Morte e um Cão Fiona Grace Um Mistério de Lacey Doyle #2 MORTE E UM CÃO (UM MISTÉRIO DE LACEY DOYLE – LIVRO 2) é o segundo livro de uma nova e charmosa série de livros de Fiona Grace. . Lacey, 39 anos e recém-divorciada, fez uma mudança drástica: ela havia se afastado da vida agitada de Nova York e se estabelecido na pitoresca cidadezinha litorânea de Wilfordshire… A primavera está no ar. Com o mistério do assassinato do mês passado para trás, um novo amigo, seu pastor inglês, e um relacionamento brotando com o chef do outro lado da rua, parece que tudo está finalmente se encaixando. Lacey está muito animada com o seu primeiro grande leilão, especialmente quando um valioso e misterioso artefato entra em seu catálogo… Tudo parece estar indo às mil maravilhas, até que dois mistoriosos licitantes chegam de fora da cidade – e um deles termina morto. . Com a pequena cidade mergulhada no caos, e com a reputação de seu negócio em risco, Lacey e seu fiel amigo cão poderão solucionar o crime e restaurar seu nome?. O livro 3 da série – CRIME NO CAFÉ – também está disponível para pré-venda! Fiona Grace MORTE E UM CÃO MORTE E UM CÃO (UM MISTÉRIO DE LACEY DOYLE – LIVRO DOIS) FIONA GRACE Fiona Grace A nova autora Fiona Grace apresenta a série de MISTÉRIOS LACEY DOYLE, que inclui ASSASSINATO NA MANSÃO (Livro 1), MORTE E UM CÃO (Livro 2), CRIME NO CAFÉ (Livro 3), VISITA FORA DE HORA (Livro 4) e MORTO COM UM BEIJO (Livro 5). Fiona adora ouvir a opinião de seus leitores, então, visite www.fionagraceauthor.com (http://www.fionagraceauthor.com/) para ganhar ebooks de graça, saber as últimas novidades e manter contato. Copyright © 2019 por Fiona Grace. Todos os direitos reservados. Exceto como permitido pelo Ato de Direitos Autorais dos EUA, publicado em 1976, nenhuma parte deste livro pode ser reproduzida, distribuída ou transmitida em qualquer formato ou por qualquer meio, ou armazenada num banco de dados ou sistema de recuperação, sem permissão prévia da autora. Este eBook está licenciado apenas para uso pessoal. Este eBook não pode ser revendido ou doado a outras pesoas. Se você quiser compartilhar este eBook com outra pessoa, por favor, compre uma cópia adicional para cada indivíduo. Se você está lendo este livro sem tê-lo comprado, ou se não foi adquirido apenas para seu uso, por favor, devolva-o e compre seu próprio exemplar. Obrigado por respeitar o trabalho da autora. Esta é uma obra de ficção. Nomes, personagens, empresas, organizações, lugares, eventos e incidentes são produto da imaginação da autora ou usados de forma fictícia. Qualquer semelhança com pessoas reais, vivas ou mortas, é mera coincidência. Foto da capa: Helen Hotson, todos os direitos reservados. Usada sob licença da Shutterstock.com. LIVROS DE FIONA GRACE MISTÉRIOS DE LACEY DOYLE ASSASSINATO NA MANSÃO (Livro 1) MORTE E UM CÃO (Livro 2) CRIME NO CAFÉ (Livro 3) CAPÍTULO UM O sino acima da porta tilintou. Lacey levantou os olhos e viu que um cavalheiro idoso havia entrado em sua loja de antiguidades. Ele estava usando roupas tradicionais inglesas, que seriam consideradas peculiares na cidade em que Lacey morava antes, Nova York, mas aqui, numa cidade litorânea de Wilfordshire, na Inglaterra, ele parecia apenas mais um dos moradores locais. Só que Lacey não o reconheceu, como já acontecia com a maioria dos moradores da pequena cidade. A expressão surpresa do homem a fez se perguntar se ele estava perdido. Percebendo que ele podia estar precisando de ajuda, ela rapidamente cobriu o bocal do telefone que estava segurando – no meio de uma conversa com a SRPCA, a Sociedade Real para a Prevenção da Crueldade contra Animais – e falou de trás do balcão com ele: "Vou atendê-lo em um minuto. Só preciso terminar esta ligação". Mas ele pareceu não ouvi-la. Seu foco estava fixo em uma prateleira cheia de estatuetas de cristal fosco. Lacey sabia que teria que apressar a conversa com a SRPCA para poder atender o cliente de aparência confusa, então, retirou a mão do bocal. "Desculpe. Você poderia repetir o que estava dizendo?" O homem do outro lado da linha suspirou, parecendo cansado. "Srta. Doyle, o que eu estava dizendo é que não posso fornecer detalhes dos funcionários. É por razões de segurança. Certamente, a senhora entende, não é?" Lacey já tinha ouvido isso antes. Ela ligou pela primeira vez para a SRPCA para adotar oficialmente Chester, o cão pastor inglês que tinha meio que entrado em sua vida junto com a loja de antiguidades que ela estava alugando (seus proprietários anteriores, que haviam alugado a loja antes dela, morreram em um trágico acidente, e Chester fez todo o caminho de volta para sua antiga casa). Mas, na época, ela ficou em choque quando a mulher do outro lado da linha perguntou se ela era parente de Frank Doyle, o pai que a abandonou aos sete anos de idade. A ligação caiu e desde então ela vinha ligando todo dia para rastrear a mulher com quem havia conversado. Só que agora todas as ligações iam para uma central de atendimento localizada na cidade vizinha de Exeter, e Lacey nunca conseguiu localizar a mulher que, de alguma forma, conhecia o pai pelo nome. Lacey apertou ainda mais o fone e lutou para manter a voz firme. "Sim, eu entendo que você não possa me dizer o nome dela. Mas você não pode transferir a ligação para ela?" "Não, senhora", respondeu o jovem. "Além de não saber quem é essa mulher, temos um sistema de call center. As chamadas são alocadas aleatoriamente. Tudo o que posso fazer – e já fiz – é colocar um aviso em nosso sistema com seus detalhes de contato". Ele estava começando a se exasperar. "Mas e se ela não vir o aviso?" "Essa é uma possibilidade muito concreta. Temos muitos membros na equipe que trabalham voluntariamente, de forma esporádica. A pessoa com quem você falou antes pode nem ter vindo mais trabalhar desde a ligação telefônica original". Lacey também já tinha ouvido essas palavras durante as numerosas ligações que havia feito, mas toda vez ela ansiava e rezava por um resultado diferente. A equipe de atendimento parecia estar ficando bem irritada com ela. "Mas, se ela era voluntária, isso não significa que talvez nunca mais voltasse para outro turno?" perguntou Lacey. "Claro. Existe uma chance. Mas não sei o que a senhora quer que eu faça sobre isso". Lacey havia insistido o máximo que podia por hoje. Ela suspirou e admitiu a derrota. "Ok, bem, obrigada de qualquer forma". Ela desligou o telefone com o peito apertado. Mas não iria desistir. Suas tentativas de encontrar informações sobre o pai pareciam dar dois passos para a frente e um e meio para trás, e ela estava se acostumando aos becos sem saída e às decepções. Além disso, ela tinha um cliente para atender, e sua amada loja era sempre a prioridade em sua mente em relação a tudo o mais. Desde que os dois policiais, Karl Turner e Beth Lewis, haviam publicado sua nota oficial dizendo que ela não teve nada a ver com o assassinato de Iris Archer – e que ela tinha, na verdade, ajudado a polícia a solucionar o caso – a loja de Lacey tinha voltado aos trilhos. Agora, estava florescendo, com um constante fluxo de clientes diários composto por moradores locais e turistas. Agora ela tinha renda suficiente para comprar o Chalé do Penhasco (e já estava negociando a compra com Ivan Parry, o atual proprietário), e até tinha renda suficiente para pagar Gina, sua vizinha de porta e amiga, por horas de trabalho semi-permanentes. Não que Lacey tirasse uma folga durante o turno de Gina; ela usava esse tempo para estudar mais sobre leilões. Ela havia gostado tanto do leilão que havia realizado para vender os bens de Iris Archer que decidiu realizar um todo mês. Amanhã, Lacey iria realizar seu próximo leilão, e ela estava muito animada por isso. Ela saiu de trás do balcão – fazendo seu cão, Chester, erguer a cabeça para lhe dar sua saudação habitual – e se aproximou do homem idoso. Ele era um estranho, não um de seus clientes regulares, e estava olhando atentamente para a prateleira das bailarinas de cristal. Lacey afastou os cachos escuros do rosto e foi na direção do cavalheiro. "O senhor está procurando algo em particular?" ela perguntou enquanto se aproximava dele. O homem deu um salto. "Meu Deus, você me assustou!" "Sinto muito", disse Lacey, notando o aparelho auditivo dele pela primeira vez e pensando que tinha de se lembrar que não deveria aparecer do nada atrás de idosos no futuro. "Eu só me perguntei se você estava procurando algo específico, ou se estava apenas dando uma olhada?" O homem se voltou novamente para as estatuetas, com um pequeno sorriso nos lábios. "É uma história engraçada", disse ele. "É o aniversário da minha falecida esposa. Eu vim à cidade para um chá com bolo, como uma espécie de celebração das nossas lembranças, sabe? Mas quando passei pela sua loja, senti vontade de entrar". Ele apontou para as estatuetas. "Elas foram a primeira coisa que vi". Ele deu a Lacey um sorriso de cumplicidade. "Minha esposa era dançarina". Lacey retribuiu o sorriso, emocionada com a história. "Que amor!" "Foi nos anos setenta", continuou o idoso, estendendo a mão trêmula e tirando um modelo da prateleira. "Ela dançava na Royal Ballet Society. Na verdade, ela foi a primeira bailarina do balé com…" Naquele momento, o som de uma van grande passando rápido demais sobre a lombada bem em frente à loja interrompeu o final da frase do homem. O estrondo subsequente, quando o veículo saltou do outro lado da lombada, fez o senhor dar um salto, e a estatueta voou de suas mãos, batendo no assoalho de madeira. O braço da bailarina se soltou e saiu deslizando para baixo da prateleira. "Ai, meu Deus!" o homem exclamou. "Eu sinto muito!" "Não se preocupe", garantiu Lacey, olhando fixamente através da vitrine para a van branca, que havia encostado no meio-fio e parado, com o motor agora desligando e soltando fumaça pelo cano de escape. "Não foi culpa sua. Acho que o motorista não viu a lombada. Ele provavelmente danificou a van!" Ela se agachou e esticou o braço por baixo da estante, até que as pontas dos dedos roçaram a pequena borda irregular do cristal. Ela puxou o braço da bailarina – que agora estava coberto por uma fina camada de poeira – e voltou a ficar de pé, assim que viu pela janela o motorista da van saltando da cabine para a rua de paralelepípedos. "Só pode ser brincadeira…" – Lacey murmurou, estreitando os olhos para ver a culpada que ela agora podia identificar. "Taryn". Taryn era dona da loja ao lado. Era uma mulher esnobe e mesquinha, a quem Lacey havia concedido o título de Pessoa Mais Chata de Wilfordshire. Ela estava sempre tentando prejudicar Lacey para expulsá-la da cidade. Taryn fez tudo o que estava ao seu alcance para frustrar as tentativas de Lacey de iniciar um negócio na cidade, até furou buracos na parede de sua própria loja só para irritá-la! E embora a mulher tenha pedido uma trégua depois que seu ajudante levou as coisas um pouco longe demais e foi pego perambulando do lado de fora do chalé de Lacey uma noite, Lacey não estava tão certa de que podia confiar nela novamente. Taryn havia jogado sujo. Aquele certamente era mais um de seus truques. Para começar, não havia como ela não saber que a lombada estava lá – dava para vê-la da vitrine de sua própria loja, pelo amor de Deus! Então, ela passou pela lombada rápido demais de propósito. Depois, para completar, ela estacionou em frente à loja de Lacey, em vez de para em frente à sua, na tentativa de bloquear a vista ou para bombear fumaça na direção dela. "Sinto muito", repetiu o homem, trazendo a atenção de Lacey de volta ao momento. Ele ainda estava segurando a estatueta, agora com apenas um braço. "Por favor. Deixe-me pagar pelo dano". "De jeito nenhum", Lacey falou com firmeza. "O senhor não fez nada de errado". Ela olhou por cima do ombro, em direção à vitrine, estreitando os olhos e fixando-os em Taryn, seguindo a mulher enquanto ela caminhava cautelosamente para a traseira da van como se nada tivesse acontecido. A irritação de Lacey com a dona da boutique ficou mais forte. "Se alguém tem culpa, é a motorista". Ela fechou as mãos em punhos. "Parece até que foi de propósito… Ai!" Lacey sentiu algo afiado na palma da mão. Ela havia apertado o braço quebrado da bailarina com tanta força que se cortou. "Ah!" o homem exclamou ao ver o glóbulo brilhante de sangue crescendo na palma da mão dela. Ele tirou rapidamente o braço de cristal ofensivo da mão dela, como se removê-lo pudesse, de alguma forma, curar a ferida. "Você está bem?" "Por favor, me dê licença por um instante", disse Lacey. Então, ela se dirigiu para a porta, deixando o homem confuso para trás em sua loja, segurando uma bailarina quebrada em uma mão e um braço sem corpo na outra, e caminhou pisando forte até a rua. Ela só parou quando se viu diante de sua vizinha/nêmesis. "Lacey!" Taryn falou sorrindo enquanto levantava a porta da mala da van. "Espero que você não se importe de eu estacionar aqui? Preciso descarregar o estoque da nova temporada. O verão não é a melhor estação da moda?" "Eu não ligo para você estacionar aí", disse Lacey. "Mas lembro que você passou rápido demais pela lombada. Você sabe que ela fica bem na frente da minha loja. O barulho quase causou um ataque cardíaco no meu cliente". Ela observou então que Taryn também havia estacionado de tal maneira que sua volumosa van bloqueou a visão que Lacey tinha do outro lado da rua até a confeitaria de Tom. Aquilo definitivamente foi proposital! "Entendi", disse Taryn, fingindo simpatia. "Vou dirigir mais devagar quando chegar a hora de abastecer a loja com o estoque da temporada de outono. Ei, você devia dar uma passadinha na boutique depois que eu arrumar tudo isso. Mudar seu guarda-roupa. Dar um mimo para si mesma. Você merece". Seus olhos percorreram a roupa de Lacey. "E certamente está na hora". "Vou pensar sobre isso", disse Lacey sem emoção, imitando o sorriso falso de Taryn. No segundo em que ela deu as costas para a mulher, seu sorriso se transformou em uma careta. Taryn realmente era a rainha das indiretas. Quando voltou à loja, Lacey descobriu que seu cliente idoso estava esperando no balcão e uma segunda pessoa – um homem de terno escuro – também havia entrado. Ele examinava a prateleira repleta de itens náuticos que Lacey planejava leiloar amanhã, sendo observado atentamente por Chester, o cachorro. Ela podia sentir o cheiro de loção pós-barba, mesmo a distância. "Eu atenderei você em um instante", Lacey falou para o novo cliente enquanto corria em direção à parte de trás da loja, onde o senhor idoso estava esperando. "Sua mão está bem?" o homem perguntou a ela. "Perfeitamente bem". Ela olhou para o pequeno corte na palma da mão, que já havia parado de sangrar. "Desculpe por sair assim. Eu tinha…", ela escolheu as palavras com cuidado, "algo para tratar". Lacey estava determinada a não deixar Taryn derrubá-la. Se deixasse a dona da boutique irritá-la, seria como marcar um gol contra. Quando Lacey deslizou para trás do balcão de vendas, ela notou que o senhor idoso havia colocado a estatueta quebrada sobre ele. "Gostaria de comprá-la", ele anunciou. "Mas está quebrada’", respondeu Lacey. Obviamente, ele estava apenas tentando ser gentil, apesar de não ter motivos para se sentir mal com o incidente. Realmente não tinha sido culpa dele. "Eu a quero mesmo assim". Lacey corou. Ele realmente estava inflexível. "Posso tentar consertar primeiro, pelo menos?" ela disse. "Eu tenho um pouco de super cola e…" "De jeito nenhum!" o homem interrompeu. "Eu a quero exatamente como está. Veja bem, agora ela me lembra ainda mais minha esposa. Era isso que eu estava prestes a dizer quando a van nos interrompeu. Ela foi a primeira bailarina da Royal Ballet Society com uma deficiência". Ele levantou a estatueta, girando-a na luz. A luz captou o braço direito estendido, que ainda parecia elegante, apesar de parar em um toco irregular no cotovelo. "Ela dançava com um braço só". As sobrancelhas de Lacey se levantaram. A boca dela se abriu. "Não pode ser!" O homem assentiu ansiosamente. "É verdade! Você não vê? Isso foi um sinal dela". Lacey não pôde deixar de concordar. Ela estava procurando seu próprio fantasma, afinal, na figura de seu pai, por isso vivia particularmente sensível aos sinais do universo. "Então o senhor tem razão, precisa levá-la", disse Lacey. "Mas não posso cobrar por isso". "Você tem certeza?" o homem perguntou, surpreso. Lacey sorriu. "Cem por cento! Sua esposa enviou um sinal para você. A estatueta é sua por direito". O homem pareceu emocionado. "Obrigado". Lacey começou a embrulhar a estatueta em papel de seda para ele. "Vamos garantir que ela não perca mais nenhum membro, não é?" "Você vai realizar um leilão, pelo que vejo", disse o homem, apontando por cima do ombro para o pôster pendurado na parede. Ao contrário dos cartazes grosseiros desenhados à mão que divulgaram seu último leilão, Lacey havia contratado um profissional para fazer aquele cartaz. Era decorado com imagens náuticas: barcos, gaivotas e uma moldura inspirada nas bandeirolas azuis e brancas em xadrez, em homenagem à obsessão por bandeirolas de Wilfordshire. "Isso mesmo", disse Lacey, sentindo uma onda de orgulho no peito. "É o meu segundo leilão. Será composto exclusivamente por itens da Marinha antigos. Sextantes. Âncoras. Telescópios. Vou vender uma variedade de tesouros. Talvez você queira participar?" "Talvez eu queira", o homem respondeu com um sorriso. "Vou colocar um folheto na sacola para você". Lacey fez exatamente isso, depois entregou ao homem sua preciosa estatueta do outro lado do balcão. Ele agradeceu e se afastou. Lacey observou o homem idoso sair da loja, tocada pela história que ele compartilhou com ela, antes de lembrar que tinha outro cliente para atender. Ela olhou para a direita para voltar sua atenção para o outro homem. Só que agora notou que ele havia ido embora. Ele saiu silenciosamente, despercebido, antes que ela tivesse a chance de ver se precisava de ajuda. Ela foi até a área que ele estava examinando – a prateleira inferior onde havia colocado caixas cheias de todos os itens que venderia no leilão de amanhã. Um cartaz com a letra de Gina dizia: Nada deste lote é para venda normal. Tudo será leiloado! Ela havia desenhado o que parecia ser uma caveira e ossos cruzados embaixo, evidentemente confundindo o tema da Marinha com um tema pirata. Espero que o cliente tenha visto a placa e voltasse amanhã para dar lances no item em que parecia estar tão interessado. Lacey pegou uma das caixas cheias de itens que ela ainda não tinha avaliado e a levou de volta para a mesa. Enquanto pegava item após item, alinhando-os sobre o balcão, um sentimento de animação percorreu-a. Seu último leilão foi maravilhoso, mas moderado pelo fato dela estar procurando por um assassino, na época. Este ela seria capaz de desfrutar plenamente. Ela realmente teria a chance de exercitar suas habilidades como leiloeira, e literalmente mal podia esperar! Ela havia acabado de entrar num estado de total concentração, avaliando e catalogando os itens, quando foi interrompida pelo som estridente de seu celular. Um pouco frustrada por ser perturbada por, sem dúvida, sua irmã caçula exagerada, Naomi, a respeito de uma crise melodramática de mãe solteira, Lacey olhou para o celular, que estava com a tela voltada para cima, sobre o balcão. Para sua surpresa, o nome que piscava no visor era o de seu ex-marido David, de quem havia recentemente se divorciado. Lacey olhou para a tela piscando por um momento, atordoada demais para agir. Um tsunami de emoções diferentes a invadiu. Ela e David não haviam trocado uma palavra desde o divórcio – embora ele ainda parecesse conversar com a mãe de Lacey, justo ela – e havia lidado com todo o processo através de seus advogados. Mas ele estar ligando diretamente para ela? Lacey nem sabia por onde começar a teorizar por que ele estaria fazendo isso. Contrariando seu instinto, Lacey atendeu. "David? Está tudo bem?" "Não, não está", ele falou com a voz aguda, trazendo à tona um milhão de lembranças latentes que estavam adormecidas na mente de Lacey, como poeira levantada. Ela ficou tensa, preparando-se para uma terrível bomba. "O que foi? O que aconteceu?" "Sua pensão não chegou". Lacey revirou os olhos com tanta força que doeu. Dinheiro. Claro. Nada importava mais para David do que dinheiro. Um dos aspectos mais ridículos de seu divórcio foi o fato de ela ter que pagar apoio financeiro conjugal a ele, porque ela era o membro do casal que ganhava mais. Lacey concluiu que a única coisa que o obrigava a fazer contato real com ela seria isso. "Mas eu coloquei em débito automático", disse Lacey. "O banco paga automaticamente". "Bem, é claro que os britânicos têm uma interpretação diferente da palavra automático", disse ele, arrogante. "Jé que nenhum valor foi depositado na minha conta bancária e, se você não sabia, o prazo vence hoje! Então, sugiro que você ligue imediatamente para o seu banco e resolva a situação". Ele parecia um diretor de escola. Lacey esperava que ele terminasse seu monólogo com a frase "sua garotinha boba". Ela apertou o celular com força, tentando ao máximo não deixar David irritá-la, não hoje, na véspera do seu leilão, pelo qual ela estava tão ansiosa! "Que sugestão inteligente, David", respondeu, apoiando o telefone entre a orelha e o ombro e usando as mãos livres para acessar sua conta bancária online. "Eu nunca teria pensado nisso sozinha". Suas palavras foram recebidas pelo silêncio. David provavelmente nunca a ouvira usar sarcasmo antes e ficou desconcertado. Ela culpava Tom. O senso de humor inglês de seu novo namorado estava sendo absorvido por ela rapidamente. "Você não está levando isso muito a sério", respondeu David, depois que finalmente entendeu. "Eu deveria?" Lacey respondeu. "Deve ter sido apenas algum mal-entendido no banco. Provavelmente poderei resolver até o final do dia. De fato, sim, há um aviso aqui na minha conta". Ela clicou no pequeno ícone vermelho e uma mensagem apareceu. Ela leu em voz alta. "Devido ao feriado bancário, qualquer transferência agendada para domingo ou segunda-feira chegará na terça-feira. A-ha. Aí está. Eu sabia que era algo simples. Um feriado bancário." Ela fez uma pausa e olhou pela vitrine, para a turba de pessoas passando. "Eu realmente achei as ruas muito movimentadas hoje". Ela praticamente podia ouvir David rangendo os dentes do outro lado da linha. "Na verdade, é extremamente inconveniente", ele retrucou. "Eu tenho contas a pagar, você sabe". Lacey olhou para Chester, como se precisasse de um camarada naquela conversa particularmente frustrante. Ele ergueu a cabeça das patas e levantou uma sobrancelha. "Frida não pode emprestar alguns milhões de dólares para você, se estiver duro?" "Eda", David corrigiu. Lacey sabia muito bem o nome da nova noiva de David. Mas ela e Naomi começaram a chamá-la de Frida Express, em referência à velocidade com a qual os dois haviam ficado noivos, e agora não conseguia pensar nela de outra forma. "E, não", ele continuou. "Ela não deveria ter que fazer isso. Quem te contou sobre Eda?" "Minha mãe pode ter deixado escapar uma ou vinte vezes. Por que você continua conversando com minha mãe, afinal?" "Ela faz parte da minha família há catorze anos. Eu não me divorciei dela". Lacey suspirou. "Não. Eu acho que não. Então, qual é o plano? Vocês três vão se reunir para  fortalecer os laços durante uma sessão de manicure?" Agora ela estava tentando irritá-lo, e não conseguia se conter. Era divertido. "Você está sendo ridícula", disse David. "Ela não é a herdeira de um empório de unhas postiças?" ela falou, fingindo inocência. "Sim, mas você não precisa falar isso desse jeito", disse David, com um tom de voz que catapultou a imagem dele fazendo beicinho na mente de Lacey. "Eu estava especulando sobre como vocês passarão seu tempo juntos". "Com um monte de criticismo". "Mamãe me disse que ela é jovem", disse Lacey, mudando de rumo. "Vinte anos. Quero dizer, acho que vinte pode ser um pouco jovem demais para um homem da sua idade, mas pelo menos ela tem dezenove anos para decidir se quer ou não filhos. Trinta e nove é o ponto de corte para você, afinal". Assim que ela disse isso, percebeu que estava parecendo com Taryn falando. Ela estremeceu. Embora não se importasse em pegar os maneirismos de Tom, ela certamente queria distância das manias de Taryn! "Desculpe", ela murmurou, voltando atrás. "Isso foi desnecessário". David pausou um instante. "Apenas envie meu dinheiro, Lace". A ligação foi encerrada. Lacey suspirou e desligou o telefone. Por mais irritante que tenha sido a conversa, ela estava absolutamente determinada a não deixar que aquilo a derrubasse. Agora, David estava no seu passado. Ela havia construído uma vida totalmente nova em Wilfordshire. E, de qualquer maneira, David ter seguido em frente com Eda era uma bênção disfarçada. Ela não precisaria mais pagar pensão alimentícia quando se casassem, e o problema seria resolvido! Mas sabendo como as coisas costumavam ser para ela, tinha a sensação de que seria um noivado muito longo. CAPÍTULO DOIS Lacey estava no meio do trabalho de avaliar as peças quando, pela vitrine, viu que Taryn havia finalmente mudado sua enorme van de lugar, liberando a vista para a loja de Tom, do outro lado da rua de paralelepípedos. As bandeirolas xadrez com tema da Páscoa foram substituídas pelas bandeirinhas com o tema verão, e Tom atualizou sua vitrine de macarons, que agora consistia num cenário de ilha tropical. Macarons de limão compunham a areia, cercados por um mar de diferentes tons de azul – turquesa (sabor de algodão doce), azul bebê (sabor de chiclete), azul escuro (mirtilo) e azul-marinho (framboesa). Pilhas altas de macarons de chocolate, café e de amendoim formavam os troncos das palmeiras, e as folhas foram feitas com marzipã; outro produto alimentício com o qual Tom sabia trabalhar muito bem. A vitrine era impressionante, sem mencionar que dava água na boca, e sempre atraía uma enorme multidão de turistas que a observavam com animação. Olhando pela vitrine para o balcão, Lacey podia ver Tom atrás dele, ocupado encantando seus clientes com suas exibições teatrais. Ela apoiou o queixo no punho e soltou um suspiro sonhador. Até agora, as coisas com Tom estavam indo maravilhosamente bem. Eles estavam oficialmente "namorando", palavra escolhida por Tom, não por ela. Durante a conversa para "definir o relacionamento", Lacey apresentou o argumento de que era um termo infantil e inadequado para dois adultos embarcando em uma jornada romântica juntos, mas Tom salientou que, como ela não era funcionária da Michaelis, definir a terminologia não era realmente tarefa dela. Ela cedeu nesse ponto em particular, mas excluiu os termos "namorada" e "namorado". Eles ainda não haviam decidido quais os termos apropriados para se referirem um ao outro e geralmente usavam um padrão: "querido" e "querida". De repente, Tom estava olhando para ela e acenando. Lacey se endireitou, com as bochechas esquentando ao perceber que ele a pegara olhando para ele como uma adolescente apaixonada. O gesto de Tom se tornou um aceno convidativo e Lacey de repente percebeu que horas eram. Onze e dez. Hora do chá! E ela estava dez minutos atrasada para as Elevenses, ou  Onze-Horas diárias dos dois! "Vamos lá, Chester", disse ela rapidamente, sentindo a animação em seu peito. "É hora de visitar Tom". Ela praticamente saiu correndo da loja, mal se lembrando de virar o sinal de "Aberto" para "volto em 10 minutos" e trancar a porta. Então, ela atravessou rapidamente a rua de paralelepípedos em direção à confeitaria, seu coração batendo forte em sintonia com seus passos saltitantes, enquanto sua animação para ver Tom aumentava. Assim que Lacey chegou à porta da confeitaria, o grupo de turistas chineses que Tom estava entretendo momentos antes começou a sair num fluxo pela porta da loja. Cada um segurava um saco de papel marrom extremamente grande, cheio de guloseimas com cheiro delicioso, conversando e rindo. Lacey segurou a porta pacientemente, esperando que todos passassem, e eles educadamente inclinaram a cabeça em agradecimento. Depois que o caminho finalmente ficou livre, Lacey entrou. "Olá, minha querida", disse Tom, um sorriso largo iluminando seu belo rosto de tons dourados, fazendo pequenas rugas aparecerem nos cantos de seus brilhantes olhos verdes. "Eu vejo que seus fãs acabaram de sair", brincou Lacey, indo em direção ao balcão. "E compraram uma tonelada de doces". "Você me conhece", respondeu Tom, mexendo as sobrancelhas. "Sou o primeiro confeiteiro do mundo com um fã-clube". Hoje ele parecia estar particularmente bem-humorado, pensou Lacey, apesar de estar sempre radiante. Tom era uma daquelas pessoas que pareciam atravessar a vida sem se deixar perturbar pelas tensões habituais que nos derrubavam. Era uma das coisas que Lacey adorava nele. Ele era muito diferente de David, que se estressava com o menor dos contratempos. Ela se aproximou e Tom se esticou, apoiando-se nos braços para beijá-la por cima do balcão. Lacey se deixou perder no momento, apenas se separando quando Chester começou a choramingar, descontente por ser ignorado. "Desculpe, amigo", disse Tom. Ele saiu de trás do balcão e ofereceu a Chester um doce de alfarroba sem chocolate. "Aqui está. Seu favorito". Chester lambeu a guloseima da mão de Tom, depois soltou um longo suspiro de satisfação e afundou no chão para uma soneca. "Então, qual chá está no menu de hoje?" perguntou Lacey, sentando-se no seu banquinho de sempre no balcão. "Chicória", disse Tom. Ele foi para a cozinha nos fundos. "Eu nunca bebi esse sabor antes", Lacey falou, um pouco mais alto. "É sem cafeína", Tom falou de volta, por cima do barulho de uma torneira e do bater das portas do armário. "E tem um leve efeito laxante, se você beber demais". Lacey riu. "Obrigada por avisar", ela brincou. Suas palavras foram recebidas pelo tilintar das peças de porcelana e pelo borbulhar da água fervendo na chaleira. Então, Tom reapareceu segurando uma bandeja de chá. Pratos, xícaras, pires, um açucareiro e um bule de porcelana estavam sobre ela. Ele colocou a bandeja entre os dois. Como todas as louças de Tom, os itens eram completamente diferentes entre si, o único tema que os unia era a Grã-Bretanha, como se ele tivesse adquirido cada peça de uma venda de quintal patriótica de uma senhora idosa diferente. A xícara de Lacey tinha uma fotografia da falecida princesa Diana. Seu prato tinha uma passagem de Beatrix Potter escrita em letra cursiva delicada ao lado de uma imagem em aquarela da icônica pata de Aylesbury, Jemima Puddleduck, com seu gorro e xale. O bule tinha a forma de um elefante indiano com decoração berrante, com as palavras Piccadilly Circus impressas na sela vermelha e dourada. Sua tromba, naturalmente, era o bico. Enquanto aguardava o chá ficar pronto no bule, Tom usou pinças prateadas para selecionar alguns croissants no balcão, que ele colocou em belos pratos florais. Ele deslizou um na direção de Lacey, seguido por um pote da geléia de damasco favorita dela. Então, ele serviu a ambos uma caneca do chá pronto, sentou-se em um banquinho, levantou sua caneca e brindou: "Saúde". Com um sorriso, Lacey encostou sua xícara contra a dele. "Saúde". Enquanto bebiam em uníssono, Lacey teve um repentino flash de déjà vu. Não um de verdade, como quando você tem certeza de que já viveu um momento exato antes, mas o déjà vu que vem da repetição, da rotina, de fazer a mesma coisa dia após dia. Parecia que eles já haviam feito isso antes, porque haviam; ontem e antes de ontem, e no dia anterior. Como ocupados proprietários de lojas, Lacey e Tom costumavam fazer horas extras e trabalhavam sete dias por semana. A rotina, o ritmo, tinham chegado muito naturalmente. Mas era mais do que isso. Tom lhe dera automaticamente seu croissant de amêndoa tostado favorito com geléia de damasco. Ele nem precisava perguntar o que ela queria. Isso deveria deixar Lacey feliz, mas, na verdade, a perturbou. Porque foi exatamente assim que as coisas se passaram com David, no início. Saber o que o outro ia pedir. Fazer pequenos favores um para o outro. Pequenos momentos de rotina ritmados que a fizeram sentir que eles eram peças de um quebra-cabeça que se encaixavam perfeitamente. Ela era jovem e tola, e tinha cometido o erro de pensar que sempre seria assim. Mas havia sido apenas o período de lua de mel. Tudo passou um ou dois anos depois, e, naquele ponto, ela já estava presa no casamento. Era apenas disso que se tratava este seu relacionamento com Tom? Uma fase de lua de mel que um dia iria passar? "No que você está pensando?" Tom perguntou, e sua voz se intrometeu na ansiosa ruminação dela. Lacey quase cuspiu seu chá. "Em nada". Tome levantou uma sobrancelha. "Nada? A chicória teve tão pouco impacto sobre você que todos os seus pensamentos saíram de sua mente?" "Ah, a chicória!" ela exclamou, corando. Tom pareceu se divertir ainda mais. "Sim. o que mais poderia ser?" Lacey colocou a xícara desajeitadamente de volta sobre o pires, causando um tilintar alto. "É bom. Adocicado. Nota oito". Tom assoviou. "Uau. Uma nota alta. Mas não o suficiente para destronar o Assam". "Será preciso um chá excepcional para destronar o Assam". Seu pânico momentâneo de que Tom tivesse a capacidade de ler sua mente diminuiu, e Lacey voltou sua atenção para o café da manhã, saboreando a geléia de damasco caseira combinada com amêndoas tostadas e deliciosos quitutes amanteigados. Mas mesmo a comida saborosa não impediu sua mente de vagar para a conversa com David. Foi a primeira vez que ela ouviu a voz dele desde que o ex-marido saiu do antigo apartamento em Upper East Side declarando como despedida: "Meu advogado entrará em contato!" e ouvir sua voz novamente lembrou Lacey que, há menos de um mês, ela era uma mulher relativamente feliz, casada, com um emprego estável e uma renda e uma família próxima na cidade em que tinha passado sua vida toda. Mesmo sem saber que estava fazendo isso, ela bloqueou sua vida passada em Nova York com uma parede sólida em sua mente. Foi uma estratégia que ela desenvolveu quando criança para lidar com o sofrimento causado pelo súbito desaparecimento de seu pai. Evidentemente, ouvir a voz de David abalou os alicerces daquele muro. "Deveríamos sair de férias", Tom falou de repente. Mais uma vez, Lacey quase cuspiu sua comida, mas Tom deve ter notado, porque continuou falando. "Quando eu voltar do meu curso de focaccia, devíamos fazer uma viagem rápida. Nós dois temos trabalhando demais, merecemos um descanso. Podemos ir à minha cidade natal, Devon, e mostrarei a você todos os lugares que eu amava quando criança". Se Tom tivesse sugerido isso ontem, antes da ligação de David, Lacey provavelmente teria aceitado na hora. Mas, de repente, a ideia de fazer planos de longo prazo com seu novo beau – ainda que fosse apenas daqui a uma semana – parecia precipitado. É claro que Tom não tinha nenhuma razão para não se sentir confiante com sua vida. Mas não fazia muito tempo que Lacey tinha se divorciado. Ela havia entrado no mundo de relativa estabilidade dele num ponto em que literalmente cada parte do dela havia se tornado instável – seu trabalho, sua casa, seu país e até seu estado civil! Ela tinha passado de tomar conta de seu sobrinho, Frankie, enquanto sua irmã, Naomi, ia para mais um encontro desastroso, para espantar ovelhas do gramado da frente de sua casa; de ouvir os gritos de sua chefe, Saskia, numa firma de design de interiores de Nova York, para excursões em busca de antiguidades na região de Mayfair, em Londres, com sua peculiar vizinha idosa, e dois cães pastores a reboque. Era mudança demais de uma vez só, e ela não tinha tanta certeza de onde pôr os pés. "Tenho que ver o quanto estou ocupada com a loja", respondeu ela, sem se comprometer. "O leilão está dando mais trabalho do que eu imaginava". "Claro", disse Tom, parecendo não ter lido nas entrelinhas. Captar sutilezas e subtextos não era um dos pontos fortes de Tom, mais uma coisa que ela gostava nele. Ele entendia tudo o que ela dizia de forma literal. Ao contrário de sua mãe e irmã, que lhe davam alfinetadas e cutucavam e dissecavam cada palavra que ela dizia, não havia suposições ou indiretas com Tom. Ele gostava de ser transparente. Nesse momento, o sino acima da porta da confeitaria tilintou e Tom olhou por cima do ombro de Lacey. Ela viu a expressão dele se transformar em uma careta antes que seu olhar voltasse a encontrar o dela. "Ótimo", ele murmurou baixinho. "Fiquei me perguntando quando chegaria a minha vez de receber uma visita de faísca e fumaça. Por favor, me dê licença por um segundo". Ele se levantou e contornou a parte de trás do balcão. Curiosa para ver quem poderia provocar uma resposta tão visceral de Tom – um homem notoriamente descontraído e gentil – Lacey girou em seu banquinho. Os clientes que entraram na confeitaria eram um homem e uma mulher, que pareciam ter acabado de sair do set da série de televisão Dallas. O homem vestia um terno azul claro com um chapéu de cowboy. A mulher – muito mais jovem, observou Lacey ironicamente, como parecia ser a preferência da maioria dos homens de meia idade – usava um conjuntinho rosa fúcsia tão vibrante que deu dor de cabeça em Lacey, e que se chocava terrivelmente com seus cabelos amarelos no estilo Dolly Parton. "Gostaríamos de experimentar algumas amostras", o homem rosnou. Ele era americano, e sua rispidez parecia muito fora de lugar na pequena e pitoresca confeitaria de Tom. Nossa, espero que Tom não ache que eu fale assim, Lacey pensou, um pouco envergonhada. "É claro", respondeu Tom educadamente, parecendo ainda mais britânico em resposta. "O que vocês gostariam de experimentar? Temos doces e…" "Eca, Buck, não", disse a mulher ao marido, puxando o braço dele no qual se apoiava. "Você sabe que o trigo me deixa inchada. Peça a ele algo diferente". Lacey não pôde deixar de levantar uma sobrancelha para o par estranho. A esposa era incapaz de fazer suas próprias perguntas? "Tem chocolate?" o homem a quem ela se referiu como Buck perguntou. Ou melhor, estava mais para exigiu, já que seu tom era muito grosseiro. "Tenho", disse Tom, conseguindo manter a calma na frente de Boca-suja e sua esposa Barbie. Ele lhes mostrou a vitrine de chocolates, fazendo um gesto com a mão. Buck agarrou um com sua mão carnuda e o enfiou na boca. Quase imediatamente, ele cuspiu. O pequeno pedaço pegajoso e meio mastigado de chocolate caiu no chão. Chester, que estava sentado muito quieto aos pés de Lacey, se levantou de repente e se lançou para ele. "Chester. Não", Lacey o advertiu com a voz firme e autoritária que ele conhecia muito bem, e à qual tinha que obedecer. "Veneno". O pastor inglês olhou para ela, depois olhou com tristeza para o chocolate, antes de finalmente voltar a sua posição aos pés dela com a expressão de uma criança contrariada. "Eca, Buck, tem um cachorro aqui!" a mulher loira falou. "É tão anti-higiênico". "A higiene é o menor dos problemas dele", zombou Buck, olhando para Tom, que agora estava com uma expressão levemente mortificada. "Seu chocolate tem gosto de lixo!" "O chocolate americano e o chocolate inglês são diferentes", disse Lacey, sentindo a necessidade de sair em defesa de Tom. "Não me diga", respondeu Buck. "Tem gosto de cocô! E a rainha come esse lixo? Ela precisa de alguns produtos importados dos Estados Unidos, na minha opinião". De alguma forma, Tom conseguiu manter a calma, embora Lacey estivesse fervendo o suficiente pelos dois. Aquele homem bruto e sua esposa boboca deram as costas para Tom e saíram da loja, enquanto Tom pegava um lenço de papel para limpar a sujeira causada pelo chocolate cuspido que haviam deixado para trás. "Eles foram muito rudes", disse Lacey, perplexa, enquanto Tom limpava. "Eles estão na pousada de Carol", ele explicou, olhando para ela apoiado nas mãos e joelhos, enquanto passava o pano sobre os azulejos. "Ela disse que eles são horríveis. O homem, Buck, envia todas as refeições que pede de volta para a cozinha. Depois de comer metade, é claro. A esposa continua alegando que os xampus e sabonetes estão causando uma irritação na sua pele, mas sempre que Carol abastece o quarto com algo novo, os anteriores desaparecem misteriosamente. Ele se levantou, balançando a cabeça. "Eles estão infernizando a vida de todo mundo". "Humm", Lacey  murmurou, colocando o último pedaço de croissant na boca. "Acho que dei sorte, então. Duvido que eles tenham algum interesse em antiguidades". Tom deu três batidinhas no balcão. "Bata na madeira, Lacey. Não brinque com a sorte". Lacey já ia dizer que não acreditava em superstições, mas então se lembrou do encontro com o homem idoso e a bailarina mais cedo, e decidiu que era melhor não arriscar. Ela deu três batidinhas no balcão. "Pronto. O mau agouro foi oficialmente quebrado. Agora, é melhor eu ir. Ainda tenho um monte de coisa para avaliar antes do leilão amanhã". O sino acima da porta tilintou e Lacey levantou os olhos, vendo um grande grupo de crianças entrar ruidosamente. Elas estavam usando vestidos de festa e chapéus. Entre elas, uma menina loira baixinha e gordinha, vestida de princesa e trazendo um balão de hélio, gritou para todo mundo ouvir: "É meu aniversário!" Lacey se voltou para Tom com um pequeno sorriso nos lábios. "Parece que você vai ficar bem ocupado por aqui". Ele parecia perplexo, e um tanto preocupado. Lacey saltou do banquinho, deu um selinho nos lábios dele e então o deixou à mercê de um bando de meninas de oito anos. * De volta a sua loja, Lacey continuou a avaliar os últimos itens Náuticos para o leilão de amanhã. Ela estava particularmente animada com um sextante que havia encontrado na localização mais improvável possível: uma loja de caridade. Ela só havia entrado para comprar o console de jogos retrô que estava na vitrine – algo que ela sabia que seu sobrinho, obcecado por computadores, iria adorar – quando o viu. Um sextante do início do século 19, num estojo de mogno, alça de ébano e moldura dupla! Estava simplesmente ali, imóvel na prateleira, entre canecas com dizeres engraçados e alguns modelos de ursinhos de pelúcia tão fofinhos que dava enjoo. Lacey mal acreditou no que viu. Afinal, ela era novata no ramo de antiguidades. Aquela descoberta devia ser uma ilusão. Mas quando ela correu para examiná-lo melhor, a parte inferior de sua base tinha a inscrição 'Bate, Poultry, London', que confirmava que ela estava segurando um genuíno e raro artigo feito por Robert Brettell Bate! Lacey ligou para Percy imediatamente, sabendo que ele era a única pessoa no mundo que ficaria tão animada quanto ela. Ela estava certa. Parecia que todos os Natais haviam chegado mais cedo para o homem. "O que você vai fazer com ele?" Percy perguntou. "Precisa fazer um leilão. Um item raro como esse não pode simplesmente ser colocado no eBay. Ele merece ser celebrado". Apesar de Lacey estar surpresa por alguém da idade de Percy saber o que era o eBay, sua mente se prendeu à palavra leilão. Ela poderia fazer isso? Realizar mais um logo depois do primeiro? Ela pôde vender um valioso lote de móveis vitorianos antes. Não poderia realizar um leilão só com aquela peça. Além disso, parecia imoral comprar uma antiguidade rara de uma loja de caridade, sabendo qual o seu real valor. "Eu sei", disse Lacey, tendo uma ideia. "Vou usar o sextante como uma atração, como a principal atração de um leilão geral. Então, toda a renda com as vendas será revertida para a loja de caridade". Isso resolveria dois dilemas; a sensação repugnante de comprar algo pagando menos do que o seu verdadeiro valor de uma instituição de caridade e o que fazer depois de comprá-lo. E foi assim que todo o plano se encaixou. Lacey havia comprado o sextante (e o console, que ela havia largado de tanta emoção e quase se esqueceu de recuperar), decidiu sobre o tema náutico, e depois começou a trabalhar na curadoria do leilão e para divulgar o evento. O som do sino em cima da porta tirou Lacey de seu devaneio. Ela levantou os olhos e viu sua vizinha de cabelos grisalhos, Gina, entrar com Boudicca, sua Border Collie. "O que você está fazendo aqui?" perguntou Lacey. "Eu pensei que iríamos nos encontrar para o almoço". "Nós vamos!" Gina respondeu, apontando para o grande relógio de latão e ferro forjado pendurado na parede. Lacey voltou o olhar para ele. Juntamente com tudo no "Cantinho nórdico", o relógio estava entre seus objetos decorativos favoritos na loja. Era uma antiguidade (é claro), e parecia já ter pertencido à fachada de um prédio vitoriano. "Ah!" Lacey exclamou, finalmente percebendo que horas eram. "É uma e meia. Já? O dia passou voando". Foi a primeira vez que as duas amigas planejaram fechar a loja por uma hora e almoçar juntas. E, por "planejaram", o que realmente aconteceu foi que Gina havia convencido Lacey a tomar vinho demais uma noite e torcido o braço dela até ela ceder e concordar. Era verdade que praticamente todos os locais e visitantes da cidade de Wilfordshire passavam a hora do almoço em um café ou pub, em vez de vasculhando as prateleiras de uma loja de antiguidades, e que uma hora apenas de fechamento dificilmente prejudicaria as vendas de Lacey, mas agora que ela sabia que os bancos estavam fechados na segunda-feira, começou a ter dúvidas. "Talvez não seja uma boa ideia, afinal", disse Lacey. Gina colocou as mãos nos quadris. "Por quê? Que desculpa você inventou dessa vez?" "Bem, eu não sabia que era feriado hoje. Há muito mais pessoas circulando do que o normal". "Muito mais pessoas, não muitos mais clientes", disse Gina. "Porque cada uma delas estará sentada dentro de um café, pub ou cafeteria em cerca de dez minutos, exatamente como deveríamos estar! Vamos, Lacey. Nós conversamos sobre isso. Ninguém compra antiguidades na hora do almoço!" "Mas e se alguns deles forem europeus?" perguntou Lacey. "Você sabe que eles fazem tudo mais tarde no continente. Se eles jantam às 21h ou 22h, a que horas almoçam? Provavelmente não à uma!" Gina a pegou pelos ombros. "Você está certa. Mas eles passam a hora do almoço tirando uma soneca. Se houver turistas europeus, eles estarão dormindo na próxima hora. Para dizer com palavras que você pode entender, não vão estar comprando em uma loja de antiguidades!" "Certo, tudo bem. Então os europeus estarão dormindo. Mas e se eles tiverem vindo de lugares mais distantes e seus relógios biológicos ainda estiverem desajustados, de modo que não sintam fome no almoço e ao invés tenham vontade de comprar antiguidades?" Gina apenas cruzou os braços. "Lacey", disse ela, de uma maneira maternal. "Você precisa de uma pausa. Vai ficar exausta se gastar cada minuto do dia dentro destas quatro paredes, por mais artisticamente decoradas que elas estejam". Lacey torceu os lábios. Então, colocou o sextante no balcão e foi para o meio da loja. "Você está certa. Quanto mal uma hora pode realmente causar?" Lacey logo se arrependeria de ter dito essas palavras. CAPÍTULO TRÊS "Estou morrendo de vontade de visitar a nova casa de chá", disse Gina alegremente, enquanto ela e Lacey passeavam pela orla marítima, com seus companheiros caninos correndo um contra o outro pelas ondas, balançando a cauda com entusiasmo. "Por quê?" perguntou Lacey. "O que tem de tão bom?" "Nada em particular", respondeu Gina. Então, ela abaixou a voz. "Só que ouvi dizer que o novo proprietário costumava ser um lutador profissional! Mal posso esperar para conhecê-lo". Lacey não conseguiu se conter. Ela inclinou a cabeça para trás e gargalhou ao ouvir um boato tão ridículo. Mas lembrou que há pouco tempo todos em Wilfordshire pensavam que ela poderia ser uma assassina. "Que tal levar esse boato com uma pitada de desconfiança?" ela sugeriu a Gina. A amiga lhe deu um "piff", e as duas começaram a rir. A praia estava ainda mais bonita naqueles dias mais quentes. Não estava quente o suficiente para se bronzear ou remar, mas havia muito mais pessoas que vinham caminhar na orla e comprar sorvetes nos carrinhos. Enquanto caminhavam, as duas amigas começaram a bater papo, e Lacey relatou a Gina todo o telefonema de David e a história tocante do homem e da bailarina. Então, elas chegaram na casa de chá. Ficava numa antiga garagem para canoas, em uma localização privilegiada à beira-mar. Foram os proprietários anteriores que reformaram o lugar, transformando o antigo galpão em um café meio decadente – que, segundo Gina , era conhecido na Inglaterra como um "greasy spoon". Mas a nova proprietária havia melhorado bastante o design. Eles limparam a fachada de tijolos, removendo manchas de cocô de gaivota que provavelmente estavam lá desde os anos cinquenta. Também colocaram um quadro-negro do lado de fora, em que estava escrito café orgânico em letra cursiva profissional. E as portas de madeira originais foram substituídas por uma de vidro brilhante. Gina e Lacey se aproximaram. A porta se abriu automaticamente, como se quisesse atraí-las para dentro. Elas se entreolharam e entraram. O cheiro pungente de café fresco as saudou, seguido pelo cheiro de madeira, terra molhada e metal. Desapareceram os velhos azulejos brancos que iam do chão ao teto, as cabines de vinil rosa e o piso de linóleo. Agora, toda a antiga alvenaria estava exposta e as velhas tábuas do assoalho foram envernizadas com um tom escuro. Mantendo a vibração rústica, todas as mesas e cadeiras pareciam ser feitas a partir de barcos de pesca restaurados – responsáveis pelo cheiro de madeira – e as tubulações de cobre escondiam toda a fiação de várias lâmpadas grandes estilo Edison que pendiam do teto alto – as fontes do cheiro metálico. O cheiro da terra vinha do fato de que cada centímetro livre de espaço tinha um cacto. Gina agarrou o braço de Lacey e sussurrou com desgosto: "Ai, não. É… descolado!" Lacey havia aprendido recentemente, enquanto elas garimpavam antiguidades no bairro Shoreditch, em Londres, que descolado não era um elogio a ser usado no lugar de 'estiloso', mas sim que denotava algo frívolo, pretensioso e arrogante. "Eu gostei", respondeu Lacey. "É muito bem decorado. Até Saskia concordaria". "Cuidado para não levar uma picada", acrescentou Gina, fazendo um movimento exagerado para desviar de um cacto grande e espinhoso. Lacey estalou a língua para ela em sinal de desaprovação e foi até o balcão, que era de bronze polido, e que tinha uma máquina de café antiga combinando que certamente devia ser decorativa. Apesar do que Gina ouvira falar, não havia um homem parecido com um lutador de pé atrás do balcão, mas uma mulher com um cabelo loiro repicado e tingido e uma blusa branca que complementava sua pele dourada e bíceps salientes. Gina olhou para Lacey e fez menção com a cabeça para os músculos da mulher, querendo dizer tá vendo, eu te disse. "O que posso servir para vocês?" a mulher perguntou com o sotaque australiano mais forte que Lacey já ouviu. Antes que ela tivesse a chance de pedir um cortado, Gina a cutucou. "Ela é como você!" Gina exclamou. "Uma americana!" Lacey não pôde conter o riso. "Humm… não, ela não é". "Eu sou da Austrália", a mulher corrigiu Gina, bem-humorada. "É?" Gina perguntou, perplexa. "Mas para mim você fala igualzinho a Lacey". A mulher loira instantaneamente voltou seu olhar de volta para Lacey. "Lacey?" ela repetiu, como se já tivesse ouvido falar dela. "Você é Lacey?" "Uh… sim…" Lacey respondeu, achando esquisito que aquela estranha de alguma forma soubesse algo sobre ela. "Você é dona da loja de antiguidades, certo?" a mulher acrescentou, baixando o pequeno bloco de notas que estava segurando e enfiando o lápis atrás da orelha. Ela estendeu a mão. Sentindo-se ainda mais confusa, Lacey assentiu e apertou a mão que lhe estava sendo oferecida. A mulher tinha um aperto forte. Lacey se perguntou brevemente se havia alguma verdade nos rumores de luta livre, afinal. "Desculpe, mas como você sabe quem eu sou?" Lacey perguntou, enquanto a mulher agitava seu braço para cima e para baixo vigorosamente com um sorriso largo no rosto. "Porque todo morador local que vem aqui e percebe que sou estrangeira imediatamente passa a me contar tudo sobre você! Sobre como você também veio para cá do exterior por conta própria. E como começou sua própria loja do zero. Acho que toda a cidade de Wilfordshire está torcendo para que sejamos melhores amigas". Ela ainda mantinha seu aperto de mão vigoroso, tanto que, quando Lacey falou, sua voz tremeu com a vibração. "Então você veio para o Reino Unido sozinha?" Finalmente, a mulher soltou sua mão. "Sim. Eu me divorciei do meu marido, e então percebi que o divórcio não era suficiente. Realmente, eu precisava estar do outro lado do planeta em relação a ele". Lacey não pôde deixar de rir. "Comigo aconteceu o mesmo. Bem, parecido. Nova York não é exatamente o outro lado do planeta, mas do jeito que Wilfordshire é, às vezes parece que pode ser". Gina pigarreou. "Posso pedir um cappuccino e um sanduíche de atum com queijo derretido?" A mulher pareceu lembrar de repente que Gina estava lá. "Ah. Desculpe. Onde estão meus modos?" Ela ofereceu a mão para Gina. "Eu sou Brooke". Gina não fez contato visual. Ela apertou a mão de Brooke frouxamente. Lacey percebeu as vibrações de ciúme que ela estava emitindo e não pôde deixar de sorrir por dentro. "Gina é minha parceira no crime", disse Lacey a Brooke. "Ela trabalha comigo em minha loja, me ajuda a encontrar antiguidades, leva meu cachorro para passear, transmite toda sua sabedoria de jardinagem para mim e geralmente me mantém sã desde que cheguei a Wilfordshire". O beicinho ciumento de Gina foi substituído por um sorriso tímido. Brooke sorriu. "Espero conseguir minha própria Gina também", ela brincou. "É um prazer conhecer vocês duas". Ela pegou o lápis de trás da orelha, fazendo com que seus cabelos loiros e lisos voltassem ao lugar. "Então, um cappuccino e sanduíche de atum…", disse ela, escrevendo no bloquinho. "E para você?" Ela olhou para Lacey com expectativa. "Um cortado", disse Lacey, olhando para o menu. Ela rapidamente examinou todas as opções do cardápio. Havia uma grande variedade de pratos que pareciam muito saborosos, mas na verdade o menu consistia apenas de sanduíches com descrições sofisticadas. O atum com queijo derretido que Gina havia pedido era descrito como um 'sanduíche quente de atum-bonito e cheddar defumado em madeira de carvalho'. "Erm… a baguete com purê de abacate". Brooke anotou o pedido. "E quanto aos amigos peludos de vocês?" ela acrescentou, apontando o lápis entre Gina e Lacey, para onde Boudicca e Chester estavam andando em um movimento de oito, tentando farejar um ao outro. "Tigela de água e um pouco de ração?" "Isso seria ótimo", disse Lacey, impressionada com a amabilidade da mulher. Ela faria sucesso no setor de hotelaria, pensou Lacey. Talvez na Austrália Brooke tenha trabalhado na área? Ou talvez ela fosse apenas uma pessoa simpática. De qualquer forma, ela causou uma ótima primeira impressão em Lacey. Talvez os habitantes de Wilfordshire conseguissem o que queriam e as duas se tornassem grandes amigas. Era sempre bom ter mais aliados! Ela e Gina foram escolher uma mesa. Entre os móveis vintage do pátio, elas tinham a opção de sentar em uma mesa feita com uma porta na horizontal, tocos de árvores reciclados para se parecerem com troncos ou em um dos recantos feitos com as metades de barcos a remo serradas e cheias de almofadas. Elas escolheram a opção segura – uma mesa de piquenique com bancos de madeira. "Ela parece ser uma pessoa absolutamente adorável", disse Lacey, enquanto deslizava no banco para se sentar. Gina deu de ombros e sentou pesadamente no banco oposto. "É… ela parece ser normal". Ela havia voltado a fazer beicinho, com ciúmes. "Você sabe que é minha favorita", disse Lacey. "Por ora. E quando você e Brooke começarem a bater papo sobre morar no exterior?" "Eu posso ter mais de uma amiga". "Sei disso. É só que, com quem você vai querer passar mais tempo? Com alguém da sua idade que tem uma loja estilosa, ou com alguém com idade de ser sua mãe, que fede a ovelhas?" Lacey não pôde conter o riso, apesar de ser inocente. Ela se esticou sobre a mesa e apertou a mão de Gina. "Eu falei a verdade quando disse que você me mantém sã. Sinceramente, depois de tudo o que aconteceu com Iris, a polícia e as tentativas de Taryn de me expulsar de Wilfordshire, eu realmente enlouqueceria se não fosse por você. Você é uma boa amiga, Gina, e eu valorizo sua amizade. Não vou te abandonar só porque uma ex-lutadora armada com cactos chegou à cidade. Ok?" "Uma ex-lutadora armada com cactos?" repetiu Brooke, aparecendo ao lado delas com uma bandeja de cafés e sanduíches. "Você não está se referindo a mim, está?" As bochechas de Lacey ficaram instantaneamente coradas. Não era do seu feitio falar das pessoas pelas costas. Ela só estava tentando animar Gina. "Rá! Lacey, seu rosto!" Brooke exclamou, batendo nas costas dela. "Tudo bem. Eu não me importo. Tenho orgulho do meu passado". "Você quer dizer…" "Sim", Brooke disse, sorrindo. "É verdade. Mas a história não é tão interessante quanto a que as pessoas inventaram. Eu pratiquei luta no ensino médio e depois na faculdade, antes de fazer uma temporada profissional durante um ano. Acho que os ingleses das cidades pequenas acham isso mais exótico do que é na realidade". Lacey se sentiu como uma tonta. É claro que tudo podia se tornar maior do que era na realidade e distorcido quando passava pelo boca a boca, ao longo do sistema de fofocas de uma cidade pequena. Brooke ser lutadora no passado era tão insignificante quanto Lacey ter trabalhado como assistente de uma designer de interiores em Nova York; normal para ela, exótico para todos os demais. "Agora, quanto a andar armada com cactos…" Brooke gracejou. Então, ela piscou para Lacey. Ela passou a comida da bandeja para a mesa, trouxe tigelas de água e ração para os cães, e depois se afastou para deixar Lacey e Gina comerem em paz. Apesar da descrição excessivamente complicada no menu, a comida era realmente incrível. O abacate estava perfeitamente maduro, macio o suficiente para desmanchar na boca, mas não mole demais. O pão com sementes estava fresco e bem tostado. Na verdade, ele até rivalizava com o de Tom e esse era o maior elogio que Lacey realmente poderia dar a qualquer coisa! Mas o café é que estava um verdadeiro triunfo. Lacey vinha tomando mais chá ultimamente, uma vez que era constantemente oferecido a ela e porque não havia lugar nenhum na cidade que pudesse corresponder aos seus padrões. Mas o café de Brooke parecia ter sido enviado diretamente da Colômbia! Lacey definitivamente passaria a tomar seu café da manhã lá a partir de agora, nos dias em que começasse a trabalhar em um horário sensato, e não quando a maioria das pessoas sãs ainda estava dormindo. Lacey estava no meio do seu almoço quando a porta automática atrás dela se abriu, deixando entrar ninguém menos que Buck e sua esposa babaca. Lacey deixou escapar um gemido. "Ei, garota", disse Buck, estalando os dedos para Brooke e caindo pesadamente em um assento. "Nós precisamos de café. E eu vou querer um bife com batatas fritas". Ele apontou para a mesa como se estivesse exigindo e depois olhou para a esposa. "Daisy? O que você quer?" A mulher estava parada na porta, com seus saltos stilettos tiptoe, parecendo um pouco aterrorizada com todos aqueles cactos. "Eu vou querer o que tiver menos carboidratos", ela murmurou. "Uma salada para a minha mulher", Buck rosnou para Brooke. "Pegue leve no molho". Brooke lançou um olhar para Lacey e Gina, depois saiu para preparar os pedidos de seus rudes clientes. Lacey enterrou o rosto nas mãos, sentindo vergonha alheia pelo casal. Ela realmente esperava que o povo de Wilfordshire não pensasse que todos os americanos eram assim. Buck e Daisy estavam envergonhando o país inteiro. "Ótimo", Lacey murmurou quando Buck começou a falar alto com a esposa. "Esses dois arruinaram meu encontro com Tom. Agora eles estão arruinando meu almoço com você". Gina não pareceu impressionada com o par. "Eu tenho uma ideia", disse ela. Ela se inclinou e sussurrou algo para Boudicca que fez os ouvidos da cadela tremerem. Então ela soltou o cão da coleira. O animal correu pelo salão de chá, pulou na mesa e pegou o bife do prato de Buck. "Ei!" ele berrou. Brooke não se conteve e começou a rir. Lacey ficou perplexa, divertindo-se com as palhaçadas de Gina. "Arranje outro para mim", exigiu Buck, "e TIRE esse cachorro daqui". "Sinto muito, mas esse era o meu último bife", disse Brooke, piscando sutilmente para Lacey. O casal bufou e saiu pisando forte. As três mulheres começaram a rir. "Aquele não era o último de jeito nenhum, era?" Lacey perguntou. "Não", Brooke disse, rindo. "Tenho um freezer inteiro cheio de bifes!" * O expediente estava chegando ao fim e Lacey havia terminado de avaliar todos os itens náuticos para o leilão de amanhã. Ela estava muito animada. Quer dizer, até que a campainha tocou e Buck e Daisy entraram na loja. Lacey gemeu. Ela não era tão calma quanto Tom e nem tão descontraída quanto Brooke. Sabia que aquele encontro não terminaria bem. "Olhe para todo esse lixo", disse Buck à esposa. "Que monte de nada". Por que você quis vir aqui, Daisy? E fede". Seus olhos se voltaram para Chester. "É aquele cachorro nojento de novo!" Lacey trincou os dentes com tanta força que teve medo de quebrá-los. Ela tentou canalizar a calma de Tom enquanto se aproximava do casal. "Receio que Wilfordshire seja uma cidade muito pequena", disse ela. "Vocês encontrarão as mesmas pessoas – e cachorros – o tempo todo". "É você", perguntou Daisy, evidentemente, reconhecendo Lacey pelos dois incidentes anteriores. "Esta é a sua loja?" Ela tinha um jeito de falar meio distraído, como o de uma Patricinha cabeça-de-vento. "É", confirmou Lacey, sentindo-se cada vez mais cautelosa. A pergunta de Daisy parecia pesada, como uma acusação. "Quando ouvi seu sotaque na confeitaria, achei que você era uma cliente", continuou Daisy. "Mas você realmente mora aqui?" Ela fez uma careta. "O que te fez querer trocar os Estados Unidos por isto aqui?" Lacey sentiu todos os músculos do corpo tensos. Seu sangue começou a ferver. "Provavelmente a mesma razão pela qual você escolheu passar as férias aqui", respondeu Lacey com a voz mais calma que conseguiu. "A praia. O mar. A tranquilidade do interior. A arquitetura encantadora". "Daisy", Buck rosnou. "Você pode se apressar e encontrar a coisa que te fez me arrastar até aqui para comprar?" Daisy olhou para o balcão. "Não está aqui". Ela olhou para Lacey. "Onde está aquele negócio de bronze que estava ali antes?" Negócio de bronze? Lacey pensou nos itens em que estava trabalhando antes da chegada de Gina. Daisy continuou. "É como uma espécie de bússola, com um telescópio colado. Para barcos. Vi pela janela quando a loja estava fechada durante o almoço. Você já vendeu?" "Você quer dizer o sextante?" ela perguntou, franzindo a testa, confusa, sem saber o que uma loira tola como Daisy iria querer com um sextante antigo. "É isso aí!" Daisy exclamou. "Um sextante". Buck gargalhou. Obviamente, ele achava o nome divertido. "Você não tem sextante suficiente em casa?" ele brincou. Daisy riu, mas pareceu um riso forçado para Lacey, como se ela não estivesse realmente achando engraçado e mais como se estivesse apenas sendo condescendente. Já Lacey não estava achando aquilo nada divertido. Ela cruzou os braços e ergueu as sobrancelhas. "Receio que o sextante não esteja à venda", explicou, mantendo o foco em Daisy e não em Buck, que estava tornando muito difícil para ela permanecer educada. "Todos os meus itens náuticos serão leiloados amanhã, por isso, não estão à venda dessa forma". Daisy esticou o lábio inferior. "Mas eu quero. Buck pagará o dobro do valor. Não é, Bucky?" Ela puxou o braço dele. Antes que Buck tivesse a chance de responder, Lacey interveio. "Não, desculpe, isso não é possível. Não sei quanto vou obter com a venda. Esse é o objetivo do leilão. É uma peça rara, e virão especialistas de todo o país apenas para dar seus lances. O preço pode chegar a qualquer valor. Se eu o vender para você agora, posso perder dinheiro e, como o lucro vai para a caridade, quero garantir o melhor negócio". Um sulco profundo apareceu na testa de Buck. Naquele momento, Lacey se sentiu ainda mais consciente do tamanho e largura do homem. Ele tinha mais de um metro e oitenta e era mais largo do que duas dela juntas, parecendo um grande carvalho. Ele era intimidante, tanto em termos de tamanho quanto de atitude. "Você não acabou de ouvir o que minha esposa disse?" ele rosnou. "Ela quer comprar sua bugiganga, então por favor, diga seu preço". "Eu a ouvi", respondeu Lacey, mantendo-se firme. "Sou eu quem não está sendo ouvida. O sextante não está à venda". Ela parecia muito mais confiante do que se sentia. Um pequeno som de alarme no fundo de sua mente começou a tocar, dizendo-lhe que ela estava mergulhando de cabeça em uma situação perigosa. Buck deu um passo à frente, estendendo sua sombra sobre ela. Chester deu um pulo e rosnou em resposta, mas Buck não ficou nem um pouco perturbado e apenas o ignorou. "Você está se recusando a fazer uma venda?" ele perguntou. "Isso não é ilegal? Nosso dinheiro não é bom o suficiente para você?" Ele puxou uma pilha de cédulas do bolso e a agitou sob o nariz de Lacey de uma maneira ameaçadora. "As notas têm o rosto da rainha e tudo. Não é o suficiente para você?" Chester começou a latir furiosamente. Lacey fez um sinal com a mão para ele parar e ele obedeceu, mas ainda manteve sua posição, como se estivesse pronto para atacar no segundo em que ela lhe desse permissão. Lacey cruzou os braços e encarou Buck, ciente de cada centímetro da sombra dele que pairava sobre ela, mas determinada a se manter firme. Ela não seria obrigada a vender o sextante. Não deixaria que aquele homem imponente a intimidasse e estragasse o leilão pelo qual ela havia trabalhado tanto e pelo qual estava ansiosa. "Se você quiser comprar o sextante, precisará ir ao leilão e fazer uma oferta", disse ela. "Ah, eu vou", disse Buck, estreitando os olhos. Ele apontou o dedo bem no rosto de Lacey. "Pode apostar que eu vou. Marque minhas palavras. Buckland Stringer vai ganhar". Com isso, o casal saiu, desaparecendo da loja tão rápido que praticamente deixou uma turbulência em seu rastro. Chester correu para a vitrine, apoiou as patas dianteiras contra o vidro e rosnou para eles pelas costas. Lacey também ficou observando-os se afastar, até ficarem fora de vista. Foi só então que ela percebeu o quanto seu coração estava acelerado e o quanto suas pernas tremiam. Ela agarrou a bancada para se firmar. Tom estava certo. Ela havia desafiado o azar ao dizer que o casal não tinha motivos para ir à sua loja. Mas poderia ser perdoada por imaginar que não havia nada de interesse para eles lá. Ninguém seria capaz de dizer, olhando para ela, que Daisy tinha algum desejo de possuir um antigo sextante da marinha! "Ai, Chester", disse Lacey, apoiando a testa no punho. "Por que eu contei a eles sobre o leilão?" O cachorro choramingou, percebendo a nota de pesar no seu tom. "Agora eu vou ter que aturá-los amanhã também!" ela exclamou. "E qual é a probabilidade de eles saberem alguma coisa sobre etiqueta em um leilão? Vai ser um desastre". E, num instante, seu entusiasmo pelo leilão de amanhã foi apagado como uma chama entre as pontas dos dedos. Em seu lugar, Lacey sentiu apenas pavor. CAPÍTULO QUATRO Após o encontro com Buck e Daisy, Lacey não via a hora de fechar a loja e ir para casa. Tom iria cozinhar naquela noite, e ela estava ansiosa para se aconchegar nele no sofá com uma taça de vinho, enquanto assistiam a um filme. Mas ela ainda tinha que fazer o balanço da máquina registradora, arrumar alguns itens do estoque, varrer o chão e limpar a cafeteira… Não que Lacey estivesse reclamando. Ela adorava sua loja e tudo o que envolvia cuidar dela. Quando finalmente terminou, ela se dirigiu para a saída com Chester a reboque, notando que os ponteiros do relógio de ferro haviam chegado às 19h e lá fora estava escuro. Era primavera e, apesar dos dias estarem mais longos, Lacey ainda não havia desfrutado de nenhum deles. Mas ela podia sentir a mudança no ar; a cidade parecia mais vibrante e muitos dos cafés e pubs permaneciam abertos por mais tempo, com as pessoas sentadas nas mesas do lado de fora, bebendo café e cerveja. Dava ao local uma atmosfera festiva. Lacey trancou sua loja. Ela se tornou extra cuidadosa desde o arrombamento, mas mesmo que aquilo nunca tivesse acontecido, ela agiria assim, porque a loja parecia sua filha agora. Era uma coisa que precisava ser nutrida, protegida e bem cuidada. Em tão pouco espaço de tempo, ela se apaixonou completamente pelo lugar. "Quem diria que você poderia se apaixonar por uma loja?" ela pensou em voz alta, suspirando profundamente, satisfeita pelo rumo que sua vida havia tomado. Ao lado dela, Chester choramingou. Lacey deu uma batidinha na cabeça dele. "Sim, eu também amo você, não se preocupe!" À menção da palavra amor, ela se lembrou dos planos que tinha com Tom para aquela noite e olhou para a confeitaria. Para sua surpresa, ela viu que todas as luzes estavam acesas. Era muito estranho. Tom tinha que abrir sua loja num horário desumano: às cinco da manhã, para garantir que tudo estivesse pronto para o grande número de clientes que vinham tomar café da manhã às sete, o que significava que ele geralmente fechava às cinco da tarde em ponto. Mas eram 19h, e ele claramente ainda estava lá dentro. A placa-sanduíche ainda estava na rua. O aviso na porta ainda estava virado para aberto. "Vamos lá, Chester", disse Lacey ao seu companheiro peludo. "Vamos ver o que está acontecendo". Atravessaram a rua juntos e entraram na confeitaria. Imediatamente, ela ouviu uma espécie de comoção vindo da cozinha. Pareciam os sons habituais de panelas e frigideiras, mas em ritmo muito acelerado. "Tom?" ela chamou, um pouco nervosa. "Ei!" apenas a voz dele veio da cozinha, nos fundos. Ele usou seu tom normal, bem-humorado. Agora que Lacey sabia que ele não estava sendo assaltado por um ladrão de macarons, ela relaxou e sentou no banquinho de sempre, enquanto o barulho continuava. "Está tudo bem aí atrás?" ela perguntou. "Tudo!" Tom gritou em resposta. Um momento depois, ele finalmente apareceu pelo arco na entrada da cozinha. Estava usando o avental, que, assim como suas roupas por baixo e seus cabelos, estava coberto de farinha de trigo. "Houve um pequeno desastre". "Pequeno?" Lacey zombou. Agora que sabia que Tom não estava lutando contra um intruso na cozinha, ela podia apreciar o humor da situação. "Foi Paul, na verdade", começou Tom. "O que ele fez agora?" perguntou Lacey, lembrando-se da vez em que o estagiário de Tom havia usado acidentalmente bicarbonato de sódio em vez de farinha de trigo em um lote de massa, inutilizando-a totalmente. Tom levantou dois pacotes brancos quase idênticos. À esquerda, a etiqueta impressa desbotada dizia: açúcar. À direita: sal. "Ah", disse Lacey. Tom assentiu. "Sim. É a fornada de doces para o café de amanhã. Vou ter que refazer tudo ou enfrentar a ira dos clientes quando eles chegarem para o desjejum e descobrirem que não tenho nada para vender". "Isso significa que nossos planos para esta noite estão cancelados?" perguntou Lacey. O humor que ela sentira momentos antes foi subitamente frustrado, substituído por uma pesada decepção. Tom lançou-lhe um olhar de desculpas. "Eu sinto muito. Vamos reagendar. Pode ficar para amanhã? Eu vou até sua casa cozinhar para você". "Amanhã eu não posso", respondeu Lacey. "Vou ter uma reunião com Ivan". "A reunião sobre a venda do Chalé do Penhasco", disse Tom, estalando os dedos. "Claro. Eu lembro. Que tal quarta à noite?" "Você não vai para aquele curso de focaccia na quarta-feira?" Tom pareceu perturbado. Ele checou o calendário na parede e suspirou. "Ok, esse é na quarta-feira que vem". Ele riu. "Você me deu um susto. Ah, mas estou ocupado quarta-feira à noite, de toda forma. E quinta-feira…" "…é o treino de badminton", Lacey terminou para ele. "O que significa que estou livre na próxima sexta-feira. Pode ser sexta?" Seu tom estava tão animado como sempre, observou Lacey, mas a atitude blasé dele ao cancelar seus planos juntos a magoou. Ele não parecia se importar com o fato de que talvez não tivessem um encontro romântico até o final de semana. Embora Lacey soubesse muito bem que ela não tinha planos na sexta-feira, ainda se ouviu dizendo: "Vou ter que checar minha agenda e te aviso". E, assim que as palavras saíram de seus lábios, uma nova emoção surgiu em seu estômago, misturando-se à decepção. Para surpresa de Lacey, a emoção era de alívio. Alívio por ela não poder ter um encontro romântico com Tom por uma semana? Ela não conseguia entender de onde vinha o alívio, e isso a fez se sentir subitamente culpada. "Claro", disse Tom, aparentemente sem notar. "Podemos deixar em aberto por enquanto e fazer algo especial da próxima vez, quando estivermos menos ocupados". Ele fez uma pausa aguardando a resposta dela e, como não veio, acrescentou: "Lacey?" Ela voltou ao momento. "Sim, certo. Parece bom". Tom se aproximou e apoiou os cotovelos no balcão, para que seus rostos ficassem nivelados. "Agora. Pergunta séria. Você tem algo para comer hoje à noite? Porque obviamente você estava esperando uma refeição saborosa e nutritiva. Tenho algumas tortas de carne que não vendi hoje, quer levar uma para casa?" Lacey riu e bateu no braço dele. "Não preciso de suas doações, muito obrigada! Vou te mostrar que eu sei cozinhar de verdade!" "Sério?" Tom provocou. "Sou conhecida por fazer um ou dois pratos muito bem", disse Lacey. "Risoto de cogumelos. Paella de frutos do mar". Ela vasculhou a memória para achar mais uma coisa a acrescentar, porque todo mundo sabe que é preciso pelo menos três itens para fazer uma lista! "Hum… hum…" Tom levantou as sobrancelhas. "E…?" "Macarrão com queijo!" Lacey exclamou. Tom riu com gosto. "É um repertório impressionante. No entanto, nunca vi nenhuma evidência para apoiar suas declarações". Ele tinha razão. Até agora, Tom havia feito todas as refeições para os dois. Isso fazia sentido. Ele adorava cozinhar e tinha as habilidades necessárias para fazê-lo. As habilidades culinárias de Lacey não iam muito além de perfurar o filme plástico de uma refeição para o micro-ondas. Ela cruzou os braços. "Na verdade, eu ainda não tive a chance", respondeu, usando o mesmo tom brincalhão e argumentativo de Tom, na esperança de esconder a irritação genuína que o comentário dele despertou nela. "O Excelentíssimo Chef de Confeitaria Estrela Michelin não confia em mim perto de um fogão". "Devo aceitar isso como uma oferta?" Tom perguntou, mexendo as sobrancelhas. Maldito orgulho, pensou Lacey. Ela havia caído como um patinho. Ótima forma de se enrolar. "Pode apostar", disse ela, fingindo confiança. Em seguida, estendeu a mão para ele apertar. "Desafio aceito". Tom olhou para a mão dela sem se mexer, torcendo os lábios para o lado. "Mas com uma condição". "Ah? E qual é?" "Tem que ser algo tradicional. Típico de Nova York". "Nesse caso, você acabou de tornar meu trabalho dez vezes mais fácil", exclamou Lacey. "Porque isso significa que eu vou fazer pizza e cheesecake". "Nada pode ser comprado pronto", acrescentou Tom. "Tudo tem que ser feito do zero. E sem receber nenhuma ajuda. Nada de pedir a massa a Paul". "Ah, por favor", disse Lacey, apontando para o saco de sal descartado no balcão. "Paul é a última pessoa que eu chamaria para me ajudar a trapacear". Tom riu. Lacey esticou sua mão estendida para mais perto dele. Ele assentiu, indicando que estava satisfeito por ela atender às condições, e então pegou a mão dela. Mas, em vez de apertá-la, ele lhe deu um pequeno puxão, aproximando-a e beijando-a sobre o balcão. "Vejo você amanhã", murmurou Lacey, com o beijo dele ainda ecoando em seus lábios. "Pela vitrine, quer dizer. A menos que você tenha tempo para ir ao leilão". "É claro que vou ao leilão", disse Tom. "Eu perdi o último. Preciso estar lá para apoiar você". Ela sorriu. "Ótimo". Lacey se virou e foi para a saída, deixando Tom com a bagunça em sua cozinha. Assim que a porta da confeitaria se fechou atrás dela, Lacey olhou para Chester. "Me meti em apuros", disse ela a seu cachorro perspicaz. "Realmente, você deveria ter me impedido. Puxado minha manga. Me cutucado com seu nariz. Qualquer coisa. Mas agora eu tenho que fazer pizza do zero. E um cheesecake! Droga". Ela arrastou os sapatos na calçada, fingindo frustração. "Vamos lá, teremos que fazer compras antes de ir para casa". Lacey virou na direção oposta de sua casa e caminhou apressadamente pela rua principal em direção ao mercado (ou loja da esquina, como Gina insistia em chamá-lo). Enquanto seguia, ela escreveu uma mensagem no grupo Garotas da FamíliaDoyle. Alguém sabe como fazer cheesecake? Certamente era o tipo de coisa que a mãe dela saberia fazer, certo? Não demorou muito e ela ouviu o celular emitir um som com a resposta, verificando quem havia respondido. Infelizmente, foi sua sarcástica irmã caçula, Naomi. Ninguém sabe, a irmã dela brincou. É por isso que todo mundo já compra pronto e evita o trabalho. Lacey respondeu rapidamente . Isso não ajuda, mana. A resposta de Naomi veio em velocidade extremamente rápida. Se você fizer perguntas estúpidas, espere respostas estúpidas. Lacey revirou os olhos e se apressou. Felizmente, quando ela chegou ao mercado, sua mãe respondeu com uma receita. É da Martha Stewart, ela escreveu. Você pode confiar nela. Confiar nela? Naomi rebateu. Ela não foi presa? Sim, a mãe delas respondeu. Mas isso não teve nada a ver com a receita de cheesecake. Touché, respondeu Naomi. Lacey riu. Mamãe realmente superou Naomi! Ela guardou o celular, amarrou a coleira de Chester ao redor do poste e seguiu para o interior do mercado, muito bem iluminado. Percorreu as prateleiras o mais rápido que pôde, enchendo sua cesta com tudo o que Martha Stewart disse que precisava, e então pegou um pacote de linguine pré-cozido, um pote de molho pronto (convenientemente localizado na geladeira ao lado), e um pouco de queijo parmesão ralado (localizado ao lado do molho), antes de finalmente pegar a garrafa de vinho sob a qual estava escrito: Vai muito bem com linguine! Não admira eu nunca ter realmente aprendido a cozinhar, Lacey pensou. Olha só como eles tornam tudo fácil. Ela foi até o caixa, pagou pelas mercadorias e depois saiu, pegando Chester na saída. Eles passaram por sua loja – ela notou que Tom estava exatamente onde ela o havia deixado – e pegaram o carro na rua lateral onde Lacey havia estacionado. Foi uma curta viagem até o Chalé do Penhasco, ao longo da orla marítima e depois ao longo do penhasco. Chester ficou em alerta no banco do passageiro ao seu lado e, quando o carro subiu a colina, o chalé apareceu. Uma sensação de prazer surgiu dentro de Lacey. No chalé, ela realmente se sentia em casa. E, depois da reunião de amanhã com Ivan, ela provavelmente estaria um passo mais perto de se tornar sua dona oficial. Naquele momento, ela notou o brilho de uma fogueira vindo da direção do chalé de Gina e decidiu passar direto pela sua casa e seguir pelo caminho esburacado de uma trilha até sua vizinha. Enquanto parava o carro, pôde ver a mulher de pé com suas galochas ao lado do fogo, ao qual estava adicionando folhagem. A fogueira estava muito bonita sob a luz daquele crepúsculo primaveril. Lacey tocou a buzina do carro e baixou o vidro. Gina se virou e acenou. "Oiê, Lacey. Você precisa queimar alguma coisa?" Lacey se inclinou pela janela sobre os cotovelos. "Não. Só queria saber se você precisa de alguma ajuda". "Você não tem um encontro com Tom hoje à noite?" Gina perguntou. "Eu tinha", Lacey disse a ela, sentindo aquela estranha mistura de decepção e alívio agitando seu estômago novamente. "Mas ele cancelou. Teve uma emergência na confeitaria". "Ah", disse Gina. Ela jogou outro galho de árvore na fogueira, levantando faíscas vermelhas, alaranjadas e douradas no ar. "Bem, aqui está tudo sob controle, obrigada. A menos que você tenha alguns marshmallows que queira assar?" "Droga, não, não tenho. Isso seria legal! E eu acabei de fazer compras no mercado!" Ela decidiu culpar Martha Stewart e sua receita de cheesecake de baunilha extremamente sensata pela falta de marshmallows. Lacey estava prestes a desejar boa noite a Gina e voltar com o carro pelo caminho que tinha vindo, quando sentiu Chester cutucando-a com o nariz. Ela se virou e olhou para ele. As sacolas que havia colocado no espaço para os pés dos passageiros se abriram e alguns dos itens haviam caído. "Isso é uma boa ideia…" disse Lacey. Ela olhou pela janela novamente. "Ei, Gina. Que tal jantarmos juntas? Eu tenho vinho e macarrão. E todos os ingredientes para fazer o autêntico cheesecake nova-iorquino de Martha Stewart, se ficarmos entediadas e precisarmos de uma atividade". Gina ficou animada. "Só o vinho já me convenceu!" ela exclamou. Lacey riu. Ela se abaixou para pegar as sacolas de compras e ganhou outra cutucada do nariz úmido de Chester. "O que é agora?" ela perguntou a ele. Ele inclinou a cabeça para o lado, seus tufos macios de sobrancelha voando para cima. "Ah. Entendi", disse Lacey. "Você está provando um argumento, não é, dizendo que deu tudo certo no final? Bem, vou te dar esse crédito". Ele choramingou. Ela riu e acariciou a cabeça dele. "Garoto esperto". Lacey saiu do carro, Chester veio saltando atrás, e seguiram até a casa de Gina, desviando das ovelhas e galinhas espalhadas pelo lugar. Elas entraram. "Então, o que aconteceu com Tom?" Gina perguntou enquanto caminhavam ao longo do corredor de teto baixo em direção a sua cozinha rústica. "Na verdade, foi Paul", explicou Lacey. "Ele misturou as farinhas ou algo assim". Elas entraram na cozinha bem iluminada e Lacey colocou as sacolas no balcão. "Já é hora dele despedir esse rapaz, Paul", disse Gina, estalando a língua. "Ele é um estagiário", disse Lacey. "É normal que cometa erros!" "Certo. Mas ele deveria aprender com eles. Quantas fornadas de massa ele arruinou até agora? E para impactar nos seus planos, realmente é a gota d’água". Lacey sorriu com a frase divertida de Gina. "Sinceramente, está tudo bem", disse ela, tirando todos os itens da sacola. "Eu sou uma mulher independente. Não preciso ver Tom todo dia". Gina pegou duas taças de vinho e serviu uma para cada, depois começaram a fazer o jantar. "Você não vai acreditar em quem entrou hoje na minha loja pouco antes da hora de fechar", disse Lacey, enquanto dava uma rápida mexida no macarrão, na panela de água fervente. As instruções diziam que não era necessário mexer durante os quatro minutos de cozimento, mas isso parecia preguiça demais, mesmo para Lacey! "Não foram os americanos, né?" Gina perguntou, em um tom de repugnância, enquanto colocava o molho de tomate no microondas por dois minutos, para aquecer. "Sim. Os americanos". Gina estremeceu. "Oh, céus. O que eles queriam? Deixe-me adivinhar, Daisy queria que Buck lhe comprasse uma joia muito cara?" Lacey despejou o macarrão em um escorredor e depois o dividiu entre duas tigelas. "Essa é a questão. Daisy realmente queria que Buck lhe comprasse algo. O sextante". "O sextante?" Gina perguntou, enquanto jogava o molho de tomate em cima do macarrão, sem nenhuma elegância. "Aquele instrumento naval? Para que uma mulher como Daisy ia querer um sextante?" "Não é? Foi exatamente o que eu pensei!" Lacey falou enquanto polvilhava raspas de queijo parmesão sobre o seu macarrão. "Talvez ela o tenha escolhido aleatoriamente", Gina refletiu, entregando a Lacey um dos dois garfos que havia pego da gaveta de talheres. "Ela foi muito específica sobre isso", continuou Lacey, levando a comida e o vinho para a mesa. "Ela queria comprá-lo e, é claro, eu disse que teria que ir ao leilão. Eu pensei que ela desistiria dele, mas não. Disse que estaria lá. Então agora eu tenho que aturar os dois novamente amanhã. Se ao menos eu tivesse guardado aquele negócio em vez de deixá-lo à vista pela vitrine durante o almoço!" Lacey ergueu os olhos quando Gina se sentou do lado oposto, e notou que sua vizinha subitamente ficou muito perturbada. Ela também não parecia ter nada a acrescentar ao que Lacey havia dito, o que era extremamente incomum para a mulher, normalmente muito falante. "O que foi?" perguntou Lacey. "O que há de errado?" "Bem, fui eu quem a convenceu de que fechar a loja para o almoço não faria mal", murmurou Gina. "Mas fez. Porque deu a Daisy a chance de ver o sextante! É minha culpa". Lacey riu. "Não seja boba. Vamos comer antes que esfrie e todo o nosso esforço seja desperdiçado". "Espere. Precisamos de mais uma coisa". Gina foi até seus vasos de ervas alinhados no parapeito da janela e pegou algumas folhas de um deles. "Manjericão fresco!" Ela colocou um raminho em cada uma das tigelas de macarrão desajeitado e grudento. "Et voilà!" Apesar de simples e barata, estava realmente uma refeição muito saborosa. Mas a maioria das refeições prontas são cheias de gordura e açúcar, por isso, tinha que estar! "Eu sou uma substituta decente o bastante para Tom?" Gina perguntou, enquanto comiam e bebiam vinho. "Tom quem?" Lacey brincou. "Ah, você acabou de me lembrar! Tom meio que me desafiou a cozinhar uma refeição para ele do zero. Algo típico de Nova York. Então, eu vou fazer cheesecake. Minha mãe me enviou uma receita de Martha Stewart. Quer me ajudar a fazer?" "Martha Stewart", Gina disse, balançando a cabeça. "Tenho uma receita muito melhor". Ela foi até o armário e começou a procurar alguma coisa. Então, pegou um livro de receitas surrado. "Este era o orgulho e a alegria de minha mãe", disse ela, colocando-o na mesa, em frente a Lacey. "Ela colecionou receitas por anos. Tenho recortes aqui que datam do período da guerra". "Incrível", exclamou Lacey. "Mas como é que você nunca aprendeu a cozinhar, se tinha uma especialista em casa?" "Porque", Gina disse, "eu estava muito ocupada ajudando meu pai a cultivar vegetais na nossa horta. Eu era a perfeita moleca. A queridinha do papai. Uma daquelas garotas que gostavam de sujar as mãos". "Bem, cozinhar certamente lhe permite isso", disse Lacey. "Você devia ter visto Tom mais cedo. Ele estava coberto de farinha de trigo da cabeça aos pés". Gina riu. "Eu quis dizer que gostava de ficar suja de lama! De brincar com insetos. Subir em árvores. Pescar. Cozinhar sempre pareceu muito feminino para o meu gosto". "É melhor não dizer isso a Tom", Lacey riu. Ela olhou para o livro de receitas. "Então você quer me ajudar a fazer o cheesecake ou não há minhocas suficientes para mantê-la interessada?" "Eu vou ajudar", disse Gina. "Podemos usar ovos frescos. Dafne e Dalila puseram esta manhã". Elas limparam a mesa e começaram a trabalhar no cheesecake, seguindo a receita da mãe de Gina em vez da de Martha. "A não ser pelos americanos, você está animada para o leilão de amanhã?" Gina perguntou, enquanto esmagava biscoitos em uma tigela com um espremedor de batatas. "Animada. Nervosa". Lacey encheu sua taça de vinho. "Principalmente nervosa. Eu me conheço, não vou dormir nada esta noite me preocupando com tudo". "Eu tenho uma ideia", disse Gina. "Quando terminarmos aqui, vamos dar uma volta com os cachorros à beira-mar. Nós podemos pegar a rota leste. Você ainda não foi lá, não é? Com o ar do oceano, você vai cansar e dormir como um bebê, pode apostar". "É uma boa ideia", concordou Lacey. Se ela fosse para casa agora, só iria se inquietar. Enquanto Lacey colocava o bagunçado cheesecake na geladeira para gelar, Gina correu até a despensa para buscar os dois casacos de chuva. Ainda fazia bastante frio à noite, principalmente à beira-mar, onde o vento era mais forte. O enorme casaco de pescador à prova d'água engoliu Lacey. Mas ela ficou feliz quando saíram de casa. A noite estava fresca e clara. Elas desceram os degraus do penhasco. A praia estava deserta e bastante escura. Era meio divertido estar aqui embaixo com a orla tão vazia, pensou Lacey. Parecia que elas eram as únicas pessoas no mundo. Elas foram em direção ao mar, depois viraram para seguir em direção ao leste, área que Lacey ainda não tinha tido a chance de conhecer. Era divertido explorar um lugar novo. Estar em uma cidade pequena como Wilfordshire às vezes parecia um pouco sufocante. "Ei, o que é isso?" Lacey perguntou, olhando para o mar, para o que parecia ser a silhueta de uma construção em uma ilha. "Ruínas medievais", disse Gina. "Na maré baixa, há um banco de areia que permite caminhar até elas. Definitivamente vale a pena dar uma olhada, se você não se incomodar em acordar tão cedo". "A que horas é a maré baixa?" perguntou Lacey. "Cinco da manhã". "Ai. Acho que é um pouco cedo para mim". "Você também pode chegar lá de barco, é claro", explicou Gina. "Se conhecer alguém que tem um. Mas se ficar presa lá, terá que chamar o barco dos salva-vidas voluntários, e aqueles rapazes não gostam de gastar tempo e energia com gente sem noção, grave o que estou dizendo! Eu já fiz isso antes e levei uma bronca. Felizmente, o meu dom para a conversa fiada fez com que todos estivessem rindo quando chegamos à praia, e fizemos as pazes". Chester começou a se esforçar para sair da coleira, como se tentasse chegar à ilha. "Eu acho que ele conhece o lugar", Lacey falou. "Talvez seus antigos donos o levassem até lá?" Gina sugeriu. Chester latiu, como que confirmando. Lacey se abaixou e bagunçou o pelo do cão. Fazia um tempo desde que ela realmente pensara nos antigos donos de Chester e em como deve ter sido perturbador para ele perdê-los tão de repente. "Que tal eu te levar lá um dia?" ela perguntou a ele. "Vou acordar cedo, só por você". Abanando o rabo animadamente, Chester inclinou a cabeça para trás e latiu para o céu. * Assim como havia previsto, Lacey lutou para dormir naquela noite. E olhe que o ar marinho deveria tê-la cansado. Sua mente estava turbulenta demais; desde a reunião com Ivan para a venda do Chalé do Penhasco até o leilão, havia muito em que pensar. E, apesar dela estar animada com o leilão, também estava nervosa. Não só porque era apenas o seu segundo leilão, mas por causa dos participantes indesejados com os quais ela teria que lidar: Buck e Daisy Stringer. Talvez eles não venham, ela pensou, enquanto olhava para as sombras no teto. Daisy provavelmente deve ter encontrado outra coisa para exigir que Buck compre para ela. Mas não, a mulher parecia ter a intenção de comprar especificamente o sextante. Era óbvio que tinha algum tipo de significado pessoal para ela. Eles estariam lá, Lacey tinha certeza disso, mesmo que fosse só por teimosia. Lacey ouviu o som da respiração de Chester e das ondas batendo contra os penhascos, deixando que os ritmos suaves a embalassem, levando-a a um estado de relaxamento. Ela começou a adormecer, quando seu celular de repente começou a vibrar alto no criado-mudo de madeira ao lado de sua cabeça. A estranha luz verde do aparelho encheu a sala com flashes. Ela geralmente tomava o cuidado de colocá-lo no modo noturno, mas obviamente tinha se esquecido naquela noite, pensando em tudo aquilo. Gemendo de cansaço, Lacey estendeu o braço e agarrou o celular. Ela o aproximou do rosto, apertando os olhos para ver quem havia decidido incomodá-la naquele horário desumano. A palavra mamãe piscou insistentemente na tela. É claro, pensou Lacey, suspirando. Sua mãe deve ter esquecido a regra de não ligar para ela depois das 18h. Horário de Nova York. Com um suspiro, Lacey atendeu. "Mamãe? Está tudo bem?" Do outro lado da linha, houve um momento de silêncio. "Por que você sempre atende minhas ligações assim? Por que tem que haver algo errado para eu ligar para minha filha?" Lacey revirou os olhos e afundou no travesseiro. "Porque são duas da manhã no Reino Unido agora e você só me liga quando está em pânico com alguma coisa. Então? O que foi?" O silêncio que se seguiu foi confirmação suficiente para Lacey de que ela havia chegado ao xis da questão. "Mãe?" ela insistiu. "Eu acabei de voltar da casa de David…" sua mãe começou. "O quê?!" Lacey exclamou. "Por quê?" "Fui conhecer Eda". O peito de Lacey apertou. Ela estava brincando quando sugeriu que David, Eda e sua mãe poderiam estreitar os laços enquanto faziam as unhas. Mas, pelo andar da carruagem, os três realmente estavam passando tempo juntos! Por que uma mãe gostaria de manter a amizade com o ex-marido de sua filha estava além da capacidade de compreensão de Lacey. Aquilo era um absurdo!" "E?" Lacey falou entredentes. "Como ela é?" "Ela me pareceu uma pessoa legal", disse a mãe". Mas não é sobre isso que quero falar. David mencionou a pensão alimentícia…" Lacey não conseguiu se conter e zombou da situação. "David envolveu você nisso? Ele pediu para você me ligar sobre o dinheiro?" Ela não precisava ouvir a resposta de sua mãe porque era óbvio e, por isso, respondeu sua própria pergunta. "Claro que sim. Porque a única coisa com a qual David se importa é com dinheiro. Ah, e encontrar alguém disposto a incubar seus filhos". Конец ознакомительного фрагмента. Текст предоставлен ООО «ЛитРес». Прочитайте эту книгу целиком, купив полную легальную версию (https://www.litres.ru/pages/biblio_book/?art=63590756) на ЛитРес. Безопасно оплатить книгу можно банковской картой Visa, MasterCard, Maestro, со счета мобильного телефона, с платежного терминала, в салоне МТС или Связной, через PayPal, WebMoney, Яндекс.Деньги, QIWI Кошелек, бонусными картами или другим удобным Вам способом.