhos se preparavam para a sementeira de primavera. O Tully tem uma quinta não muito longe de Angier.

Jenn perguntou, “Sabe-se há quanto tempo lá estava enterrada?”

“Terão que perguntar isso ao Chefe Sinard. Ou ao médico-legista.”

Riley recordou-se do pouco que Meredith lhes havia relatado sobre a situação.

“E a outra rapariga?” Perguntou. “A que está desaparecida?”

“Chama-se Holly Struthers,” Disse Laird. “Ela era… uh, penso que é estudante na escola Lincoln. Está desaparecida há cerca de uma semana. Toda a cidade esperava que ela aparecesse mais cedo ou mais tarde. Mas agora… bem, acho que temos que ter esperança.”

“E fé,” Acrescentou Doty.

Riley sentiu um estranho arrepio quando ele disse aquilo. Já perdera conta ao número de vezes que ouvira pessoas a dizer que rezavam para que uma pessoa desaparecida aparecesse sã e salva. Mas a fé nunca ajudara.

Fará com que as pessoas se sintam melhor? Interrogou-se.

Não imaginava porquê ou como.

A tarde estava luminosa quando o carro saiu de Des Moines rumo à auto-estrada. Pouco depois, Doty virou para uma estrada de duas faixas que se espraiava pelo campo.

Riley teve uma sensação estranha no estômago. Demorou alguns momentos a perceber que essa sensação não estava relacionada com o caso – pelo menos, não diretamente.

Sentia-se muitas vezes assim quando tinha um trabalho no Midwest. Ela geralmente não sofria de medo de espaços amplos – agorafobia, pensava que se chamava. Mas as vastas planícies e pradarias despoletavam um tipo de ansiedade único nela.

Riley não sabia o que era pior – as planícies planas que vira em estados como o Nebraska, espraiando-se até onde a vista alcança, ou uma pradaria monótonoa como aquela com as mesmas quintas, cidades e campos a surgirem vezes sem conta. De qualquer das formas, considerava aquilo perturbador, até mesmo enjoativo.

Apesar da reputação do Midwest como uma terra de valores Americanos íntegros, de certa forma não a surpreendia que se cometessem homicídios ali. No que lhe dizia respeito, só o campo era suficiente para enlouquecer uma pessoa.

Em parte para afastar a mente da paisagem, Riley pegou no telemóvel para enviar uma mensagem à família.



Cheguei bem.



Pensou por um momento, depois acrescentou…



Já tenho saudades vossas. Mas provavelmente estou de volta num instante.



*



Após cerca de uma hora na auto-estrada de duas faixas, Doty virou para uma estrada de gravilha.

Enquanto prosseguia a condução disse, “Estamos a chegar ao terreno de George Tully.”

Riley olhou à sua volta. A paisagem parecia igual – grandes pedaços de campos vazios interrompidos por regos, vedações e linhas de árvores. Reparou numa casa grande no meio de tudo aquilo, situada ao lado de um celeiro decrépito.Calculou que Tully ali vivesse com a família.

Era uma casa de aspeto estranho que parecia ter sido sujeita a alterações ao longo dos anos, provavelmente por várias gerações.

Entretanto, Riley viu o veículo do médico-legista, estacionado na berma da estrada. Vários outros carros estavam estacionados por perto. Doty estacionou atrás da carrinha do médico-legista e Riley e Jenn seguiram-no e ao seu parceiro mais jovem na direção de um campo recentemente arado.

Riley viu três homens à volta de um local escavado. Não conseguia ver o que ali tinha sido encontrado, mas entreviu um pedaço de tecido colorido a flutuar na brisa primaveril.

Era ali que estava enterrada, Percebeu.

E naquele momento, Riley foi atingida por uma sensação estranha.

E percebeu que ela e Jenn tinham um importante papel a desempenhar ali.

Tinham trabalho a fazer – uma rapariga estava morta e elas não parariam até o assassino ser descoberto.




CAPÍTULO DEZ


Duas pessoas estavam junto ao corpo recentemente desenterrado. Riley dirigiu-se de imediato a um delas, um homem musculoso aparentando ter a sua idade.

“Chefe Joseph Sinar, presumo,” Disse ela com a mão em posição de cumprimento.

Ele anuiu e apertou-lhe a mão.

“As pessoas daqui tratam-me por Joe,”

Sinard indicou um homem obeso de aspeto aborrecido na casa dos cinquenta a seu lado, “este é Barry Teague, o médico-legista do condado. Vocês devem ser o pessoal do FBI por que esperávamos.”

Riley e Jenn mostraram os seus distintivos e apresentaram-se.

“Aqui está a nossa vítima,” Disse Sinard.

Apontou para baixo na direção do buraco onde uma jovem repousava descuidadamente com um vestido cor de laranja vivo. O vestido estava levantado acima das coxas e Riley viu que a roupa interior havia sido retirada. Não usava sapatos. O rosto estava anormalmente pálido e a sua boca aberta ainda apresentava vestigios de terra. Os olhos estavam abertos. O corpo sujo apresentava uma cor opaca, já sem traços de vida.

Riley estremeceu. Raramente sentia qualquer emoção ao ver um cadáver – Vira muitos ao longo dos anos. Mas esta rapariga lembrava-lhe muito April.

Riley virou-se para o médico-legista.

“Já chegou a alguma conclusão, Sr. Teague?”

Barry Teague acocorou-se junto ao buraco e Riley juntou-se a ele.

“É mau – muito mau,” Disse ele num tom de voz que não expressava qualquer emoção.

Apontou para as coxas da rapariga.

“Vê estas nódoas negras?” Perguntou ele. “Parece-me que foi violada.”

Riley não o disse, mas pareceu-lhe que tinha razão. A julgar pelo odor, talbém pressupôs que a rapariga tivesse morrido há duas noites e que estaria ali enterrada desde essa altura.

Riley perguntou ao médico-legista, “Qual terá sido a causa da morte?”

Teague soltou um suspiro de impaciência.

“Não sei,” Disse ele. “Talvez se vocês me deixarem retirar o corpo daqui para fazer o meu tarbalho, eu vos consiga dizer.”

Era palpável o ressentimento do homem por ali estar o FBI. Iriam ela e Jenn enfrentar muita resistência local?

Lembrou a si própria que fora o Chefe Sinard a chamá-los. Pelo menos podia contar com a cooperação de Sinard.

Riley disse ao médico-legista, “Já a podem levar.”

Levantou-se e olhou em seu redor. Viu um homem idoso a alguns metros de distância, encostado a um trator e a olhar diretamente para o corpo.

“Quem é aquele?” Perguntou ao Chefe Sinard.

“George Tully,” Disse Sinard.

Riley lembrou-se que George Tully era o dono daquela terra.

Ela e Jenn caminharam na sua direção e apresentaram-se. Tully mal pareceu reparar na sua presença. Não parava de olhar para o corpo enquanto a equipa de Teague se preparava para cuidadosamente o remover do local.

Riley disse-lhe, “Sr. Tully, sei que encontrou a rapariga.”

Ele assentiu monotonamente, sem retirar os olhos do corpo.

Riley disse, “Eu sei que é difícil. Mas poderia contar-me o que aconteceu?”

Tully falou num tom de voz vago e distante.

“Não há muito a dizer. Eu e os rapazes viemos de manhã cedo para semear. Eu reparei em qualquer coisa de estranho na terra aqui. O aspeto incomdou-me por isso comecei a cavar… e então lá estava ela.”

Riley pressentiu que Tully não ia ser capaz de contar muito.

Jenn disse, “Faz ideia de quando é que o corpo possar ter sido enterrado aqui?”

Tully abanou a cabeça silenciosamente.

Riley olhou à sua volta durante um instante. O campo parecia ter sido recentemente arado.

“Quando é que araram este campo?” Perguntou.

“Há dois dias. Não, há três. Íamos começar a semear hohe.”

Riley pensou nisto. Parecia consistente com a sua hipótese de que a rapariga tivesse sido morta e enterrada há duas noites.

Tully falou enquanto continuava a olhar em frente.

“O Chefe Sinard disse-me o seu nome,” Disse ele. “Katy – o seu último nome era Philbin, acho. Estranho, não reconheci esse nome. E também não a reconheci. Já lá vai…”

Parou de falar durante um momento.

“Já lá vai o tempo em que conhecia todas as famílias da cidade e também os seus filhos. Os tempos mudaram.”

Da sua voz sobressaía uma tristeza dolorida e entorpecida.

Agora Riley conseguia sentir a sua dor. Ela tinha a certeza que ele vivera naquela terra toda a sua vida, assim como os pais, os avós e os bisavós, e esperava pasar a quinta aos seus próprios filhos e netos.

Nunca imaginara que algo assim pudesse acontecer ali.

Riley também se apercebeu de algo mais – que Tully estava naquele local há horas, olhando com descrença horrorizada para o corpo da pobre rapariga. Ele encontrara o corpo de manhã cedo, reportara a situação e depois não conseguira sair mais daquele lugar. Agora que o corpo estava a ser levado, talvez também ele saísse dali.

Mas Riley sabia que o horror nunca o abandonaria.

As suas palavras ecoavam na sua cabeça..

“Os tempos mudaram.”

Ele devia ter sentido que o mundo enlouquecera.

E talvez tenha enlouquecido, Pensou Riley.

“Lamentamos muito o sucedido,” Disse-lhe Riley.

Depois ela e Jenn dirigiram-se ao local onde se encontrava o buraco.

A equipa de Teague já tinha o corpo coberto numa maca. Transportavam-no de forma estranha na terra com socalcos em direção ao veículo do médico-legista.

Teague abordou Riley e Jenn. Falou naquele seu tom perpetuamente monótono.

“Em resposta à sua pergunta, como é que ela morreu… vi melhor e ela foi espancada com várias pancadas. Então é isso.”

Sem proferir mais uma palavra, virou costas e foi ter com a sua equipa.

Jenn mostrou-se aborrecida.

“Bem, parece que no que lhe diz respeito o exame está concluído,” Disse ela. “É um amor.”

Riley abanou a cabeça, concordando com desânimo.

Depois caminhou na direção do Chefe Sinard e perguntou, “Foi encontrada mais alguma coisa com o corpo? Uma mala? Um telemóvel?”

“Não,” Disse Sinard. “Quem quer que fez isto ficou com esses objetos.”

“A Agente Roston e eu temos que conhecer a família da vítima o mais rapidamente possível.”

O Chefe Sinard franziu o sobrolho.

“Isso vai ser bastante difícil,” Disse ele. “O pai, Drew, esteve aqui há pouco para identificar o corpo. Estava muito mal quando se foi embora.”

“Eu compreendo,” Disse Riley. “Mas e mesmo necessário.”

O Chefe Sinard anuiu, tirou uma chave do bolso e apontou para um carro.

“Calculo que precisem de um meio de transporte,” Disse ele. “Podem usar o meu carro enquanto aqui estiverem. Eu sigo mais à frente num carro da polícia e mostro-lhes onde vivem os Philbin.”

Riley deixou Jenn conduzir. Dali a nada estavam a seguir o carro da polícia em direção a Angier.

Riley perguntou à sua nova parceira, “O que te parece?”

Jenn conduziu em silêncio durante alguns instantes enquanto pensava na pergunta de Riley.

Depois disse, “Sabemos que a vítima tinha dezassete anos – dentro da faixa de idade de cerca de metade das vítimas deste tipo de crime. Ainda assim é um caso fora do comum. A maioria das vítimas de predadores sexuais são prostitutas. Esta encaixa-se nos dez porcento que são vítimas de pessoas conhecidas.”

Jenn fez nova pausa.

Depois acrescentou, “Mais de metade deste tipo de crimes são por estrangulamento. Mas a segunda causa de morte mais frequente é trauma por pancada. Por isso, e seguindo esse raciocínio, este homicídio pode não ser atípico. Ainda assim, temos muito que descobrir. A pergunta mais importante é se estamos a lidar com assassino em série.”




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