Assassinato na Mansão
Fiona Grace


ASSASSINATO NA MANSÃO (UM MISTÉRIO DE LACEY DOYLE — LIVRO 1) é o primeiro livro de uma charmosa nova série de mistérios da autora Fiona Grace.Lacey Doyle, 39 anos e recém-divorciada, precisa de uma mudança drástica. Ela precisa deixar seu emprego, sua chefe terrível e a cidade de Nova York, e abandonar a vida agitada da cidade. Inspirada por seu sonho de infância, ela decide se afastar de tudo isso e reviver férias inesquecíveis que viveu quando criança, no pitoresco balneário de Wilfordshire.Wilfordshire está exatamente como Lacey se lembra, com uma arquitetura sempre atual, ruas de paralelepípedos e cercada de natureza. Lacey não quer voltar para casa e, espontanemente, decide ficar e tentar realizar seu sonho de infância: abrir uma loja de antiguidades.Ela finalmente sente que sua vida está dando um passo na direção certa — até que sua nova cliente VIP aparece morta.Como a forasteira da cidade, todos os olhares estão sobre Lacey, e ela terá que assumir a tarefa de limpar seu próprio nome.Com um negócio para administrar, uma vizinha de porta que se tornou sua inimiga, um flerte com o chef de cozinha do outro lado da rua e um crime para resolver – esta nova vida é tudo que Lacey imaginou que seria?O Livro 2 da série, MORTE E UM CÃO, também já está disponível para pré-venda!







ASSASSINATO NA MANSÃO



(UM MISTÉRIO DE LACEY DOYLE — LIVRO UM)



FIONA GRACE


Fiona Grace



A nova autora Fiona Grace apresenta a série de MISTÉRIOS LACEY DOYLE, que inclui ASSASSINATO NA MANSÃO (Livro 1), MORTE E UM CÃO (Livro 2) e CRIME NO CAFÉ (Livro 3). Fiona adora ouvir a opinião de seus leitores, então, visite www.fionagraceauthor.com (http://www.fionagraceauthor.com/) para ganhar ebooks de graça, saber as últimas novidades e manter contato.






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Copyright © 201 por Fiona Grace. Todos os direitos reservados. Exceto como permitido pelo Ato de Direitos Autorais dos EUA, publicado em 1976, nenhuma parte deste livro pode ser reproduzida, distribuída ou transmitida em qualquer formato ou por qualquer meio, ou armazenada num banco de dados ou sistema de recuperação, sem permissão prévia da autora. Este eBook está licenciado apenas para uso pessoal. Este eBook não pode ser revendido ou doado a outras pesoas. Se você quiser compartilhar este eBook com outra pessoa, por favor, compre uma cópia adicional para cada indivíduo. Se você está lendo este livro sem tê-lo comprado, ou se não foi adquirido apenas para seu uso, por favor, devolva-o e compre seu próprio exemplar. Obrigado por respeitar o trabalho da autora. Esta é uma obra de ficção. Nomes, personagens, empresas, organizações, lugares, eventos e incidentes são produto da imaginação da autora ou usados de forma fictícia. Qualquer semelhança com pessoas reais, vivas ou mortas, é mera coincidência. Foto da capa: Helen Hotson, todos os direitos reservados. Usada sob licença da Shutterstock.com.


LIVROS DE FIONA GRACE



MISTÉRIOS DE LACEY DOYLE

ASSASSINATO NA MANSÃO (Livro 1)

MORTE E UM CÃO (Livro 2)

CRIME NO CAFÉ (Livro 3)


ÍNDICE



CAPÍTULO UM (#u25a485ea-fea4-517b-bb9a-ff649370a878)

CAPÍTULO DOIS (#u628a975a-35c5-5794-9ceb-e72ea5029028)

CAPÍTULO TRÊS (#u2d35d702-3e96-5672-b14a-f2d524ca59e8)

CAPÍTULO QUATRO (#uc10603ca-d8c1-5bab-a62d-ba0e0ed991ea)

CAPÍTULO CINCO (#ub2a44f9e-bf46-5c54-bbf9-458bf068dc49)

CAPÍTULO SEIS (#u2b660fa3-ca73-5220-846a-e4fea3452611)

CAPÍTULO SETE (#u313e2b6d-3786-5cad-9583-032cad8990fd)

CAPÍTULO OITO (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO NOVE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO DEZ (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO ONZE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO DOZE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO TREZE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO CATORZE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO QUINZE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO DEZESSEIS (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO DEZESSETE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO DEZOITO (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO DEZENOVE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO VINTE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO VINTE E UM (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO VINTE E DOIS (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO VINTE E TRÊS (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO VINTE E QUATRO (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO VINTE E CINCO (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO VINTE E SEIS (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO VINTE E SETE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO VINTE E OITO (#litres_trial_promo)

EPÍLOGO (#litres_trial_promo)




CAPÍTULO UM


Sem culpa.

Era o que estava escrito nos papéis do divórcio, em tinta preta e negrito, gritante contra a brancura do papel.

Sem culpa.

Lacey suspirou enquanto olhava para os documentos. O inócuo envelope de papel pardo acabara de ser entregue por um adolescente com espinhas no rosto e atitude blasé, como se estivesse entregando uma pizza. E embora Lacey soubesse imediatamente o motivo pelo qual estava recebendo uma carta pelo correio, ela não sentiu nada no momento. Foi só depois que se sentou pesadamente no sofá da sala — onde o cappuccino que ela havia abandonado ao ouvir a campainha estava na mesa de café, ainda expelindo pequenos vórtices de vapor — e retirou os documentos do envelope, que ela realmente sentiu o impacto.

Eram os documentos do divórcio.

Divórcio.

Sua reação foi gritar e jogá-los no chão, como se ela tivesse aracnofobia e tivesse acabado de receber uma tarântula viva.

E agora eles jaziam ali, espalhados pelo tapete estiloso e extremamente caro, que ela ganhou de presente de sua chefe, Saskia, na empresa de design de interiores onde trabalhava. As palavras David Bishop versus Lacey Bishop a encararam. A partir da massa sem sentido de letras, as palavras começaram a se formar diante de seus olhos: dissolução do casamento, diferenças irreconciliáveis, sem culpa...

Ela pegou os papéis timidamente.

Claro, aquilo não era uma surpresa. Afinal, David terminou o casamento de catorze anos com a exclamação: "Meu advogado vai entrar em contato com você!" Mas isso ainda não havia preparado Lacey para as consequências emocionais de realmente estar de posse dos documentos. De sentir seu peso, solidez e ver aquele texto horrível, ousado e preto declarando impecabilidade.

Era como Nova York fazia as coisas — divórcios sem culpa dão menos trabalho, certo? —, mas "sem culpa" parecia um pouco demais, no que dizia respeito a Lacey. De qualquer forma, a culpa, segundo David, era toda dela. Trinta e nove anos e nenhum bebê. Nem mesmo o menor sinal de uma ninhada. Nenhuma onda hormonal ao ver os recém-nascidos de seus amigos — e vinham aparecendo muitos, se materializado em um fluxo interminável de pequenas coisinhas boas de apertar que não faziam precisamente nada se agitar dentro dela.

"Seu tempo está acabando", explicou David enquanto tomava uma taça de merlot uma noite.

Claro, o que ele realmente quis dizer foi: "Nosso casamento é uma bomba-relógio".

Lacey suspirou profundamente. Ela não tinha ideia, quando se casou com ele aos vinte e cinco anos, em um turbilhão de confetes brancos e bolhas de champanhe, que priorizar sua carreira sobre a maternidade se voltaria contra ela tão espetacularmente.

Sem culpa. Ha!

Ela foi procurar uma caneta — sentindo, de repente, como se seus membros fossem feitos de aço — e encontrou uma no pote de chaves. Pelo menos as coisas estavam organizadas agora. Não há mais David correndo em busca de sapatos perdidos, chaves perdidas, carteiras perdidas, óculos de sol perdidos. Ultimamente, tudo estava onde ela havia deixado. Mas, naquele momento, isso não servia muito como prêmio de consolação.

Ela voltou ao sofá, caneta na mão, e posicionou-a sobre a linha pontilhada na qual deveria assinar. Mas, em vez de pousá-la no papel, Lacey parou e a caneta ficou ali, pairando apenas um milímetro acima da linha, como se houvesse algum tipo de barreira invisível entre a ponta esferográfica e o papel. As palavras "cláusula de apoio conjugal" chamaram sua atenção.

Franzindo o cenho, Lacey procurou a página apropriada e examinou a cláusula. Por ser a pessoa com o salário mais alto do casal e a única proprietária do apartamento em Upper Eastside em que ela estava, Lacey teria que pagar a David uma "quantia fixa" por "não mais que dois anos", para que ele "organizasse" sua nova vida de uma maneira "consistente com a que ele tinha antes".

Lacey não pôde deixar de dar uma risada triste. Que ironia que David estivesse lucrando com a carreira dela, exatamente o que acabara com o casamento deles! Claro, ele não pensava assim. David chamaria isso de "recompensa". Ele sempre fazia questão de equilíbrio e justiça. Mas Lacey sabia o que realmente era esse dinheiro. Retribuição. Vingança. Retaliação.

E eu tomo naquele lugar duas vezes, ela pensou.

De repente, a visão de Lacey ficou embaçada e uma mancha apareceu em seu sobrenome, fazendo a tinta distorcer e o papel amassar. Uma lágrima intrometida caiu de seus olhos. Ela enxugou o olho inconveniente agressivamente com as costas da mão.

Vou ter que mudar meu nome, ela pensou enquanto olhava para a palavra agora deformada. Voltar ao meu nome de solteira.

Lacey Fay Bishop não existia mais. Havia sido apagado. Esse nome pertencia à esposa de David Bishop e, uma vez que ela assinasse na linha pontilhada, não seria mais aquela mulher. Ela se tornaria Lacey Fay Doyle mais uma vez, uma garota na qual ela não habitava desde os vinte e poucos anos e da qual ela nem se lembrava mais.

Mas o nome Doyle significava ainda menos para Lacey do que o que ela tinha pego emprestado de David nos últimos catorze anos. Seu pai foi embora quando ela tinha sete anos, imediatamente após férias familiares encantadoras na idílica cidade litorânea de Wilfordshire, na Inglaterra. Ela nunca mais o viu. Estava lá num dia, tomando sorvete em uma praia escarpada, deserta e varrida pelo vento, e sumido no dia seguinte.

E agora ela era tão fracassada quanto seus pais! Depois de todas as lágrimas de criança que ela derramara pelo pai desaparecido, de todos os insultos raivosos durante a adolescência que ela jogara sobre a mãe, ela simplesmente repetiu os mesmos erros! Falhara no casamento, exatamente como eles. A única diferença, concluiu Lacey, era que seu fracasso não apresentava danos colaterais. Seu divórcio não deixaria duas filhas perturbadas e com sequelas.

Ela olhou novamente para aquela maldita linha, que exigia ser assinada. Mas, ainda assim, Lacey hesitou. Sua mente parecia presa em seu novo nome.

Talvez eu simplesmente deixe pra lá meu sobrenome, pensou ela, ironicamente. Eu poderia ser Lacey Fay, como algum tipo de estrela pop. Ela sentiu uma sensação borbulhante de histeria subindo em seu peito. Mas por que parar aí? Eu poderia mudar meu nome para qualquer coisa que quisesse por alguns dólares. Eu poderia ser... — ela olhou ao redor da sala em busca de inspiração, fixando o olhar na caneca de café ainda intocada na mesa diante dela — Lacey Fay Cappuccino. Por que não? Princesa Lacey Fay Cappuccino!

Ela caiu na gargalhada, jogando a cabeça para trás com seus cachos escuros sedosos, rindo alto para o teto. Mas o momento durou pouco, e as risadas pararam assim que começaram. O silêncio caiu pesado no apartamento vazio.

Rapidamente, Lacey rabiscou sua assinatura nos papéis do divórcio. Estava feito.

Ela tomou um gole de café. Estava frio.



*



Como sempre, Lacey embarcou no metrô movimentado, em direção ao escritório onde trabalhava como designer de interiores. Salto alto, bolsa, sem contato visual, Lacey era como qualquer outro passageiro. Exceto, é claro, que não era. Pois entre o meio milhão de pessoas que estavam andando no metrô de Nova York na hora do rush matinal, ela foi a única a receber documentos de divórcio naquela manhã — ou pelo menos era assim que ela se sentia. Ela era a mais nova integrante do Triste Clube das Divorciadas.

Lacey podia sentir as lágrimas chegando. Ela balançou a cabeça e forçou sua mente a pensar em coisas felizes. Foi direto para Wilfordshire, para aquela praia pacífica e selvagem. Numa repentina e vívida recordação, Lacey se lembrou do oceano e do ar salgado. Lembrou-se do caminhão de sorvete com sua música sinistra e rimada e das batatas fritas quentes — chips, é assim que se chamam por lá, seu pai disse — que vinham numa pequena vasilha de isopor com um garfinho de madeira e todas as gaivotas que tentavam roubá-las no segundo em que ela se distraía. Ela pensou em seus pais, em seus rostos sorridentes naquele feriado.

Tudo aquilo havia sido uma mentira? Ela tinha apenas sete anos, Naomi quatro, nem tinham idade suficiente para perceber as nuances das emoções dos adultos. Seus pais evidentemente eram bons em esconder as coisas, porque estavam perfeitamente bem até que, de um dia para o outro, tudo foi devastado.

Eles realmente pareciam felizes naquela época, pensou Lacey, mas, para o mundo exterior, ela e David provavelmente pareciam ter tudo também. E eles tinham. Um belo apartamento. Empregos bem remunerados e satisfatórios. Boa saúde. Só não aqueles malditos bebês que haviam se tornado subitamente tão importantes para David. De fato, tinha sido quase tão abrupto quanto o sumiço de seu pai. Talvez fosse uma coisa masculina. Um momento repentino de eureka, no qual não havia como voltar atrás depois que a decisão foi tomada, e que tocava fogo em tudo o que estava no caminho porque, por que deixar algo intacto?

Lacey saiu do metrô e se juntou à multidão de pessoas que caminhavam pelas ruas da cidade. Nova York foi seu lar a vida inteira. Mas agora parecia sufocante. Ela sempre gostou da agitação, sem mencionar os negócios. Nova York era a sua cara. Mas agora ela se sentia dominada pelo desejo de uma mudança radical. De um recomeço.

Enquanto andava pelos últimos quarteirões até o escritório, ela pegou o celular da bolsa e ligou para Naomi. Sua irmã atendeu no primeiro toque.

"Tudo bem, querida?"

Naomi estava esperando ansiosamente pelos papéis do divórcio, daí a resposta imediata, apesar de ser tão cedo de manhã. Mas Lacey não queria falar sobre o divórcio.

"Você se lembra de Wilfordshire?"

"Hã?"

Naomi parecia sonolenta. Como mãe solteira de Frankie, o menino de sete anos mais indisciplinado do mundo, era de se esperar.

"Wilfordshire. As últimas férias que tivemos com mamãe e papai juntos".

Houve um momento de silêncio.

"Por que você está me perguntando isso?"

Como a mãe de Lacey, Naomi fez um voto de silêncio em relação a todas as coisas relacionadas ao pai. Ela era a mais nova quando ele partiu e proclamou que não tinha nenhuma lembrança dele, então por que desperdiçar energia se preocupando com sua ausência? Mas, depois de muitas doses numa sexta à noite, ela confessou se lembrar vividamente dele, sonhar com ele muitas vezes e ter dedicado três anos inteiros a sessões semanais de terapia, culpando furiosamente o seu abandono pelo fracasso de todos os relacionamentos adultos dela. Naomi saltou no carrossel de relacionamentos apaixonados e tumultuosos aos quatorze anos de idade e nunca mais conseguiu sair. A vida amorosa da irmã deixava Lacey tonta.

"Eles chegaram. Os papéis".

"Ah, querida. Eu sinto muito. Você está... FRANKIE, LARGA ISSO EM NOME DE JESUS!"

Lacey estremeceu, afastando o celular da orelha enquanto Naomi rosnava uma ameaça de morte para Frankie, se ele continuasse fazendo fosse qual fosse a atividade que não deveria.

"Desculpe, querida", disse Naomi, com sua voz voltando ao volume normal. "Você está bem?"

"Eu estou bem". Lacey fez uma pausa. "Não, na verdade, não estou. Estou me sentindo impulsiva. Numa escala de um a dez, quão louco seria faltar ao emprego e pegar o próximo voo para a Inglaterra?"

"Err... que tal onze? Vão demitir você".

"Vou pedir um tempo de folga".

Lacey praticamente podia ouvir Naomi revirando os olhos.

"Saskia? Sério? Você acha que ela vai te dar um dia de folga? A mulher que fez você trabalhar no Natal no ano passado?"

Preocupada, Lacey torceu os lábios, um gesto que herdou do pai, de acordo com sua mãe. "Eu preciso fazer algo, Naomi. Sinto-me sufocada. Ela puxou a gola alta da sua blusa, que de repente parecia uma forca.

"Claro que se sente. Ninguém te culpa por isso. Só não faça nada precipitado. Quero dizer, você escolheu sua carreira em vez de David. Não a ponha em risco".

Lacey fez uma pausa, unindo as sobrancelhas, confusa. Era assim que Naomi interpretava a situação?

"Não escolhi minha carreira ao invés dele. Foi ele quem me deu um ultimato".

"Interprete como quiser, Lace, mas só... FRANKIE! FRANKIE, EU TÔ TE DIZENDO..."

Lacey chegou no escritório e suspirou. "Tchau, Naomi".

Ela encerrou a ligação e olhou para o alto prédio de tijolos no qual dedicara quinze anos de sua vida. Quinze anos para o trabalho. Quatorze para David. Certamente estava na hora de se dar alguma coisa? Apenas umas pequenas férias. Uma viagem pela estrada da memória. Uma semana. Quinze dias. Um mês, no máximo.

Sentindo uma determinação repentina, Lacey marchou para dentro do prédio. Ela encontrou Saskia em pé diante de um computador, rosnando ordens para um dos estagiários de aparência aterrorizada. Antes que sua chefe tivesse a chance de dizer-lhe uma palavra, Lacey levantou a mão para detê-la.

"Vou tirar um tempo de folga", falou para a chefe.

Ela só teve tempo de ver Saskia franzir a testa antes de voltar marchando pelo caminho de onde viera. Cinco minutos depois, Lacey estava ao telefone reservando um voo para a Inglaterra.




CAPÍTULO DOIS


"Você está oficialmente doida, mana".

"Querida, você está agindo de forma irracional".

"A titia Lacey está bem?"

As palavras de Naomi, de sua mãe e de Frankie ecoavam na mente de Lacey enquanto ela descia do avião para a pista do aeroporto de Heathrow. Talvez ela estivesse louca, embarcando no primeiro voo do aeroporto JFK, passando sete horas em um avião com nada além de bolsa, pensamentos e uma sacola cheia de roupas e produtos de higiene pessoal que ela comprou nas lojas do terminal aéreo. Mas dar as costas para Saskia, Nova York e David tinha sido liberador. Ela até se sentia mais jovem. Despreocupada. Aventureira. Valente. Na verdade, até a lembrou da Lacey Doyle que ela fora a.D. (antes de David).

Mas dar a notícia para sua família de que ela estava indo para a Inglaterra sem aviso prévio — pelo viva-voz, aliás — tinha sido menos emocionante, pois ninguém parecia possuir um filtro, e os três compartilhavam o mesmo mau hábito de expressar em voz alta tudo o que lhes passava na cabeça.

"E se você for demitida?" a mãe choramingou.

"Ah, ela certamente será demitida", Naomi concordou.

"A tia Lacey está tendo um colapso?" perguntou Frankie.

Lacey podia imaginar os três sentados ao redor de uma mesa, fazendo o possível para cortar sua onda. Mas é claro que essa não era a realidade da situação. Como seus entes mais próximos e queridos, era o trabalho deles expor as duras verdades para ela. Nesta nova era desconhecida, d.D. (depois de David), quem mais o faria?

Lacey atravessou o saguão, seguindo o resto dos passageiros de olhos inchados. A famosa garoa inglesa pairava no ar. E olhe que já era primavera. Com a umidade frisando seus cabelos, Lacey finalmente teve uma pausa para pensar. Mas não havia como voltar agora, não depois de um voo de sete horas e várias centenas de dólares dragados de sua conta bancária.

O terminal era um enorme edifício parecido com uma estufa, todo em aço e elegante vidro azul, coberto com um telhado curvo de última geração. Lacey entrou no salão de azulejos brilhantes, decorado com murais cubistas patrocinados por uma entidade de nome sofisticado — British Building Society —, e entrou na fila para o controle de passaporte. Quando chegou a vez dela, foi atendida por uma mulher loira, carrancuda, com sobrancelhas negras, desenhadas a lápis num traço espesso. Lacey entregou-lhe o passaporte.

"Motivo da visita? Negócios ou lazer?"

O sotaque dela era áspero, bem diferente dos atores britânicos de fala mansa que encantavam Lacey em seus talk-shows favoritos à noite.

"Eu estou de férias".

"Você não tem passagem de volta".

Levou um tempo para o cérebro de Lacey descobrir o que a mulher estava realmente dizendo, devido à sua gramática direta demais. "São férias com o fim em aberto".

A guarda ergueu suas grandes sobrancelhas negras e sua carranca se transformou em suspeita. "Você precisa de um visto, se planeja trabalhar".

Lacey balançou a cabeça. "Não. A última coisa que quero fazer aqui é trabalhar. Acabei de me divorciar. Preciso de um pouco de tempo e espaço para clarear a cabeça, tomar sorvete e assistir a filmes ruins".

Os traços da mulher se suavizaram instantaneamente, mostrando empatia, dando a Lacey a impressão distinta de que ela também fazia parte do Triste Clube das Divorciadas.

Ela devolveu o passaporte a Lacey. "Aproveite sua estadia. E queixo para cima, ok?"

Lacey engoliu o pequeno nó que se formara em sua garganta, agradeceu e seguiu para o desembarque. Lá, vários grupos de pessoas aguardavam a chegada de seus entes queridos. Alguns estavam segurando balões, outros, flores. Um grupo de crianças muito loiras segurava uma placa que dizia: "Bem-vinda de volta, mamãe! Sentimos saudades!"

É claro que não havia ninguém esperando por Lacey e, quando ela atravessou o saguão movimentado em direção à saída, pensou em como nunca mais seria recebida por David em um aeroporto. Se ao menos ela soubesse que quando retornou daquela viagem de negócios — para comprar vasos antigos em Milão — seria a última vez que David a surpreenderia no aeroporto com um sorriso no rosto e um buquê de margaridas coloridas nos braços... Ela teria saboreado mais o momento.

Do lado de fora, Lacey chamou um táxi. Era um carro antigo preto, modelo hackney, cuja visão imediatamente lhe deu uma pontada de nostalgia. Ela, Naomi e seus pais haviam andado num táxi preto vários anos atrás, durante aquelas fatídicas e finais férias em família.

"Para onde quer ir?" perguntou o motorista atarracado quando Lacey deslizou no banco de trás.

"Wilfordshire".

Houve um momento de silêncio. Então, o motorista se virou em seu assento para encará-la, com uma carranca profunda e o cenho franzido. "Você sabe que são duas horas de carro até lá?"

Lacey piscou, sem saber o que ele estava tentando comunicar.

"Tudo bem", disse ela, com um pequeno dar de ombros.

Ele parecia ainda mais perplexo. "Você é uma ianque, não é? Bem, não sei o quanto está acostumada a gastar com passagens por lá, mas deste lado da lagoa uma viagem de duas horas custará uma nota".

O jeito abrupto dele pegou Lacey de surpresa, não apenas porque não combinava com a imagem em sua mente de um simpático taxista de Londres, mas por causa da sugestão velada de que ela não podia pagar uma viagem como aquela. Lacey se perguntou se isso tinha algo a ver com ela ser uma mulher viajando sozinha. Ninguém nunca questionou David quando faziam longas viagens de táxi juntos.

"Eu posso pagar", ela assegurou ao taxista, com um tom um pouco gelado.

O motorista se voltou para a frente e pressionou o botão Iniciar no taxímetro. Ele apitou e fez surgir o símbolo da libra em verde, cuja visão provocou outra onda de nostalgia em Lacey.

"Já que você pode", disse ele, se afastando do meio-fio.

Isso é o que chamo de hospitalidade britânica, pensou Lacey.



*



Eles chegaram em Wilfordshire, como prometido, duas horas depois, com Lacey amargando "duzentos e cinquenta pratas" a menos. Mas a tarifa salgada — e o taxista pouco amigável — se tornou insignificante no momento em que Lacey saiu do veículo e respirou profundamente aquele ar fresco do litoral. O cheiro era exatamente como ela se lembrava.

Sempre lhe chamou atenção o modo como cheiros e gostos podiam evocar lembranças tão fortes — e agora não foi diferente. O ar marinho causou uma súbita onda de prazer espontâneo dentro dela, algo que não sentia desde antes de seu pai ir embora. Foi tão forte que ela quase caiu. A ansiedade provocada pela reação de sua família em relação à viagem simplesmente desapareceu. Lacey estava exatamente onde precisava estar.

Ela desceu a rua principal. A garoa que cercava o aeroporto de Heathrow não existia ali, e os últimos raios do pôr do sol banhavam tudo em uma luz dourada, fazendo com que o lugar parecesse mágico. Era exatamente como ela se lembrava — duas fileiras paralelas de antigos chalés de pedra, construídos bem rente às calçadas de paralelepípedos, com as bay windows originais de vidro se sobressaindo nas ruas. Nenhuma das lojas se modernizara desde a última vez em que ela esteve na cidade. De fato, todas ainda tinham o que pareciam ser suas placas de madeira originais balançando acima da entrada, e cada loja era única, vendendo de tudo, desde roupas infantis a miudezas, pães e bolos e café orgânico de pequenos produtores. Havia até uma "loja de doces" à moda antiga, cheia de grandes potes de vidro com doces coloridos, onde tudo podia ser comprado individualmente por "um centavo".

Era abril, e a cidade estava decorada com bandeirolas coloridas para celebrar a Páscoa, amarradas entre as lojas, num zigue-zague cruzando o céu. E havia muitas pessoas na rua — largando do trabalho, presumiu Lacey — sentadas nas mesas ao ar livre de bares, em bancos de piquenique, bebendo canecas de cerveja, ou do lado de fora de cafés, nas mesas de bistrô, comendo sobremesas. Todos pareciam estar de bom humor, e sua conversa alegre criava uma atmosfera reconfortante, como uma música de fundo.

Sentindo uma onda calmante de certeza, Lacey pegou o celular e tirou uma foto da rua principal. Com a faixa prateada do mar brilhando no horizonte e o lindo céu listrado de rosa, a cena parecia um cartão-postal, então ela a compartilhou no grupo Garotas da Família Doyle. Naomi havia escolhido o nome, para grande desgosto de Lacey na época.

Está exatamente como eu me lembro, ela escreveu embaixo da foto perfeita.

Um momento depois, seu telefone emitiu um bipe. Naomi respondeu.

Parece que você foi parar no Beco Diagonal por acidente, mana.

Lacey suspirou. Era uma resposta tipicamente sarcástica de sua irmã mais nova e ela deveria ter esperado. Porque é claro que Naomi não podia apenas ficar feliz por ela ou ter orgulho do modo como assumira o comando de sua própria vida.

Você usou um filtro? foi a resposta da mãe, um momento depois.

Lacey revirou os olhos e guardou o celular. Determinada a não deixar ninguém desanimá-la, ela respirou fundo, calmamente. A diferença em comparação com o ar poluído de Nova York que ela estava respirando mais cedo naquela manhã era realmente impressionante.

Ela continuou ao longo da rua, com os saltos-altos clicando-clicando-clicando contra os paralelepípedos. Seu próximo objetivo era encontrar um quarto de hotel para o número ilimitado de noites em que ficaria aqui. Ela parou do lado de fora da primeira pousada que encontrou, The Shire, mas viu que o letreiro na janela havia sido virado para o lado em que se lia "Não há vagas". Sem problemas. A rua principal era longa e, se não me falha a memória, pensou Lacey, haveria muito mais lugares para tentar.

A próxima pousada, Laurel’s, era pintada em um tom rosa algodão-doce e sua placa proclamava: "Totalmente ocupada". Palavras diferentes, mas o mesmo sentimento. Só que desta vez, provocou uma centelha de pânico no peito de Lacey.

Ela afastou esse pavor à força. Era apenas o verme que sua família havia colocado em seu ouvido. Não havia necessidade de se preocupar. Ela encontraria um lugar em breve.

Então, continuou. Entre uma joalheria e uma livraria, o The Seaside Hotel estava lotado e, depois da loja de suprimentos para camping e do salão de beleza, a pousada Carol's B'n'B também não tinha vagas. Continuou assim até Lacey chegar ao fim da rua.

Agora o pânico realmente tomou conta. Como ela tinha sido tão tola a ponto de vir aqui sem nada preparado? Toda a sua carreira envolvia organizar coisas, mas ela não conseguiu organizar as próprias férias! Não estava com nenhum de seus pertences e agora também não tinha um quarto. Teria que voltar por onde tinha vindo, pagar mais "duzentas e cinquenta pratas" por um táxi de volta a Heathrow e entrar no próximo voo para casa? Não admira que David tenha incluído uma cláusula de apoio financeiro conjugal — não dava para confiar nela quando o assunto era dinheiro!

Enquanto a mente de Lacey rodopiava por causa da ansiedade, ela se virou, como se, ao olhar impotente para o caminho por onde tinha vindo, pudesse fazer surgir magicamente outra pousada do nada. Foi só então que percebeu que o último prédio de esquina diante dela era uma estalagem. A Coach House.

Sentindo-se tola, Lacey pigarreou e recuperou os sentidos. Ela entrou.

O interior era de um típico pub, com grandes mesas de madeira, um quadro-negro com o cardápio daquela noite escrito com giz branco em letra cursiva e um fliperama no canto com luzes berrantes. Ela foi até o bar, onde as prateleiras de vidro estavam cheias de garrafas de vinho e pendia uma fileira de dispensers de vidro, cheios de uma variedade de bebidas alcoólicas de cores diferentes. Era tudo muito singular. Havia até um velho bêbado cochilando no bar, usando os braços como travesseiro.

A garçonete era uma garota magra, com cabelos loiros claros amontoados em um coque bagunçado no alto da cabeça. Ela parecia jovem demais para trabalhar em um bar. Lacey decidiu que era porque a idade mínima para beber na Inglaterra era menor, e não pelo fato de que, quanto mais velha ela ficava, mais todo mundo parecia ter cara de bebê.

"O que você vai querer?" perguntou a garçonete.

"Um quarto", disse Lacey. "E uma taça de prosecco".

Ela sentia vontade de comemorar.

Mas a garçonete balançou a cabeça. "Todos os quartos estão reservados para a Páscoa". Ela falou com um sorriso tão grande que Lacey podia ver o chiclete que estava mastigando. "A cidade inteira está. É a época de férias escolares e muita gente gosta de trazer seus filhos para Wilfordshire. Não haverá vaga por pelo menos quinze dias". Ela fez uma pausa. "Apenas um prosecco, então?"

Lacey agarrou o balcão para se firmar. Seu estômago revirou. Agora ela realmente se sentia a mulher mais idiota do mundo. Não é de admirar que David a tenha deixado. Ela era uma bagunça total. Uma coitada. Ali estava, fingindo ser uma adulta independente no exterior, quando na realidade não conseguia nem um quarto de hotel para si mesma.

Nesse momento, Lacey notou uma figura em sua visão periférica. Ela se virou e viu um homem vindo em sua direção. Ele devia ter uns sessenta e poucos anos, usava uma camisa de algodão xadrez por dentro de uma calça jeans azul, óculos de sol empoleirados na cabeça careca e um coldre de celular no quadril.

"Eu ouvi você dizer que está procurando um lugar para ficar?" ele perguntou.

Lacey estava prestes a dizer não — ela podia estar desesperada, mas 'se arrumar' com um homem com o dobro da sua idade que a abordara em um bar era um pouco Naomi demais para o gosto dela. Mas o homem esclareceu: "Porque eu tenho chalés para alugar".

"Ah?" ela respondeu, surpresa.

O homem assentiu e tirou um pequeno cartão de visita do bolso do jeans. Os olhos de Lacey o examinaram.

Aconchegantes, rústicos e charmosos chalés de Ivan Parry. Ideal para toda a família.

"Estou com todos reservados, como Brenda disse", continuou Ivan, indicando a garçonete com um movimento da cabeça. "Além de um, que acabei de comprar num leilão. Ainda não está pronto para ser alugado, mas posso mostrar a você, se estiver realmente precisando. Posso cobrar a diária com desconto, pois não tem muito conforto... Só para ajudar você até que as pousadas tenham vaga novamente".

Uma onda de alívio inundou Lacey. O cartão de visita parecia legítimo e Ivan não havia acionado nenhum alerta de esquisito em sua cabeça. A sorte dela estava mudando! Ela ficou tão aliviada que poderia ter beijado a careca dele!

"Você é um salva-vidas", disse ela, conseguindo se conter.

Ivan corou. "Talvez seja melhor esperar até ver o lugar, antes de fazer esse julgamento".

Lacey riu. "Sinceramente, quão ruim pode ser?"



*



Lacey parecia uma mulher em trabalho de parto enquanto subia a encosta ao lado de Ivan.

"É muito íngreme?" ele perguntou, parecendo preocupado. "Eu deveria ter mencionado que ficava no penhasco".

"Não tem problema", Lacey chiou. "Eu... adoro... a vista para o mar".

Durante toda a caminhada até aqui, Ivan se mostrou o oposto de um empresário astuto, mencionando várias vezes o desconto prometido (apesar de nem sequer terem discutido o preço) e repetidamente dizendo a ela para não criar grandes expectativas. Agora, com as coxas doendo pela caminhada, ela estava começando a se perguntar se ele estava certo em subestimar o chalé.

Mas isso foi só até a casa aparecer no topo da colina. Com uma silhueta preta recortada contra o céu rosa claro, estava uma alta construção de pedra. Lacey ofegou em voz alta.

"É este?" ela perguntou, sem fôlego.

"É este", respondeu Ivan.

Uma força vinda do nada subitamente impulsionou Lacey pelo resto do penhasco. Cada passo que a aproximava daquela casa cativante revelava outra característica impressionante: a encantadora fachada de pedra, o telhado de ardósia, a roseira que serpenteava nas colunas de madeira de uma varanda, a antiga porta grossa e arqueada que parecia saída de um conto de fadas. E emoldurando tudo havia o oceano brilhante e arrebatador.

Os olhos de Lacey se arregalaram e sua boca se abriu enquanto ela corria os últimos passos em direção à casa. Uma placa de madeira ao lado da porta dizia: Chalé do Penhasco.

Ivan apareceu ao lado dela com um grande chaveiro tilintando em suas mãos enquanto procurava a chave certa. Lacey parecia uma criança diante do carrinho de sorvete, esperando com impaciência para pegar o seu, quase saltitando na ponta dos pés.

"Não tenha muitas esperanças", disse Ivan pela enésima vez, finalmente encontrando a chave certa — uma de bronze enferrujado e bem grande, que parecia feita para abrir o castelo de Rapunzel — antes de girá-la na fechadura e abrir a porta.

Lacey entrou ansiosamente dentro do chalé e foi atingida pelo repentino e poderoso sentimento de voltar para casa.

O corredor era rústico, para dizer o mínimo, com tábuas de madeira não tratadas e papel de parede desbotado. Ao longo do meio da escada à sua direita, havia um tapete vermelho muito fofo com detalhes laterais dourados, como se o dono original pensasse que era uma casa imponente, e não um pequeno e pitoresco chalé. Uma porta de madeira à sua esquerda estava aberta, como se estivesse chamando-a para entrar.

"Como eu disse, está um pouco abandonado", disse Ivan, enquanto Lacey entrava na ponta dos pés.

Ela se viu em uma sala de estar. Três das paredes estavam cobertas com papel listrado nas cores verde-hortelã e branco, e a outra exibia os blocos de pedra expostos. Uma grande bay window dava para o oceano, com um assento sob medida. Um fogão à lenha com uma longa calha preta ocupava um canto inteiro, com um balde prateado ao lado, cheio de lenha. Uma grande estante de madeira ocupava a maior parte de uma parede. O sofá, a poltrona e o apoio dos pés pareciam originais, da década de 1940. O lugar estava precisando de uma boa limpeza, mas para Lacey, isso só o tornava ainda mais perfeito.

Ela girou para encarar Ivan. Ele parecia apreensivo enquanto esperava a avaliação dela.

"Eu amei!" ela exclamou.

Ivan parecia surpreso (e com uma pitada de orgulho, observou Lacey).

"Ah!" ele exclamou. "Que alívio!"

Lacey não conseguiu se conter. Emocionada, ela precorreu a sala, observando todos os pequenos detalhes. Na estante de madeira esculpida e ornamentada, havia dois livros de mistério, com as páginas enrugadas por causa do tempo. Um cofrinho de porcelana com uma ovelha e um relógio que não estava mais funcionando eram exibidos na prateleira seguinte, e embaixo havia uma delicada coleção de bules de porcelana. Era o sonho de uma fã de antiguidades que se tornava realidade.

"Posso ver o resto?" perguntou Lacey, sentindo seu coração crescer dentro do peito.

"Fique à vontade", respondeu Ivan. "Vou para o porão, resolver o aquecimento e a água".

Eles seguiram pelo pequeno corredor escuro, e Ivan desapareceu por uma porta embaixo da escada enquanto Lacey continuou até a cozinha, com o coração batendo forte.

Quando ela passou pela porta, deixou escapar uma exclamação.

A cozinha parecia vinda de um museu vivo da era vitoriana. Havia um genuíno AGA preto, tachos e panelas de latão pendurados em ganchos aparafusados no teto e uma grande tábua de carne quadrada bem no meio. Pelas janelas, Lacey podia ver um amplo gramado. Do outro lado das elegantes portas francesas, havia um pátio, onde uma mesa e uma cadeira bambas haviam sido colocadas. Lacey podia se imaginar sentada ali, comendo croissants recém-assados enquanto bebia café peruano orgânico da cafeteria gourmet.

De repente, um som alto de algo batendo a tirou bruscamente de seu devaneio. Vinha de algum lugar sob os pés de Lacey; ela sentiu as tábuas do assoalho vibrarem.

"Ivan?" Lacey chamou, voltando para o corredor. "Está tudo bem?"

A voz dele surgiu através da porta aberta do porão. "São apenas os canos. Eu acho que não são usados há anos. Pode demorar um pouco para se acomodarem".

Outro grande estrondo fez Lacey dar um salto. Mas, conhecendo a causa inofensiva, desta vez ela não pôde deixar de rir.

Ivan ressurgiu da escada do porão.

"Está tudo resolvido. Eu realmente espero que os canos não demorem muito para se ajustar", disse ele, com seu jeito preocupado.

Lacey balançou a cabeça. "Isso só aumenta o charme".

"Então, você pode ficar aqui o tempo que precisar", acrescentou ele. "Vou ficar de olho e informar se algum dos hotéis estiver disponível".

"Não se preocupe", disse Lacey. "Este chalé é exatamente o que eu não sabia que estava procurando".

Ivan deu a ela um de seus sorrisos tímidos. "Então, dez libras por noite está bom?"

As sobrancelhas de Lacey se ergueram. "Dez libras? Isso dá doze dólares, ou algo assim?"

"Muito alto?" Ivan interrompeu, corando intensamente. "Cinco, então?"

"Muito baixo!" exclamou Lacey, ciente de que estava 'pechinchando' com ele para aumentar o valor em vez de baixar. Mas a taxa ridiculamente subestimada que ele estava sugerindo equivalia a um roubo, e Lacey não se aproveitaria daquele homem doce e trapalhão que a salvara de seu momento donzela-em-perigo. "É um chalé de dois quartos. Pode ser usado até por uma família. Depois que tirar a poeira e dar um polimento, você poderá facilmente ganhar centenas de dólares por noite com este lugar".

Ivan não parecia saber para onde olhar. Claramente, falar sobre dinheiro o deixava desconfortável; mais evidências, pensou Lacey, de que ele não tinha perfil para ser um empresário. Ela esperava que nenhum dos seus inquilinos estivesse se aproveitando dele.

"Bem, que tal quinze por noite?" Ivan sugeriu: "E mandarei alguém para limpar e polir".

"Vinte", respondeu Lacey. "E eu mesma posso tirar o pó e encerar os móveis". Ela sorriu e estendeu a mão. "Agora me dê a chave. Não aceito não como resposta".

O vermelho nas bochechas de Ivan se espalhou pelos ouvidos e por todo o pescoço. Ele assentiu timidamente, concordando e colocou a chave de bronze na palma da mão de Lacey.

"Meu número está no cartão. Ligue-me se algo quebrar. Quando quebrar, melhor dizendo".

"Obrigada", disse Lacey, agradecida, com uma pequena risada.

Ivan foi embora.

Agora sozinha, Lacey subiu as escadas para terminar de explorar. A suíte principal ficava na frente da casa, com vista para o mar e uma varanda. Era outro cômodo em estilo de museu, com uma grande cama de dossel feita de carvalho escuro e armário combinando, grande o suficiente para levar alguém a Nárnia. O segundo quarto ficava nos fundos da casa, com vista para o gramado. O lavabo ficava separado do local para banhos, em seu próprio cômodo, do tamanho de um armário. O banheiro consistia apenas em uma banheira branca com pés de bronze. Não havia chuveiro, apenas uma ducha presa na torneira da banheira.

Voltando ao quarto principal, Lacey afundou na cama de dossel. Era a primeira vez que tinha a chance de refletir sobre aquele dia estonteante, e ela se sentia quase transtornada. De manhã, ela era uma mulher casada há catorze anos. Agora estava solteira. Ela era uma executiva ocupada em Nova York. Agora estava em um chalé numa falésia da Inglaterra. Que fantástico! Que emocionante! Ela nunca havia feito algo tão ousado em toda a sua vida e, puxa, aquilo era bom!

Os canos soltaram um estrondo alto e Lacey gritou. Mas um momento depois ela caiu na gargalhada.

Ela se deitou na cama, olhando para o dossel de tecido acima, ouvindo o som das ondas da maré alta batendo contra os penhascos. O som trouxe de volta uma súbita, anteriormente perdida, fantasia de infância de viver à beira-mar. Que engraçado ela ter esquecido esse sonho. Se não tivesse retornado a Wilfordshire, ele teria permanecido enterrado em sua mente, para nunca mais ser recuperado? Ela se perguntou que outras lembranças poderiam lhe ocorrer enquanto estivesse aqui. Talvez, amanhã de manhã, ela explore um pouco a cidade e descubra que segredos ela pode conter.




CAPÍTULO TRÊS


Lacey foi acordada por um barulho estranho.

Ela se endireitou imediatamente na cama, confusa ao ver o quarto desconhecido, iluminado apenas pela tênue luz da manhã entrando através de uma fenda nas cortinas. Demorou um segundo para recalibrar seu cérebro e lembrar que ela não estava mais em seu apartamento em Nova York, e sim em um chalé de pedra nos penhascos de Wilfordshire, Inglaterra.

O barulho voltou. Mas desta vez não foi o barulho de canos de água, mas algo completamente diferente, algo que parecia de origem animal.

Verificando o celular com os olhos inchados de sono, Lacey viu que eram cinco da manhã no horário local. Com um suspiro, ela levantou o corpo cansado da cama. Os efeitos do jet lag ficaram imediatamente aparentes no peso de seus membros, enquanto ela caminhava até as portas da varanda com os pés descalços e abria as cortinas. Lá estava a beira do penhasco, e o mar se estendia no horizonte até encontrar um céu claro e sem nuvens que estava apenas começando a ficar azul. Ela não viu nenhum animal culpado no gramado da frente e, quando o barulho voltou, Lacey conseguiu perceber que o som vinha dos fundos da casa.

Envolvendo-se no robe que lembrou de comprar no aeroporto no último segundo, Lacey desceu as escadas rangentes para investigar. Ela foi direto para os fundos da casa, para a cozinha, onde as grandes janelas de vidro e portas francesas lhe proporcionavam uma vista impecável do gramado dos fundos. E lá, Lacey descobriu a origem do barulho.

Havia um rebanho inteiro de ovelhas no quintal.

Lacey piscou. Devia haver pelo menos quinze delas! Vinte. Talvez mais!

Ela esfregou os olhos, mas quando os abriu novamente, todas as criaturas fofas ainda estavam lá, pastando em sua grama. Então, uma levantou a cabeça.

Os olhos de Lacey e os da ovelha se encontraram e elas ficaram ali, se encarando até que, finalmente, a ovelha inclinou a cabeça para trás e soltou um balido longo, alto e parecido com um lamento.

Lacey começou a rir. Ela não conseguia pensar em uma maneira mais perfeita de começar sua nova vida d.D. De repente, estar em Wilfordshire parecia menos férias e mais uma declaração de intenções, a intenção de ter de volta seu antigo eu, ou talvez um novo eu, que ela ainda não conhecia. Fosse qual fosse a sensação, ela sentiu borboletas no estômago, como se alguém a tivesse enchido de champanhe (ou talvez fosse o jet lag — no que diz respeito ao relógio interno, ela acabara de dar a seu corpo um sono generoso). De qualquer forma, Lacey mal podia esperar para descobrir o que aquele dia iria lhe trazer.

Ela sentiu um entusiasmo repentino em busca de aventura. Ontem, havia acordado com os sons habituais do trânsito da cidade de Nova York; hoje, ao som de balidos incessantes. Ontem, ela sentiu o cheiro de roupas e produtos de limpeza frescos. Hoje, o de poeira e do mar. Ela havia pego a velha familiaridade de sua vida e a destruído. Como uma mulher recém-solteira, o mundo de repente parecia pequeno. Ela queria explorar! Descobrir! Aprender! De repente, ela estava cheia de um entusiasmo pela vida que não sentia desde... bem, desde antes de seu pai ir embora.

Lacey balançou a cabeça. Ela não queria pensar em coisas tristes. Estava decidida a não deixar que nada diminuísse aquele novo sentimento de alegria. Pelo menos hoje não. Hoje ela iria agarrar esse sentimento e não soltá-lo mais. Hoje, ela era livre.

Tentando manter a mente longe do seu estômago roncando, Lacey tentou usar a grande banheira. Ela usou a estranha ducha que estava conectada às torneiras para se molhar, como se fosse um cachorro enlameado. A água mudava de quente para gelada a qualquer momento, e os canos faziam barulhos estridentes o tempo todo. Mas a suavidade imediata da água em comparação com a aspereza à qual ela estava acostumada em Nova York era o equivalente a espalhar um bálsamo hidratante caro por todo o corpo, e Lacey se deliciou com isso, mesmo quando uma súbita rajada de frio fez seus dentes baterem.

Depois que toda a sujeira do aeroporto e a poluição da cidade foram lavadas de sua pele — deixando-a literalmente luminosa — ela se secou e vestiu a roupa que havia comprado no aeroporto. Havia um grande espelho na porta interna do guarda-roupa de Nárnia que Lacey usou para avaliar sua aparência. E não estava bonita.

Lacey fez uma careta. Ela havia comprado aquelas roupas de uma loja de moda praia no aeroporto, imaginando que o mais apropriado para as férias à beira-mar fossem roupas casuais. Mas, embora sua intenção fosse criar um estilo relaxado para a praia, aquele conjunto estava mais para um brechó. As calças bege eram um pouco apertadas, a camisa branca de musselina engoliu as curvas do seu corpo e os frágeis mocassins eram ainda menos adequados para os paralelepípedos do que os saltos-altos que ela usava na trabalho! Investir em roupas decentes teria que ser a maior prioridade de hoje.

O estômago de Lacey roncou.

Segunda prioridade, ela pensou, batendo no estômago.

Ela desceu as escadas, com os cabelos molhados pingando pelas costas, e entrou na cozinha, vendo pela janela que apenas algumas retardatárias da gangue de ovelhas daquela manhã ainda estavam no jardim. Verificando os armários e a geladeira, Lacey descobriu que os dois estavam vazios. Ainda era muito cedo para ir à cidade pegar seus quitutes recém-assados na confeitaria da rua principal. Ela teria que matar algum tempo.

"Matar algum tempo!" Lacey exclamou em voz alta, com a voz cheia de alegria.

Quando foi a última vez que ela teve algum tempo de sobra? Quando ela se permitiu a liberdade de perder tempo? David tinha sempre tantas regras sobre o pouco tempo livre que eles tinham. Academia. Brunch. Compromissos familiares. Sair para um drinque. Todo momento "livre" havia sido programado. Lacey teve uma repentina epifania; o próprio ato de programar o tempo livre negava a liberdade dele! Ao permitir que David planejasse e ditasse o que eles faziam com o tempo, ela se envolveu em uma camisa de força de obrigação social. O momento de clareza a atingiu de uma forma quase budista.

O Dalai Lama ficaria tão orgulhoso de mim, pensou Lacey, batendo palmas de prazer.

Nesse momento, as ovelhas no jardim baliram. Lacey decidiu que iria usar sua liberdade recém-adquirida para brincar de detetive amadora e descobrir de onde tinha vindo aquele rebanho de ovelhas.

Ela abriu as portas francesas e foi para o pátio. Pequenas gotas frescas do oceano embaçavam seu rosto enquanto ela passeava pelo caminho do quintal, indo em direção às duas bolas fofinhas ainda comendo sua grama. Quando a ouviram chegar, elas se afastaram desajeitadamente, com graciosidade zero, e desapareceram através de uma abertura nas sebes.

Lacey se aproximou e olhou através da brecha, vendo outro jardim além dos arbustos, repleto de flores em cores vivas. Então, ela tinha um vizinho. Na cidade de Nova York, seus vizinhos eram distantes, outros casais profissionais como ela e David, cujas vidas consistiam em deixar seus apartamentos antes do amanhecer e retornar após o pôr do sol. Mas esse vizinho, pela aparência de seu belo jardim, desfrutava da boa vida. E tinha ovelhas! Não havia um único animal de estimação no antigo prédio de Lacey — pessoas ocupadas não tinham tempo para animais de estimação, nem a inclinação para lidar com os pelos ou cheiros dos currais. Que prazer agora viver tão perto da natureza! Até o cheiro de estrume de ovelha era um contraste bem-vindo em relação ao seu bloco de apartamentos hiper-limpo em Nova York.

Enquanto se endireitava, Lacey notou um trecho de grama desgastado pelo tempo, como um caminho pisado por muitos pés. Levava ao longo dos arbustos em direção ao penhasco. Havia um pequeno portão ali, praticamente coberto pelas plantas. Ela foi até lá e o abriu.

Alguns degraus haviam sido talhados na encosta do penhasco, e eles seguiam até a praia. Era como se fosse um conto de fadas, pensou Lacey, encantada enquanto cuidadosamente começou a descer por eles.

Ivan nem sequer havia mencionado que ela tinha um atalho direto até a praia, que, se tivesse o desejo de sentir a areia entre os dedos dos pés, poderia fazer isso em questão de minutos. E, pensando novamente em Nova York, ela havia ficado tão presunçosa com a caminhada de apenas dois minutos até o metrô.

Lacey desceu o lance de degraus altos até que eles pararam, a poucos metros da praia. Então, ela deu um salto para a praia. A areia era tão macia que seus joelhos absorveram o choque, apesar da completa falta de amortecimento fornecida por seus sapatos mocassins baratos do aeroporto.

Lacey respirou fundo, sentindo-se totalmente selvagem e despreocupada. Aquela parte da praia era deserta. Sem mácula. Deve ser muito longe das lojas da cidade para as pessoas se aventurarem, ela pensou. Era quase como seu próprio pedaço de praia particular.

Olhando na direção da cidade, Lacey viu o píer projetando-se pelo oceano. Ela foi imediatamente tomada pela lembrança de jogar fair games, e o fliperama barulhento em que seu pai havia permitido que elas gastassem suas moedas. Havia também um cinema no píer, recordou Lacey, empolgada com os fragmentos de memória que conseguia recuperar. Era um minúsculo cinema de oito lugares, que pouco havia mudado desde que fora construído, com assentos de veludo vermelho. Seu pai a levou com Naomi para assistir a um desenho japonês obscuro lá. Ela se perguntou quantas mais lembranças sua viagem a Wilfordshire produziria. Quantos espaços em branco em sua memória seriam preenchidos por vir aqui?

Como a maré estava baixa, muito da estrutura do píer estava visível. Lacey podia ver alguns passeadores de cães e algumas pessoas correndo. A cidade estava começando a acordar. Talvez houvesse um café aberto agora. Ela decidiu seguir a longa rota marítima até a cidade e começou a caminhar nessa direção.

O penhasco recuava quanto mais ela se aproximava da cidade, e logo surgiram estradas e ruas. No segundo em que pisou na avenida, Lacey foi atingida por outra lembrança repentina, de um mercado com barracas de lona, vendendo roupas, jóias e varetas de doce. Uma série de números pintados com spray no chão indicava seus locais específicos. Lacey sentiu uma onda de animação.

Ao sair da praia, ela seguiu em direção à rua principal — ou rua alta, como os britânicos chamavam. Ela observou a Coach House na esquina, onde conheceu Ivan, antes de virar pela rua cheia de bandeirolas.

Era muito diferente de estar em Nova York. O ritmo era mais lento. Não havia carros buzinando. Ninguém empurrava ninguém. E, para sua surpresa, alguns dos cafés estavam realmente abertos.

Ela entrou no primeiro que encontrou, sem fila à vista, e conseguiu um café Americano preto e croissant. O café estava perfeitamente torrado, rico e com sabor achocolatado, e o croissant era uma delícia de massa folhada amanteigada que derretia na boca.

Com o estômago finalmente satisfeito, Lacey decidiu que era hora de encontrar roupas melhores. Ela viu uma boa boutique no outro lado da rua e começou a andar naquela direção, quando o cheiro de açúcar atacou suas narinas. Ela se voltou e viu uma loja de fudges caseiros acabando de abrir as portas. Incapaz de resistir, ela entrou.

"Quer experimentar uma amostra grátis?" perguntou o homem de avental branco e rosa listrado. Ele apontou para uma bandeja de prata cheia de cubos em diferentes tons de marrom. "Temos fudge de chocolate meio-amargo, chocolate ao leite, chocolate branco, caramelo, toffee, café, salada de frutas e original".

Os olhos de Lacey se arregalaram. "Posso experimentar todos?" perguntou.

"É claro!"

O homem cortou cubinhos de cada sabor e os apresentou a Lacey para ela experimentar. Ela colocou o primeiro na boca e sentiu uma explosão de sabores.

"Delícia", ela falou, com a boca cheia.

Seguiu para o próximo. De alguma forma, era ainda melhor do que o anterior.

Ela experimentou uma amostra após a outra, e elas pareciam ficar cada vez mais deliciosas.

Quando Lacey engoliu o último pedaço, ela mal se deu tempo para respirar antes de exclamar: "Eu tenho que enviar um pouco para o meu sobrinho. Será que estraga se eu mandar pelo correio para Nova York?"

O homem sorriu e pegou uma caixa de papelão forrada com papel alumínio. "Se você usar nossa caixa de entrega especial, não", disse ele com uma risada. "Tornou-se um pedido tão comum que nós a fizemos sob medida. É fina o suficiente para caber na caixa de correio e leve o bastante para manter os custos de postagem baixos. Você também pode comprar os selos aqui".

"Que inovador", disse Lacey. "Você pensou em tudo".

O homem encheu a caixa com um fudge de cada sabor disponível, fechou a caixa plana com fita adesiva e colou os selos postais corretos nela. Depois de pagar e agradecer ao homem, Lacey pegou seu pequeno embrulho, escreveu o nome e o endereço de Frankie na frente e o colocou na tradicional caixa de correio vermelha do outro lado da rua.

Depois que o pacote desapareceu pelo buraco na caixa de correio, Lacey lembrou que estava se distraindo de sua tarefa real — encontrar roupas melhores. Ela estava prestes a sair em busca de uma butique quando se distraiu com a vitrine da loja ao lado da caixa de correio. Representava uma cena da praia de Wilfordshire, com o píer se estendendo mar adentro, mas tudo era feito de macarons de cor pastel.

Lacey imediatamente se arrependeu do croissant que havia comido e de todo o chocolate que experimentou, porque a visão deliciosa a fez salivar. Ela tirou uma foto para o grupo Garotas da Família Doyle.

"Posso ajudar?" uma voz masculina veio de algum lugar ao seu lado.

Lacey se endireitou. Parado na porta estava o dono da loja, um homem muito bonito, com quarenta e poucos anos, cabelos castanhos escuros e espessos e um queixo bem definido. Ele tinha olhos verdes brilhantes, com linhas de expressão ao lado que imediatamente lhe disseram que ele era alguém que gostava da vida, e um bronzeado que sugeria que ele viajava frequentemente para climas mais quentes.

"Estou apenas olhando as vitrines", disse Lacey, com uma voz que parecia que alguém estava apertando suas cordas vocais. "Gostei da sua".

O homem sorriu. "Eu mesmo fiz. Por que você não experimenta alguns bolos?"

"Adoraria, mas já comi", explicou Lacey. O croissant, café e fudge pareciam girar em seu estômago, agitando-se e fazendo-a sentir um pouco de enjoo. De repente, Lacey percebeu o que estava acontecendo — era aquela sensação há muito tempo esquecida de atração física que lhe dava um frio na barriga. Suas bochechas imediatamente coraram.

O homem riu. "Posso dizer pelo seu sotaque que você é americana. Então pode ser que não saiba que, aqui na Inglaterra, temos uma coisa chamada "onze-horas". Vem depois do café da manhã e antes do almoço".

"Eu não acredito em você", respondeu Lacey, sentindo os cantos dos lábios repuxarem para cima. "Onze-horas?"

O homem pôs a mão no coração. "Eu juro, não é um truque de marketing! É o momento perfeito para tomar chá com bolo, chá com sanduíches ou chá com biscoitos". Ele fez um gesto com os braços pela porta aberta, em direção ao armário de vidro cheio de guloseimas com design criativo em toda a sua glória, de aparência deliciosa. "Ou tudo junto".

"Contanto que você tome com chá?" Lacey brincou.

"Exatamente", ele respondeu, com seus olhos verdes brilhando, travessos. "Você pode até experimentar antes de comprar".

Lacey não resistiu mais. Fosse pela atração dos efeitos viciantes do açúcar ou, mais provavelmente, pela atração magnética daquele belo espécime de homem, Lacey entrou.

Ela assistiu ansiosa, com a boca cheia de água, quando ele pegou um grande pão redondo do armário de vidro, recheou-o de manteiga, geleia e creme e o cortou em quatro partes. A coisa toda foi feita de maneira teatral casualmente, como se ele estivesse realizando uma dança. Ele colocou os pedaços em um pequeno prato de porcelana e estendeu-o para Lacey equilibrado na ponta dos dedos, terminando a exibição completamente desinibida com um floreio: "Et voilà".

Lacey sentiu o calor inundar suas bochechas. Toda aquela performance havia sido claramente uma paquera. Ou era isso em que ela queria acreditar?

Ela estendeu a mão e pegou um dos pedaços do prato. O homem fez o mesmo, batendo seu pedaço contra o dela, como um brinde.

"Saúde", disse ele.

"Saúde", Lacey conseguiu responder.

Ela colocou o quitute na boca. Foram várias sensações. Creme espesso e doce. Geléia de morango tão fresca que a nitidez fez seu paladar formigar. E a massa! Densa e amanteigada, em algum lugar entre doce e salgado, e ai-que-delícia.

Os sabores de repente despertaram uma lembrança na mente de Lacey. Ela, seu pai, Naomi e a mãe, todos sentados ao redor de uma mesa de metal branco em um café luminoso, mergulhados em doces recheados de creme e geleia. Ela foi atingida por um raio de nostalgia reconfortante.

"Eu já estive aqui antes!" Lacey exclamou antes mesmo de terminar de mastigar.

"Ah?" foi a resposta divertida do homem.

Lacey assentiu com entusiasmo. "Eu vim para Wilfordshire quando criança. Isto é um scone, não é?"

As sobrancelhas do homem se ergueram, sinceramente curioso. "Sim. Meu pai era dono desta pastelaria antes de mim. Ainda uso a receita especial dele para fazer os scones".

Lacey olhou para a janela. Embora houvesse agora um assento de madeira embutido com uma almofada azul bebê no topo e uma mesa de madeira rústica combinando, ela conseguia imaginar como era trinta anos antes. De repente, se viu transportada de volta para aquele momento. Ela quase conseguia se lembrar da brisa na parte de trás do pescoço, e da sensação pegajosa da geleia nos dedos, do suor nas dobras da parte de trás dos joelhos... Ela até se lembrava do som do riso, do riso de seus pais, e o sorriso despreocupado em seus rostos. Eles estavam tão felizes, não estavam? Ela estava certa de que tinha sido sincero. Então, por que tudo desmoronou?

"Você está bem?" o homem perguntou.

Lacey voltou ao momento presente. "Sim. Desculpa. Eu estava perdida em minhas memórias. Provar este scone me levou de volta trinta anos atrás".

"Bem, você precisa ter 'onze-horas' agora", disse o homem, rindo. "Posso tentar você?"

Os formigamentos que corriam por todo o corpo de Lacey lhe davam a nítida impressão de que qualquer coisa que ele sugerisse naquele sotaque gentil com aqueles olhos atraentes e doces, ela concordaria. Então ela assentiu, percebendo a garganta repentinamente seca demais para formular palavras.

Ele bateu palmas. "Excelente! Deixe-me preparar tudo. Proporcionar toda a experiência inglesa". Ele ia se virar, mas parou e olhou para trás. "Eu me chamo Tom, aliás".

"Lacey", ela respondeu, sentindo-se tonta como uma adolescente apaixonada.

Enquanto Tom se ocupava na cozinha, Lacey sentou-se à janela. Ela tentou evocar mais lembranças do tempo que passou aqui antes, mas infelizmente não havia mais nada a lembrar. Apenas o gosto de scones e o riso de sua família.

Um momento depois, o belo Tom apareceu com um suporte de bolo cheio de sanduíches sem crosta, scones e uma seleção de cupcakes multicoloridos. Ele colocou um bule de chá na mesa ao lado.

"Eu não posso comer tudo isso!" Lacey exclamou.

"É para dois", respondeu Tom. "Por conta da casa. Não é educado fazer uma dama pagar no primeiro encontro".

Ele se sentou ao lado dela.

A candura dele pegou Lacey de surpresa. Ela sentiu os batimentos cardíacos começarem a acelerar. Havia se passado muito tempo desde que ela havia falado com outro homem numa atmosfera de flerte. Aquilo a fez sentir como uma adolescente risonha novamente. Estranha. Mas talvez fosse apenas uma coisa britânica. Talvez todos os homens ingleses se comportassem daquela forma.

"Primeiro encontro?" ela repetiu.

Antes que Tom pudesse responder, o sinete sobre a porta tilintou. Um grupo de cerca de dez turistas japoneses entrou na loja. Tom se levantou rapidamente.

"Oh-oh, clientes". Ele olhou para Lacey. "Vamos adiar este encontro, ok?"

Com a mesma autoconfiança, Tom se dirigiu ao balcão, deixando Lacey com as palavras presas na garganta.

A confeitaria, agora lotada de turistas, tornou-se barulhenta e movimentada. Lacey tentou manter um olho em Tom enquanto devorava os quitutes, mas ele estava ocupado com os pedidos dos clientes.

Quando terminou, ela tentou se despedir, mas ele se retirou para a área da cozinha e não a viu.

Sentindo-se um pouco decepcionada e com a barriga extremamente cheia, Lacey saiu da confeitaria e voltou para a rua.

Então, ela fez uma pausa. Uma vitrine vazia do outro lado da rua da confeitaria chamou sua atenção. Uma emoção muito profunda se agitou dentro dela, que literalmente a deixou sem fôlego. A loja tinha sido algo antes, algo que os recantos mais profundos de suas memórias da infância queriam recordar. Algo que exigia que ela olhasse mais de perto.




CAPÍTULO QUATRO


Lacey espiou pela vitrine frontal da loja vazia, procurando em sua mente as lembranças que havia despertado nela. Mas não lhe veio nada de concreto. Era mais um sentimento, mais profundo do que apenas nostalgia, mais parecido com se apaixonar.

Olhando através das janelas, Lacey podia ver que, lá dentro, a loja estava vazia e às escuras. O chão era um assoalho de madeira clara. Havia várias prateleiras embutidas e uma grande mesa de madeira contra uma parede. A luminária pendurada no teto era de latão antigo. Cara, pensou Lacey. Certamente deve ter sido deixada para trás por acidente.

Então, Lacey percebeu que a porta da loja estava destrancada. Ela não conseguiu se conter e entrou.

Um cheiro metálico, com traços de poeira e mofo, flutuou. Imediatamente, Lacey foi atingida por outro raio de nostalgia. O cheiro era exatamente o mesmo da velha loja de antiguidades de seu pai.

Ela amava aquele lugar. Quando criança, passara muitas horas naquele labirinto de tesouros, brincando com as assustadoras bonecas de porcelana antigas, lendo todos os tipos de histórias em quadrinhos colecionáveis, de Bunty a The Beano, aos excepcionalmente raros e valiosos Rupert the Bear originais. Mas o que ela mais gostava de fazer era simplesmente percorrer as prateleiras de bugigangas e imaginar a vida e a personalidade das pessoas às quais já haviam pertencido. Havia um suprimento infinito de miudezas, aparelhos e outras tranqueiras, e cada item tinha o mesmo aroma estranho de metal, poeira e mofo que ela podia sentir agora.

Assim como ver o Chalé do Penhasco com sua vista para o oceano havia despertado um antigo sonho de infância de viver à beira-mar, agora também, um antigo desejo de infância voltou, inundando-a: o sonho de administrar sua própria loja.

Até o layout a lembrava da antiga loja de seu pai. Enquanto olhava em volta, imagens dos mais profundos recônditos de sua memória surgiram diante de sua visão através de seus olhos, como uma folha de papel transparente colocada em cima de um desenho. De repente, ela viu as prateleiras cheias de relíquias bonitas — principalmente utensílios de cozinha vitorianos, como era o interesse particular de seu pai — e lá, no balcão, Lacey visualizou a grande caixa registradora de metal, pesada e antiquada, com as teclas rígidas que o pai insistia em usar porque "mantinha sua mente afiada" e "aprimorava suas habilidades em matemática mental". Ela sorriu por dentro, sonhadora, enquanto as palavras de seu pai ecoavam em seus ouvidos e as imagens e memórias apareciam diante de seus olhos.

Lacey estava tão perdida em seus devaneios que não ouviu o som de passos vindo dos fundos da loja, em sua direção. Ela também não notou o homem ao qual os passos pertenciam quando ele emergiu pela porta, com uma carranca no rosto, e marchou até ela. Foi só quando sentiu um tapinha leve no ombro que Lacey percebeu que não estava sozinha.

Seu coração deu um salto. Lacey quase gritou de surpresa quando se virou para encarar o estranho. Era um idoso com cabelos brancos ralos e olheiras arroxeadas sob brilhantes olhos azuis.

"Posso ajudá-la?" o homem perguntou, de uma maneira hostil e áspera.

A mão de Lacey voou para seu peito. Levou um momento para perceber que o fantasma de seu pai não tinha apenas lhe dado um tapinha no ombro e que ela não era realmente uma criança em pé em sua loja de antiguidades, mas uma mulher crescida de férias na Inglaterra. Uma mulher adulta que no momento era uma invasora.

"Ai, meu Deus, mil desculpas!" ela exclamou apressadamente. "Não sabia que havia alguém aqui. A porta estava destrancada".

O homem olhou para ela com ceticismo. "Você não vê que a loja está vazia? Não há nada aqui para comprar".

"Eu sei", Lacey continuou, desesperada para apagar aquela primeira má impressão e a carranca de suspeita do rosto do velho. "Mas eu não pude evitar. Este lugar me lembrou muito a loja de meu pai". Para surpresa de Lacey, ela se viu com os olhos subitamente inundados de lágrimas. "Eu não o vejo desde que era criança".

O comportamento do homem mudou em um instante. Ele passou de carrancudo e defensivo para suave e gentil.

"Querida, querida, querida", disse ele, gentilmente, balançando a cabeça enquanto Lacey rapidamente enxugava as lágrimas. "Está tudo bem, minha querida. Seu pai era dono de uma loja como esta?"

Lacey sentiu-se imediatamente envergonhada por ter despejado suas emoções sobre aquele homem, sem mencionar a culpa de que, em vez de chamar a polícia para expulsá-la de sua propriedade privada, ele reagiu como um psicólogo, com compaixão genuína, encorajamento e interesse. Mas Lacey não conseguiu se conter e abriu o coração.

"Ele vendia antiguidades", explicou, com um sorriso leve nos lábios novamente por causa das lembranças, mesmo enquanto as lágrimas caíam de seus olhos. "O cheiro daqui me deixou nostálgica, e tudo voltou à minha mente. A loja dele tinha o mesmo layout". Ela apontou para a porta dos fundos pela qual o homem provavelmente havia entrado. "Essa sala dos fundos era usada para armazenamento, mas ele sempre quis transformá-la em uma sala de leilão. Era muito longa e se abria para um jardim".

O homem começou a rir. "Venha dar uma olhada. A sala dos fundos aqui também é longa e se abre para um jardim".

Tocada pela compaixão dele, Lacey seguiu o homem pela porta até a sala dos fundos. Era comprida e estreita, lembrando um vagão de trem, e quase idêntica ao cômodo que seu pai queria transformar em uma área para fazer leilões. Passando direto pela sala, Lacey saiu para um jardim maravilhoso. Era estreito e comprido, estendendo-se por cerca de quinze metros. Havia plantas coloridas por todo lado e árvores e arbustos estrategicamente colocados, fornecendo a quantidade certa de sombra. Uma cerca na altura dos joelhos era tudo que a separava do jardim da loja vizinha — que, em contraste com o jardim imaculado em que ela estava, parecia ser usado apenas para armazenamento, com várias barracas grandes e feias de plástico cinza e um fileira de latas de lixo.

Lacey voltou sua atenção para o belo jardim.

"É incrível", elogiou.

"Sim, é um lugar bonito", respondeu o homem, endireitando um vaso caído. "As pessoas que alugaram o local antes o usavam como uma loja de jardinagem".

Lacey notou imediatamente o ar melancólico no tom dele. Ela percebeu então que a grande estufa de vidro à sua frente estava com as portas escancaradas e várias plantas em vasos estavam espalhadas por todo o chão, com as hastes esmagadas e terra derramada. Subitamente, ela ficou curiosa. A visão das plantas espalhadas em um jardim tão bem cuidado parecia estranha. Sua mente se moveu imediatamente de seu pai para o momento presente.

"O que aconteceu aqui?" ela perguntou.

O homem idoso tinha uma expressão abatida. "É por isso que estou aqui. Recebi uma ligação do vizinho esta manhã dizendo que parecia que o lugar havia sido esvaziado da noite para o dia.

Lacey ofegou. "Eles foram assaltados?" Sua mente não conseguia conciliar o conceito de crime com a bela e tranquila cidade costeira de Wilfordshire. Para ela, parecia o tipo de lugar onde o mais próximo que alguém chegaria de cometer uma infração era um garoto travesso local roubar uma torta recém-assada colocada no parapeito de uma janela para esfriar.

O homem sacudiu a cabeça. "Não, não, não. Eles foram embora. Empacotaram todo o estoque e esvaziaram a loja. Nem deram aviso prévio. Também me deixaram todas as suas dívidas. Contas de energia e água para pagar. Uma montanha de faturas". Ele balançou a cabeça, triste.

Lacey ficou chocada ao perceber que a loja havia ficado vazia naquela manhã e que ela inadvertidamente havia se intrometido no desenrolar de uma situação, inserindo-se acidentalmente em uma narrativa misteriosa que havia acabado de começar.

"Sinto muito", disse ela com genuína empatia pelo homem. Agora era sua vez de brincar de terapeuta, de retribuir a gentileza dele. "Você vai ficar bem?"

"Na verdade, não", ele disse, sombrio. "Temos que vender a loja para pagar as contas e, sinceramente, eu e minha mulher estamos velhos demais para esse tipo de estresse". Ele bateu no esterno, como se quisesse indicar a fragilidade do coração. "Mas será uma pena dar adeus a este lugar". Sua voz embargou. "Faz parte da família há anos. Eu amo esta loja. Tivemos alguns inquilinos muito interessantes naquele tempo". Ele riu, os olhos enevoando-se com a lembrança. "Mas não. Não podemos passar por esse transtorno novamente. É muito difícil".

A tristeza no tom dele foi suficiente para partir o coração de Lacey. Em que lugar difícil eles haviam sido colocados. Que situação terrível. A profunda empatia que sentiu pelo homem era agravada por sua própria situação, pela maneira como a vida que ela construíra com David em Nova York fora injustamente arrancada dela. Ela sentiu uma súbita responsabilidade de resolver o problema.

"Vou alugar a loja", ela deixou escapar, as palavras saindo de seus lábios antes que seu cérebro tivesse percebido o que estava dizendo.

As sobrancelhas brancas do homem se ergueram, com evidente surpresa. "Desculpe, o que você acabou de dizer?"

"Eu vou alugar", repetiu Lacey rapidamente, antes que a parte lógica de sua mente tivesse a chance de convencê-la do contrário. "Você não pode vender. Tem muita história, você mesmo disse. Muito valor sentimental. E sou super confiável. Eu tenho experiência. Mais ou menos".

Ela pensou na guarda de sobrancelhas escuras no aeroporto, dizendo que ela precisava de um visto para trabalhar, e como lhe havia assegurado com muita confiança que a última coisa que queria fazer na Inglaterra era trabalhar.

E quanto a Naomi? Seu emprego com Saskia? Como seria?

De repente, nada disso importava. Esse sentimento com o qual Lacey foi atingida quando viu a loja parecia amor à primeira vista. Ela estava se jogando de cabeça.

"E então? O que você acha?" perguntou a ele.

O velho parecia um pouco atordoado. Lacey não podia culpá-lo. Ali estava uma estranha mulher americana vestida com roupas de brechó, pedindo-lhe para alugar sua loja quando ele já havia decidido vendê-la.

"Bem... eu..." ele começou. "Seria bom mantê-la na família um pouco mais. Agora também não é o melhor momento para vender, com o mercado do jeito que está. Mas eu preciso falar com minha esposa, Martha, primeiro".

"Claro", disse Lacey. Ela rapidamente rabiscou seu nome e número em um pedaço de papel e entregou a ele, surpresa com a determinação que sentia. "Leve o tempo que precisar".

Ela precisava de tempo para resolver seu visto, afinal, e elaborar um plano de negócios, finanças, estoque e tudo mais. Talvez ela devesse começar comprando uma cópia do Guia para Leigos sobre como Abrir uma Loja.

"Lacey Doyle", disse o homem, lendo o papel que ela lhe entregara.

Lacey assentiu. Dois dias atrás, esse nome não lhe era familiar. Agora parecia o dela novamente.

"Eu sou Stephen", ele respondeu.

Eles apertaram as mãos.

"Aguardo ansiosamente a sua ligação", disse Lacey.

Ela saiu da loja, com o coração disparado de antecipação. Se Stephen decidisse alugá-la, ela ficaria em Wilfordshire em uma base muito mais permanente do que havia planejado. A ideia deveria assustá-la. Mas, em vez disso, deixou-a encantada. Parecia tão certo... Mais do que certo. Parecia o destino.




CAPÍTULO CINCO


"Eu pensei que eram férias!" a voz furiosa de Naomi explodiu através do celular entre a orelha e o ombro de Lacey.

Ela suspirou, diminuindo o tom da fala de sua irmã, enquanto digitava no teclado do computador da biblioteca de Wilfordshire. Lacey estava checando o status do seu formulário online solicitando a mudança de seu visto de turista para um que lhe permitisse abrir uma empresa.

Depois da reunião com Stephen, Lacey se jogou na pesquisa e ficou sabendo que, com inglês nativo e uma quantidade considerável de capital no banco, a única outra coisa exigida era um plano de negócios decente, algo em que ela tinha muita experiência, graças à tendência de Saskia de transferir responsabilidades para os ombros de Lacey, que estavam muito além de seu salário. Lacey levou apenas algumas noites para compilar o plano e apresentá-lo, um processo indolor que a deixou mais do que certa de que o universo estava dando uma ajudinha para essa sua nova vida.

Quando ela se logou no portal oficial do governo do Reino Unido, viu que sua solicitação ainda estava como "pendente". Ela estava tão desesperada para seguir em frente que não conseguiu evitar um pouco de decepção. Então seu foco voltou à voz de Naomi em seu ouvido.

"Eu NÃO POSSO acreditar que você vai se mudar!" Sua irmã estava gritando. "Permanentemente!"

"Não é permanente", explicou Lacey, com calma. Ao longo dos anos, ela havia ganhado prática em como não piorar o humor de Naomi. "O visto vale apenas por dois anos".

Ops. Movimento errado.

"DOIS ANOS?" Naomi gritou, com uma raiva chegando a um tom febril.

Lacey revirou os olhos. Ela sabia que a família não apoiaria sua decisão. Naomi precisava dela em Nova York para servir de babá, afinal, e a sua mãe basicamente a tratava como um animal de estimação para apoio emocional. A mensagem alegre que ela havia digitado no grupo das Garotas Doyle havia sido recebida com a gratidão de uma bomba nuclear. Dias depois, Lacey ainda estava lidando com as consequências.

"Sim, Naomi", ela respondeu, desapontada. "Dois anos. Eu acho que mereço, não é? Eu dei catorze anos a David. Quinze ao meu emprego. Nova York me teve por trinta e nove. Estou chegando aos quarenta, Naomi! Eu realmente quero ter vivido minha vida inteira em um só lugar? Ter uma única carreira? Ter vivido com um único homem?"

O rosto bonito de Tom brilhou em sua mente quando ela disse isso, e ela sentiu suas bochechas esquentarem imediatamente. Ela estava tão ocupada organizando sua nova vida em potencial que não voltou à confeitaria — e sua expectativa de cafés da manhã lânguidos ao ar livre foi temporariamente substituída por uma banana embrulhada e uma mistura para frappuccino da loja de conveniência. De fato, acabara de lhe ocorrer que, se esse acordo desse certo com Stephen e Martha, ela alugaria a loja em frente à de Tom e o veria pela janela todos os dias. Seu interior se contorceu de prazer só de pensar.

"E Frankie?" Naomi choramingou, trazendo-a de volta à realidade.

"Enviei-lhe alguns fudges pelo correio".

"Ele precisa da tia!"

"Ele ainda me tem! Não estou morta, Naomi, só vou morar no exterior por um tempo".

Sua irmã caçula desligou na cara dela.

Trinta e seis anos, quase dezesseis, Lacey pensou ironicamente.

Quando ela colocou o celular de volta no bolso, Lacey notou algo na tela do computador piscar. O status do formulário de inscrição havia mudado de "pendente" para "aprovado".

Com um grito, Lacey pulou da cadeira e deu um soco no ar. Todos os idosos jogando paciência nos outros computadores da biblioteca se viraram para olhá-la, alarmados.

"Desculpem!" Lacey exclamou, tentando moderar sua empolgação.

Afundou na cadeira novamente, sem fôlego. Ela conseguiu. Tinha luz verde para colocar seu plano em ação. E tudo flui tão bem que Lacey não pôde deixar de suspeitar que o destino tinha dado uma mãozinha...

Mas havia um último obstáculo. Ela precisava que Stephen e Martha concordassem em alugar a loja.



*



Lacey caminhava ansiosa pelo centro da cidade, sem pressa. Ela não queria se afastar muito da loja porque, no segundo em que recebesse a ligação de Stephen, voltaria direto para lá com seu talão de cheques e uma caneta e assinaria o bendito acordo antes que algum traço de auto-sabotagem lhe dissesse que ela não podia fazer aquilo. Mas Lacey era excepcionalmente talentosa em admirar vitrines e começou a trabalhar, dando uma olhada em tudo o que a cidade tinha para oferecer. Enquanto ela passeava, seus mocassins baratos comprados no aeroporto engancharam nos paralelepípedos, fazendo-a tropeçar e torcer o tornozelo. Foi então que Lacey percebeu que precisava mudar sua aparência casual de brechó, se quisesse ser levada a sério como uma mulher de negócios em potencial.

Ela se dirigiu à boutique que ficava ao lado da loja vaga que ela esperava que em breve fosse dela.

E também posso aproveitar para conhecer meus vizinhos, pensou.

Ela entrou e percebeu que era um lugar de aparência minimalista, abastecido com apenas alguns itens selecionados. A mulher atrás do balcão levantou os olhos quando ela entrou, erguendo altivamente o nariz ao avaliar as roupas de Lacey de cima a baixo. A mulher era magra e tinha uma aparência um tanto severa, mas seus cabelos castanhos ondulados eram penteados exatamente da mesma maneira que os de Lacey. Seu vestido preto a fazia parecer uma espécie de clone "do mal" de si mesma, pensou ela, brincalhona.

"Posso ajudá-la?" a mulher perguntou com uma voz fraca e desagradável.

"Não, obrigada", respondeu Lacey. "Eu sei exatamente o que quero".

Ela escolheu um terno de duas peças do cabide, o tipo que estava acostumada a usar em Nova York, e depois fez uma pausa. Queria mesmo replicar aquele visual? Se vestir como aquela mulher que era antes? Ou queria ser alguém nova?

Ela se voltou para a atendente. "Na verdade, talvez precise de um pouco de ajuda".

O rosto da mulher permaneceu impassível enquanto ela saía de trás do balcão e se aproximava. Evidentemente, ela assumiu que Lacey era uma perda de tempo — que tipo de cliente de brechó poderia pagar por roupas de uma boutique como esta? — e Lacey estava ansiosa pelo momento em que seria capaz de exibir seu cartão de crédito na cara daquela mulher que a estava julgando.

"Eu preciso de algo para o trabalho", disse Lacey. "Formal, mas não muito rígido, sabe?"

A mulher piscou. "E você trabalha com o quê?"

"Antiguidades".

"Antiguidades?"

Lacey assentiu. "Sim. Antiguidades".

A mulher selecionou algo do cabide. Estava na moda, era meio ousado, com uma pitada de androginia no corte. Lacey o levou para o provador para ver se era seu tamanho. O reflexo que a encarava fez um sorriso irromper em seus lábios. Ela parecia, vamos dizer... descolada. A funcionária da loja, apesar da cara de megera, tinha um gosto impecável e um olho impressionante para valorizar um tipo de corpo.

Lacey saiu do provador. "É perfeito. Eu vou levar. E mais quatro em cores diferentes".

As sobrancelhas da vendedora catapultaram para cima. "Como?"

O celular de Lacey começou a tocar. Ela olhou para a tela e viu o número de Stephen piscando.

Seu coração deu um pulo. Era isso! A ligação que ela estava esperando! A ligação que determinaria seu futuro!

"Eu vou levar", Lacey repetiu para a vendedora, de repente, sem fôlego por causa da expectativa. "E mais quatro em qualquer cor que você achar que fique bem em mim".

A mulher parecia confusa quando se dirigiu para os fundos — para aqueles feios galpões cinzentos de armazenamento, pensou Lacey — para encontrar seus ternos.

Lacey atendeu o celular. "Stephen?"

"Oi, Lacey. Estou aqui com Martha. Gostaria de voltar à loja para conversar?"

Seu tom parecia promissor, e Lacey não pôde deixar de sorrir.

"Com certeza. Eu estarei lá em cinco minutos".

A vendedora voltou com os braços carregados com mais ternos. Lacey notou a paleta de cores impecável: nude, preto, azul-marinho e rosa-pó.

"Você quer experimentá-los?" perguntou ela.

Lacey balançou a cabeça. Ela estava com pressa agora e mal podia esperar para terminar sua compra e correr para a loja lado. Tanto que ficava olhando por cima do ombro para a saída.

"Não. Se eles são iguais a este, confio em você que servirão em mim. Pode concluir a compra, por favor?" Ela falou com pressa. Era literalmente audível que sua paciência estava desaparecendo. "Ah, e eu vou levar este também".

A vendedora parecia não dar a mínima para a forma como Lacey estava tentando apressá-la. Como se quisesse ofendê-la, ela demorou a registrar cada item e dobrá-lo cuidadosamente em papel de seda.

"Espere!" Lacey exclamou, enquanto a mulher pegava uma sacola de papel para colocar as roupas. "Não posso carregar uma sacola de loja. Vou precisar de uma bolsa. Uma boa". Os olhos dela dispararam para a fila de bolsas em uma prateleira atrás da cabeça da mulher. "Você pode escolher uma que combine bem com os ternos?"

Pela expressão da vendedora, você seria perdoado por pensar que ela estava lidando com uma louca. Ainda assim, ela se virou, considerou cada uma das bolsas à venda e pegou uma de couro preta grande, com uma fivela dourada.

"Perfeita", disse Lacey, saltando na ponta dos pés como um corredor esperando o disparo de largada. "Pode registrar".

A mulher fez o que lhe foi ordenado e começou a encher cuidadosamente a bolsa com os ternos.

"Então, isso vai dar..."

"SAPATOS!" Lacey gritou de repente, interrompendo-a. Que cabeça de vento. Foram seus mocassins baratos que a trouxeram para esta loja, em primeiro lugar. "Eu preciso de sapatos!"

A vendedora parecia ainda menos impressionada. Talvez ela tenha pensado que Lacey estava brincando, e que iria fugir no final daquilo tudo.

"Nossos sapatos ficam ali", disse ela friamente, fazendo um gesto com o braço.

Lacey olhou para a pequena seleção de belos saltos-altos que ela usaria na cidade de Nova York, onde considerava os tornozelos doloridos um risco ocupacional. Mas as coisas eram diferentes agora, ela lembrou a si mesma. Não precisava usar calçados que causavam dor.

Seu olhar caiu sobre um par de brogues pretos. Os sapatos complementariam perfeitamente a qualidade andrógina de suas roupas novas. Ela foi diretamente até eles.

"Estes", disse ela, colocando-os no balcão em frente à vendedora.

A mulher nem se deu ao trabalho de perguntar a Lacey se ela queria experimentá-los, então, passou-os pela caixa registradora, tossindo sobre o punho ao ver o preço de quatro dígitos que piscou na tela.

Lacey pegou o cartão, pagou, calçou os sapatos novos, agradeceu à vendedora e foi rapidamente para a loja vazia ao lado. A esperança cresceu em seu peito por estar a poucos minutos de pegar as chaves de Stephen e se tornar vizinha da vendedora blasé da qual acabara de comprar uma identidade totalmente nova.

Quando ela entrou, Stephen pareceu não reconhecê-la.

"Achei que você tinha dito que ela parecia meio desarrumada?" disse, pelo canto da boca, a mulher a seu lado, que devia ser sua esposa Martha. Se ela estava tentando ser discreta, falhou miseravelmente. Lacey pôde ouvir cada palavra.

Lacey apontou para sua roupa. "Tchan-ran! Eu falei que sabia o que estava fazendo", brincou.

Martha olhou para Stephen. "Com o que você estava se preocupando, seu velho tolo? Ela é a resposta para nossas orações! Dê a ela o contrato imediatamente!"

Lacey não podia acreditar. Que sorte. O destino definitivamente interveio.

Stephen apressadamente tirou alguns documentos de sua bolsa e os colocou no balcão em frente a ela. Ao contrário dos papéis do divórcio que ela encarara com descrença, em um momento de tristeza desencarnada, estes papéis pareciam brilhar com promessas, com oportunidades. Ela pegou sua caneta, a mesma que havia assinado a papelada do divórcio, e se comprometeu, assinando o papel.

Lacey Doyle. Dona de loja.

Sua nova vida foi selada.




CAPÍTULO SEIS


Com uma vassoura nas mãos, Lacey varria o assoalho da loja que agora orgulhosamente alugava, com o coração quase explodindo de emoção.

Ela nunca havia se sentido assim antes. Como se estivesse no controle de toda a sua vida, de todo o seu destino e de que o futuro estava em suas mãos. Sua mente corria a mil quilômetros por hora, já formulando alguns planos bem audaciosos. Ela queria transformar a grande sala dos fundos em um espaço para leilões, em homenagem ao sonho que seu pai nunca havia realizado. Ela havia participado de um zilhão de leilões quando trabalhava para Saskia — como compradora, e não como vendedora, ela admitia —, mas estava confiante de que conseguiria aprender o necessário para fazer um leilão. Lacey nunca tinha tido uma loja antes, também, mas aqui estava ela. Além disso, qualquer coisa que vale a pena requer esforço.

Nesse momento, ela viu uma figura que estava passando pela loja parar abruptamente e encará-la pela vitrine. Ela ergueu os olhos da varredura, esperando que fosse Tom, mas percebeu que a figura parada na frente dela era uma mulher. E não apenas uma qualquer, mas uma mulher que Lacey reconheu. Magérrima, vestindo um tubinho preto e com o mesmo cabelo escuro, longo e ondulado de Lacey. Era sua gêmea malvada: a vendedora da porta ao lado.

A mulher entrou abruptamente na loja pela porta da frente destrancada.

"O que você está fazendo aqui?" exigiu.

Lacey apoiou a vassoura no balcão e estendeu a mão para a mulher com confiança. "Eu sou Lacey Doyle. Sua nova vizinha".

A mulher olhou para a mão dela com nojo, como se estivesse coberta de germes. "O quê?"

"Eu sou sua nova vizinha", repetiu Lacey, com o mesmo tom confiante. "Acabei de assinar um contrato de locação deste local."

A mulher parecia ter acabado de levar um tapa na cara. "Mas..." ela murmurou.

"Você é dona da boutique ou só trabalha lá?" perguntou Lacey, tentando fazer a mulher atordoada voltar a si.

Ela assentiu, como se estivesse hipnotizada. "Sou a dona. Meu nome é Taryn. Taryn Maguire". Então, de repente, balançou a cabeça, como se estivesse superando a surpresa, e forçou um sorriso amigável. "Que bom ter uma nova vizinha. É um ótimo espaço, não é? Tenho certeza de que o fato de ser escura também funcionará a seu favor, esconde a falta de cuidado".

Lacey se conteve para não levantar a sobrancelha. Anos lidando com o comportamento passivo-agressivo da mãe a haviam treinado para não se importar.

Taryn riu alto, como se tentasse abafar a crítica velada. "Então, me diga, como conseguiu alugar este lugar? Ouvi dizer que Stephen ia vender".

Lacey apenas deu de ombros. "Ele ia. Mas houve uma mudança de planos".

Taryn parecia ter chupado um limão. Seus olhos dispararam por toda a loja, com o nariz arrebitado que já havia sido apontado para Lacey hoje, parecendo chegar ainda mais longe em direção ao céu enquanto a aversão de Taryn se tornava cada vez mais aparente.

"E você venderá antiguidades?" acrescentou.

"Isso. Meu pai trabalhava no ramo quando eu era criança, por isso estou seguindo os passos dele em sua homenagem".

"Antiguidades", repetiu Taryn. Evidentemente, a ideia de uma loja de antiguidades ao lado de sua boutique estilosa a desagradou. Seus olhos se fixaram nos de Lacey como os de um falcão. "E você tem permissão para fazer isso, não é? Cruzar o oceano e montar uma loja?"

"Com o visto certo", explicou Lacey, friamente.

"Isso é... interessante", respondeu Taryn, claramente escolhendo suas palavras com cuidado. "Quero dizer, quando um estrangeiro quer um emprego neste país, a empresa precisa fornecer evidências de que não há nenhum britânico apto a preencher a vaga. Estou surpresa que as mesmas regras não se apliquem à administração de uma empresa...". O desdém em seu tom estava se tornando cada vez mais evidente. "E Stephen acabou de alugar para você, uma estranha, assim do nada? Depois que a loja ficou vazia há o quê... dois dias?" A polidez que ela se forçara a expressar antes parecia estar desaparecendo rapidamente.

Lacey decidiu não morder a isca.

"Realmente, foi um golpe de sorte. Stephen estava na loja quando eu vim aqui dar uma olhada. Ele estava arrasado porque o antigo locatário abandonou tudo e deixou um monte de dívidas para ele pagar, e acho que as estrelas simplesmente se alinharam. Eu o estou ajudando, ele está me ajudando. Deve ser o destino".

Lacey percebeu que o rosto de Taryn ficou vermelho.

"DESTINO?" ela gritou, a agressividade-passiva se transformando simplesmente em agressividade-direta. "DESTINO? Eu tenho um contrato com Stephen há meses, dizendo que, se a loja estivesse disponível, ele a venderia para mim! Eu pretendia expandir minha boutique adquirindo a dele!"

Lacey deu de ombros. "Bem, eu não comprei. Estou alugando. Tenho certeza de que ele ainda tem esse plano em mente, para vender para você quando chegar a hora. Só que a hora não é agora".

"Eu não posso acreditar!" Taryn lamentou. "Você aparece do nada aqui e o convence a alugar novamente? E ele assina dentro de alguns dias? Você o ameaçou? Fez algum tipo de vodu contra ele?"

Lacey se manteve firme. "Você terá que perguntar-lhe por que ele decidiu alugar para mim em vez de vender para você", disse ela, mas, em sua mente, pensou: Talvez porque eu seja uma pessoa legal?

"Você roubou minha loja", Taryn concluiu.

Então ela se afastou, batendo a porta, enquanto seus longos cabelos escuros balançavam atrás dela enquanto caminhava.

Lacey percebeu que sua nova vida não seria tão idílica quanto esperava. E que a brincadeira sobre Taryn ser sua gêmea do mal se tornou realidade. Mas havia uma coisa que ela poderia fazer sobre isso.

Lacey trancou a frente da loja e caminhou com propósito pela rua em direção ao salão de beleza, onde entrou pisando forte. A cabeleireira ruiva estava sentada, folheando uma revista, numa evidente pausa entre clientes.

"Posso ajudar?" ela perguntou, levantando os olhos para Lacey.

"Está na hora", disse Lacey com determinação. "Hora de ter cabelos curtos".

Era outro sonho que ela nunca teve coragem de realizar. David adorava seus cabelos longos. Mas não havia como ela se parecer com sua irmã gêmea do mal por mais um segundo. Chegara a hora. Hora de passar a tesoura. Hora de largar a velha Lacey que ela fora. Esta era sua nova vida, e ela seguiria suas próprias regras.

"Você tem certeza de que quer cortar?" a mulher perguntou. "Quero dizer, você parece determinada, mas eu tenho que perguntar. Não quero que se arrependa depois".

"Ah, tenho certeza", disse Lacey. "Depois de fazer isso, terei realizado três dos meus sonhos em poucos dias".

A mulher sorriu e pegou a tesoura. "Tudo bem então. Vamos marcar esses três pontos seguidos!"




CAPÍTULO SETE


"Pronto", disse Ivan, saindo do armário debaixo da pia da cozinha. "Este cano danificado não deve lhe dar mais problemas".

Ele se levantou, puxando um pouco envergonhado sua camiseta cinza amassada, que havia subido sobre sua barriga protuberante, branca como um lírio. Lacey fingiu educadamente não ter notado.

"Obrigada por consertar tão rápido", disse Lacey, agradecida por ele ser um proprietário atencioso que resolvia todos os problemas que surgiam na casa — e já haviam surgido muitos — e tão rapidamente. Mas ela também estava começando a se sentir culpada pelo número de vezes que o arrastava para o chalé do penhasco; aquele caminho pela falésia não era fácil e ele não era exatamente um rapaz.

"Gostaria de uma bebida?" Lacey perguntou. "Chá? Cerveja?"

Ela já sabia que a resposta seria não. Ivan era tímido e deu a impressão de achar que estava incomodando. Ela sempre perguntava, de toda forma.

Ele riu. "Não, não, tudo bem, Lacey. Eu tenho trabalho administrativo para fazer hoje à noite. Não há descanso para os ímpios, como se diz".

"Nem me fale", ela respondeu. "Eu estava na loja às cinco horas da manhã e só cheguei em casa às oito".

Ivan franziu o cenho. "Na loja?"

"Ah", disse Lacey, surpresa. "Pensei ter mencionado na ocasião em que você veio desentupir as calhas. Vou abrir uma loja de antiguidades na cidade. Aluguei a loja vazia de Stephen e Martha, que antes era uma loja de jardinagem".

Ivan parecia perplexo. "Eu pensei que você estava aqui apenas de férias!"

"Eu estava. Mas então decidi ficar. Não neste chalé especificamente, é claro. Encontrarei outro lugar assim que você precisar do imóvel novamente".

"Não, estou muito contente", disse Ivan, parecendo totalmente encantado. "Se você estiver feliz aqui, fico feliz também. Não é muito chato eu vir aqui consertar o lugar tantas vezes, é?"

"Eu gosto", respondeu Lacey com um sorriso. "De outro modo, me sentiria meio sozinha".

Essa foi a parte mais difícil de deixar Nova York; não o lugar, o apartamento ou as ruas familiares, mas as pessoas que ela deixara para trás.

"Acho que eu deveria ter um cachorro", acrescentou, com uma risada.

"Você ainda não conheceu sua vizinha, imagino?" perguntou Ivan. "Uma senhora adorável. Excêntrica. Ela tem um cachorro, um Collie para pastorear as ovelhas".

"Eu conheci as ovelhas", disse Lacey. "Elas vivem entrando no meu jardim".

"Ah", disse Ivan. "Deve haver um buraco na cerca. Vou cuidar disso. Mas, de qualquer maneira, a moça do lado está sempre pronta para tomar um chá. Ou uma cerveja". Ele piscou de uma maneira paterna que a lembrou do pai.

"Sério? Ela não se importará se uma americana desconhecida aparecer na sua porta?"

"Gina? De modo nenhum. Ela vai adorar! Dê uma passadinha na casa dela. Eu prometo que você não vai se arrepender".

Ivan foi embora e Lacey fez exatamente como ele havia sugerido: foi para a casa da vizinha. Embora "vizinha" fosse uma descrição bastante vaga. A casa fica a pelo menos cinco minutos de caminhada pelo topo das falésias.

Ela chegou ao chalé, uma versão do seu, mas com apenas um andar, e bateu na porta. Do outro lado, ouviu uma confusão instantânea, um cachorro correndo e uma voz feminina dizendo para ele se acalmar. Então a porta se abriu vários centímetros. Uma mulher com longos cabelos grisalhos encaracolados e feições excepcionalmente infantis para alguém de sessenta e poucos anos de idade espiou. Ela usava um cardigã de lã salmão sobre uma saia floral que ia até o chão. O focinho de um Border Collie preto e branco podia ser visto urgentemente tentando passar por ela.

"Boudicca", a mulher disse para o cachorro. "Tire seu farejador do caminho".

"Boudicca?" Lacey perguntou. "Esse é um nome interessante para um cachorro".

"Dei-lhe o nome da vingativa rainha guerreira pagã que se rebelou contra os romanos e queimou Londres até o chão. Mas como posso ajudá-la, querida?"

Lacey imediatamente gostou dela. "Eu sou Lacey. Estou morando ao lado e achei que deveria me apresentar, agora que minha estadia é meio que permanente".

"Ao lado? No chalé do penhasco?"

"Isso".

A mulher sorriu e abriu a porta, abrindo os braços ao mesmo tempo. "Ah!" Ela exclamou com pura alegria, puxando Lacey para um abraço. Boudicca, a cachorra, ficou louca, pulando e latindo. "Eu sou Georgina Vickers. George para minha família, Gina para meus amigos".

"E para seus vizinhos?" Lacey brincou, quando foi finalmente libertada do abraço esmagador da mulher.

"É melhor Gina." A mulher puxou sua mão. "Agora entre! Entre! Entre! Vou colocar a chaleira no fogo".

Lacey não teve escolha a não ser ser arrastada para dentro da casa. E, embora ela não percebesse na época, "eu vou colocar a chaleira no fogo", seria uma frase que ouviria muito.

"Dá pra acreditar, Boo?" A mulher disse enquanto se apressava pelo corredor de teto baixo. "Uma vizinha, finalmente!"

Lacey a seguiu e elas emergiram em uma cozinha. Era cerca da metade do tamanho da dela, com piso de azulejo vermelho escuro e uma grande ilha central ocupando grande parte do espaço. Do lado da pia, uma grande janela dava para um gramado cheio de flores, com vista para as ondas do mar quebrando atrás.

"Você gosta de jardinagem?" perguntou Lacey.

"Gosto. É o meu orgulho e alegria. Eu cultivo todo tipo de flores e ervas medicinais. Como uma feiticeira". Ela gargalhou com a avaliação que fez de si mesma. "Você gostaria de experimentar um?" Ela apontou para uma fileira de garrafas de vidro de cor âmbar amontoadas em uma prateleira improvisada de madeira. "Tenho remédios para dor de cabeça, cãibras, dor de dente, reumatismo..."

"Humm... acho que vou ficar só com o chá", respondeu Lacey.

"Chá, então!" a mulher excêntrica exclamou. Ela foi para o outro lado da cozinha e tirou duas canecas de um armário. "Que tipo? Chá preto English Breakfast? Assam? Earl Grey? Lady Grey?"

Lacey não tinha percebido que havia tantos tipos. Ela se perguntou o que tinha bebido com Tom no "encontro". Era delicioso. Pensar nisso agora trouxe-lhe a lembrança de volta.

"Qual o mais tradicional?" Lacey replicou, perdida. "O que se bebe com scones?"

"Seria o English Breakfast", disse Gina, assentindo. Ela escolheu uma lata do armário, pegou dois sachês e os jogou em duas canecas de modelos diferentes. Então ela encheu a chaleira e a deixou ferver, antes de se voltar para Lacey com os olhos brilhantes de genuína curiosidade.

"Então, me diga. O que você está achando de Wilfordshire?"

"Eu já estive aqui antes", explicou Lacey. "Vim aqui de férias quando criança. Eu adorei e queria saber se seria tão mágico na segunda vez".

"E...?"

Lacey pensou em Tom. Na loja. No Chalé do Penhasco. Em todas as lembranças de seu pai, que haviam sido levantadas como poeira deixada intocada por vinte e tantos anos. Um sorriso levantou os cantos dos seus lábios. "Definitivamente, sim".

"E como você foi parar no Chalé do Penhasco?" Gina perguntou.

Lacey estava prestes a explicar a história de seu encontro casual com Ivan na Coach House, mas a chaleira estava começando a borbulhar alto e sua voz foi abafada. Gina levantou um dedo de um jeito segure-esse-pensamento, depois foi até a chaleira enquanto Boudicca, a Border Collie, se entrelaçava em suas pernas enquanto a dona caminhava.

Gina derramou água fumegante nas canecas. "Leite?" Ela perguntou, olhando por cima do ombro com óculos embaçados.

Lacey lembrou que Tom havia lhe dado uma pequena jarra de leite. "Por favor".

"Açúcar?"

"Se é assim que geralmente se bebe chá".

Gina deu de ombros. "Bem, isso depende da pessoa. Sim, mas talvez você já seja doce o suficiente?"

Lacey riu. "Se você tomar com açúcar, eu tomo também".

"Certo", Gina respondeu. "Um cubinho ou dois?"




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