Infiltrado: Uma série de suspenses do espião Agente Zero — Livro nº1
Jack Mars


"Um dos melhores suspenses que eu li este ano."– Roberto Mattos, Books and Movie ReviewsNesta tão esperada estreia de uma épica série de suspense de espionagem do autor número de best-sellers, Jack Mars, os leitores são levados para um suspense com muita ação através da Europa com o agente da CIA Kent Steele, caçado por terroristas, pela CIA e pela sombra da sua própria identidade. Ele precisa resolver este mistério. Quem está atrás dele, quem ele é? Alvo dos terroristas - e da bela mulher que ele continua vendo em sua mente.Kent Steele, 38 anos, brilhante professor de História Europeia na Universidade de Columbia, vive uma vida tranquila em um subúrbio de Nova York com suas duas filhas adolescentes. Tudo isso muda quando, numa noite, alguém bate à sua porta e ele é sequestrado por três terroristas - e se vê atravessando o oceano para ser interrogado em um porão em Paris.Eles estão convencidos de que Kent é o espião mais letal que a CIA já conheceu.Mas Kent está convencido de que eles pegaram o homem errado.Quem tem razão?Com uma conspiração à sua volta, adversários tão espertos quanto ele e um assassino em sua cola, o jogo selvagem de gato e rato leva Kent a um caminho perigoso - que pode levar a Langley - e a uma descoberta chocante sobre sua própria vida e sua identidade.







I N F I L T R A D O



(Uma série de suspenses do espião Agente Zero — LIVRO 1)



J A C K M A R S


Jack Mars



Jack Mars é o autor da série best-seller LUKE STONE, que inclui sete livros (com outros a caminho). Ele também é o autor do novo livro FORGING OF LUKE STONE, e da série de suspenses do espião AGENTE ZERO.



Jack adora ouvir seus leitores, por favor, fique à vontade para visitar o site www.Jackmarsauthor.com (http://www.Jackmarsauthor.com/). Entre na lista de e-mails e receba amostras grátis, conecte-se no Facebook e no Twitter para manter contato!



Direitos Autorais © 2018 por Jack Mars. Todos os direitos reservados. Exceto conforme o permitido sob as Leis Americanas de Direitos Autorais (U.S. Copyright Act, 1976), nenhuma parte desta publicação pode ser reproduzida, distribuída ou transmitida de qualquer forma ou por qualquer meio, ou armazenada em um sistema de banco de dados ou de recuperação, sem a prévia autorização do autor. Este e-book é licenciado apenas para seu prazer pessoal. Este e-book não pode ser revendido ou distribuído para outras pessoas. Se você gostaria de compartilhar este livro com outra pessoa, adquira uma cópia adicional para cada destinatário. Se você está lendo este livro e não o comprou, ou ele não foi comprado apenas para o seu uso, então, por favor, devolva o livro e compre a sua própria cópia. Obrigado por respeitar o trabalho duro deste autor. Esta é uma obra de ficção. Nomes, personagens, empresas, organizações, locais, eventos e incidentes são um produto da imaginação do autor ou são usados ​​ficticiamente. Qualquer semelhança com pessoas reais, vivas ou mortas, é mera coincidência.


LIVROS DE JACK MARS



UM THRILLER DE LUKE STONE

ALERTA VERMELHO: CONFRONTO LETAL (Livro #1)

O PREÇO DA LIBERDADE (Livro #2)

GABINETE DE CRISE (Livro #3)



UMA SÉRIE DE SUSPENSES DO ESPIÃO AGENTE ZERO

INFILTRADO (Livro #1)

ALVO ZERO (Livro #2)

CAÇADOR ZERO (Livro #3)


ÍNDICE



CAPÍTULO UM (#u39d0e5b1-f175-5dcb-8761-7f375b7e40de)

CAPÍTULO DOIS (#u56cf6dbb-ada0-569c-8f64-846f70d8c851)

CAPÍTULO TRÊS (#uc0b54d2b-f0b4-5f03-9416-b27c5acb4ac0)

CAPÍTULO QUATRO (#ua851260d-4a66-5ca6-b756-20d12e5542f9)

CAPÍTULO CINCO (#u604c8fe5-bf9c-5f90-8fbd-3a92bf2577bf)

CAPÍTULO SEIS (#u8ce0d9be-08f1-59c9-a017-2d9a1c4cccbb)

CAPÍTULO SETE (#u04db91b7-4032-5b81-b6ee-1e8181d13454)

CAPÍTULO OITO (#ue9f11f5c-5ee8-5444-bc3d-35bb6cdbd73a)

CAPÍTULO NOVE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO DEZ (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO ONZE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO DOZE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO TREZE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO QUATORZE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO QUINZE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO DEZESSEIS (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO DEZESSETE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO DEZOITO (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO DEZENOVE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO VINTE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO VINTE E UM (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO VINTE E DOIS (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO VINTE E TRÊS (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO VINTE E QUATRO (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO VINTE E CINCO (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO VINTE E SEIS (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO VINTE E SETE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO VINTE E OITO (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO VINTE E NOVE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO TRINTA (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO TRINTA E UM (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO TRINTA E DOIS (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO TRINTA E TRÊS (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO TRINTA E QUATRO (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO TRINTA E CINCO (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO TRINTA E SEIS (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO TRINTA E SETE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO TRINTA E OITO (#litres_trial_promo)


"A vida dos mortos está na memória dos vivos."

Marco Túlio Cícero




CAPÍTULO UM


A primeira aula do dia era sempre a mais difícil. Os estudantes entravam na sala de aula da Universidade de Columbia como zumbis cegos e desajeitados, seus sentidos entorpecidos por sessões de estudo noturnas, ressacas ou uma combinação de ambas. Eles usavam calças de moletom e T-shirts já usadas no dia anterior, seguravam copos de isopor com mocha latte de soja ou café blonde artesanal, ou qualquer outra coisa que os jovens estivessem bebendo por aqueles dias.

O trabalho do professor Reid Lawson era ensinar, mas também reconhecia a necessidade de um impulso matinal, um estimulante mental para complementar a cafeína. Lawson deu-lhes um momento para se sentarem em seus lugares confortavelmente enquanto tirava o casaco esportivo de tweed e o pendurava na cadeira.

"Bom dia", Disse em voz alta. O anúncio abalou vários estudantes que ergueram os olhos de repente como se não tivessem percebido que haviam entrado em uma sala de aula. "Hoje vamos falar sobre piratas."

Isso chamou a atenção da audiência. Olharam em frente, piscando os olhos através da névoa da privação de sono e tentando determinar se ele realmente dissera "piratas" ou não.

"Do Caribe?", Brincou um estudante de segundo ano que estava na primeira fila.

"Do Mediterrâneo, na verdade", Corrigiu Lawson. Caminhou devagar com as mãos cruzadas atrás das costas. "Quantos de vocês tiveram aulas com o professor Truitt sobre impérios antigos?" Cerca de um terço da classe levantou as mãos. "Bom. Então vocês sabem que o Império Otomano foi uma grande potência mundial durante quase seis séculos. O que vocês podem não saber é que os corsários otomanos, ou mais coloquialmente, os piratas da Berbéria, andaram pelos mares durante grande parte desse tempo desde a costa de Portugal, passando pelo Estreito de Gibraltar e grande parte do Mediterrâneo. O que vocês acham que eles estavam procurando? Alguém?"

"Dinheiro?", Perguntou uma garota na terceira fila.

"Tesouros", Disse o aluno do segundo ano sentando na frente.

"Rum!" Gritou um estudante no fundo da sala, provocando uma risada da classe. Reid também riu. Afinal, havia vida nessa multidão.

"Todas são boas suposições", Disse ele. "Mas a resposta é ‘todas as alternativas acima’. Vejam, os piratas da Berbéria preferiam principalmente navios mercantes europeus e pilhavam tudo - e eu quero dizer tudo mesmo. Sapatos, cintos, dinheiro, chapéus, mercadorias, o próprio navio... E sua tripulação. Acredita-se que no período de dois séculos entre 1580 e 1780, os piratas da Berbéria capturaram e escravizaram mais de dois milhões de pessoas. Eles levavam tudo de volta para o reino deles no norte da África. Isso durou por séculos. E o que vocês acham que as nações europeias fizeram?"

"Declararam guerra!" gritou o aluno do fundo da sala.

Uma moça tímida de óculos de aro tartaruga ergueu um pouco a mão e perguntou, "Fizeram um tratado?"

"De certa forma", respondeu Lawson. "Os governantes europeus concordaram em prestar homenagem às nações da Berbéria, na forma de enormes somas de dinheiro e bens. Estou falando de Portugal, Espanha, França, Alemanha, Inglaterra, Suécia, Holanda... Eles estavam pagando aos piratas para ficarem longe de seus barcos. Os ricos ficaram mais ricos e os piratas recuaram - a maioria das vezes. Mas então, entre o final do século XVIII e o início do século XIX, algo aconteceu. Ocorreu um evento que seria um catalisador para o fim dos piratas da Berbéria. Alguém quer arriscar um palpite?"

Ninguém falou. À sua direita, Lawson viu um garoto rolando a tela do seu telefone.

"Sr. Lowell" Disse ele. O garoto se virou repentinamente para prestar atenção. "Algum palpite?"

"Hmm... Apareceu a América?"

Lawson sorriu. "Você está me perguntando ou me contando? Seja confiante em suas respostas e nós pensaremos que você pelo menos sabe do que está falando."

"A América apareceu", Disse novamente, com mais ênfase desta vez.

"Está certo! A América apareceu. Mas como você sabe, nós éramos apenas uma nação a dar os primeiros passos. A América era mais nova que a maioria de vocês. Tivemos que estabelecer rotas comerciais com a Europa para impulsionar a nossa economia, mas os piratas começaram a tomar nossos navios. Quando dissemos, "Que diabos é isso, caras?" eles exigiram uma compensação. Nós mal finanças. Nosso cofrinho estava vazio. Então, qual foi a nossa escolha? O que poderíamos fazer?"

"Declarar guerra!" Surgiu um grito familiar do fundo da sala.

"Precisamente! Não tivemos escolha a não ser declarar guerra. A Suécia já lutava contra os piratas há um ano e, juntos, entre 1801 e 1805, tomamos o porto de Trípoli e tomamos a cidade de Derne, terminando o conflito de forma eficaz." Lawson encostou-se à borda da mesa e cruzou as mãos na sua frente. "É evidente que ocultámos muitos detalhes, mas essa é uma aula de história europeia, não de história norte-americana. Se tiver a chance, leia alguma coisa sobre o tenente Stephen Decatur e o USS Philadelphia. Mas estou me desviando do assunto. Por que estamos falando de piratas?"

"Porque piratas são legais?" Disse Lowell que já havia guardado o celular.

Lawson riu. "Não posso discordar. Mas não, não é essa a questão. Estamos falando de piratas porque a Guerra Tripolitana representa algo raramente visto nos anais da história." Ele se endireitou, examinando a sala e fazendo contato visual com vários alunos. Pelo menos agora Lawson podia ver luz em seus olhos, um vislumbre de que a maioria dos estudantes estavam interessados nessa manhã, até mesmo atentos. "Durante séculos, nenhuma das potências europeias enfrentou as nações da Berbéria. Era mais fácil apenas pagar-lhes. Foi preciso que a América, na época uma piada para a maior parte do mundo desenvolvido, fizesse a mudança. Foi preciso um ato de desespero de uma nação sem armas para provocar uma mudança na dinâmica de poder da rota comercial mais valiosa do mundo na época. E é aí que reside a lição."

"Não mexam com a América?" Alguém disse.

Lawson sorriu. "Bem, sim." Ele ergueu um dedo no ar para explicar sua visão. "Mas, além disso, aquele desespero e uma total falta de escolhas viáveis levaram, historicamente, a alguns dos maiores triunfos que o mundo já viu. A história nos ensinou, repetidas vezes, que não existe um regime grande demais para tombar, não há nenhum país pequeno demais ou fraco demais para fazer a diferença." Ele piscou o olho. "Pensem nisso da próxima vez em que se sentirem pouco mais do que uma partícula minúscula neste mundo."

No final da aula, havia uma diferença marcante entre os alunos que tinham entrado cansados e a arrastar-se e o grupo que agora saía a conversar e a rir. Uma garota de cabelos cor-de-rosa parou ao lado de sua mesa ao sair sorrindo e comentando, "Ótima palestra, professor. Qual é mesmo o nome daquele tenente americano que você mencionou?"

"Ah, Stephen Decatur."

"Obrigada." Anotou a informação e apressou-se na direção do corredor.

"Professor?"

Lawson ergueu o olhar. Era o garoto do segundo ano da primeira fila. "Sim, Sr. Garner? Em que posso ajudá-lo?"

"Será que posso pedir um favor? Estou me candidatando a um estágio no Museu de História Natural e… bem, era útil ter uma carta de recomendação."

"Claro, sem problema. Mas seu curso não é de antropologia?"

"Sim. Mas achei que uma carta sua poderia ter um pouco mais de peso, sabe? E, bem..." O garoto olhou para os sapatos. "Esta é a minha aula favorita."

"Sua aula favorita até agora." Lawson sorriu. "Terei todo o prazer em fazer essa recomendação. Trarei para você amanhã. Ah, na verdade, eu tenho um compromisso importante hoje à noite a que não posso faltar. Que tal na sexta-feira?"

"Sem pressa. Sexta-feira está ótimo. Obrigado professor. Até mais!" Garner saiu na direção do corredor, deixando Lawson sozinho.

Ele olhou ao redor do auditório vazio. Essa era a sua hora favorita do dia, entre as aulas, a satisfação presente da anterior se misturava com a antecipação da próxima.

Seu telefone tocou. Era uma mensagem de texto de Maya. Em casa às 5:30?

Sim, Respondeu. Não perderia isso. O "compromisso importante" daquela noite era a noite de jogos na casa dos Lawson. Ele amava dedicar seu tempo extra às suas duas filhas.

Legal, Respondeu sua filha. Tenho novidades.

Que novidades?

Mais tarde foi a suaresposta. Ele franziu a testa perante a mensagem vaga. De repente, o dia começou a parecer muito longo.



*



Lawson arrumou sua bolsa, vestiu seu casaco de inverno e dirigiu-se para o estacionamento. O mês de fevereiro em Nova York era tipicamente frio e, ultimamente, estava ainda pior. A mais leve das brisas era absolutamente gélida. Ligou o carro e deixou o motor aquecer por alguns minutos, colocando as mãos sobre a boca e soprando a respiração quente sobre os dedos congelados. Este era seu segundo inverno em Nova York e não parecia que se estivesse a acostumar ao clima mais frio. Na Virgínia, ele considerara que cinco graus em fevereiro era frio. Pelo menos não está nevando, Pensou. Ainda bem.

O trajeto do campus de Columbia para casa era de apenas 11 quilômetros, mas o trânsito nessa hora do dia era intenso e, regra geral, quem fazia a viagem acabava por se irritar. Reid driblava isso com áudio livros, recentemente recomendados por sua filha mais velha. No momento, estava ouvindo O Nome da Rosa de Umberto Eco, embora naquele dia não se conseguisse concentrar na audição. Estava pensando na mensagem enigmática de Maya.

A casa dos Lawson era uma casa de tijolos castanhos de dois andares situada em Riverdale, no extremo norte do Bronx. Ele amava o bairro bucólico e suburbano, a proximidade da cidade e da universidade, as ruas sinuosas que se abriam em largas avenidas a sul. As garotas também adoravam e se Maya fosse aceita em Columbia, ou até mesmo na safety school da Universidade de Nova York, não teria que sair de casa.

Reid imediatamente soube que algo estava diferente quando entrou em casa. Ele podia sentir o cheiro no ar e ouviu vozes abafadas vindas da cozinha no final do corredor. Largou a bolsa e tirou silenciosamente seu casaco esportivo antes de sair sem fazer qualquer ruído do saguão.

"O que está acontecendo aqui?" Perguntou em forma de cumprimento.

"Oi, papai!" Sara, sua filha de quatorze anos, saltou na ponta dos pés enquanto observava Maya, sua irmã mais velha, realizar um ritual suspeito num prato de Pyrex. "Estamos fazendo o jantar!"

"Eu estou fazendo o jantar", Maya murmurou, sem olhar para cima. "Ela só observa."

Reid piscou os olhos surpreso. "OK. Tenho algumas perguntas." Olhou por cima do ombro de Maya enquanto ela passava algo brilhante e arroxeado em uma fileira de costeletas de porco. "A começar com... Hã?"

Maya continuava a não desviar o seu olhar de sua tarefa. "Não me olhe daquele jeito," Disse. "Já que vão manter a obrigatoriedade do curso de gestão do lar e da comunidade, darei utilidade a isso." Finalmente, ela olhou para o pai e sorriu timidamente. "E não fique mal-acostumado."

Reid levantou as mãos defensivamente. "De maneira nenhuma."

Maya tinha dezesseis anos e era perigosamente esperta. Herdara claramente o intelecto da mãe; estava no último ano letivo por ter pulado a oitava série. Tinha o cabelo escuro, um sorriso pensativo e uma tendência para dramatizar. Sara, por outro lado, tinha o aspeto físico de Kate. Quando entrou na adolescência, tornou-se doloroso para Reid olhar para o rosto dela, embora nunca o demonstrasse. Também tinha o temperamento explosivo de Kate. Na maioria das vezes, Sara era uma quertida, mas de vez em quando explodia, e as consequências tendiam a ser devastadoras.

Reid assistiu com espanto as meninas a colocarem a mesa e a servirem o jantar. "Isso parece incrível, Maya," Comentou.

"Ah, espere. Mais uma coisa." Ela pegou algo da geladeira - uma garrafa marrom. "A belga é a sua favorita, certo?"

Reid estreitou os olhos. "Como você…?"

"Não se preocupe, a tia Linda comprou ela para mim." Retirou a tampa e despejou a cerveja em um copo. "Isso. Agora podemos comer."

Reid ficou extremamente grato por ter a irmã de Kate, Linda, a poucos minutos de distância. Obter o cargo de professor associado e criar duas meninas adolescentes teria sido uma tarefa impossível sem ela. Isso fora uma das principais motivações para a mudança para Nova York, assim as garotas teriam uma influência feminina positiva por perto. (Embora tivesse que admitir que não gostou de saber que Linda comprara cerveja para a sua filha adolescente, mesmo sendo para ele beber.)

"Maya, que maravilha," Disse depois da primeira mordida.

"Obrigada. É um molho chipotle."

Ele limpou a boca, pousou o guardanapo na mesa e perguntou, "Ok, estou desconfiado. O que você fez?"

"O quê? Nada!" Ela insistiu.

"O que você quebrou?"

"Eu não quebrei nada..."

"Você foi suspensa?"

"Papai, então..."

Reid segurou melodramaticamente a mesa com as duas mãos. "Ah Deus, não me diga que você está grávida. Eu nem tenho uma espingarda."

Sara riu.

"Você pode parar?" Maya bufou. "Eu sei ser legal." Comeram em silêncio por um minuto antes de ela casualmente acrescentar, "Mas já que você falou nisso..."

"Hum. Lá vem."

Ela aclarou a garganta e disse, "Eu meio que tenho um encontro. No Dia dos Namorados."

Reid quase engasgou com a costeleta de porco.

Sara sorriu. "Eu te disse que ele agiria de um jeito estranho."

Ele se recuperou e levantou a mão. "Espere, espere. Eu não estou agindo de um jeito estranho. Eu só não pensei... Eu não sabia que você estava, ah... Você está namorando?"

"Não," Maya disse rapidamente. Então ela encolheu os ombros e olhou para o prato. "Talvez. Eu não sei ainda. Mas ele é um cara legal e quer me levar para jantar na cidade..."

"Na cidade," Repetiu Reid.

"Sim, papai, na cidade. E eu preciso de um vestido. É um lugar chique. Eu não tenho nada para vestir."

Houve muitas vezes em que Reid desejou desesperadamente que Kate estivesse ali, mas essa vez superou todas. Ele sempre presumiu que suas filhas namorariam em algum momento, mas esperava que não fosse antes dos vinte e cinco anos. Em momentos assim ele recorria ao seu acrônimo favorito para filhos, OQKD - O Que Kate Diria? Como artista, e uma pessoa de espírito decididamente livre, ela provavelmente conseguiria lidar com a situação de forma muito diferente, e ele tentava se lembrar disso.

Ele devia parecer particularmente perturbado, porque Maya riu um pouco e colocou a mão sobre a dele. "Você está bem, pai? É apenas um encontro. Nada vai acontecer. Não é nada de especial."

"Sim," Disse lentamente. "Você está certa. Claro que não é nada de especial. Podemos ver se a tia Linda pode levá-la ao shopping neste fim de semana e..."

"Eu quero que você me leve."

"Quer?"

Ela encolheu os ombros. "Quero dizer, eu não gostaria de usar algo que você não aprovasse."

Um vestido, um jantar no centro da cidade e um garoto... Isso era realmente diferente do que pensara ter que enfrentar.

"Tudo bem, então," Disse ele. "Vamos no sábado. Mas tenho uma condição - eu escolho o jogo de hoje à noite."

"Humm", Disse Maya. "Você é difícil. Deixe-me consultar a minha sócia." Maya virou-se para a irmã.

Sara assentiu. "Tudo bem. Desde que não seja Risk. "

Reid zombou. "Você não sabe do que está falando. Risk é o melhor."

Depois do jantar, Sara lavou os pratos enquanto Maya fez chocolate quente. Reid preparou um dos seus jogos favoritos, Ticket to Ride, um jogo clássico sobre a construção de rotas de trem em toda a América. Quando colocou as cartas e os vagões de trem de plástico, viu-se pensando quando as coisas se haviam alterado. Quando é que Maya crescera tão rapidamente? Nos últimos dois anos, desde que Kate falecera, ele tinha desempenhado ambos os papéis (com a valiosa ajuda da tia Linda). As duas ainda precisavam dele, ou pareciam precisar, mas não demoraria muito até que fossem para a faculdade, e depois seguiriam suas carreiras, e então...

"Papai?" Sara entrou na sala de jantar e sentou-se em frente a ele. Como se estivesse lendo sua mente, ela disse, "Não se esqueça, eu tenho um show de arte na escola na próxima quarta à noite. Você vai estar lá, certo?"

Ele sorriu. "Claro, querida. Não perderia isso." Bateu palmas. "Então! Quem está pronto para ser demolido - quero dizer, quem está pronto para jogar um amigável jogo familiar?"

"Pode começar, coroa," Maya anunciou da cozinha.

"Coroa?" Reid disse indignado. "Eu tenho trinta e oito anos!"

"Estou pronta." Riu Maya quando entrou na sala de jantar. "Ah, o jogo de trem." Seu sorriso se dissolveu em um sorriso ligeiro. "Este era o favorito da mamãe, não era?"

"Ah... sim." Reid franziu a testa. "Era."

"Eu sou o azul!" Sara anunciou, agarrando as peças.

"Laranja," Disse Maya. "Pai, que cor? Papai, ei?"

"Ah." Reid interrompeu seus pensamentos. "Desculpa. Verde."

Maya empurrou algumas peças para ele. Reid forçou um sorriso, embora seus pensamentos fossem tumultuosos.

*



Depois de dois jogos, ambos ganhos por Maya, as meninas foram para a cama e Reid se retirou para o escritório, uma pequena sala no primeiro andar, bem ao lado do saguão.

Riverdale não era uma área barata, mas era importante para Reid garantir que suas filhas crescessem em um ambiente seguro e feliz. Havia apenas dois quartos, então ele usava o pequeno quarto no primeiro andar como seu escritório. Todos os seus livros e objetos de coleção estavam concentrados em quase todos os centímetros disponíveis do pequeno quarto do primeiro andar. Com uma escrivaninha e uma poltrona de couro, apenas um pequeno pedaço de carpete gasto ainda era visível. Ele dormira muitas vezes naquela poltrona, depois de algumas noites tomando notas, preparando palestras e relendo biografias. Estava começando a lhe causar problemas na coluna. No entanto, para ser honesto, não era mais fácil dormir em sua própria cama. O local era diferente - ele e as meninas se mudaram para Nova York logo depois de Kate falecer - mas ele ainda tinha o colchão king-size e a cama que tinham sido deles, dele e de Kate.

Pensava que por aquela altura a dor de perder Kate já poderia ter diminuído, pelo menos um pouco. Às vezes acontecia, temporariamente, e então passava por seu restaurante favorito ou assistia um de seus filmes favoritos na TV e a dor voltava em força, tão poderosa como se tivesse acontecido ontem.

Se alguma das meninas sentia o mesmo, elas não falavam sobre isso. Na verdade, elas falavam sobre Kate abertamente, algo que Reid ainda não tinha conseguido fazer.

Havia uma foto dela em uma de suas estantes, tirada no casamento de uma amiga, uma década antes. Na maioria das noites, o quadro ficava invertido, ou ele passaria a noite toda olhando para ele.

Quão incrivelmente injusto o mundo poderia ser. Um dia, eles tinham tudo - um bom lar, filhas maravilhosas, ótimas carreiras. Moravam em McLean, Virginia; ele trabalhava como professor adjunto na próxima Universidade George Washington. Seu trabalho o fazia viajar muito, para seminários e cimeiras, e como palestrante convidado de história europeia viajava para escolas de todo o país. Kate estava no departamento de restaurações do Museu de Arte Americana Smithsonian. Suas filhas estavam fazendo seu percurso. A vida era perfeita.

Mas como Robert Frost disse, nada dura para sempre. Numa tarde de inverno, Kate desmaiou no trabalho - pelo menos foi o que seus colegas de trabalho pensaram quando ela de repente ficou mole e caiu da cadeira. Chamaram uma ambulância, mas já era tarde demais. O óbito foi declarado assim que chegou no hospital. Uma embolia, disseram. Um coágulo sanguíneo tinha ido para o cérebro e causado um acidente vascular cerebral isquêmico. Os médicos usam termos médicos pouco compreensíveis sempre que possível durante sua explicação, como se aquilo de alguma forma amenizasse o golpe.

O pior de tudo fora o fato de Reid estar fora quando aquilo aconteceu. Ele estava em um seminário de graduação em Houston, Texas, dando palestras sobre a Idade Média quando recebeu a ligação.

Foi assim que ele descobriu que sua esposa havia morrido. Um telefonema, do lado de fora de uma sala de conferências. Depois veio o voo de volta para casa, as tentativas de consolar suas filhas no meio de sua própria dor devastadora e a eventual mudança para Nova York.

Ele se levantou da cadeira e girou a foto. Não gostava de pensar sobre tudo isso, o fim e o resultado. Ele queria se lembrar dela assim, na foto, Kate no seu melhor. Fora o que escolhera recordar.

Havia algo mais, algo bem no limite de sua consciência, algum tipo de memória nebulosa tentando emergir enquanto ele olhava para a foto. Quase parecia déjà vu, mas não do momento presente. Era como se seu subconsciente estivesse tentando lembrar alguma coisa.

Uma batida repentina na porta o trouxe de volta à realidade. Reid hesitou, imaginando quem poderia ser. Era quase meia noite; as garotas estavam na cama há algumas horas. A batida forte surgiu novamente. Temendo que isso acordasse as crianças, ele se apressou em ir à porta. Afinal, ele morava em um bairro seguro e não tinha motivos para temer abrir a porta à meia-noite.

O vento rigoroso do inverno não foi o que o imobilizou. Olhou surpreso para os três homens à sua frente. Eles eram, com certeza, do Oriente Médio, todos de pele escura, com barba escura e olhos profundos, vestidos com grossas jaquetas pretas e botas. Os dois que se encontravam nos dois lados da porta eram altos e esguios; o terceiro, atrás deles, tinha ombros largos e era volumoso.

"Reid Lawson," Disse o homem alto à esquerda. "É você?" Seu sotaque parecia iraniano, mas não era denso, sugerindo que passara muito tempo nos Estados Unidos.

A garganta de Reid ficou seca quando notou que uma van cinza estava parada em frente à casa e com os faróis desligados. "Hum, me desculpe,"Disse. "Você deve ter-se enganado nacasa."

O homem alto à direita, sem tirar os olhos de Reid, levantou um celular para seus dois parceiros verem. O homem à esquerda, o que fizera a pergunta, acenou com a cabeça uma vez.

Sem avisar, o homem volumoso avançou, incrivelmente rápido tendo em conta o seu tamanho. Uma mão carnuda alcançou a garganta de Reid. Reid conseguiu escapar, vacilando para trás e quase tropeçando em seus próprios pés. Ele se recuperou, tocando com os dedos no chão de azulejo.

Quando deslizou para trás para recuperar o equilíbrio, os três homens entraram em sua casa. Ele entrou em pânico, pensando apenas nas meninas dormindo em suas camas no andar de cima. Reid se virou e correu até a cozinha. Olhou por cima do ombro - os homens começaram a perseguição. Celular, Pensou desesperadamente. Estava em sua escrivaninha no escritório e os caras bloqueavam o caminho.

Ele tinha que levá-los para longe da casa e para longe das meninas. À sua direita estava a porta do quintal. Abriu a porta e correu para o deck. Um dos homens xingou em uma língua estrangeira - árabe, imaginou - enquanto o perseguiam. Reid saltou sobre o corrimão do deck e pousou no pequeno quintal. Uma descarga de dor subiu pelo seu tornozelo por causa do impacto, mas ele a ignorou. Contornou um dos cantos da casa e se encostou na fachada de tijolos, tentando desesperadamente acalmar sua respiração irregular. O tijolo estava gelado e a leve brisa do inverno o atravessou asperamente. Os dedos dos pés já estavam dormentes - saira de casa apenas com as meias. Estava todo arrepiado.

Ele podia ouvir os homens sussurrando uns para os outros, com vozes roucas e apressadas. Contou as vozes distintas - uma, duas e depois três. Eles estavam fora da casa. Bom; isso significava que só estavam atrás dele e não das crianças. Reid precisava chegar até um telefone. Não podia voltar para casa e colocar em risco suas garotas. Também não podia bater na porta de um vizinho. E depois se lembrou - havia uma caixa amarela de chamadas de emergência montada em um poste de telefone no final do quarteirão. Se ele pudesse chegar lá...

Respirou fundo e correu pelo quintal escuro, atrevendo-se a entrar no halo de luz das lâmpadas da rua. Seu tornozelo latejava em sinal de protesto e o choque do frio provocou picadas em seus pés, mas ele se forçou a se mover o mais rápido que podia. Reid olhou por cima do ombro. Um dos homens altos o viu. Ele gritou para seus companheiros, mas não o perseguiu mais. Estranho, Reid pensou, mas não parou.

Alcançou a caixa amarela de chamadas de emergência, abriu-a e enfiou o polegar no botão vermelho que enviava um alerta para o grupo local do 911. Ele olhou por cima do ombro novamente. Não conseguia ver nenhum deles.

"Alô?" Susurrou no interfone. "Alguém pode me ouvir?" Onde estava a luz? Deveria haver uma luz quando o botão de chamada era pressionado. Isso estava funcionando? "Meu nome é Reid Lawson, há três homens atrás de mim, eu moro em…"

Uma mão forte agarrou um punhado de cabelo castanho de Reid e o puxou para trás. Suas palavras ficaram presas na garganta e ficaram suspensas. De seguida sentiu um tecido áspero no rosto, cegando-o - uma sacola na cabeça - e, ao mesmo tempo, seus braços foram manietados para trás e presos com algemas. Ele tentou lutar, mas as mãos fortes o seguravam com firmeza, torcendo seus pulsos quase ao ponto de quebrá-los.

"Espere!" Conseguiu gritar. "Por favor..." Um impacto atingiu seu abdômen com tanta força que o ar saiu de seus pulmões. Reid não conseguia respirar, muito menos falar. Cores confusas alteravam sua visão e quase desmaiou. Depois arrastaram-no, suas meias raspando no cimento da calçada. Eles o empurraram para dentro da van e fecharam a porta. Os três homens trocaram palavras estrangeiras guturais entre si que soavam acusatórias.

"Por que...?" Reid finalmente conseguiu falar com dificuldade.Depois sentiu a picada de uma agulha no braço e o mundo colapsou à sua volta.




CAPÍTULO DOIS


Cegueira. Frio. Estrondo ensurdecedor, opressão dolorosa.

A primeira coisa que Reid percebeu quando acordou foi que o mundo estava imerso em trevas - não conseguia ver. O cheiro acre de combustível encheu suas narinas. Tentou mover seus membros latejantes, mas suas mãos estavam amarradas atrás das costas. Sentia frio, mas não havia brisa; apenas ar frio, como se estivesse em uma geladeira.

Lentamente, como se através de um nevoeiro, a lembrança do que havia ocorrido voltou. Os três homens do Oriente Médio. Uma sacola na cabeça dele. Uma agulha no braço.

Entrou em pânico, tentando libertar-se e agitando as pernas. A dor atravessou seus pulsos onde o metal das algemas penetrava na pele. Seu tornozelo doía, afetando a perna esquerda. Havia uma pressão intensa em seus ouvidos e ele não conseguia ouvir nada além de um motor rugindo.

Por apenas uma fração de segundo, ele teve uma sensação de queda - resultado da aceleração vertical negativa. Ele estava em um avião. E, ao que parece, não era um avião comum com passageiros. O ruído intensamente alto do motor, o cheiro de combustível... Ele percebeu que deveria estar em um avião de carga.

Há quanto tempo estava inconsciente? O que lhe haviam injetado? As meninas estavam seguras? As meninas. Chorou na esperança de que estivessem seguras, que a polícia tivesse ouvido sua mensagem e que as autoridades tivessem sido enviadas até sua casa...

Ele se contorceu em seu assento de metal. Apesar da dor e rouquidão na garganta, ele se aventurou a falar.

"O-Olá?" Saiu quase como um sussurro. Aclarou a garganta e tentou novamente. "Olá? Alguém…? " Percebeu então que o barulho do motor abafaria a sua voz em relação a alguém que não estivesse sentado ao lado dele. "Olá!" Tentou gritar. "Por favor... alguém me diga o que..."

Uma voz masculina severa sibilou para ele em árabe. Reid se encolheu; o homem estava perto, a poucos metros de distância.

"Por favor, apenas me diga o que está acontecendo," Implorou. "O que está acontecendo? Por que estão fazendo isso?"

Outra voz gritou ameaçadoramente em árabe, desta vez à direita. Reid estremeceu com a repreensão intensa. Ele esperava que o estremecer do avião tivesse disfarçado o tremor do seu corpo.

"Vocês têm a pessoa errada," Disse ele. "O que querem? Dinheiro? Eu não tenho muito, mas posso… espere!" Uma mão forte apertou o seu braço e um instante depois fora arrancado de seu assento. Cambaleou, tentando se levantar, mas a instabilidade do avião e a dor em seu tornozelo o venceram. Seus joelhos se dobraram e ele caiu de lado.

Algo sólido e pesado atingiu-o. Uma dor se espalhou de forma simétrica pelo seu torso. Tentou protestar, mas sua voz só emitia soluços ininteligíveis.

Outra bota o chutou nas costas. E outra, no queixo.

Apesar da situação horrível, um pensamento bizarro atingiu a mente de Reid. Esses homens, suas vozes, todos esses golpes sugeriam uma vingança pessoal. Ele não se sentiu apenas atacado. Ele sentiu nojo. Esses homens estavam zangados - e a raiva deles estava direcionada para ele como a ponta de um laser.

A dor diminuiu lentamente e deu lugar a um frio entorpecimento que envolveu seu corpo antes de desmaiar.



*



Dor. Cauterizante, latejante, ardente.

Reid acordou novamente. As memórias do passado... Ele nem sabia quanto tempo tinha passado, nem sabia se era dia ou noite e se onde estava era dia ou noite. Mas as lembranças vieram de novo, desarticuladas, como pedaços cortados de um rolo de filme e abandonados no chão.

Três homens.

A caixa de emergência.

A van.

O avião.

E agora…

Reid ousou abrir os olhos. Foi difícil. As pálpebras estavam como se estivessem coladas. Mesmo por trás da pele fina, ele sabia que havia uma luz forte esperando do outro lado. Ele podia sentir esse calor em seu rosto e ver a rede de pequenos capilares através de suas pálpebras.

Apertou os olhos. Tudo o que podia ver era a luz implacável, brilhante e branca queimando em sua cabeça. Deus, como sua cabeça doía. Ele tentou gemer e percebeu, através de uma lancinante nova dor, que sua mandíbula doía também. Sua língua estava inchada e seca, e tinha um sabor desagradável na boca. Sangue.

Seus olhos, percebeu - eram difíceis de abrir porque estavam, de fato, colados. A lateral do seu rosto estava quente e pegajosa. O sangue escorria pela testa e olhos, resultado de ter sido implacavelmente pontapeado até atingir a inconsciência dentro daquele avião.

Mas podia ver a luz. A sacola havia sido removida de sua cabeça. Se isso era ou não uma coisa boa, ele ainda não sabia.

Quando seus olhos se ajustaram à luz, tentou novamente em vão mover as mãos. Elas ainda estavam amarradas, mas desta vez, não algemadas. Cordas grossas o mantinham no lugar. Seus tornozelos também estavam amarrados às pernas de uma cadeira de madeira.

Finalmente seus olhos se ajustaram à intensidade da luz e contornos nebulosos se formaram. Ele estava em uma pequena sala sem janelas com paredes de concreto irregulares. Estava quente e úmido, o suficiente para o suor escorrer na sua nuca, embora seu corpo estivesse frio e parcialmente entorpecido.

Ele não conseguia abrir totalmente o olho direito e doía tentar. Ou tinha sido pontapeado ali, ou seus sequestradores o haviam espancado ainda mais enquanto estava inconsciente.

A luz brilhante vinha de um candeeiro de base alta e fina, ajustado para a sua altura e incidindo em seu rosto. A lâmpada de halogéneo brilhava ferozmente. Se havia alguma coisa por trás da lâmpada, ele não podia ver.

Reid se encolheu quando o som de algo se abrindo ecoou pela pequena sala - o som de uma tranca deslizando. Dobradiças gemeram, mas Reid não viu uma porta. Aquilo se fechou novamente com um ruído dissonante.

Uma silhueta bloqueava a luz, banhando-o em sua sombra enquanto se debruçava sobre ele. Estremeceu, não se atrevendo a olhar para cima.

"Quem é você?" A voz era de um homem, ligeiramente mais aguda que a de seus sequestradores anteriores, mas ainda fortemente marcada por um sotaque do Oriente Médio.

Reid abriu a boca para falar - para lhes dizer que ele não era nada mais do que um professor de história, que eles tinham o cara errado - mas rapidamente se lembrou que a última vez que tentara fazê-lo, fora pontapeado. Em vez disso, um pequeno gemido escapou de seus lábios.

O homem suspirou e recuou para longe da luz. Algo raspou no chão de concreto; as pernas de uma cadeira. O homem ajustou a lâmpada de modo que ficasse ligeiramente afastada de Reid e depois se sentou em frente a ele na cadeira de modo que seus joelhos quase se tocassem.

Reid lentamente olhou para cima. O homem era jovem, tinha trinta anos na melhor das hipóteses, com pele escura e uma barba preta bem aparada. Usava óculos redondos prateados e um kufi branco arredondado.

A esperança floresceu dentro de Reid. Esse jovem parecia ser um intelectual, não como os selvagens que o atacaram e o arrancaram de sua casa. Talvez ele pudesse negociar com esse homem. Talvez ele estivesse no comando...

"Vamos começar de maneira simples", Disse o homem. Sua voz era suave e casual, como um psicólogo falando com um paciente. "Qual é o seu nome?"

"L... Lawson." Sua voz falhou na primeira tentativa. Ele tossiu e ficou um pouco alarmado ao ver manchas de sangue no chão. O homem a sua frente franziu o nariz com desagrado. "Meu nome é... Reid Lawson." Por que eles continuavam perguntando o seu nome? Ele já lhes dissera. Será que inadvertidamente fora confundido com alguém?

O homem suspirou devagar, deixando o ar entrar e sair pelo nariz. Apoiou os cotovelos contra os joelhos e se inclinou para a frente, abaixando ainda mais o tom de voz. "Há muitas pessoas que gostariam de estar nesta sala agora. Para sua sorte, somos só você e eu. No entanto, se você não for honesto comigo, não terei escolha a não ser convidar mais gente... E eles tendem a não ter a minha compaixão." Ele se endireitou. "Então, eu te pergunto novamente. Qual… é… o… seu… nome?"

Como poderia convencê-los de que ele era quem dizia ser? O ritmo cardíaco de Reid acelerou quando uma dura percepção o atingiu como um golpe na cabeça. Ele poderia muito bem morrer naquela sala. "Estou dizendo a verdade!", Insistiu. De repente, as palavras começaram a fluir facilmente. "Meu nome é Reid Lawson. Por favor, apenas me diga por que estou aqui. Eu não sei o que está acontecendo. Eu não fiz nada..."

O homem golpeou a boca de Reid com as costas da mão. Sua cabeça sacudiu descontroladamente. Ele arfou quando a dor irradiou através do seu lábio recém-cortado.

"Seu nome." O homem limpou sangue do anel de ouro em sua mão.

"Eu te disse", Gaguejou. "M-meu nome é Lawson." Conteve um soluço. "Por favor."

Ele se atreveu a olhar para cima. Seu interrogador lhe devolveu o olhar impassível, frio. "Seu nome."

"Reid Lawson!" Reid sentiu o calor subir em seu rosto quando a dor se transformou em raiva. Ele não sabia mais o que dizer. "Lawson! É Lawson! Você pode checar meu… meu…" Não, eles não podiam verificar seus documentos. Ele não tinha sua carteira quando o trio de homens muçulmanos o levara.

Seu interrogador ficou tenso e, em seguida, direcionou o punho ossudo ao estômago de Reid. Por um minuto, Reid não conseguiu respirar; por fim surgiu novamente um arfar irregular. Seu peito queimava ferozmente. O suor escorria por suas bochechas e queimava seu lábio ferido. Sua cabeça pendia flácida, o queixo entre as clavículas, enquanto ele lutava contra uma onda de náusea.

"Seu nome", O interrogador repetiu calmamente.

"Eu... Eu não sei o que você quer que lhe diga", Reid sussurrou. "Eu não sei o que você está procurando. Mas não sou eu." Estaria ficando doido? Ele tinha certeza de que não tinha feito nada para merecer esse tipo de tratamento.

O homem do kufi se inclinou para a frente novamente, desta vez levantando o queixo de Reid suavemente com dois dedos. Ele levantou a cabeça, forçando Reid a olhá-lo nos olhos. Seus lábios finos se esticaram em um meio sorriso.

"Meu amigo", Disse, "isso vai piorar muito, muito mesmo, antes de melhorar".

Reid engoliu e sentiu o gosto de cobre na garganta. Ele sabia que o sangue era um emético; cerca de duas xícaras o fariam vomitar, e ele já estava enjoado e tonto. "Ouça-me", Implorou. Sua voz soou trêmula e tímida. "Os três homens que me levaram foram até a Ivy Lane, nº22, minha casa. Meu nome é Reid Lawson. Eu sou professor de história europeia na Universidade de Columbia. Eu sou viúvo, tenho duas filhas adolescentes..." Ele se deteve.

Até agora, seus sequestradores não tinham dado qualquer indicação de que sabiam da existência de suas filhas. "Se não é isso que estão procurando, não posso ajudá-lo. Por favor. Essa é a verdade."

O interrogador ficou olhando para ele por um longo momento, sem piscar os olhos. Então falou bruscamente em árabe. Reid se encolheu com a repentina explosão.

O ferrolho deslizou novamente. Reid podia ver apenas um esboço da porta espessa quando se abriu. Parecia ser feita de algum tipo de metal, ferro ou aço.

Este cômodo, percebeu, foi construído para ser uma cela de prisão.

Uma silhueta apareceu na porta. O interrogador gritou outra coisa em sua língua nativa e a silhueta desapareceu. Ele sorriu para Reid. "Aguardemos", Disse simplesmente.

Houve um barulho revelador de roldanas e a silhueta reapareceu, desta vez empurrando um carrinho de aço para a pequena sala de concreto. Reid reconheceu o transportador como o sujeito quieto e de porte pesado que fora até sua casa, ainda com a mesma expressão no rosto.

Sobre o carrinho havia uma máquina arcaica, uma caixa marrom com uma dúzia de puxadores e grossos fios pretos conectados em um lado. Do lado oposto, havia um rolo de papel branco com quatro agulhas finas pressionadas contra ele.

Era uma máquina de polígrafo - provavelmente quase tão antiga quanto Reid, mas não havia dúvida de que era um detector de mentiras. Ele deu um suspiro de parcial alívio. Pelo menos saberiam que ele estava dizendo a verdade.

O que poderiam fazer com ele depois... Não queria pensar sobre isso.

O interrogador começou a envolver os sensores de velcro em torno de dois dos dedos de Reid, um em volta do bíceps esquerdo e dois cordões ao redor do peito. Ele se sentou novamente, tirou um lápis do bolso e enfiou a ponta da borracha rosa na boca.

"Você sabe o que é isso", Disse simplesmente. "Você sabe como isso funciona. Se disser outra coisa que não seja as respostas às minhas perguntas, iremos magoá-lo. Entendeu?"

Reid assentiu uma vez. "Sim."

O interrogador acionou um interruptor e mexeu nos botões da máquina. O brutamontes ficou por perto, bloqueando a luz do candeeiro e observando Reid.

As agulhas finas dançavam ligeiramente contra o rolo de papel branco, deixando quatro trilhas pretas. O interrogador marcou a folha com um rabisco e então voltou o seu olhar frio para Reid. "De que cor é o meu chapéu?"

"Branco", Reid respondeu serenamente.

"Qual a sua espécie?"

"Humano." O interrogador estava estabelecendo uma referência para as perguntas que viriam - geralmente quatro ou cinco verdades inquestionáveis para que ele pudesse monitorar possíveis mentiras.

"Em que cidade você mora?"

"Nova York."

"Onde você está agora?"

Reid quase zombou dele. "Em uma... numa cadeira. Eu não sei."

O interrogador fez marcas intermitentes no papel. "Qual é o seu nome?"

Reid fez o melhor que pôde para manter a voz firme. "Reid. Lawson."

Todos os três estavam de olho na máquina. As agulhas continuaram imperturbáveis; não havia cristas ou vales significativos nas linhas rabiscadas.

"Qual é a sua ocupação?", Perguntou o interrogador.

"Sou professor de história europeia na Universidade de Columbia."

"Há quanto tempo você é professor universitário?"

"Treze anos", Reid respondeu honestamente. "Eu fui professor assistente por cinco anos e professor adjunto na Virgínia por mais seis. Sou professor associado em Nova York há dois anos."

"Você já esteve em Teerã?"

"Não."

"Você já esteve em Zagreb?"

"Não!"

"Você já esteve em Madrid?"

"N-sim. Uma vez, cerca de quatro anos atrás. Eu estive lá para uma cimeira, em representação da universidade."

As agulhas permaneceram estáveis.

"Percebe?" Reid queria gritar, mas lutou para permanecer calmo. "Você tem a pessoa errada. Quem você está procurando, não sou eu."

As narinas do interrogador se dilataram, mas por outro lado não houve reação. O brutamontes apertou as mãos na frente dele, suas veias grudadas contra a sua pele.

"Você já conheceu um homem chamado Sheik Mustafar?" Perguntou o interrogador.

Reid sacudiu a cabeça. "Não."

"Ele está mentindo!" Um homem alto e magro entrou na sala - um dos outros dois homens que atacaram sua casa, o mesmo que lhe perguntara seu nome. Entrou com passos largos e seu olhar hostil dirigiu-se a Reid. "Esta máquina pode ser adulterada. Nós sabemos disso."

"Haveria algum sinal", Respondeu o interrogador calmamente. "Linguagem corporal, suor, sinais vitais... Tudo aqui sugere que ele está dizendo a verdade." Reid não pôde deixar de pensar que estavam falando em inglês para seu benefício.

O homem alto virou-se e caminhou ao longo da sala de concreto, murmurando com raiva em árabe. "Pergunte a ele sobre Teerã."

"Perguntei", Respondeu o interrogador.

O homem alto girou em direção a Reid, irritado. Reid prendeu a respiração, esperando ser atingido novamente.

Em vez disso, o homem continuou a caminhar de um lado para outro. Disse algo rapidamente em árabe. O interrogador respondeu. O brutamontes olhou para Reid.

"Por favor!" Ele disse em voz alta. "Eu não sou quem vocês pensam que eu sou. Não me lembro de nada que está perguntando..."

O homem alto ficou em silêncio e seus olhos se arregalaram. Ele quase bateu na testa e depois falou animadamente para o interrogador. O homem impassível usando kufi acariciou o queixo.

"É possível", Disse em inglês. Ele se levantou e pegou a cabeça de Reid com ambas as mãos.

"O que foi? O que você está fazendo? "Reid perguntou. As pontas dos dedos do homem subiram e desceram lentamente por seu couro cabeludo.

"Calma", Dise o homem categoricamente. Ele sondou a linha do cabelo de Reid, o pescoço, as orelhas… "Ah!" Disse bruscamente. Falou com seu correlegionário, que se precipitou e violentamente puxou a cabeça de Reid para o lado.

O interrogador passou um dedo pelo mastóide esquerdo de Reid, a pequena parte do osso temporal logo atrás da orelha. Havia um caroço oblongo sob a pele, pouco maior que um grão de arroz.

O interrogador gritou alguma coisa para o homem alto e o último rapidamente saiu da sala. O pescoço de Reid doía por causa do estranho ângulo em seguravam a sua cabeça.

"O quê? O que está acontecendo? " Perguntou.

"Este caroço, aqui", Disse o interrogador, passando o dedo sobre ele novamente. "O que é isso?"

"É... é apenas uma protuberância óssea", Disse Reid. "Eu o tenho desde um acidente de carro, aos vinte anos."

O homem alto voltou rapidamente, desta vez com uma bandeja de plástico. Colocou-a no carrinho, ao lado da máquina de polígrafo. Apesar da luz fraca e do ângulo estranho de sua cabeça, Reid podia ver claramente o que havia dentro da bandeja. Seu estômago se contraiu de medo.

A bandeja tinha uma série de instrumentos afiados e prateados.

"Para que serve isso?" Sua voz em pânico. Ele se contorceu. "O que você está fazendo?"

O interrogador deu um breve comando ao brutamontes. Ele deu um passo à frente e o brilho súbito da lâmpada quase cegou Reid.

"Espere... Espere!" Gritou. "Apenas me diga o que você quer saber!"

O brutamontes agarrou a cabeça de Reid em suas mãos grandes e segurou-a com força. O interrogador escolheu uma ferramenta - um bisturi de lâmina fina.

"Por favor, não... Por favor, não..." A respiração de Reid era entrecortada. Ele estava quase hiperventilando.

"Shh", Disse o interrogador calmamente. "Você vai querer ficar parado. Eu não gostaria de cortar sua orelha. Pelo menos não por acidente."

Reid gritou quando a lâmina cortou a pele atrás da orelha, mas o brutamontes o segurou. Todos os músculos de seus membros ficaram tensos.

Um som estranho chegou aos seus ouvidos - uma melodia suave. O interrogador estava cantando uma música em árabe enquanto cortava.

Deixou cair o bisturi sangrento na bandeja enquanto Reid respirava com dificuldade. Então, o interrogador pegou um alicate de ponta fina.

"Receio que tenha sido apenas o começo", Sussurrou no ouvido de Reid. "A próxima parte vai doer."

O alicate segurava algo na cabeça de Reid - era o osso? - e o interrogador o puxou. Reid gritou em agonia quando uma dor quente atravessou seu cérebro, pulsando em terminações nervosas. Seus braços tremiam. Seus pés bateram no chão.

A dor cresceu até Reid pensar que não poderia aguentar mais. O sangue latejava em seus ouvidos e seus próprios gritos soavam como se estivessem a distância. Então a lâmpada diminuiu de intensidade e a sua visão escureceu quando ficou inconsciente.




CAPÍTULO TRÊS


Quando Reid tinha vinte e três anos, sofrera um acidente de carro. O semáforo ficou verde e ele entrou no cruzamento. Uma picape passou no sinal vermelho e bateu no lado do carona. Sua cabeça atingiu a janela. Ele ficou inconsciente por vários minutos.

Sua única lesão foi um osso temporal rachado. Sarou bem; a única evidência do acidente foi um pequeno caroço atrás da orelha. O médico disse-lhe que era uma obstrução óssea.

O curioso sobre o acidente foi que, embora se lembrasse do evento, não conseguia recordar qualquer dor - nem quando aconteceu, nem depois.

Mas sentia agora. Ao recuperar a consciência, o pequeno pedaço de osso atrás da orelha esquerda latejava de forma tortuosa. A lâmpada estava novamente brilhando em seus olhos. Ele apertou os olhos e gemeu ligeiramente. O menor movimento da cabeça afetava dolorosamente o seu pescoço.

De repente, algo lhe ocorreu. A luz brilhante não era a lâmpada.

O sol da tarde brilha contra um céu azul sem nuvens. Um Warthog A-10 voa sobre a sua cabeça, indo para a direita e mergulhando em altitude sobre os telhados planos e sem graça de Candaar.

A visão não era fluida. Surgiu em flashes, como várias fotos em sequência; como assistir a alguém dançar sob uma luz estroboscópica.

Você está no telhado bege de um prédio parcialmente destruído, um terço dele foi destruído. Você traz o suporte de apoio até o ombro, olha o telescópio e vê um homem abaixo...

Reid sacudiu a cabeça e gemeu. Ele estava na sala de concreto, sob a lâmpada que incidia sobre si. Seus dedos tremiam e seus membros estavam frios. O suor escorria por sua testa.

Estava provavelmente entrando em choque. Ele pôde ver que o ombro esquerdo de sua camisa estava encharcado de sangue.

"Protuberância óssea", disse a voz plácida do interrogador. Então ele riu sarcasticamente. Uma mão esbelta apareceu no campo de visão de Reid, segurando o alicate de ponta fina. Preso no alicate, havia algo minúsculo e prateado, mas Reid não conseguia distinguir detalhes. Sua visão estava confusa e a sala parecia estar ligeiramente inclinada. "Você sabe o que é isto?"

Reid meneou a cabeça lentamente.

"Eu admito, eu só vi isso uma vez antes", disse o interrogador. "Um chip de supressão de memória. É uma ferramenta muito útil para as pessoas em sua situação." Ele largou o alicate ensanguentado e o pequeno grão de prata na bandeja de plástico.

"Não," Reid grunhiu. "Impossível." A última palavra foi apenas um murmúrio. Supressão de memória? Isso era ficção científica. Para que funcionasse, teria que afetar todo o sistema límbico do cérebro.

O quinto andar do Ritz Madrid. Você ajusta sua gravata preta antes de saltar e chutar a porta com força logo acima da maçaneta. O homem dentro foi pego de surpresa; ele fica de pé num salto e pega uma pistola na escrivaninha. Mas antes que o homem possa apontá-la para você, você pega a arma dele fazendo um movimento para cima e para baixo. Sua força estala o pulso dele com facilidade…

Reid sacudiu a sequência confusa de seu cérebro quando o interrogador se sentou na cadeira em frente a ele.

"Você me fez algo", murmurou.

"Sim", concordou o interrogador. "Nós libertamos você de uma prisão mental." Ele se inclinou para frente com seu sorriso apertado, procurando algo nos olhos de Reid. "Você está lembrando. Isso é fascinante de assistir. Você está confuso. Suas pupilas estão anormalmente dilatadas, apesar da luz. O que é real, 'Professor Lawson'?"

O sheik. Por qualquer meio necessário.

"Quando nossas memórias falham..."

Último paradeiro conhecido: Casa segura em Teerã.

"Quem somos nós?"

Uma bala soa igual em todas as línguas... Quem disse isso?

"Quem nos tornamos?"

Você disse isso.

Reid sentiu-se escorregando novamente no vazio. O interrogador deu-lhe dois bofetões, empurrando-o de volta para a sala de concreto. "Agora podemos continuar o que estávamos fazendo de um jeito mais sério. Então, eu te pergunto novamente. Qual é o seu nome?"

Você entra na sala de interrogatório sozinho. O suspeito é algemado a um ferrolho na mesa. Você alcança o bolso interno do terno e pega um crachá de identificação com capa de couro e o abre…

"Reid. Lawson." Sua voz era incerta. "Eu sou professor... de História europeia..."

O interrogador suspirou desapontado. Ele acenou com um dedo para o homem bruto e carrancudo. Um punho pesado penetrou no rosto de Reid. Um molar saltou no chão juntamente com sangue fresco.

Por um momento, não houve dor; seu rosto estava dormente, pulsando com o impacto. Então, uma agonia fresca e nebulosa tomou conta dele.

"Nnggh..." Ele tentou formar palavras, mas seus lábios não se moviam.

"Eu perguntarei de novo", disse o interrogador. "Teerã?"

O sheik estava em um esconderijo disfarçado de fábrica têxtil abandonada.

"Zagreb?"

Dois homens iranianos são presos em uma pista de pouso particular, prestes a embarcar em um avião fretado para Paris.

"Madrid?"

O Ritz, quinto andar: um grupo secreto de espiões com uma bomba na mala. Destino previsto: a Plaza de Cibeles.

"Sheik Mustafar?"

Ele queria preservar sua vida. Nos deu tudo o que sabia. Nomes, locais, planos. Mas ele só sabia...

"Eu sei que você está lembrando", disse o interrogador. "Seus olhos traem você... Zero."

Zero. Uma imagem lhe ocorreu: um homem de óculos de aviador e uma jaqueta escura de motociclista. Ele está na esquina de alguma cidade europeia. Move-se com a multidão. Ninguém está ciente do que está acontecendo. Ninguém sabe que ele está lá.

Reid tentou novamente sacudir as visões de sua cabeça. O que estava acontecendo com ele? As imagens dançavam em sua mente, mas ele se recusou a reconhecê-las como lembranças. Eram falsas. Implantadas, de alguma forma. Ele era um professor universitário, com duas filhas adolescentes e uma casa humilde no Bronx...

"Diga-nos o que você sabe sobre os nossos planos", exigiu o interrogador, categoricamente.

Nós não falamos. Nunca.

As palavras ecoaram nas profundezas de sua mente, repetidamente. Nós não falamos. Nunca.

"Isso está demorando demais!" gritou o homem alto iraniano. "Force-o".

O interrogador suspirou. Pegou o carrinho de metal - mas não ligou o polígrafo. Em vez disso, seus dedos demoraram-se sobre a bandeja de plástico. "Eu geralmente sou um homem paciente", disse ele a Reid. "Mas admito, a frustração do meu colega é contagiosa." Ele puxou o bisturi ensanguentado, a ferramenta que usara para tirar o pequeno grão prateado de sua cabeça, e pressionou a ponta da lâmina contra os jeans de Reid, quatro centímetros acima do joelho. "Tudo o que queremos saber é o que você sabe. Nomes. Datas. Para quem você contou o que sabe. As identidades de seus colegas agentes."

Morris. Reidigger. Johansson. Nomes passaram pela mente dele, e com cada um veio um rosto que ele nunca tinha visto antes. Um homem mais jovem com cabelos escuros e um sorriso arrogante. Um cara de rosto redondo e amigável, de camisa branca engomada. Uma mulher de cabelo loiro esvoaçante e olhos cinzentos cor de aço.

"E o que aconteceu com o sheik."

De alguma forma, de repente, Reid percebeu que o sheik em questão havia sido detido e levado para um local obscuro do Marrocos. Não era uma visão. Ele simplesmente sabia.

Nós não falamos. Nunca.

Um calafrio percorreu a espinha de Reid enquanto lutava para manter alguma aparência de sanidade.

"Diga-me", insistiu o interrogador.

"Eu não sei." As palavras pareciam estranhas saindo de sua língua inchada. Ele olhou assustado e viu o outro homem sorrindo de volta para ele.

Ele entendeu a pergunta em língua estrangeira... E respondeu com um árabe impecável.

O interrogador empurrou a ponta do bisturi na perna de Reid. Ele gritou quando a faca penetrou no músculo de sua coxa. Instintivamente, tentou puxar a perna, mas seus tornozelos estavam presos às pernas da cadeira.

Cerrou os dentes com força, e sentiu a mandíbula doer em protesto. A ferida em sua perna ardia ferozmente.

O interrogador sorriu e inclinou a cabeça ligeiramente. "Eu admito, você é mais forte que a maioria, Zero", disse em inglês. "Infelizmente, eu sou um profissional." Ele se abaixou e lentamente puxou uma das meias agora imundas de Reid. "Eu não recorro a essa tática com frequência."

Ele se endireitou e encarou Reid diretamente nos olhos. "Aqui está o que vai acontecer a seguir: vou cortar pequenos pedaços de você e mostrar-lhe cada um. Vamos começar com os dedos dos pés. Depois os dedos das mãos. Depois disso... Vamos ver o que farei." O interrogador se ajoelhou e pressionou a lâmina contra o menor dedo do pé direito.

"Espere", Reid pediu. "Por favor, apenas espere."

Os outros dois homens na sala se reuniram em ambos os lados, observando com interesse.

Desesperado, Reid tocou as cordas que prendiam seus pulsos. Era um nó com dois laços opostos…

Um arrepio intenso correu da base da coluna para os ombros. Ele sabia. De alguma forma, ele simplesmente sabia. Ele tinha um intenso sentimento de déjà vu, como se tivesse estado nessa situação antes - ou melhor, essas visões insanas de alguma forma implantadas em sua cabeça lhe diziam que já havia passado por aquilo.

Mas o mais importante é que ele sabia o que tinha que fazer.

"Eu vou te dizer!" Reid ofegou. "Eu vou te dizer o que você quer saber."

O interrogador levantou os olhos. "Sim? Bom. Primeiramente, porém, ainda vou remover esse dedo. Eu não quero que você ache que eu estava blefando".

Atrás da cadeira, Reid agarrou o polegar esquerdo na mão oposta. Ele susteve a respiração e se sacudiu com força. Ele sentiu o polegar sendo deslocado. Ele esperou pela dor aguda e intensa que viria, mas era pouco mais que um pulsar monótono.

Uma nova percepção o atingiu - essa não era a primeira vez que isso lhe acontecia.

O interrogador cortou a pele do dedo do pé e ele gritou. Com o polegar oposto ao ângulo normal, ele tirou a mão de suas amarras. Com um laço aberto, o outro cedeu.

Suas mãos estavam livres. Mas ele não tinha ideia do que fazer com elas.

O interrogador levantou os olhos e franziu a testa, confuso. "O que…?"

Antes que pudesse dizer outra palavra, a mão direita de Reid disparou e pegou a primeira arma próxima - uma faca de precisão de cabo preto. Quando o interrogador tentou se levantar, Reid puxou a mão para trás. A lâmina rasgou a carótida do homem.

Ele agarrou a garganta do interrogador com as mãos. Sangue jorrou entre seus dedos quando o torturador, de olhos arregalados, caiu no chão.

O brutamontes grosseiro rugiu, furioso, ao avançar sobre ele. Ele colocou as duas mãos carnudas em torno da garganta de Reid e apertou. Reid tentou pensar, mas o medo tomou conta dele.

Quando voltou a si, ergueu a faca de precisão novamente e enfiou-a no pulso do brutamontes. Ele retesou os ombros enquanto a empurrava. O brutamontes gritou e caiu, agarrando-se ao ferimento grave.

O homem alto e magro olhou incrédulo. Assim como antes, na rua em frente à casa de Reid, ele parecia hesitante em se aproximar dele. Em vez disso, procurou apressadamente uma arma na bandeja de plástico. Pegou uma lâmina curva e tentou apunhalar o peito de Reid.

Reid recuou, derrubando a cadeira e evitando a facada. Ao mesmo tempo, forçou as pernas para fora o mais forte que pôde. Quando a cadeira bateu no concreto, suas pernas se partiram. Reid se levantou e quase tropeçou, sentindo as próprias pernas fracas.

O homem alto gritou por ajuda em árabe e então cortou o ar indiscriminadamente com a faca, para a frente e para trás, com movimentos amplos para manter Reid a distância. Reid manteve a distância, observando a lâmina de prata balançar hipnoticamente. O homem a balançou para a direita e Reid se lançou, prendendo o braço - e a faca - entre seus corpos. Seu impulso levou-os para a frente e, quando o iraniano tombou, Reid torceu e cortou a artéria femoral na parte de trás de sua coxa. Ele jogou um pé e balançou a faca no sentido oposto, perfurando a jugular do homem.

Ele não sabia como sabia fazer tudo aquilo, mas sabia que o homem tinha cerca de quarenta e sete segundos de vida.

Pés bateram nas escadas próximas. Com os dedos tremendo, Reid correu para a porta aberta e se encostou em um lado. A primeira coisa que passou foi uma arma – ele a identificou imediatamente como uma Beretta 92 FS - e seguiu-se um braço e depois um torso. Reid girou, pegou a arma e deslizou a faca de precisão de lado entre duas costelas. A lâmina perfurou o coração do homem. Ele gritou quando caiu no chão.

Então, seguiu-se um silêncio.

Reid cambaleou para trás. Sua respiração era entrecortada.

"Ai, meu Deus", respirou. "Ai, meu Deus."

Ele acabara de matar - não, ele acabara de assassinar quatro homens em minutos. Pior ainda foi o fato de ser natural, automático, como andar de bicicleta. Ou, de repente, falar em árabe. Ou saber o destino do sheik.

Ele era professor. Ele tinha um passado. Ele tinha filhas. Uma carreira. Mas claramente seu corpo sabia como lutar, mesmo que ele não soubesse por quê. Ele sabia como escapar das amarras. Ele sabia como desferir um golpe letal.

"O que está acontecendo comigo?" perguntou-se. Reid cobriu os olhos quando uma onda de náusea tomou conta dele. Havia sangue em suas mãos - literalmente. Sangue na sua camisa. Quando a adrenalina diminuiu, as dores permearam seus membros por ficarem imóveis por tanto tempo. Seu tornozelo ainda latejava. Ele fora esfaqueado na perna. Tinha uma ferida aberta atrás da orelha.

Ele nem queria pensar em como seu rosto poderia estar.

Saia, seu cérebro gritou para ele. Mais está por vir.

"Tudo bem", Reid disse em voz alta, como se estivesse concordando com outra pessoa na sala. Acalmou sua respiração o melhor que pôde e examinou o que o rodeava. Seus olhos desfocados pousaram em certos detalhes - a Beretta. Uma peça retangular no bolso do interrogador. Uma marca estranha no pescoço do brutamontes.

Ele se ajoelhou ao lado do homem e olhou para a cicatriz. Estava da linha da mandíbula, parcialmente obscurecida pela barba e não maior que um centavo. Parecia ser algum tipo de marca, queimada na pele, e parecia semelhante a um glifo, como uma letra em outro alfabeto. Mas não reconheceu aquilo. Reid a examinou por vários segundos, gravando a imagem daquilo em sua memória.

Rapidamente vasculhou o bolso do interrogador e encontrou um celular velho. Parece um maçarico, seu cérebro lhe disse. No bolso de trás do homem alto, encontrou um pedaço de papel branco rasgado, um dos cantos manchado de sangue. Feita à mão, rabiscada e quase ilegível, havia uma longa série de dígitos que começavam com 963 - o código do país para fazer uma ligação internacional para a Síria.

Nenhum dos homens tinha qualquer identificação, mas o pretenso atirador tinha uma carteira recheada de notas de euro, alguns milhares certamente. Reid guardou isso também e, finalmente, pegou a Beretta. O peso da pistola parecia estranhamente natural em suas mãos. Calibre de nove milímetros. Quinze tiros. Cilindro de 125 milímetros.

Suas mãos habilmente manejavam a arma em um movimento fluido, como se alguém as estivesse controlando. Treze balas. Ele empurrou de volta e a engatilhou.

Então, deu o fora dali.

Do lado de fora da grossa porta de aço havia um saguão sujo que terminava em uma escada que subia. No topo estava a evidência da luz do dia. Reid subiu as escadas com cuidado, com a pistola no alto da cabeça, mas não ouviu nada. O ar ficou mais frio quando subiu.

Ele se viu em uma cozinha pequena e imunda, a pintura descascando das paredes e os pratos cobertos de sujeira empilhados na pia. As janelas eram opacas: tinham sido manchadas com graxa. O aquecedor no canto estava frio.

Reid observou todo o resto da pequena casa; não havia ninguém além dos quatro homens mortos no porão. O único banheiro estava muito pior do que a cozinha, mas Reid encontrou um kit de primeiros socorros antigo. Ele não ousou se olhar no espelho enquanto lavava todo aquele sangue espalhado no seu rosto e pescoço. Tudo, da cabeça aos pés, doía ou queimava. O pequeno tubo de pomada anti-séptica tinha expirado três anos antes, mas ele o usou de qualquer maneira, fazendo uma careta ao pressionar os curativos sobre os cortes abertos.

Então ele se sentou no vaso sanitário e segurou a cabeça entre as mãos, tentando se situar naquele contexto. Você poderia ir embora, ele disse a si mesmo. Você tem dinheiro. Vá ao aeroporto. Não, você não tem passaporte. Vá para a embaixada. Ou encontre um consulado. Mas…

Mas ele acabara de matar quatro homens e seu próprio sangue estava na cave. E havia o outro problema.

"Eu não sei quem sou", murmurou em voz alta.

Aqueles flashes, aquelas visões que espreitavam sua mente, eram de sua perspectiva. Seu ponto de vista. Mas ele nunca, nunca faria algo assim. Supressão de memória, o interrogador disse. Isso era possível? Ele pensou novamente em suas filhas. Elas estavam seguras? Elas estavam com medo? Elas eram... suas?

Essa noção o levou ao cerne da coisa. E se, de alguma forma, o que ele pensava ser real não fosse real?

Não, disse a si mesmo inflexivelmente. Elas eram suas filhas. Ele estava presente quando nasceram. Ele as criou. Nenhuma dessas visões bizarras e intrusivas contradizia isso. E ele precisava encontrar uma maneira de contatá-las, para se certificar de que estavam bem. Essa era a sua principal prioridade. Não havia como usar o telefone para contatar sua família; ele não sabia se estava sendo rastreado ou quem poderia estar ouvindo.

De repente, se lembrou do pedaço de papel com o número de telefone. Reid se levantou e o tirou do bolso. O papel manchado de sangue ali estava. Ele não sabia do que se tratava ou por que achavam que ele era alguém diferente de quem dizia ser, mas havia uma sombra de urgência na superfície de seu subconsciente, algo lhe dizendo que agora estava a contragosto envolvido em algo que era muito, muito maior do que ele.

Com as mãos trêmulas, discou o número.

Uma voz masculina respondeu no segundo tom. "Está feito?", perguntou em árabe.

"Sim", respondeu Reid. Tentou disfarçar sua voz o melhor que pôde e mudar o sotaque.

"Você tem a informação?"

"Mm."

A voz ficou em silêncio por um longo momento. O coração de Reid bateu forte no peito. Teria percebido que não era o interrogador?

"187 Rue de Stalingrad", disse o homem finalmente. "Oito horas da noite." E desligou.

Reid terminou a ligação e respirou fundo. Rue de Stalingrad? Pensou. Na França?

Ele ainda não tinha certeza do que faria. Sua mente parecia ter atravessado uma parede e descoberto uma outra câmara do outro lado. Ele não podia voltar para casa sem saber o que estava acontecendo. Mesmo se o fizesse, quanto tempo demoraria até que o encontrasem novamente e às filhas? Tinha apenas uma pista e tinha que a seguir.

Saiu da pequena casa e encontrou-se num beco estreito, cuja boca se abria para uma rua chamada Rue Marceau. Soube imediatamente onde estava - um subúrbio de Paris, a poucos quarteirões do rio Sena. Quase riu. Pensava que saíria no meio de ruas devastadas pela guerra de uma cidade do Oriente Médio. Em vez disso, encontrou uma avenida repleta de lojas e casas, transeuntes despretensiosos aproveitando uma tarde casual, todos agasalhados contra a brisa fria de fevereiro.

Reid enfiou a pistola no cós da calça jeans e saiu para a rua, misturando-se na multidão e tentando não chamar atenção para a sua camisa manchada de sangue, ataduras ou contusões óbvias. Manteve os braços junto ao corpo – precisava de algumas roupas novas, uma jaqueta, algo mais quente do que apenas uma camisa.

Ele precisava ter certeza de que suas filhas estavam seguras.

Então, conseguiria obter algumas respostas.




CAPÍTULO QUATRO


Andar pelas ruas de Paris parecia um sonho – mas não exatamente do jeito que alguém esperaria ou desejaria. Reid chegou ao cruzamento da Rue de Berri com a Avenue des Champs-Élysées, sempre um local turístico, apesar do tempo frio. O Arco do Triunfo se erguia a vários quarteirões de distância a noroeste, a peça central da Place Charles de Gaulle, mas sua grandeza pouco impacto teve em Reid. Uma nova visão passou por sua mente.

Eu já estive aqui antes. Eu fiquei neste ponto e olhei para esta placa de rua. Vestindo jeans e uma jaqueta de motoqueiro preta, as cores do mundo silenciadas por óculos de sol...

Virou à direita. Não tinha certeza do que encontraria desse jeito, mas tinha a misteriosa suspeita de que o reconheceria quando o visse. Foi uma sensação incrivelmente bizarra não saber para onde estava indo até chegar ao local.

Era como se cada nova visão trouxesse lembranças vagas, cada uma desconectada da próxima, mas de algum modo congruente. Ele sabia que o café da esquina servia o melhor pastis que ele já provara. O doce aroma da patisserie do outro lado da rua fazia-o ansiar pelos saborosos palmiers. Ele nunca provara palmiers antes. Ou já?

Até sons o abalavam. Os transeuntes tagarelavam uns com os outros enquanto caminhavam pela avenida, ocasionalmente direcionando olhares para o rosto machucado de Reid.

"Eu odiaria ver o outro cara", um jovem francês murmurou para sua namorada. Ambos riram.

Ok, não entre em pânico, Reid pensou. Aparentemente você sabe árabe e francês. A única outra língua que o professor Lawson falava era alemão e algumas frases em espanhol.

Havia algo mais também, algo mais difícil de definir. Sob os nervos e o instinto de correr, ir para casa, esconder-se em algum lugar, debaixo de tudo aquilo havia uma reserva fria. Era como ter a mão pesada de um irmão mais velho no ombro, uma voz no subconsciente dizendo: Relaxe. Você sabe tudo.

Enquanto aquela voz lhe sussurrava suavemente no subsconsciente, em primeiro plano surgiam as suas filhas e a sua segurança. Onde estavam? O que estavam a pensar naquele momento? O que significaria para elas se perdessem ambos os pais?

Ele nunca parou de pensar nelas. Mesmo quando estava sendo espancado na sombria prisão da cave, mesmo quando aqueles flashes de visões se intrometiam em sua mente, ele estava pensando nas filhas - particularmente naquela última pergunta. O que aconteceria a elas se ele tivesse morrido naquele porão? Ou se morresse fazendo coisas muito imprudentes que sabia estar prestes a fazer?

Ele tinha que se certificar. Tinha de contactá-las de alguma forma.

Mas primeiro, precisava de um casaco, não apenas para cobrir sua camisa manchada de sangue. O tempo em fevereiro aproximava-se dos dez graus, mas ainda estava frio demais para se usar apenas uma camisa. O boulevard parecia um túnel de vento e a brisa era vigorosa. Ele entrou na loja de roupas mais próxima e escolheu o primeiro casaco que chamou a sua atenção - casaco marrom escuro, de couro com forro de lã. Estranho, pensou. Nunca teria escolhido um casaco como aquele antes, seu sentido de moda era mais simples, mas fora atraído por aquele casaco.

O casaco custava duzentos e quarenta euros. Não importava; ele tinha muito dinheiro. Escolheu uma camisa nova também, uma camiseta cinza e, em seguida, um par de jeans, meias novas e botas marrons bem resistentes. Colocou todas as suas compras no balcão e pagou em dinheiro.

Havia uma impressão digital de sangue em uma das notas. O empregado de lábios finos fingiu não notar. Um flash estroboscópico invadiu sua mente…

"Um cara entra em um posto de gasolina coberto de sangue. Ele paga seu combustível e começa a sair. O empregado desconcertado grita: ‘Ei, cara, você está bem?’ O cara sorri. ‘Ah sim, estou bem. Não é meu sangue’".

Nunca ouvi essa piada antes.

"Posso usar o seu vestiário?" Reid perguntou em francês.

O funcionário apontou para a parte de trás da loja. Ele não disse uma única palavra durante toda a transação.

Antes de trocar de roupas, Reid se examinou pela primeira vez em um espelho limpo. Jesus, tinha um aspeto horrível. Seu olho direito estava inchando ferozmente e sangue manchava os curativos. Ele teria que encontrar uma farmácia e comprar alguns itens decentes de primeiros socorros. Tirou a calça agora imunda e um pouco sangrenta sobre a coxa ferida, estremecendo. Algo caiu no chão, assustando-o. A Beretta. Quase se esquecera dela.

A pistola era mais pesada do que ele imaginava. Novecentos e quarenta e cinco gramas, descarregada, ele sabia. Segurá-la era como abraçar uma antiga amante, familiar e estranho ao mesmo tempo. Ele a colocou no chão e terminou de trocar de roupa, enfiou as roupas velhas na sacola de compras e enfiou a pistola no cós da calça jeans nova, na parte baixa das costas.

Na avenida, Reid manteve a cabeça baixa e caminhou apressadamente, olhando para a calçada. Ele não precisava de mais nada para distraí-lo naquele momento. Jogou a sacola de roupas velhas em uma lata de lixo sem perder o ritmo da passada.

"Oh! Excusez-moi" se desculpou quando seu ombro bateu bruscamente em uma mulher que passava vestida de executiva. Ela olhou para ele. "Sinto muito." Bufou e se afastou. Ele enfiou as mãos nos bolsos do casaco - junto com o celular que tinha acabado de roubar da bolsa dela.

Fora fácil. Muito fácil.

A duas quadras de distância, ele se abaixou sob um toldo de uma loja de departamentos e pegou o telefone. Deu um suspiro de alívio - tinha como alvo a empresária por um motivo e seu instinto não o enganou. Ela tinha o Skype instalado em seu telefone e uma conta vinculada a um número americano.

Reid abriu o navegador de Internet do telefone, procurou o número do Pap’s Deli no Bronx e ligou.

Uma voz masculina jovem respondeu rapidamente. "Pap's, em que posso ajudá-lo?"

"Ronnie?" um de seus alunos do ano anterior trabalhava meio período na Deli favorita de Reid. "É o professor Lawson."

"Ei, professor!" o jovem disse jovialmente. "Como tá indo? Você quer fazer um pedido?"

"Não. Sim... Mais ou menos. Ouça, eu preciso de um grande favor, Ronnie." O Pap’s Deli estava a apenas seis quarteirões de sua casa. Em dias agradáveis, ele costumava caminhar até lá para pegar sanduíches. "Você tem Skype no seu telefone?"

"Sim", disse Ronnie, com uma cadência confusa em sua voz.

"Ótimo. Aqui está o que eu preciso que você faça. Anote esse número..." instruiu o garoto a correr rapidamente até sua casa, ver quem estava, se alguém estivesse lá, e depois ligar de volta para o número de telefone americano.

"Professor, você está com algum tipo de problema?"

"Não, Ronnie, está tudo bem", mentiu. "Eu perdi meu telefone e uma mulher solidária permitiu que eu usasse o dela para deixar minhas filhas saberem que estou bem. Mas só tenho alguns minutos. Então, se você puder fazer isso agora, por favor..."

"Não diga mais nada, professor. Fico feliz por ajudar. Eu ligo de volta em alguns minutos." Ronnie desligou.

Enquanto esperava, Reid percorreu o curto espaço do toldo, checando o telefone em intervalos de alguns segundos, caso perdesse a ligação. Parecia que uma hora havia passado antes que o telefone tocasse de novo, embora tivessem apenas decorrido seis minutos.

"Estou?" ele atendeu a chamada do Skype no primeiro toque. "Ronnie?"

"Reid, é você?" disse uma voz frenética de mulher.

"Linda!" Reid disse sem fôlego. "Estou tão feliz por falar com você. Ouça, eu preciso saber..."

"Reid, o que aconteceu? Onde você está?" quis saber.

"As meninas estão..."

"O que aconteceu?" Linda interrompeu. "As meninas acordaram esta manhã, assustadas porque você não estava em casa, então me ligaram e eu vim correndo..."

"Linda, por favor", tentou interromper, "onde elas estão?"

Ela começou a falar por cima da voz dele, claramente perturbada. Linda era boa em um monte de coisas, mas não era equilibrada em uma situação de crise. "Maya disse que, às vezes, você sai para passear de manhã, mas tanto a porta da frente quanto a de trás estavam abertas, e ela queria ligar para a polícia porque disse que você nunca deixa o telefone em casa, e agora esse garoto aparece. E me dá um telefone...?"

"Linda!" Reid disse bruscamente. Dois homens idosos que passavam olharam para ele. "Onde estão as garotas?"

"Elas estão aqui", ofegou. "Estão ambas aqui em casa comigo."

"Elas estão seguras?"

"Sim, claro. Reid, o que está acontecendo?"

"Você ligou para a polícia?"

"Ainda não, não… Na TV eles sempre dizem que você tem que esperar vinte e quatro horas para relatar o sumiço de alguém… Você corre algum risco? De onde você está me ligando? De quem é essa conta?"

"Eu não posso te dizer isso. Apenas me escute. Peça às meninas que arrumem uma mala e leve-as para um hotel. Não para perto; saia da cidade. Talvez para Jersey..."

"Reid, o quê?"

"Minha carteira está na minha mesa no escritório. Não use o cartão de crédito diretamente. Saque dinheiro em qualquer cartão e use esse dinheiro para pagar a estadia."

"Reid! Eu não vou fazer nada até que você me diga o que... Espere um segundo."a voz de Linda ficou abafada e distante. "Sim, é ele. Ele está bem. Eu acho. Espere Maya!"

"Papai? Papai, é você?" uma nova voz na linha. "O que aconteceu? Onde está você?"

"Maya! Eu tive um imprevisto, uma urgência de última hora. Eu não queria acordar você..."

"Você está brincando comigo?" sua voz era estridente, agitada e preocupada ao mesmo tempo. "Eu não sou idiota, pai. Diga-me a verdade."

Ele suspirou. "Você está certa. Eu sinto muito. Eu não posso te dizer onde estou, Maya. E não deveria ficar no telefone por muito tempo. Apenas faça o que sua tia diz, ok? Você vai sair de casa por um tempo. Não vá para a escola. Não ande em nenhum lugar. Não fale de mim no telefone ou no computador. Entendeu?"

"Não, eu não entendi! Você está metido em algum problema sério? Deveríamos chamar a polícia?"

"Não, não faça isso", disse ele. "Ainda não. Apenas... Me dê algum tempo para resolver umas coisas."

Ela ficou em silêncio por um longo momento. Então disse, "Prometa-me que está bem".

Ele estremeceu.

"Papai?"

"Sim", disse vigorosamente. "Estou bem. Por favor, faça o que eu peço e vá com sua tia Linda. Eu amo vocês duas. Diga a Sara que eu disse isso e a abrace por mim. Entrarei em contato assim que puder..."

"Espere, espere!" Maya disse. "Como você vai entrar em contato conosco se não souber onde estamos?"

Ele pensou por um momento. Ele não podia pedir que Ronnie se envolvesse mais nisso. Não podia ligar diretamente para as meninas. E não podia arriscar saber onde elas estavam, porque isso poderia ser uma informação que poderia ser usada contra ele...

"Eu configurarei uma conta falsa", disse Maya, "com outro nome. Você saberá disso. Vou usá-la apenas nos computadores do hotel. Se você precisar entrar em contato conosco, envie uma mensagem."

Reid entendeu imediatamente. Sentiu uma onda de orgulho; ela era tão inteligente e muito mais fria sob pressão do que ele.

"Papai?"

"Sim", disse. "Isso é bom. Cuide da sua irmã. Eu tenho que ir…"

"Eu também te amo", disse Maya.

Ele terminou a ligação. Depoia fungou. Mais uma vez sobreveio o instinto pungente de correr para casa e vê-las, para mantê-las seguras, para arrumar tudo o que podiam e sair, ir para qualquer lugar...

Ele não podia fazer isso. O que quer que estivesse acontecendo, quem quer que estivesse atrás dele, já o encontrara uma vez. Ele tinha tido muita sorte por não estarem atrás de suas filhas. Talvez não soubessem da existência das crianças. Da próxima vez, se houvesse uma próxima vez, talvez não tivesse tanta sorte.

Reid abriu o telefone, pegou o cartão SIM e o quebrou ao meio. Largou os pedaços num esgoto. Enquanto caminhava pela rua, colocou a bateria em uma lixeira e as duas metades do telefone em outras.

Ele sabia que estava andando na direção da Rue de Stalingrad, embora não tivesse ideia do que faria quando chegasse lá. Seu cérebro gritou para ele mudar de direção, para ir a qualquer outro lugar. Mas aquele sangue-frio em seu subconsciente o obrigou a continuar.

Seus captores lhe perguntaram o que ele sabia dos seus "planos". Os locais sobre os quais tinham feito perguntas, Zagreb, Madrid e Teerã, tinham que estar conectados e estavam claramente ligados aos homens que o haviam capturado. Quaisquer que fossem essas visões - ele ainda se recusava a reconhecê-las -, havia conhecimento nelas sobre algo que ocorrera ou iria ocorrer. Conhecimento que ele não tinha. Quanto mais pensava sobre aquilo, mais sentia aquela sensação de urgência incomodar sua mente.

Não, era mais que isso. Parecia uma obrigação.

Seus captores pareciam dispostos a matá-lo lentamente pelo que ele sabia. E ele teve a sensação de que se não descobrisse o que era e o que deveria saber, mais pessoas morreriam.

"Monsieur." Reid foi surpreendido no seu devaneio por uma mulher envergando um xale e que tocou suavemente seu braço. "Você está sangrando", Disse em inglês e apontou para sua própria testa.

"Oh. Merci." tocou na testa com dois dedos. Um pequeno corte havia encharcado o curativo e uma gota de sangue estava descendo pelo rosto. "Eu preciso encontrar uma farmácia", murmurou em voz alta.

Então respirou fundo quando um pensamento lhe ocorreu: havia uma farmácia dois quarteirões abaixo e outra acima. Ele nunca tinha estado lá dentro - não que se lembrasse, mas ele simplesmente sabia disso, tão facilmente quanto conhecia o caminho para o Pap's Deli.

Um calafrio correu da base de sua espinha até a nuca. As outras visões foram viscerais e todas se manifestaram a partir de algum estímulo externo, visões e sons e até cheiros. Desta vez não houve visão. Era uma lembrança clara, da mesma maneira que ele sabia onde virar a cada placa de rua. Da mesma forma que sabia como carregar a Beretta.

Ele tomou uma decisão antes que a luz ficasse verde. Iria a esta reunião e obteria qualquer informação que pudesse. Então decidiria o que fazer, informar as autoridades talvez e limpar seu nome em relação ao que acontecera aos quatro homens no porão. Deixar que prendessem quem devia ser preso enquanto ele ia para casa para junto de suas filhas.

Na farmácia, comprou um tubo fino de super-cola, uma caixa de curativos com o formato de borboleta, cotonetes de algodão e uma base que quase combinava com seu tom de pele. Levou suas compras para o banheiro e trancou a porta.

Tirou os curativos antigos que havia colocado no rosto no apartamento e lavou o sangue das feridas. Nos cortes menores aplicou os curativos. Nas feridas mais profundas, que normalmente exigiam pontos, apertou as bordas da pele e colocou uma gota de super-cola, sibilando por entre os dentes o tempo todo. Então susteve a respiração por cerca de trinta segundos.

A cola queimava ferozmente, mas o ardor diminuía quando secava. Finalmente, alisou o rosto, havia contornos particularmente novos criados por seus antigos captores sádicos. Não havia como disfarçar completamente o olho inchado e a mandíbula machucada, mas pelo menos assim haveria menos pessoas olhando para ele na rua.

Todo o processo demorou cerca de meia hora e duas vezes nesse período os clientes bateram na porta do banheiro (pela segunda vez, uma mulher gritando em francês que seu filho estava prestes a fazer nas calças). Ambas as vezes Reid apenas gritou de volta, "Occupé!"

Finalmente, quando terminou, ele se examinou novamente no espelho. Estava longe de estar perfeito, mas pelo menos não parecia que havia sido espancado em uma câmara subterrânea de tortura. Ele se perguntou se deveria ter usado uma base mais escura, algo para fazê-lo parecer mais estrangeiro.

O interlocutor saberia com quem se ia encontrar? Eles reconheceriam quem ele era - ou quem pensavam que era? Os três homens que tinham ido a sua casa não pareciam tão certos; eles tinham checado uma foto.

"O que estou fazendo?", perguntou a si mesmo. Você está se preparando para uma reunião com um criminoso perigoso que provavelmente é um terrorista conhecido, disse a voz em sua cabeça - não essa nova voz intrusiva, mas a sua própria voz, a voz de Reid Lawson. Era o seu bom senso, zombando dele.

Então aquela personalidade confiante e decidida, a que estava logo abaixo da superfície, falou. Você vai ficar bem, disse-lhe. Nada que você não tenha feito antes. A mão dele apertou, instintivamente, a Beretta enfiada na parte de trás da calça, escondida por seu novo casaco. Você sabe isso tudo.

Antes de sair da farmácia, pegou mais alguns itens: um relógio barato, uma garrafa de água e duas barras de chocolate. Lá fora, na calçada, devorou as duas barras de chocolate. Não tinha certeza de quanto sangue havia perdido e queria manter seu nível de açúcar alto. Bebeu a garrafa inteira de água e depois perguntou a um transeunte pela hora. Acertou as horas e colocou o relógio no pulso.

Eram seis e meia. Tinha muito tempo para chegar cedo ao local de encontro e se preparar.



*



Era quase de noite quando chegou ao endereço que havia recebido por telefone. O pôr do sol de Paris lançava longas sombras no boulevard. 187 Rue de Stalingrad era um bar no 10º arrondissement chamado Féline, um local com janelas pintadas e uma fachada rachada. Situava-se em uma rua com estúdios de arte, restaurantes indianos e cafés boêmios.

Reid parou com a mão na porta. Se entrasse, não haveria como voltar atrás. Ele ainda podia ir embora. Não, decidiu, não podia. Para onde iria? De volta para casa, para que pudessem encontrá-lo de novo? E vivendo com essas estranhas visões em sua cabeça?

Entrou.

As paredes do bar eram pintadas de preto e vermelho e cobertas de cartazes da época dos anos cinquenta de mulheres de rosto sombrio, piteiras e silhuetas. Era cedo demais ou talvez tarde demais, para o lugar estar ocupado. Os poucos fregueses que circulavam falavam em voz baixa, curvados sobre suas bebidas. Um melancólico blues tocava suavemente em um aparelho de som atrás do bar.

Reid examinou o lugar da esquerda para a direita e novamente. Ninguém olhou de volta e certamente ninguém ali se parecia com os tipos que o haviam feito refém. Ele se sentou em uma pequena mesa perto da parte traseira e ficou de frente para a porta. Pediu um café.

Um velho encurvado deslizou de um banco e atravessou o bar em direção aos banheiros. Reid encontrou seu olhar rapidamente atraído pelo movimento, examinando o homem. Final dos anos sessenta. Displasia do quadril. Dedos amarelados, respiração ofegante - um fumante de charuto. Seus olhos voaram para o outro lado do bar sem mover a cabeça, onde dois homens de aparência grosseira e de macacão estavam tendo uma conversa silenciosa mas fervorosa sobre esportes. Operários. O da esquerda não dorme o suficiente, provavelmente pai de crianças pequenas. O homem da direita esteve envolvido em uma briga recentemente ou pelo menos deu um soco; Seus nós dos dedos estão machucados.

Sem pensar, se viu examinando as suas calças, as mangas e a maneira como eles apoiavam os cotovelos na mesa. Alguém com uma arma irá protegê-la, tentar escondê-la, mesmo inconscientemente.

Reid sacudiu a cabeça. Ele estava ficando paranoico e esses pensamentos estranhos persistentes não estavam ajudando. Mas então se lembrou da estranha ocorrência na farmácia, a lembrança de sua localização apenas por mera menção da necessidade de encontrar uma. O seu lado acadêmico falou mais alto. Talvez haja algo a ser aprendido com isso. Talvez em vez de lutar, você deva tentar se abrir.

A garçonete era uma mulher jovem, de aparência cansada, com uma cabeleira escura e embaraçada. "Stylo?" perguntou quando ela passou. "Ou crayon?" caneta ou lápis? Ela enfiou a mão no emaranhado de cabelos e encontrou uma caneta. "Merci."

Ele alisou um guardanapo e colocou a ponta da caneta nele. Esta não era uma habilidade nova; essa era uma tática do professor Lawson que havia usado muitas vezes no passado para lembrar e fortalecer a memória.

Pensou em sua conversa, se poderia chamá-la assim, com os três captores árabes. Ele tentou não pensar em seus olhos mortos, o sangue no chão ou a bandeja de instrumentos afiados, destinados a arrancar qualquer verdade que achassem que ele tinha escondida. Em vez disso, se concentrou nos detalhes verbais e escreveu o primeiro nome que lhe veio à mente.

Então murmurou em voz alta. "Sheik Mustafar."

Um marroquino. Um homem que passou sua vida inteira rodeado de riqueza e poder, pisando nos menos afortunados, esmagando-os - agora assustado por saber que você pode enterrar seu pescoço na areia e ninguém jamais encontraria seus ossos.

"Eu disse a você tudo o que sei!", insistiu.

"Minha informação diz o contrário. Diz que você pode saber muito mais, mas pode estar com medo das pessoas erradas. O que acha, Sheik... Meu amigo na sala ao lado? Ele está ficando nervoso. Olhe só, ele tem um martelo - é apenas um martelinho, um martelo de pedra, como o de um geólogo? Mas faz maravilhas em pequenos ossos, nas articulações..."

"Eu juro!" O sheik torce as mãos nervosamente. Você reconhece isso como uma confissão.” "Houve outras conversas sobre os planos, mas eles estavam em alemão, russo... eu não entendi!"

"Sabe como é, Sheik... Um tiro soa do mesmo jeito em todas as línguas."

Reid regressou ao momento presente no bar. Sua garganta estava seca. A lembrança era intensa, tão vívida e lúcida quanto qualquer outra que ele conhecesse. E tinha sido a voz dele em sua cabeça, ameaçando casualmente, dizendo coisas que nunca sonharia em dizer a outra pessoa.

Planos. O sheik definitivamente havia dito alguma coisa sobre planos. Seja qual for a coisa terrível que estivesse incomodando seu subconsciente, ele tinha a nítida sensação de que ainda não acontecera.

Tomou um gole do café agora morno para acalmar seus nervos. "Ok", disse a si mesmo. "Ok." Durante o interrogatório na cave, perguntaram sobre colegas agentes no campo e três nomes passaram pela sua cabeça. Escreveu um e depois leu em voz alta. "Morris."

Um rosto surgiu-lhe imediatamente, um homem de trinta e poucos anos, bonito e consciente de que era bonito. Um meio sorriso malicioso arrogante com apenas um lado da boca. Cabelos escuros, estilizados para parecer jovem.

Uma pista de pouso privada em Zagreb. Morris corre ao seu lado. Vocês dois têm suas armas empunhadas, apontadas para baixo. Você não pode deixar os dois iranianos chegarem ao avião. Morris mira entre passos largos e dá dois tiros. Um atinge o primeiro homem que cai. Você ganha do outro, atacando-o brutalmente no chão...

Outro nome. "Reidigger".

Um sorriso de menino, cabelos bem penteados. Um pouco de barriga. Ele ficaria melhor com aquele peso se fosse alguns centímetros mais alto. O bumbum grande.

O Ritz em Madrid. Reidigger cobre o salão enquanto você chuta a porta e pega o bombista de surpresa. O homem pega a arma na mesa, mas você é mais rápido. Você bate no pulso dele... Mais tarde, Reidigger diz que ouviu o som vindo do corredor. Ele ficou com vontade de vomitar. Todos riem.

O café estava frio agora, mas Reid mal notou. Seus dedos tremiam. Não havia nenhuma dúvida sobre isso; o que quer que estivesse acontecendo com ele, essas eram memórias - suas memórias. Ou de alguém. Os caras, eles cortaram algo do pescoço dele e chamaram aquilo de supressor de memória. Isso não poderia ser verdade; este não era ele. Esta era outra pessoa. Ele tinha as memórias de outra pessoa se misturando com as suas próprias.

Reid colocou a caneta no guardanapo novamente e escreveu o nome final. Disse-o em voz alta: "Johansson". Uma forma surgiu em sua mente. Cabelo loiro comprido, macio e com brilho. Maçãs do rosto macias e bem torneadas. Lábios carnudos. Olhos cinzentos, cor de ardósia. Uma recordação surgiu...

Milão. Noite. Um hotel. Vinho. Maria se senta na cama com as pernas dobradas por baixo dela. Os três primeiros botões de sua blusa estão abertos. Seu cabelo está despenteado. Você nunca tinha percebido o quão longas suas pestanas eram. Duas horas atrás você assistiu ela matar dois homens em um tiroteio, e agora é Sangiovese e Pecorino Toscano. Seus joelhos quase se tocam. Seu olhar encontra o seu. Nenhum de vocês fala. Você pode ver nos olhos dela, mas ela sabe que você não pode. Ela pergunta sobre Kate...

Reid estremeceu quando uma dor de cabeça surgiu, espalhando-se por seu crânio como uma nuvem de tempestade. Ao mesmo tempo, a visão ficou turva e desbotada. Ele fechou os olhos e segurou as têmporas por um minuto inteiro até a dor de cabeça recuar.

Que diabos foi aquilo?

Por alguma razão, parecia que a lembrança dessa mulher, Johansson, desencadeara a enxaqueca breve. Ainda mais inquietante, no entanto, foi a sensação bizarra que o dominara. Parecia... Desejo. Não, era mais do que isso - parecia paixão, reforçada pela excitação e até por um pouco de perigo.

Ele não podia deixar de se perguntar quem era a mulher, mas sacudiu a lembrança. Não queria incitar outra dor de cabeça. Em vez disso, colocou a caneta no guardanapo de novo, prestes a escrever o nome final - Zero. Isso era o que o interrogador iraniano havia dito. Mas antes que pudesse escrevê-lo ou recitá-lo, teve uma sensação bizarra. Os cabelos da nuca estavam eriçados.

Ele estava sendo vigiado.

Quando olhou para cima novamente, viu um homem parado na porta escura do Féline, seu olhar fixo em Reid como um falcão olhando para um rato. O sangue de Reid gelou. Ele estava sendo vigiado.

Este era o homem que ele devia encontrar, estava certo disso. Ele o reconhecera? Os homens árabes não o reconheceram. Esse homem estava esperando outra pessoa?

Ele pousou a caneta. Lenta e sorrateiramente, amassou o guardanapo e colocou-o em seu café frio.

O homem assentiu uma vez. Reid assentiu de volta.

Então o estranho abeirou-se dele por trás, procurando algo escondido na parte de trás de suas calças.




CAPÍTULO CINCO


Reid levantou com tanta força que sua cadeira quase caiu. Sua mão imediatamente envolveu o cabo texturizado da Beretta, quente da permanência em suas costas. Sua mente gritou freneticamente. Este é um lugar público. Há pessoas aqui. Eu nunca usei uma arma antes.

Antes de Reid sacar a pistola, o estranho tirou uma carteira do bolso de trás. Sorriu para Reid, aparentemente se divertindo com seu nervosismo. Ninguém mais no bar parecia ter notado, exceto a garçonete com o cabelo de ninho de rato que simplesmente levantou uma sobrancelha.

O estranho aproximou-se do bar, colocou uma nota sobre a mesa e murmurou alguma coisa para o barman. Então foi para a mesa de Reid. Ficou atrás da cadeira vazia por um longo momento, com um sorriso em seus lábios.

Era jovem, tinha trinta anos na melhor das hipóteses, com cabelos curtos e uma barba por fazer. Era muito magro e seu rosto era descarnado, fazendo com que as maçãs salientes de seu rosto e o seu queixo saliente parecessem quase caricaturais. O mais desarmante eram os óculos de aro preto que usava, exatamente como se Buddy Holly tivesse crescido nos anos 80 e descoberto a cocaína.

Reid percebeu que era destro; suspendeu o cotovelo esquerdo perto do corpo, o que provavelmente significava que tinha uma pistola pendurada em um coldre de ombro em sua axila para que pudesse atirar com a mão direita se fosse necessário. Seu braço esquerdo prendia sua jaqueta preta de camurça para esconder a arma.

"Mogu sjediti?", perguntou finalmente o homem.

Mogu...? Reid não entendeu imediatamente. Não era russo, mas estava perto o suficiente para ele compreender o significado a partir do contexto. O homem estava perguntando se poderia se sentar.

Reid apontou para a cadeira vazia em frente a ele e o homem sentou-se, mantendo o cotovelo esquerdo dobrado o tempo todo.

Assim que se sentou, a garçonete trouxe um copo de cerveja âmbar e colocou-o diante dele. "Merci", disse. Sorriu para Reid. "Seu sérvio não é tão bom?"

Reid sacudiu a cabeça. "Não." sérvio? Ele supôs que o homem que encontraria seria árabe, como seus sequestradores e o interrogador.

"Em inglês, então? Ou français?"

"Como preferir." Reid ficou surpreso com a sua calma. Seu coração estava quase explodindo do peito de medo e... E para ser honesto consigo mesmo, alguma excitação.

O sorriso do homem sérvio se alargou. "Eu gosto deste lugar. É escuro. É quieto. É o único bar que conheço neste distrito que serve Franziskaner. É o meu favorito." Ele tomou um longo gole do copo, de olhos fechados e um grunhido de prazer escapou de sua garganta. "Que delicioso." abriu os olhos e acrescentou, "Você não é o que eu esperava."

Uma onda de pânico tomou conta de Reid. Ele sabe de tudo, pensou. Ele sabe que você não é quem ele deveria encontrar e tem uma arma.

Relaxe, disse o outro lado, a nova parte. Você pode lidar com isso.

Reid engoliu em seco, mas de alguma forma conseguiu manter seu comportamento frio. "Nem você", respondeu.

O sérvio riu. "Certo. Mas somos muitos, sim? E você… é americano?"

"Expatriado", respondeu Reid.

"Não somos todos?" outra risada. "Antes de você, conheci apenas um outro americano em nosso… qual é a palavra… conglomerado? Sim. Então, para mim, não é tão estranho.".

Reid ficou tenso. Não sabia se era uma piada ou não. E se ele sabia que Reid estava mentindo e estava ganhando tempo? Colocou as mãos no colo para esconder os dedos trêmulos.

"Você pode me chamar de Yuri. Como posso te chamar?"

"Ben." foi o primeiro nome que veio à mente, o nome de um mentor de seus dias como professor assistente.

"Ben. Como você veio trabalhar para os iranianos?"

"Com", Reid corrigiu. Ele estreitou os olhos. "Eu trabalho com eles."

O homem, aquele Yuri, tomou outro gole de sua cerveja. "Certo. Com. Como isso aconteceu? Apesar de nossos interesses mútuos, eles tendem a ser um... grupo fechado."

"Eu sou confiável", disse Reid sem pestanejar. Ele não tinha ideia de onde essas palavras estavam vindo, nem de onde vinha a convicção com a qual elas apareciam. Ele as disse tão facilmente como se tivesse ensaiado.

"E onde está Amad?" Yuri perguntou casualmente.

"Não pôde vir", Reid respondeu convincentemente. "Mandou lembranças."

"Tudo bem, Ben. Você diz que a ação está feita."

"Sim."

Yuri se inclinou para frente, seus olhos se estreitaram. Reid sentiu o cheiro do malte em sua respiração. "Eu preciso ouvir você dizer isso, Ben. Diga-me, o homem da CIA está morto?"

Reid congelou por um momento. CIA? Da CIA? De repente, toda a conversa sobre agentes no campo e visões sobre a detenção de terroristas em campos de pouso e em hotéis fazia mais sentido, mesmo que a totalidade do assunto não fizesse. Então, ele se lembrou da gravidade de sua situação e esperou que não tivesse dado pistas que revelassem sua farsa.

Ele também se inclinou para frente e disse devagar, "Sim, Yuri. O homem da CIA está morto."

Yuri recostou-se casualmente e sorriu de novo. "Bom". Ele pegou seu copo. "E a informação? Você a tem?"

"Ele nos deu tudo o que sabia", disse Reid. Não pôde deixar de notar que seus dedos não estavam mais tremendo sob a mesa. Era como se outra pessoa estivesse no controle agora, como se Reid Lawson estivesse em segundo plano em seu próprio cérebro. Decidiu não lutar contra isso.

"A localização de Mustafar?" Yuri perguntou. "E tudo o que lhes disse?"

Reid assentiu.

Yuri piscou algumas vezes com certa expectativa. "Estou esperando."

Uma percepção atingiu Reid assim que sua mente agrupou o pouco conhecimento que tinha. A CIA estava envolvida. Havia algum tipo de plano que mataria muitas pessoas. O sheik sabia disso e contou-lhes - contou-lhe - tudo. Esses homens precisavam saber o que o sheik sabia. Era o que Yuri queria saber. O que quer que isso fosse, parecia grande, e Reid tinha tropeçado naquilo... Embora ele sentisse que não era a primeira vez.

Ele não falou por um longo tempo, tempo suficiente para o sorriso desvanecer dos lábios de Yuri e transformar-se em um olhar expectante. "Eu não conheço você", disse Reid. "Eu não sei quem você representa. Você espera que eu lhe dê tudo o que sei e vá embora, e confie que a informação chegue ao lugar certo?"

"Sim", disse Yuri, "é exatamente o que eu espero, e precisamente o motivo desta reunião."

Reid sacudiu a cabeça. "Não. Veja, Yuri, ocorre-me que esta informação é importante demais para ser repassada assim e espero que ela chegue aos ouvidos certos na hora correta. O mais importante é que, no que diz respeito a você, só existe um lugar - exatamente aqui." Ele bateu na própria têmpora esquerda. Era verdade; a informação que procuravam estava, presumivelmente, em algum lugar de sua mente, esperando para ser destrancada. "Também me ocorre", continuou, "que agora que têm essa informação, nossos planos terão que mudar. Eu cansei de ser o mensageiro. Eu quero entrar. Eu quero uma função de verdade."

Yuri apenas ficou olhando. Então soltou uma risada aguda e ao mesmo tempo bateu na mesa com tanta força que abalou vários clientes próximos. "Você!" exclamou, abanando um dedo. "Você pode ser um expatriado, mas ainda tem essa ambição americana!" riu novamente, fazendo um som muito parecido com o de um burro. "O que é que você quer saber, Ben?"

"Vamos começar com quem você representa nisso."

"Como você sabe que eu represento alguém? Pelo que você sabe, eu poderia ser o chefe. O cérebro por trás do plano!" Ele ergueu as duas mãos em um gesto grandioso e riu novamente.

Reid sorriu. "Acho que não. Acho que você está na mesma posição que eu, transportando informações, trocando segredos, tendo reuniões em bares de merda." Tática de interrogatório - relacione-se com eles no nível deles. Yuri era claramente poliglota e parecia não ter o mesmo comportamento endurecido de seus sequestradores. Mas mesmo se ele fosse de baixo nível, ainda sabia mais do que Reid. "Que tal um acordo? Diga-me o que sabe e eu lhe direi o que sei." Ele baixou a voz quase num sussurro. "E confie em mim. Você vai querer saber o que eu sei."

Yuri acariciou o queixo pensativamente."Eu gosto de você, Ben. O que é, como dizer... conflituante, porque os americanos geralmente me deixam doente." sorriu. "Infelizmente para você, eu não posso te dizer o que não sei."

"Então me diga quem pode." As palavras fluíram como se contornassem seu cérebro e fossem direto para sua garganta. A parte lógica dele (ou mais apropriadamente, a parte Lawson dele) gritou em protesto. O que você está fazendo?! Pegue o que puder e saia daqui!

"Você se importaria de ir de carona comigo?" Os olhos de Yuri brilharam. "Vou levá-lo para ver meu chefe. Lá você pode dizer a ele o que sabe."

Reid hesitou. Ele sabia que não deveria. Ele sabia que não queria. Mas havia aquele sentido bizarro de obrigação, e havia aquele pensamento inconsciente que lhe disse novamente: Relaxe. Ele tinha uma arma. Ele tinha algum tipo de habilidade. Ele chegara tão longe e, a julgar pelo que agora sabia, isso ia muito além de alguns homens iranianos em um porão parisiense. Havia um plano e o envolvimento da CIA, e de alguma forma ele sabia que o final do jogo seria um monte de gente ferida ou até sofrendo algo pior.

Ele acenou com a cabeça uma vez, sua mandíbula se comprimindo com força.

"Ótimo." Yuri esvaziou o copo e ficou de pé, ainda mantendo o cotovelo esquerdo dobrado. "Au revoir." Ele acenou para o barman. Então o sérvio liderou o caminho em direção às traseiras do Féline, atravessou uma pequena cozinha suja e saiu por uma porta de aço em frente a um beco de paralelepípedos.

Reid o seguiu noite adentro, surpreso ao ver que havia ficado escuro tão rápido enquanto permanecera no bar. Na entrada do beco havia uma SUV preta, em marcha lenta, com as janelas quase tão escuras quanto a pintura. A porta traseira se abriu antes de Yuri alcançá-la e dois valentões saíram. Reid não sabia o que pensar deles; ambos tinham ombros largos, impondo-se e não fazendo nada para tentar esconder as pistolas automáticas TEC-9 balançando perto das axilas.

"Relaxem, meus amigos", disse Yuri. "Este é o Ben. Nós o levaremos para ver Otets.”

Otets é Russo, significa "pai". Ou, no nível mais técnico, "criador".

"Venha", disse Yuri agradavelmente. Ele bateu a mão no ombro de Reid. "É um passeio muito bom. Vamos beber champanhe no caminho. Venha."

As pernas de Reid não queriam se mover. Era arriscado - muito arriscado. Se ele entrasse neste carro com esses homens e eles descobrissem quem ele era ou mesmo que não era quem dissera ser, poderia morrer. Suas garotas ficariam órfãs e provavelmente nunca saberiam o que lhe acontecera.

Mas que escolha ele tinha? Não podia agir como se tivesse mudado de ideia de repente; isso seria muito suspeito. Era provável que já tivesse dado dois passos além do ponto sem retorno simplesmente seguindo Yuri até ali. E se conseguisse manter a farsa por tempo suficiente, poderia encontrar a fonte e descobrir o que estava acontecendo em sua própria cabeça.

Deu um passo à frente em direção ao SUV.

"Ah! Um momento, por favor." Yuri apontou um dedo para seus acompanhantes musculosos. Um deles forçou os braços de Reid para os lados do corpo, enquanto o outro o segurava. Primeiro encontrou a Beretta, enfiada na parte de trás do jeans. Então cavou os bolsos de Reid com dois dedos e tirou o maço de euros e o telefone, e entregou os três para Yuri.

"Isso você pode manter." O sérvio devolveu o dinheiro. "O resto, no entanto, vamos guardar. Segurança. Você entende." Yuri enfiou o telefone e a arma no bolso interno da jaqueta de camurça e, por um breve instante, Reid viu o punho marrom de uma pistola.

"Eu entendo", disse Reid. Agora ele estava desarmado e sem qualquer forma de pedir ajuda se precisasse. Eu deveria correr, pensou. Apenas começar a correr e não olhar para trás...

Um dos valentões forçou a cabeça dele para baixo e empurrou-o para a frente, na traseira do SUV. Os dois subiram atrás dele e Yuri seguiu, puxando a porta atrás dele. Sentou-se ao lado de Reid, enquanto os capangas encolhidos, quase ombro a ombro, sentavam-se em um assento voltado para a retaguarda diante deles, bem atrás do motorista. Uma divisória de cor escura os separava do banco da frente do carro.

Um dos dois bateu na divisória do motorista com dois dedos. "Otets", disse rispidamente.

Um pesado e revelador clique trancou as portas traseiras, e com isso veio uma compreensão completa do que Reid tinha feito. Ele tinha entrado em um carro com três homens armados, sem ideia de para onde estava indo e muito pouca ideia de quem deveria ser. Enganar Yuri não tinha sido tão difícil, mas agora ele estava sendo levado para algum chefão... Eles saberiam que ele não era quem dissera ser? Lutou contra a vontade de pular para a frente, abrir a porta e pular do carro. Não havia como fugir disso, pelo menos não no momento; ele teria que esperar até que chegassem ao destino final e torcer para que pudesse sair inteiro.

A SUV avançou pelas ruas de Paris.




CAPÍTULO SEIS


Yuri, que fora tão falador e animado no bar francês, ficou estranhamente silencioso durante o passeio de carro. Abriu um compartimento ao lado de seu assento e tirou um livro gasto com uma capa rasgada - O Príncipe de Maquiavel. O professor em Reid queria zombar alto daquela descoberta.

Os dois valentões em frente a ele ficaram em silêncio, os olhos voltados para a frente, como se estivessem tentando olhar furiosamente através de Reid. Ele rapidamente memorizou suas características: o homem da esquerda era careca, branco, com um bigode escuro e olhos pequenos. Tinha uma TEC-9 debaixo do ombro e uma Glock 27 enfiada num coldre de tornozelo. Uma cicatriz pálida e irregular sobre a sobrancelha esquerda sugeria um trabalho cirúrgico de má qualidade (não tão diferente do que Reid recebera depois da super-cola). Não conseguia decifrar a nacionalidade do homem.

O segundo valentão era mais escuro, com uma barba cheia e desgrenhada e uma barriga grande. Seu ombro esquerdo parecia estar cedendo levemente, como se estivesse destacando o seu quadril oposto. Também tinha uma pistola automática debaixo de um braço, mas nenhuma outra arma que Reid pudesse ver.

Ele podia, no entanto, ver a marca em seu pescoço. A pele estava enrugada e rosada, ligeiramente levantada por estar queimada. Era a mesma marca que havia visto no bruto árabe no porão de Paris. Um tipo de glifo, tinha certeza, mas não conseguia reconhecer. O homem de bigode não parecia ter um, embora grande parte de seu pescoço estivesse escondido por sua camisa.

Yuri também não tinha uma marca - pelo menos não uma que Reid pudesse ver. O colarinho da jaqueta de camurça do sérvio tapava o pescoço. Poderia ser um símbolo de status, pensou. Algo que precisava ser ganho.

O motorista dirigiu o veículo para a A4, deixando Paris para trás e indo para o nordeste em direção a Reims. As janelas escurecidas tornavam a noite ainda mais escura; depois que saíram da Cidade das Luzes, foi difícil para Reid distinguir marcos. Teve que confiar nos marcadores de rota e sinais para saber para onde estavam indo. A paisagem se deslocou lentamente do local urbano brilhante para uma topografia bucólica, a estrada levemente inclinada e as fazendas se estendendo de ambos os lados.

Depois de uma hora de condução em silêncio absoluto, Reid limpou a garganta. "Estamos muito longe?", perguntou.

Yuri levou um dedo aos lábios e sorriu. "Oui."

As narinas de Reid se alargaram, mas não disse mais nada. Ele deveria ter perguntado o quão longe o levariam; pelo que percebera, estavam indo para a Bélgica.

A Rota A4 tornou-se A34, que por sua vez se tornou A304 como se estivessem indo para o norte. As árvores que salpicavam o campo tornaram-se mais espessas e próximas, como sombrinhas largas que engoliam a terra aberta e se tornavam florestas indistinguíveis. A inclinação da estrada aumentou quando as colinas ficaram de frente para pequenas montanhas.

Ele conhecia este lugar. Ele conhecia a região e não por causa de qualquer visão intermitente ou memória implantada. Ele nunca estivera aqui, mas sabia de seus estudos que tinham chegado às Ardenas, um trecho montanhoso de floresta compartilhado entre o nordeste da França, o sul da Bélgica e o norte do Luxemburgo. Foi nas Ardenas que o exército alemão, em 1944, tentou lançar suas divisões blindadas através da região densamente florestada em uma tentativa de capturar a cidade de Antuérpia. Eles foram frustrados pelas forças americanas e britânicas perto do rio Meuse. O conflito que se seguiu foi apelidado de Batalha do Bulge e foi a última grande ofensiva dos alemães na Segunda Guerra Mundial.

Por alguma razão, apesar do quão terrível sua situação era ou poderia se tornar em breve, ele encontrou um pequeno conforto em pensar sobre a história, sua vida anterior e seus alunos. Mas então seus pensamentos novamente se voltaram para suas filhas que estavam sozinhas e com medo e não tinham nenhuma ideia de onde ele estava ou no que tinha se metido.

Com certeza, Reid logo viu uma placa que alertava sobre uma aproximação à fronteira. Belgique, a placa dizia, e abaixo disso, Belgien, België, Bélgica. Menos de três quilômetros depois, a SUV parou em uma pequena cabine com um toldo de concreto. Um homem de casaco grosso e gorro de lã espiava o veículo. A segurança das fronteiras entre a França e a Bélgica estava muito longe daquilo a que a maioria dos americanos estava acostumado. O motorista abaixou a janela e falou com o homem, mas as palavras foram silenciadas pela divisória e janelas fechadas. Reid apertou os olhos e viu o braço do motorista se aproximar, passando alguma coisa para o oficial da fronteira. Um suborno.

O homem do boné acenou para eles passarem.

Apenas algumas milhas abaixo da N5, a SUV saiu da rodovia e entrou em uma estrada estreita que cortava paralelamente a via principal. Não havia sinal de saída e a estrada em si estava mal pavimentada; era uma estrada de acesso, provavelmente criada para o registro de veículos. O carro se chocou com os sulcos profundos na terra. Os dois valentões esbarraram um contra o outro em frente a Reid, mas ainda assim continuaram a olhar diretamente para ele.

Ele verificou o relógio barato que comprara na farmácia. Há duas horas e quarenta e seis minutos que estavam viajando. Na noite anterior estivera nos EUA e depois acordou em Paris e agora estava na Bélgica. Relaxe, seu subconsciente tentou persuadi-lo. Nenhum lugar em que você não tenha estado antes. Apenas preste atenção e mantenha a sua boca fechada.

Os dois lados da estrada pareciam não ser nada além de árvores grossas. A SUV continuou, subindo a encosta de uma montanha curva e descendo novamente. O tempo todo Reid espiava pela janela, fingindo estar descontraído, mas procurando qualquer tipo de marco ou placa que lhe dissesse onde estavam - idealmente algo que poderia contar mais tarde para as autoridades, se fosse necessário.

Havia luzes à frente, embora em seu ângulo ele não pudesse ver a fonte. A SUV desacelerou novamente e fez uma parada suave. Reid viu uma cerca de ferro forjado preto, cada poste tinha por cima uma ponta perigosa, estendendo-se para os lados e desaparecendo na escuridão. Ao lado de seu veículo havia uma pequena guarita feita de vidro e tijolo escuro, uma luz fluorescente iluminando o interior. Um homem surgiu. Ele usava calças e um casaco, a gola levantada em volta do pescoço e um lenço cinza atado em sua garganta. Não fez nenhuma tentativa de esconder a MP7 silenciada pendurada em uma alça sobre o ombro direito. Na verdade, quando deu um passo em direção ao carro, segurou a pistola automática, embora não a tenha levantado.

Heckler & Koch, variante de produção MP7A1, disse a voz na cabeça de Reid. Supressor de sete pontos e uma polegada. Elcan reflex sight. Cartucho de 30 milímetros.

O motorista baixou a janela e falou com o homem por alguns segundos. Então o guarda contornou a SUV e abriu a porta do lado de Yuri. Ele se inclinou e olhou lá dentro. Reid sentiu o cheiro de uísque e o ar gelado que vinha com ele. O homem olhou para cada um deles, seu olhar se demorando em Reid.

"Kommunikator," disse Yuri. "Chtoby uvidet 'nachal'nika". Russo. Mensageiro, para ver o chefe.”

O guarda não disse nada. Ele fechou a porta novamente e retornou ao seu posto, apertando um botão em um pequeno console. O portão de ferro preto zumbiu quando ele rolou para o lado e a SUV parou.

A garganta de Reid se apertou quando abarcou a gravidade total de sua situação. Ele tinha ido à reunião com a intenção de obter informações sobre o que estava acontecendo - não apenas para ele, mas com toda a conversa sobre planos, sheiks e cidades estrangeiras. Ele entrou no carro com Yuri e os dois capangas no impulso de encontrar a fonte de tudo aquilo. Ele havia deixado que o levassem para fora do país e para o meio de uma densa floresta, e agora estavam atrás de um portão alto e vigiado. Ele não tinha ideia de como poderia sair disso se algo desse errado.

Relaxe. Você já fez isso antes.

Não, eu não! pensou desesperadamente. Eu sou um professor universitário de Nova York. Eu não sei o que estou fazendo. Por que fiz isso? Minhas filhas...

Apenas relaxe. Você saberá o que fazer.

Reid respirou fundo, mas isso pouco ajudou para acalmar seus nervos. Ele olhou pela janela. Na escuridão, mal conseguia distinguir o ambiente. Não havia árvores atrás do portão, mas sim fileiras e mais fileiras de vinhas robustas, subindo e tecendo treliças... Era um vinhedo. Se era realmente um vinhedo ou apenas uma fachada, ele não tinha certeza, mas era pelo menos algo reconhecível, algo que podia ser visto por helicóptero ou por um drone.

Bom. Isso será útil depois.

Se houver um depois.

A SUV dirigiu lentamente sobre a estrada de cascalho por mais uma milha antes que o vinhedo terminasse. Diante deles havia uma propriedade palaciana, praticamente um castelo, construído em pedra cinza com janelas arqueadas e heras subindo a fachada sul. Por um breve momento, Reid apreciou a bela arquitetura; provavelmente de duzentos anos, talvez mais. Mas eles não pararam por aí; em vez disso, o carro circulou em torno da grande casa e por trás dela. Depois de mais meia milha, eles entraram em um lote pequeno e o motorista desligou o motor.

Chegaram. Mas onde tinham chegado, ele não tinha ideia.

Os capangas saíram primeiro, e então Reid saiu, seguido por Yuri. O frio intenso lhe tirou o fôlego. Ele apertou a mandíbula para impedir que seus dentes batessem. Seus dois grandes acompanhantes pareciam não se incomodar com isso.

A cerca de quarenta metros deles havia uma estrutura grande, com dois andares de altura e vários metros de largura; sem janelas e de aço corrugado pintado de bege. Algum tipo de instalação, Reid raciocinou - talvez para vinificação. Mas duvidou disso.

Yuri gemeu quando esticou seus membros. Então, sorriu para Reid. "Ben, eu entendo que agora somos amigos, mas ainda assim..." Ele tirou do bolso do casaco um pedaço estreito de tecido preto. "Eu devo insistir nisso."

Reid assentiu. Tinha escolha? Ele se virou para que Yuri pudesse amarrar a venda sobre os seus olhos. Uma mão forte e carnuda agarrou seu braço - um dos capangas, sem dúvida.

"Agora, então", disse Yuri. "Para a frente para Otets." A mão forte o puxou para a frente e o guiou enquanto andavam na direção da estrutura de aço. Ele sentiu outro ombro roçar contra o seu no lado oposto; os dois grandes valentões estavam do seu lado.

Reid respirou uniformemente pelo nariz, tentando o seu melhor para permanecer calmo. Ouça, sua mente o alertou.

Eu estou ouvindo.

Não, escute. Ouça e relaxe.

Alguém bateu três vezes na porta. O som era abafado e oco como um bumbo. Embora ele não pudesse ver, Reid imaginou em sua mente que Yuri batia com o punho achatado contra a pesada porta de aço.

Ta-ta. Um ferrolho deslizando para o lado. Um bafo, uma onda de ar quente quando a porta se abriu. De repente, uma mistura de ruídos - vidro batendo, líquido espirrando, esteiras zumbindo. Equipamento de Vintner. Estranho; ele não tinha ouvido nada de fora. As paredes exteriores do edifício são insonorizadas.

A mão pesada o guiou para dentro. A porta se fechou novamente e a trava foi colocada de volta no lugar. O chão abaixo dele parecia concreto liso. Seus sapatos batiam contra uma pequena poça. O odor acetinado da fermentação era mais forte e, logo abaixo, o aroma familiar mais doce do suco de uva. Eles realmente estão fazendo vinho aqui.

Reid contou seus passos pelo chão da instalação. Eles passaram por outro conjunto de portas, e com isso veio uma variedade de novos sons. Máquinas - prensa hidráulica. Broca Pneumática. A corrente de um transportador tinindo. O aroma de fermentação deu lugar a graxa, óleo de motor e… Pó. Eles estão fabricando algo aqui; provavelmente munições. Havia algo mais, algo familiar, além do óleo e do pó. Era um pouco doce, como amêndoas... Dinitrotolueno. Eles estão fazendo explosivos.

"Escadas," disse a voz de Yuri, perto do seu ouvido, enquanto Reid se chocava contra o último degrau. A mão pesada continuou a guiá-lo por quatro lances de escadas de aço. Treze degraus. Quem construiu este lugar não deve ser supersticioso.

No topo havia outra porta de aço. Uma vez fechada atrás deles, os sons das máquinas foram abafados - outra sala à prova de som. Música clássica tocada no piano nas proximidades. Brahms. Variações sobre um tema de Paganini. A melodia não era rica o suficiente para vir de um piano de verdade; era um tipo de som estéreo.

"Yuri." A nova voz era um barítono severo, ligeiramente rouca de gritar com frequência ou de fumar muitos charutos. A julgar pelo cheiro do quarto, era a última opção. Possivelmente ambas.

"Otets", disse Yuri obsequiosamente. Ele falou rapidamente em russo. Reid fez o melhor que pôde para acompanhar o sotaque de Yuri. "Eu trago boas notícias da França..."

"Quem é esse homem?", perguntou o barítono. Pelo jeito como falava, o russo parecia ser sua língua nativa. Reid não pôde deixar de se perguntar qual seria a conexão entre os iranianos e esse homem russo - ou os capangas da SUV, e até mesmo o sérvio Yuri. Um comércio de armas, talvez, disse a voz em sua cabeça. Ou algo pior.

"Este é o mensageiro dos iranianos", Yuri respondeu. "Ele tem a informação que procuramos para…"

"Você o trouxe aqui?", interveio o homem. Sua voz profunda aumentou o tom em um rugido. "Você deveria ir para a França e se encontrar com os iranianos, não arrastar homens de volta para mim! Você pode comprometer tudo com sua estupidez!" Houve um estalo agudo - um tapa sólido no rosto - e um suspiro de Yuri. "Devo escrever o seu cargo na bala para que ela atravesse o seu crânio grosso?!"

"Otets, por favor ..." Yuri gaguejou.

"Não me chame assim!" o homem gritou ferozmente. Uma arma engatilhada - uma pistola pesada, ao que parece. "Não me chame por nenhum nome na presença desse estranho!"

"Ele não é um estranho!" Yuri gritou. "Ele é o Agente Zero! Eu trouxe para você Kent Steele!"




CAPÍTULO SETE


Kent Steele.

O silêncio reinou por vários segundos que pareciam minutos. Cem visões passaram rapidamente pela mente de Reid como se estivessem sendo alimentadas por máquinas. A CIA, o Serviço Nacional Contra Clandestinidade, a Divisão de Atividades Especiais, Grupo de Operações Especiais. Operações Psicológicas.

Agente Zero.

Se você se expor, estará morto.

Não falamos. Nunca.

Impossível.

Seus dedos tremiam novamente.

Era simplesmente impossível. Coisas como apagar a memória, implantes ou supressores eram coisas de teorias da conspiração e filmes de Hollywood.

Naquele momento isso não importava mais. Eles sabiam quem ele era durante todo o tempo - do bar ao passeio de carro e durante todo o caminho para a Bélgica, Yuri sabia que Reid não era quem dizia ser. Agora estava vendado e preso atrás de uma porta de aço com pelo menos quatro homens armados. Ninguém mais sabia onde estava ou quem era. Um pesado nó de medo formou-se no fundo de seu estômago e ele quase se sentiu nauseado.

"Não", disse a voz de barítono devagar. "Não, você está enganado. Yuri estúpido. Este não é o homem da CIA. Se fosse, você não estaria aqui! "

"A menos que ele tenha vindo para se encontrar com você!" Yuri respondeu.

Dedos agarraram a venda e a arrancaram. Reid apertou os olhos perante a súbita aspereza das luzes fluorescentes. Ele piscou na frente da cara de um homem na faixa dos cinquenta anos, com cabelos grisalhos, barba toda raspada e olhos penetrantes e perspicazes. O homem, presumivelmente Otets, usava um terno cinza carvão, os dois primeiros botões de sua camisa desabotoados e os cabelos encaracolados do peito aparecendo por baixo. Eles estavam em um escritório, as paredes pintadas de vermelho escuro e adornadas com pinturas berrantes.

"Você", disse o homem em inglês com pronúncia. "Quem é você?"

Reid respirou fundo e lutou contra o desejo de dizer ao homem que ele simplesmente não sabia mais. Em vez disso, em voz trêmula, disse, "Meu nome é Ben. Eu sou um mensageiro. Eu trabalho com os iranianos."

Yuri, que estava de joelhos atrás de Otets, levantou-se em um pulo. "Ele mente!", gritou o sérvio. "Eu sei que ele mente! Ele diz que os iranianos o enviaram, mas nunca teriam toda essa confiança em um americano!" Yuri olhou com raiva. Um fino fio de sangue saía do canto da boca onde Otets o atingira. "Mas eu sei mais. Veja, eu lhe perguntei sobre Amad." Ele balançou a cabeça enquanto mostrava os dentes. "Não há Amad entre eles."

Parecia estranho para Reid que esses homens parecessem conhecer os iranianos, mas não com quem eles trabalhavam ou quem poderiam enviar. Eles estavam certamente conectados de alguma forma, mas em que se basearia essa conexão, não tinha ideia.

Otets praguejou em voz baixa e em russo. Então, em inglês, disse, "Você diz a Yuri que é mensageiro. Yuri me diz que você é o homem da CIA. Em quem devo acreditar? Você certamente não se parece com o que eu imaginei que o Zero fosse. No entanto, meu garoto de recados idiota fala uma verdade: os iranianos desprezam os americanos. Isso não parece bom para você. Ou você me diz a verdade, ou eu atirarei no seu joelho." Ele ergueu a pesada pistola - uma Águia do Deserto da Série TIG.

Reid perdeu o fôlego por um momento. Era uma arma muito grande. Relaxe, sua mente reagiu.

Ele não sabia como fazer isso. Não sabia o que aconteceria se o fizesse. A última vez que esses novos instintos tomaram conta dele, quatro homens acabaram mortos e ele sujara as mãos de sangue. Mas não havia como escapar disso - isto é, não havia como o professor Reid Lawson fugir. Mas Kent Steele, quem quer que fosse, podia achar um jeito. Talvez ele não soubesse quem era, mas não seria muito importante se não sobrevivesse tempo suficiente para descobrir.

Reid fechou os olhos. Acenou com a cabeça uma vez, uma aquiescência silenciosa à voz em sua cabeça. Seus ombros ficaram frouxos e seus dedos pararam de tremer.

"Estou esperando", disse Otets categoricamente.

"Você não iria querer atirar em mim", disse Reid. Ele ficou surpreso ao ouvir sua própria voz tão calma e equilibrada. "Um tiro à queima-roupa daquela arma não explodiria meu joelho. Isso cortaria minha perna e eu sangraria até morrer no chão deste escritório em segundos."

Otets encolheu um ombro. "O que vocês americanos gostam de dizer mesmo? Não se pode fazer omelete sem…"

"Eu tenho a informação que você precisa", Reid o interrompeu. "A localização do sheik. O que ele me deu. Para quem eu passei o que ele me deu. Eu sei tudo sobre o seu negócio e não sou o único."

Os cantos da boca de Otets se curvaram em um sorriso. "Agente Zero".

"Eu te disse!", disse Yuri. "Eu fiz um bom trabalho, não é?"

"Cale a boca", Otets gritou. Yuri se encolheu como um cachorro. "Levem-no para baixo e arranquem tudo o que ele sabe. Comecem arrancando os dedos. Eu não quero perder tempo."

Em qualquer dia comum, a ameaça de ter seus dedos cortados teria sido um choque para Reid. Seus músculos ficaram tensos por um momento, os pequenos pêlos da nuca em pé, mas seu novo instinto lutou contra aquilo e o forçou a relaxar. Espere, disse a voz. Espere por uma oportunidade...

O careca balançou a cabeça rapidamente e agarrou o braço de Reid novamente.

"Idiota!" Otets estalou. "Amarre-o primeiro! Yuri, vá para o arquivo. Deve haver algo lá."

Yuri correu até o armário de carvalho de três gavetas no canto e vasculhou-o até encontrar um pedaço grosso de corda. "Aqui", disse ele, e jogou-o para o bruto careca.

Todos os olhos instintivamente se moveram para o céu em direção ao feixe de fios girando no ar - ambos os capangas, Yuri e Otets.

Mas não os de Reid.

Ele colocou sua mão esquerda, arqueando-a para cima em um ângulo agudo, atingindo a traqueia do homem careca com o lado carnudo da palma da mão. Ele sentiu o impacto da pancada na garganta do homem.

Quando o primeiro golpe aterrissou, ele chutou para trás e atingiu o bandido barbado no quadril - o mesmo quadril que o homem destacava na viagem para a Bélgica.

Um suspiro molhado escapou dos lábios do careca enquanto suas mãos voavam para sua garganta. O bruto barbudo grunhiu quando seu grande corpo girou e desmoronou.

Pra baixo!

A corda bateu no chão. O mesmo aconteceu com Reid. Em um movimento, ele se agachou e puxou a Glock do coldre do tornozelo do careca. Sem olhar para cima, saltou para a frente e rolou.

Assim que pulou, um barulho estrondoso rasgou a quietude do pequeno escritório, era impossivelmente alto. O tiro da Águia do Deserto deixou uma marca impressionante na porta de aço do escritório.

Reid saiu do rolo a poucos metros de Otets e se lançou para a frente, na direção dele. Antes que Otets pudesse girar para mirar, Reid pegou sua mão armada por baixo - nunca pegue o deslize superior, que é uma boa maneira de perder um dedo - e o empurrou para cima e para longe. A arma disparou novamente, um estrondo penetrante a apenas alguns metros da cabeça de Reid. Seus ouvidos tiniram, mas ele ignorou. Girou a arma para baixo e para o lado, mantendo o cano apontado para longe quando a trouxe para o quadril - e a mão de Otets com ele. O homem mais velho jogou a cabeça para trás e gritou quando o dedo dele estalou o gatilho. O som nauseou Reid quando a Águia do Deserto caiu no chão.

Ele girou e passou um braço ao redor do pescoço de Otets, usando-o como um escudo enquanto apontava para os dois capangas. O homem careca estava fora de si, ofegando em vão contra uma traqueia esmagada, mas o homem barbado havia afrouxado a TEC-9. Sem hesitar, Reid disparou contra ele três tiros em rápida sucessão, dois no peito e um na testa. Um quarto tiro acabou com o careca.

A consciência de Reid gritou. Você acabou de matar dois homens. Mais dois homens. Mas uma nova consciência foi mais forte, trazendo a náusea e senso de preservação de volta.

Entre em pânico depois. Você não terminou ainda.

Reid deu um giro completo, com Otets na frente dele como se estivessem dançando, e nivelou a Glock para Yuri. O infeliz mensageiro estava lutando para atirar com uma Sig Sauer.

"Pare", Reid ordenou. Yuri congelou. "Mãos para cima." O mensageiro sérvio lentamente colocou as mãos para cima, palmas para fora. Ele sorriu largamente.

"Kent", disse em inglês, "somos muito bons amigos, não somos?"

"Tire minha Beretta do bolso esquerdo do casaco e coloque-a no chão" instruiu Reid.

Yuri lambeu o sangue do canto da boca e mexeu os dedos da mão esquerda. Lentamente, ele enfiou a mão no bolso e tirou a pequena pistola preta. Mas não colocou no chão. Em vez disso, ele segurou, apontou para baixo.

"Você sabe", ele disse, "me ocorre que, se você quer informações, precisa de pelo menos um de nós vivo. Sim?"

"Yuri!" Otets rosnou. "Faça o que ele pede!"

"No chão", repetiu Reid. Ele não tirou o olhar de Yuri, mas estava preocupado que os outros na instalação pudessem ouvir o rugido da Águia do Deserto. Ele não tinha ideia de quantas pessoas estavam no andar de baixo, mas o escritório era à prova de som e havia máquinas em funcionamento em outro lugar. Era possível que ninguém tivesse ouvido - ou talvez eles estivessem acostumados com o som e pensassem pouco nisso.

"Talvez", disse Yuri, "eu peguei essa arma e atirei em Otets. Então você precisa de mim."

"Yuri, nyet!" exclamou Otets, desta vez mais atordoado do que com raiva.

"Veja, Kent", disse Yuri, "isto não é La Cosa Nostra. Está mais para... empregado descontente. Você vê como ele me trata. Então, talvez eu atire nele, e você e eu, nós podemos trabalhar em algo… "

Otets cerrou os dentes e sibilou uma rajada de pragas contra Yuri, mas o mensageiro apenas sorriu mais abertamente.

Reid estava ficando impaciente. "Yuri, se você não abaixar a arma agora, vou ser forçado a ..."

O braço de Yuri se moveu levemente. O instinto de Reid entrou em ação como um motor mudando de marcha. Sem pensar, ele apontou e disparou, apenas uma vez. Aconteceu tão rápido que aquilo o assustou.

Por meio segundo, Reid pensou que poderia ter falhado. Então o sangue escuro surgiu de um buraco no pescoço de Yuri. Ele caiu primeiro de joelhos, uma mão tentando estancar o fluxo, mas era tarde demais para isso.

Pode levar até dois minutos para sangrar de uma artéria carótida. Ele não queria saber como sabia daquilo. Mas leva apenas de sete a dez segundos para desmaiar por perda de sangue.

Yuri caiu para a frente. Reid imediatamente girou em direção à porta de aço com a Glock voltada para o centro. Esperou. Sua respiração era estável e suave. Ele nem havia suado. Otets respirou fundo, ofegante, segurando o dedo fraturado com a mão boa.

Ninguém mais veio.

Eu acabei de matar três homens.

Não há tempo para isso agora. Saia já daqui.

"Fique," Reid rosnou para Otets quando se soltava. Ele chutou a Águia do Deserto para o canto mais distante. Ela deslizou sob o escaninho. Ele também deixou as pistolas automáticas TEC-9 dos bandidos; elas eram em grande parte imprecisas, boas para pulverizar balas numa ampla área. Em vez disso, empurrou o corpo de Yuri de lado com o pé e pegou a Beretta. Ele tinha a Glock, enfiando uma pistola e as mãos em cada um dos bolsos do casaco.

"Vamos sair daqui", Reid disse a Otets, "você e eu. Você vai primeiro, e vai fingir que nada está errado. Você vai me levar para fora e para um carro decente. Está vendo isso?" fez um sinal com a cabeça em direção às suas mãos, cada uma enfiada em um bolso e segurando uma pistola. "Ambas estarão apontando para a sua espinha. Dê um único passo em falso ou diga uma palavra fora de hora, e eu vou enterrar uma bala entre suas vértebras L2 e L3. Se você tiver a sorte de viver, ficará paralisado pelo resto de sua vida. Entendeu?"

Otets olhou para ele, mas era esperto o suficiente para acenar com a cabeça.

"Bom. Então, mostre o caminho."

O homem russo parou na porta de aço do escritório. "Você não vai sair daqui vivo", disse ele em inglês.

"É melhor que eu saia", Reid rosnou. "Porque vou me certificar de que você também não sai."

Otets abriu a porta e saiu para o patamar. Os sons das máquinas instantaneamente vieram rugindo de volta. Reid o seguiu para fora do escritório e para a pequena plataforma de aço. Ele olhou para baixo sobre o corrimão, olhando para o chão da loja abaixo.

Seus pensamentos - os pensamentos de Kent? - estavam corretos; havia dois homens trabalhando em uma prensa hidráulica. Um em uma broca pneumática. Mais um estava em um pequeno transportador, inspecionando componentes eletrônicos enquanto eles lentamente rolavam em direção a uma superfície de aço no final. Dois outros usando óculos de proteção e luvas de látex estavam sentados em uma mesa de melamina, medindo cuidadosamente algum tipo de produto químico. Estranhamente, percebeu que eles tinham uma variedade de nacionalidades - três tinham cabelos escuros e eram brancos, provavelmente russos, mas dois eram definitivamente do Oriente Médio. O homem da broca era africano.

O cheiro de amêndoa do dinitrotolueno flutuou até ele. Eles estavam fazendo explosivos, como ele havia discernido anteriormente a partir do odor e sons.

Seis ao todo. Provavelmente armados. Nenhum deles sequer olhou para o escritório. Eles não vão atirar aqui - não com Otets nas substâncias químicas abertas e voláteis ao redor.

Mas eu também não posso, Reid pensou.

"Impressionante, não?", disse Otets com um sorriso. Ele notou Reid inspecionando o chão.

"Ande", ordenou.

Otets desceu, seu sapato batendo contra a primeira escada de metal. "Você sabe", ele disse casualmente, "Yuri estava certo."

Sair. Chegar até a SUV. Rebentar o portão. Dirija como se você tivesse roubado.

"Você precisa de um de nós."

Volte para a estrada. Encontre uma delegacia de polícia. Envolva a Interpol.

"E o pobre Yuri está morto..."

Dê-lhes Otets. Force-o a falar. Limpe seu nome nos assassinatos de sete homens.

"Então me ocorre que você não pode me matar."

Eu matei sete homens.

Mas foi autodefesa.

Otets chegou ao último degrau, Reid bem atrás dele com as duas mãos enfiadas nos bolsos da jaqueta. Suas palmas estavam suadas, cada uma segurando uma pistola. O russo parou e olhou ligeiramente por cima do ombro, sem olhar para Reid. "Os iranianos. Eles estão mortos?"

"Quatro deles", disse Reid. O barulho da maquinaria quase abafou sua voz.

Otets estalou a língua. "Que pena. Mas então novamente... Isso significa que não estou errado. Você não tem pistas, ninguém mais para procurar. Você precisa de mim."

Ele estava fazendo blefe com Reid. O pânico se elevou em seu peito. O outro lado, o lado de Kent, lutava de volta, como engolir a seco uma pílula. "Eu tenho tudo o que o sheik nos deu…"

Otets riu baixinho. "O sheik, sim. Mas você já sabia que Mustafar sabia tão pouco. Ele era uma conta bancária, Agente. Ele era fraco. Você acha que confiaríamos nosso plano a ele? Se sim, então por que você veio aqui?"

O suor perlava na testa de Reid. Ele estava ali na esperança de encontrar respostas, não apenas sobre esse suposto plano, mas sobre quem ele era. Ele havia encontrado muito mais do que esperava. "Ande", exigiu novamente. "Na direção da porta, devagar".

Otets saiu da escada, andando devagar, mas ele não andou em direção à porta. Em vez disso, deu um passo em direção ao chão de fábrica, na direção de seus homens.

"O que você está fazendo?" Reid perguntou.

"Pedindo o seu blefe, Agente Zero. Se eu estiver errado, você vai atirar em mim." sorriu e deu outro passo.

Dois dos trabalhadores levantaram o olhar. Da perspectiva deles, parecia que Otets estava simplesmente conversando com um homem desconhecido, talvez um sócio comercial ou representante de outra facção. Nenhuma razão para alarme.

O pânico subiu novamente no peito de Reid. Ele não queria abdicar das armas. Otets estava a apenas dois passos de distância, mas Reid não conseguiu agarrá-lo e forçá-lo a dirigir-se à porta - não sem alertar os seis homens. Ele não podia arriscar atirar em uma sala cheia de explosivos.

"Do svidaniya, Agente." Otets sorriu. Sem tirar os olhos de Reid, gritou em inglês, "Atirem nesse homem!"

Mais dois trabalhadores levantaram os olhos, olhando entre si e para Otets, confusos. Reid teve a impressão de que esses homens eram trabalhadores, não soldados de infantaria ou guarda-costas como o par de valentões mortos no andar de cima.

"Idiotas!" Otets rugiu. "Este homem é da CIA! Atirem nele!"

Isso chamou a atenção deles. O par de homens na mesa de melamina subiu rapidamente e pegou os coldres de ombro. O homem africano na broca pneumática chegou perto de seus pés e levantou um AK-47 até o ombro.

Assim que se moveram, Reid saltou para a frente, ao mesmo tempo, tirando ambas as mãos - e as duas pistolas dos bolsos. Ele girou Otets pelo ombro e segurou a Beretta na direção da têmpora esquerda do russo e então nivelou a Beretta na direção do homem com o AK, seu braço apoiado no ombro de Otets.

"Isso não seria muito sábio", disse em voz alta. "Você sabe o que pode acontecer se começarmos a atirar aqui."

A visão de uma arma na cabeça do chefe levou o resto dos homens à ação. Ele estava certo; estavam todos armados e agora ele tinha seis armas com apenas Otets entre eles. O homem segurando o AK olhou nervosamente para seus compatriotas. Uma gota fina de suor escorria do lado de sua testa.

Reid deu um pequeno passo para trás, persuadindo Otets junto com ele com uma cutucada da Beretta. "Vá devagar," disse baixinho. "Se eles começarem a atirar aqui, todo esse lugar pode explodir. E eu não acho que você queira morrer hoje."

Otets cerrou os dentes e murmurou um palavrão em russo.

Pouco a pouco recuaram, pequenos passos de cada vez, em direção às portas da instalação. O coração de Reid quase saltava de seu peito. Seus músculos se apertaram nervosamente e depois afrouxou quando o outro lado dele o forçou a relaxar. Mantenha a tensão fora de seus membros. Músculos tensos retardarão suas reações.

Para cada minúsculo passo que ele e Otets deram, os seis homens avançaram, mantendo uma pequena distância entre eles. Eles estavam esperando por uma oportunidade, e quanto mais se afastassem das máquinas, menos provável seria desencadear uma explosão inadvertida. Reid sabia que era apenas a ameaça de matar acidentalmente Otets que os impedia de atirar. Ninguém falou, mas as máquinas ressoavam atrás deles. A tensão no ar era palpável, elétrica; ele sabia que a qualquer momento alguém poderia ficar nervoso e começar a atirar.

Então suas costas tocaram as portas duplas. Outro passo e ele as abriu, empurrando Otets junto com ele com um toque da Beretta.

Antes que as portas se fechassem novamente, Otets rosnou para seus homens. "Ele não sai daqui vivo!"

Então elas fecharam, e os dois estavam na sala ao lado, a sala de produção de vinho, com garrafas tinindo e o cheiro doce de uvas. Assim que terminaram, Reid girou, a Glock apontada para o nível do peito - ainda mantendo a Beretta em Otets.

Uma máquina de engarrafamento e rolhas estava funcionando, mas era praticamente automatizada. A única pessoa presente na sala era uma mulher russa de aparência cansada, usando um lenço verde. Ao ver a arma, Reid e Otets, arregalou seus olhos cansados com terror e levantou as duas mãos.

"Desligue isso", disse Reid em russo. "Você entende?"

Ela assentiu vigorosamente e usou duas alavancas no painel de controle. As máquinas zumbiram, diminuindo a velocidade.

"Vá", ele disse. Ela engoliu em seco e recuou devagar em direção à porta de saída. "Rapidamente!" gritou. "Saia!"

"Da", ela murmurou. A mulher correu para a pesada porta de aço, abriu-a e saiu correndo. A porta se fechou novamente com um estrondo ressonante.

"E agora, Agente?" Otets grunhiu em inglês. "Qual é o seu plano de fuga?"

"Cale a boca." Reid nivelou a arma na direção das portas duplas da próxima sala. Por que não vieram ainda? Ele não poderia continuar sem saber onde estavam. Se houvesse uma porta dos fundos, poderiam estar do lado de fora esperando por ele. Se o seguissem, não havia como ele conseguir colocar Otets na SUV e sair dirigindo sem ser atingido. Aqui não havia ameaça de explosivos; eles poderiam levar um tiro. Correriam o risco de matar Otets para chegar até ele? Nervosismo e uma arma não eram uma combinação ideal para ninguém, nem para o patrão.

Antes que ele pudesse decidir seu próximo movimento, as poderosas luzes fluorescentes se apagaram. Em um instante mergulharam na escuridão.




CAPÍTULO OITO


Reid não conseguia ver nada. Não havia janelas na instalação. Os trabalhadores do outro cômodo deviam ter feito algo, porque até os sons das máquinas na sala ao lado se apagaram e ficaram em silêncio.

Ele rapidamente estendeu a mão para o lugar em que Otets estava e agarrou o colarinho do russo antes que pudesse fugir. Otets fez um pequeno som de asfixia quando Reid o puxou para trás. No mesmo momento, uma luz vermelha de emergência se acendeu, apenas uma lâmpada nua projetando-se da parede logo acima da porta. Banhou o quarto com um brilho suave e misterioso.

"Esses homens não são tolos", disse Otets em voz baixa. "Você não vai conseguir sair disso vivo."

Sua mente entrou em ebulição. Ele precisava saber onde eles estavam - ou melhor ainda, precisava que viessem até ele.

Mas como?

É simples. Você sabe o que fazer. Pare de lutar contra isso.

Reid respirou fundo e então ele fez a única coisa que fazia sentido no momento.

Atirou em Otets.

O barulho agudo da Beretta ecoou na sala silenciosa. Otets gritou de dor. Ambas as mãos seguraram sua coxa esquerda - a bala só roçou, mas sangrou bastante. Lançou um longo e furioso rol de palavrões em russo.

Reid agarrou o colarinho de Otets de novo e puxou-o para trás e o forçou a descer atrás do transportador de engarrafamento. Ele esperou. Se os homens ainda estivessem lá dentro, definitivamente teriam ouvido o tiro e viriam correndo. Se ninguém viesse, é porque estavam do lado de fora, em algum lugar, esperando.

Obteve sua resposta alguns segundos depois. As portas duplas balançando foram abertas do outro lado com força suficiente para bater contra a parede atrás delas. O primeiro a aparecer foi o homem com um AK, com o cano da arma se movimentando para a esquerda e direita rapidamente em uma ampla varredura. Dois outros estavam bem atrás dele, ambos armados com pistolas.

Otets gemeu de dor e segurou a perna com força. Os caras ouviram o barulho; chegaram no canto da máquina de engarrafamento com as armas levantadas para encontrar Otets sentado no chão, rangendo os dentes e com a perna ferida prostrada.

Reid, no entanto, não estava lá.

Ele saiu rapidamente pelo outro lado da máquina, ficando agachado. Embolsou a Beretta e pegou uma garrafa vazia do transportador. Antes que pudessem se virar, quebrou a garrafa sobre a cabeça do funcionário mais próximo, um homem do Oriente Médio, e depois enfiou o gargalo cortante na garganta do segundo. O sangue quente percorreu sua mão quando o homem desfaleceu e caiu.

Um.

O africano com o AK-47 girou, mas não suficientemente rápido. Reid usou seu antebraço para empurrar o barril para o lado, mesmo quando uma fuzilaria de balas atravessou o ar. Ele avançou com a Glock, pressionou-a sob o queixo do homem e puxou o gatilho.



Dois.

Mais um tiro acabou com o primeiro terrorista - já que claramente era com isso que estava lidando - ainda deitado inconsciente no chão.

Três.

Reid respirou com dificuldade, tentando forçar seu coração a diminuir a velocidade. Ele não teve tempo de ficar horrorizado com o que acabara de fazer, nem queria realmente pensar nisso. Era como se o professor Lawson tivesse entrado em choque e a outra parte assumisse a situação completamente.

Movimento. Para a direita.

Otets se arrastou por trás da máquina e tentou agarrar o AK. Reid virou-se rapidamente e chutou-o no estômago. A força empregue fez o russo rolar, segurando a parte lateral do corpo e gemendo.

Reid pegou o AK. Quantas rodadas foram disparadas? Cinco? Seis. Havia trinta e duas rodadas. Se estava cheio, ainda tinha vinte e seis.

"Fique aí", disse a Otets. Então, para grande surpresa do russo, Reid o deixou lá e voltou pelas portas duplas para o outro lado da instalação.

A sala de fabricação de bombas estava banhada por um brilho vermelho similar ao de uma luz de emergência. Reid chutou a porta e imediatamente se ajoelhou - caso alguém tivesse uma arma apontada para a entrada - e olhou para a esquerda e para a direita. Não havia ninguém lá, o que significava que deveria haver uma porta dos fundos. Ele a encontrou rapidamente, uma porta de segurança de aço entre as escadas e a parede virada para o sul. Provavelmente, só abria por dentro.

Os outros três estavam lá fora em algum lugar. Era um risco - ele não tinha como saber se estavam esperando por ele do outro lado da porta ou se haviam tentado dar a volta na frente do prédio. Ele precisava de uma maneira de proteger seu risco.

Isto é, afinal de contas, uma instalação de fabricação de bombas…

No canto mais distante, do lado oposto, passando pelo transportador, encontrou uma longa caixa de madeira do tamanho de um caixão e cheia de amendoins. Ele peneirou através deles até que sentiu algo sólido que puxou para fora. Era uma caixa de plástico preta fosca e ele já sabia o que havia dentro dela.

Colocou-a na mesa de melamina cuidadosamente e abriu-a. Mais para seu desgosto, do que para sua surpresa, reconheceu-a imediatamente como uma mala bomba com um cronômetro.

Suor perlava sua testa. Eu realmente tenho que fazer isso?

Novas visões surgiram em sua mente - os fabricantes de bombas afegãos tinham dedos e membros inteiros arrancados por bombas mal construídas. Edifícios subindo em forma de fumaça por um movimento errado, um único fio errado.

Que escolha você tem? É isso ou levar um tiro.

O interruptor do homem morto era um pequeno retângulo verde do tamanho de um canivete com uma alavanca de um lado. Ele o pegou na mão esquerda e susteve a respiração.

Então apertou.

Nada aconteceu. Aquilo era um bom sinal.

Ele fez questão de segurar a alavanca fechada em seu punho (liberar imediatamente detonaria a bomba) e ajustou o cronômetro da mala para vinte minutos - não precisaria daquele tempo de qualquer maneira. Então pegou o AK em sua mão direita e deu o fora dali.

Estremeceu; a porta de segurança traseira guinchou em suas dobradiças quando a abriu. Ele saltou para a escuridão com o AK em punho. Não havia ninguém lá, não atrás do prédio, mas certamente haviam ouvido o som revelador da porta.

Sua garganta estava seca e seu coração ainda batia descompassadamente, mas manteve as costas na fachada de aço e cuidadosamente abriu caminho até o canto do prédio. Sua mão estava suando, segurando o interruptor do homem morto. Se soltasse agora, certamente estaria morto em um instante. A quantidade de C4 acumulada naquela bomba explodiria as paredes do prédio e o desmoronamento o esmagaria, se não fosse incinerado primeiro.

Ontem, meu maior problema era manter a atenção de meus alunos por noventa minutos. Hoje estava usando uma alavanca para uma bomba enquanto tentava enganar terroristas russos.

Foco. Ele chegou ao canto do prédio e espiou pela borda, agarrando-se às sombras o melhor que pôde. Havia uma silhueta de um homem, com uma pistola na fachada leste.

Reid conferiu se estava apertando firme o interruptor. Você consegue fazer isso. Então ele apareceu. O homem girou rapidamente e começou a levantar a pistola.

"Ei", disse Reid. Ele ergueu a própria mão - não a que segurava a arma, mas a outra. "Você sabe o que é isso?"

O homem fez uma pausa e inclinou a cabeça ligeiramente. Então seus olhos se arregalaram de medo que Reid pudesse vê-los sob a luz do luar. "Interruptor", o homem murmurou. Seu olhar flutuou do interruptor para o prédio e de volta, parecendo chegar à mesma conclusão de Reid - se ele soltasse a alavanca, ambos estariam mortos em um piscar de olhos.

O fabricante de bombas abandonou seu plano de atirar em Reid e, em vez disso, correu em direção à frente do prédio. Reid seguiu apressadamente. Ele ouviu gritos em árabe - "Interruptor! Ele tem o interruptor!"

Ele dobrou a esquina para a frente da instalação com o AK apontado para frente, o cabo apoiado na dobra do cotovelo e a outra mão segurando o interruptor acima da cabeça. O fabricante de bombas não parara; continuou correndo, pela estrada de cascalho que levava para longe do prédio e gritava rouco. Os outros dois fabricantes de bombas estavam reunidos perto da porta da frente, aparentemente prontos para entrar e eliminar Reid. Ficaram perplexos ao virarem a esquina.

Reid rapidamente examinou a cena. Os outros dois homens seguravam pistolas - Sig Sauer P365, capacidade para treze munições -, mas nenhuma apontada para ele. Como havia presumido, Otets fugira pela porta da frente e, no momento, estava a meio caminho da SUV, mancando enquanto segurava a perna machucada e apoiado sob o ombro por um homem baixo e corpulento de boné preto – o motorista, Reid supôs.

"Abaixa", Reid ordenou, "ou vou explodir tudo."

Os fabricantes de bombas cuidadosamente colocaram suas armas no chão. Reid podia ouvir gritos à distância, mais vozes. Havia outros vindo da direção da velha casa da propriedade. Provavelmente a mulher russa os havia avisado.

"Corra", disse ele. "Vá dizer a eles o que está prestes a acontecer."

Os dois homens não precisaram ouvir aquilo duas vezes. Eles correram rapidamente na mesma direção dos que tinham acabado de sair.

Reid voltou sua atenção para o motorista, que ajudava o magoado Otets. "Pare!" Rugiu.

"Não!" Otets gritou em russo.

O motorista hesitou. Reid largou o AK e tirou a Glock do bolso do casaco. Eles haviam chegado a um pouco mais da metade do caminho até o carro - cerca de vinte e cinco metros. Fácil.

Ele deu alguns passos para mais perto e gritou. "Antes de hoje, não sabia que já tinha disparado uma arma. Acontece que sou muito bom nisso."

O motorista era um homem sensato - ou talvez um covarde, ou até as duas coisas. Ele soltou Otets, sem cerimônia largando seu chefe no cascalho.

"Chaves," Reid exigiu. "Largue elas."

As mãos do motorista tremiam quando pegou as chaves da SUV do bolso interno do casaco. Jogou-as em seus pés.

Reid fez um gesto com o cano da pistola. "Vai."

O motorista correu. O boné preto voou de sua cabeça, mas ele não se importou.

"Covarde!" Otets cuspiu em russo.

Reid recuperou as chaves primeiro e depois ficou por cima de Otets. As vozes à distância estavam se aproximando. A casa da propriedade ficava a meia milha de distância; a mulher russa levaria cerca de quatro minutos para chegar a pé e mais alguns minutos para os homens descerem até lá. Ele achou que tinha menos de dois minutos.

"Levante-se."

Otets cuspiu nos seus sapatos em resposta.

"Faça do seu jeito." Reid embolsou a Glock, agarrou Otets pela parte de trás do casaco e puxou-o na direção da SUV. O russo gritou de dor quando a perna magoada se arrastou pelo cascalho.

"Entre", ordenou Reid, "ou vou furar sua outra perna".

Otets resmungou baixinho, sibilando através da dor, mas entrou no carro. Reid bateu a porta, deu a volta rapidamente e ficou atrás do volante. Sua mão esquerda ainda segurava o interruptor.

Ele ligou a SUV e pisou no acelerador. Os pneus giraram, levantando cascalho e pó, e então o veículo balançou para a frente com um solavanco. Assim que recuou na estreita estrada de acesso, os tiros soaram. As balas atingiram o lado do passageiro com uma série de pancadas pesadas. A janela - logo à direita da cabeça de Otets - estilhaçou-se mas resistiu.

"Idiotas!" Otets gritou. "Parem de atirar!"

À prova de balas, Reid pensou. Claro que sim. Mas ele sabia que isso não duraria muito. Pressionou o acelerador até ao fundo e a SUV balançou novamente, rugindo, passando pelos três homens ao lado da estrada enquanto disparavam contra o carro. Reid abaixou a janela enquanto passavam pelos dois fabricantes de bombas, ainda correndo para salvar suas vidas.

Então jogou o interruptor pela janela.

A explosão abalou a SUV, mesmo a distância. Ele não ouviu a detonação tanto quanto a sentiu, agitando suas entranhas. Um relance no espelho retrovisor não mostrou nada além de uma luz amarela intensa, como olhar diretamente para o sol. Manchas flutuaram em sua visão por um momento e isso o forçou a olhar para a estrada. Uma bola de fogo laranja rolou no céu, enviando uma imensa nuvem escura de fumaça.

Otets soltou um suspiro irregular, gemendo. "Você não tem ideia do que acabou de fazer", ele disse baixinho. "Seus dias estão contados, Agente."

Reid não disse nada. Ele percebera o que acabara de fazer - tinha destruído uma quantidade significativa de provas que pudessem ser usadas contra Otets, se fosse presente às autoridades. Mas Otets estava errado; ele não precisa temer a morte, ainda não, e a bomba o ajudara a fugir.

Até aquele momento, pelo menos.

Mais à frente, a casa surgia, mas não pararam para apreciar sua arquitetura desta vez. Reid manteve os olhos em frente e passou por ela enquanto a SUV balançava por cima dos buracos na estrada.

Um vislumbre no espelho chamou sua atenção. Dois pares de faróis surgiram, saindo da garagem da casa. Eles estavam junto ao chão e ele podia ouvir o gemido agudo dos motores. Carros esportivos. Ele acelerou novamente. Eles seriam mais rápidos, mas a SUV estava melhor equipada para lidar com a estrada irregular.

Mais tiros quebraram o ar quando as balas atingiram o pára-choque traseiro. Reid agarrou o volante com as duas mãos, as veias se destacando com a tensão em seus músculos. Ele tinha autocontrole. Ele poderia fazer isso. O portão de ferro não poderia estar longe. Ele estava fazendo cinquenta e cinco através do vinhedo; se pudesse manter sua velocidade, poderia ser o suficiente para derrubar o portão.

A SUV balançou violentamente quando uma bala atingiu o pneu do lado do motorista que explodiu. A extremidade dianteira se descontrolou. Reid instintivamente contra-dirigiu, seus dentes cerrados. A traseira do carro derrapou, mas a SUV não capotou.

"Deus me salve", Otets gemeu. "Este lunático será a minha morte..."

Reid puxou o volante novamente e endireitou o veículo, mas o firme e pulsante tum-tum-tum do pneu lhe disse que estavam andando sobre pedaços de borracha. Sua velocidade caiu para quarenta. Tentou dar mais velocidade novamente, mas a SUV tremeu, ameaçando guinar novamente.

Ele sabia que não conseguiria manter velocidade suficiente para quebrar o portão.

É um portão eletrônico, pensou de repente. Era controlado pelo guarda do lado de fora - que, sem dúvida, a esta altura, estaria ciente de sua tentativa de fuga e estaria pronto com o perigoso MP7 -, mas isso significava que deveria haver outra saída. As balas continuaram a bater contra o pára-choque enquanto seus dois perseguidores disparavam contra eles. Ele viu o portão de ferro se aproximando rapidamente.

"Agarre-se a algo", avisou Reid. Otets agarrou a maçaneta da janela e murmurou uma prece enquanto Reid puxava o volante com força para a direita. A SUV derrapou de lado no cascalho. Ele sentiu os dois pneus do lado do passageiro saírem do chão e, por um momento, seu coração disparou em sua garganta com a noção de que poderiam capotar para a direita.

Mas manteve o controle e os pneus pousaram novamente. Ele pisou no acelerador e dirigiu direto para o vinhedo, atravessando as finas treliças de madeira como se fossem palitos e rolando nos vinhedos planos.

"Que diabos você está fazendo ?!" Otets gritou em russo. Ele saltou pesadamente em seu assento enquanto passavam pelas fileiras de parreiras plantadas. Atrás dele, os dois carros esportivos pararam de repente. Eles não conseguiam acompanhar, não pelo campo, mas provavelmente sabiam o que ele procurava e sabiam onde encontrar.




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